20 de Novembro de 2009


A minha crónica sobre a antologia Portuguesia

pode ser lida também aqui.

Obrigado pelo tempo que lhe possam dedicar.

17 de Novembro de 2009

É hoje já a apresentação do livro de Victor de Oliveira Jorge.
Carregue na imagem para mais pormenores.

12 de Novembro de 2009

SUGESTÃO

Continuando o trabalho de arquivo em www.ruyventura.blogspot.com já estão disponíveis nesta página artigos ou referências de Catarina Nunes de Almeida, Eberhard Geisler, José do Carmo Francisco, Manuel G. Simões e José Vieira sobre alguns livros ou poemas que venho publicando. Desde já agradeço a sua leitura.

CUMBREÑO EM LISBOA

Ocorreu ontem, na sede do Instituto Cervantes em Lisboa, o lançamento de Teorias da Ordem, do poeta espanhol José María Cumbreño, obra editada pelas edições Sempre-em-Pé, com tradução minha para a língua portuguesa. Foram momentos de grande interesse, compartilhados com a apresentação de um livro de Casimiro de Brito, a partir de intervenção de Ángel Guinda.
Entre as palavras que proferi, já como leitor da antologia, talvez sejam uma síntese aceitável aquelas com que terminei:

"Nascido em 1972 na cidade de Cáceres, onde ainda hoje reside, com textos espalhados por várias revistas e poesia (em verso ou em prosa) publicada em livros como Las ciudades de la llanura (2000), Árboles sin sombra (2003), De los espacios cerrados (2006), Estrategias y métodos para la composición de rompecabezas (2008) e Diccionario de dudas (2009) ou na antologia Teorias da Ordem (2009), José María Cumbreño é uma das vozes que mais me interessam na poesia espanhola dos nossos dias. Feita de fragmentos de seres, de espaços e de memórias, que se combinam de forma por vezes inusitada, sem esconder o seu carácter de estilhaços e de escombros provenientes de uma catástrofe verbal, logo existencial, a sua poesia interpela-nos e inquieta-nos com uma ironia discreta, matizada pela nostalgia de quem vê o mundo por um espelho retrovisor. Porque, num mundo como o nosso, é preciso ter a coragem de “Beber de um copo partido. / Acalmar a sede, mesmo com o risco de conhecer a ferida”. Porque, mais tarde ou mais cedo, os estilhaços provocados pela catástrofe chegarão ao coração."


[Da esquerda para a direita: RV, José María Cumbreño, Casimiro de Brito, Ángel Guinda e José Carlos Marques.]

9 de Novembro de 2009

O poema como aventura etnográfica

Eduardo Jorge

Desde os remotos tempos míticos até a contemporaneidade, o poema está entrecruzado por diversas travessias. Travessias estas repletas de aventura, repletas de saber. Passando por diversas épocas e civilizações, o poema, ao seu modo, sobrevive e se transforma, garantindo, inclusive, um estatuto de documento na sua dimensão mais material. Daí um fato questionável do poema ser lido como objeto não apenas em um contexto após as vanguardas históricas, tendo em vista que esta já seria sua condição de existência. Se o poema nos fala de um lugar distante, o mais contemporâneo dos poetas ainda guarda uma dimensão ritual e performática com a palavra. O poema, mesmo inserido em um ambiente digital, guarda o ritmo, o canto e chama a atenção para outros usos da palavra, deslocando-a de sua invisibilidade no mundo informacional, que traz em seu conteúdo o sentido da mensagem. Ainda foi e é, a partir do poema, que diversos escritores, críticos e tradutores realizaram mapeamentos de diversas estirpes, pondo em prática um ofício de cartógrafo, localizando e deslocando diversas poéticas ao redor do mundo. Poética aqui tomada em seu étimo, isto é, seu fazer. Alguns destes fazeres podem ser conferidos em diversas antologias, reunião de escritores ou poetas agrupados por um traço geracional, comunitário ou afirmação em alguma minoria étnica. Frente a isto, um projeto parece interessante para pensar esta questão, sobretudo geracional das antologias. E neste projeto um subtítulo a princípio inquieta: “contraantologia”. Esta “contraantologia”, grafada assim mesmo, chama-se Portuguesia. Organizada pelo poeta e editor Wilmar Silva, Portuguesia parece questionar uma positividade de antologias que operam em um recorte que marca uma linearidade da historiografia literária. Neste aspecto, Portuguesia parece ser um objeto atravessado por uma prática etnográfica, na qual a viagem foi matéria-prima para o organizador que mapeou estas poéticas in loco. O livro comporta 101 poetas agrupados no fato de escreverem em língua portuguesa, em torno do Brasil (o recorte do projeto toca alguns poetas de Minas Gerais), Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Goa, Macau e Galícia.

Choque interno
No livro existe outra inquietação, afinal o poema fala mais alto. Os poemas de cada autor estão distribuídos de maneira randômica, praticamente aleatória, mas com o objetivo de concentrar uma leitura no poema, onde no rodapé da página encontra-se um pequeno código que dará a localização do autor em um índice remissivo contido no final da publicação. Encartado no livro, um DVD faz o papel inverso, com o registro das leituras dos participantes do Portuguesia apresentando os poetas por seus respectivos nomes e países. A presença de um DVD com tais registros de leitura aponta para um passo do projeto que reforça seu trabalho etnográfico com a dicção de cada poeta, isto é, saindo da dimensão da palavra impressa que este choque interno da própria língua portuguesa torna-se evidente. Portanto, o traço justificável que une os poetas neste livro – a língua portuguesa – é frágil e a qualquer momento pode ganhar outros contornos. é com esta “antropologia de uma poética” que Wilmar Silva parece ter iniciado um projeto que possivelmente se desdobrará como acontece com os primeiros resultados de uma expedição etnográfica, que geram índices para novas buscas, novas viagens. Nesta diversidade na qual se insere Portuguesia, o poema traça o seu caminho, porque os desafios para articular novos projetos que desmontem o que já está dado como forma fixa armam novas questões estéticas e políticas para se pensar o fenômeno literário.

Eduardo Jorge é mestre em estudos literários pela UFMG. Organizou o livro de ensaios Areia, animal, arquivo e alcachofra.
fonte: Estado de Minas 07 novembro 2009 caderno Pensar jornal Estado de Minas Belo Horizonte MG Brasil

6 de Novembro de 2009

JOSÉ Mª CUMBREÑO
(entrevista publicada aqui)

El poema como fracaso


Ángel Gómez Espada

José Mª Cumbreño (Cáceres, 1972) es uno de los poetas jóvenes de voz más personal en el actual panorama literario extremeño. Hasta ahora ha publicado Las ciudades de la llanura (Editora Regional, 2000), Árbol sin sombra (Algaida, 2003), Estrategias y métodos para la composición de rompecabezas (El Bardo, 2008), Diccionario de dudas (Calambur, 2009), así como el libro de relatos De los espacios cerrados (Fundación José Manuel Lara, 2006) y la antología bilingüe española-portuguesa Teorias da ordem (Ediçoes Sempre-em-Pé, 2008) [a lançar no próximo dia 11 de Novembro no Instituto Cervantes de Lisboa, pelas 18.15]. Poemas suyos han aparecido en revistas como Turia, El extramundi, Reloj de arena, Müsu, Diversos o Espacio / Espaço Escrito.
En la actualidad dirige la colección Litteratos de la editorial Littera libros y tiene en prensa la segunda edición (revisada) de Las ciudades de la llanura (Ediciones Trashumantes) y el poemario Breve biografía apócrifa de Walt Disney (Algaida)..
Viejo amigo de esta revista nuestra, hemos tenido la oportunidad de hablar con él de sus últimos logros, tanto en su faceta de editor como en la de excelente poeta.

—EL COLOQUIO DE LOS PERROS: ¿En estos tiempos que corren, meterse a editor de poesía se puede considerar un deporte extremo?
—JOSÉ MARÍA CUMBREÑO: Seguramente. Sobre todo si lo que se pretende es vivir de ello. En nuestro caso, a lo único a lo que aspiramos es a publicar libros que creemos necesarios. Por tanto, practicamos el equilibrismo con red. Vamos, que no vivimos de esto, lo que nos permite apostar por autores en función únicamente de su talento. Sin depender de premios ni de otras servidumbres. Los casos de Luis Arturo Guichard, Omar Pimienta, Elena Román o David Yáñez (escritores magníficos de los que oiremos hablar en el futuro) creo que son el ejemplo.
—ECP: Pero entonces, usted es de los que opinan que la poesía vive un momento de salud envidiable.
—JMC: Sí y no. Sí porque nunca ha habido tanta gente escribiendo poemas. No porque encontrar en medio de esa legión a artistas de verdad ya es muchísimo más complicado. En literatura actúa un ingrediente muy peligroso: la vanidad. Y es la vanidad (el hecho de ver el nombre de uno en la portada de un libro) la que empuja a la mayoría a no ser críticos con la obra propia. No parece saludable que el cajón de un escritor se encuentre vacío.
—ECP: ¿Convertir un poema en un rompecabezas es reconocer que se ha fallado con ese poema? O, muy al contrario, ¿es un signo de esa búsqueda de la esencialidad que alguna vez se le ha argumentado a sus poemarios?
—JMC: Todo poema es la constatación de un fracaso. La idea no es mía, por supuesto, pero me parece que describe con precisión lo que cualquier escritor debería sentir al terminar una obra. Precisamente será esa insatisfacción la que lo empujará a iniciar el poema siguiente.
—ECP: En una poética, usted dice que un poema es una casa que se construye con ausencias y presencias. ¿También con dudas, podríamos añadir ahora?
—JMC: Con dudas, recortes, retales, caminos sólo de ida, verdades a medias y mentiras piadosas. Es la asimetría lo que me parece que define la naturaleza humana.
—ECP: Esa metáfora de las puertas como vía por donde entra el poema y por donde comienza la búsqueda es una constante en sus poemarios, creo entender. Entonces, ¿su poesía se nutre más de las puertas que ha ido cerrando o de las puertas que gusta de abrir para observar?
—JMC: En cualquier caso, de huecos por los que pasar o colarse. Las puertas (incluso las que se tapian) son seres misteriosos que cambian a quien los atraviesa.
—ECP: Usted ha afirmado que un poema ha de aspirar a ser pura tensión. ¿Eso es lo que José Mª Cumbreño le pide al poema, por tanto?
—JMC: Es que la poesía debe tensar el idioma hasta llevarlo a decir cosas que habitualmente no dice.
—ECP: Un árbol sin sombra, un diccionario de dudas, una estrategia para componer un rompecabezas… ¿Es así como ve José Mª Cumbreño el poema antes de llevarlo al papel?
—JMC: Supongo que siento debilidad por lo imperfecto.
—ECP: De sus cuentos, tan vinculados a su forma de entender el poema y la poesía dice que son espacios cerrados. ¿No hay, por tanto, en el cuento posibilidad de puertas?
—JMC: Al contrario. Las cárceles se construyeron para huir de ellas. Como los cuentos a los que se refiere. Porque se supone que los textos que componen De los espacios cerrados son cuentos, aunque yo no lo tengo tan claro. La narrativa breve y la poesía comparten su debilidad por el escapismo.
—ECP: ¿Cómo se siente al ver su obra trasvasada a una lengua tan amiga de los extremeños como es el portugués?
—JMC: Como un privilegiado. La consideración que en Portugal se tiene de la poesía no tiene nada que ver con lo que ocurre en España. Pensemos que un autor como Peixoto ha vendido de su último poemario nada menos que 12.000 ejemplares. Eso en nuestro país no lo logra ni el poeta más consagrado [...] A ello hay que unir que la traducción de Teorias da ordem la ha realizado uno de los mejores poetas portugueses, Ruy Ventura, quien estoy seguro de que ha mejorado el original.
—ECP: Con la desaparición, triste para todos, de Ángel Campos Pámpano, ¿ha perdido más la literatura extremeña o la literatura portuguesa?
—JMC: La ibérica.
—ECP: ¿Qué deberían aprender los jóvenes poetas extremeños —por extensión pongamos también a los españoles— de la poesía hecha hoy en Portugal?
—JMC: Su curiosidad por buscar nuevos caminos para la poesía.
—ECP: ¿Qué poemarios de los que han aparecido en los tres últimos años le hubiera gustado incluir en su colección Litteratos?
—JMC: Más que libros en concreto, citaré algunos autores cuyos nombres me encantaría ver en el catálogo Litteratos. Porque sería magnífico contar con algún título de escritores como Déborah Vúkusic, Benito del Pliego, Víctor M. Díez, Susana Medina o Miriam Reyes.

4 de Novembro de 2009

Mário Crespo
in Jornal de Notícias

Os intocáveis

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

2 de Novembro de 2009


NOVO LIVRO
DE PRISCA AGUSTONI
A Editora Vozes convida
para o lançamento do livro de poesia A Recusa, de Prisca Agustoni,
dia 04 DE NOVEMBRO DE 2009 Quarta-Feira 21 HORAS
CASA DA AMÉRICA LATINA
A Casa da América Latina fica na Av. 24 de Julho, 118 B, em Lisboa.

29 de Outubro de 2009


CONVITE

Lançamento de livros
de José María Cumbreño
e Casimiro de Brito


Quarta-feira, 11 de Novembro, às 18:15, no auditório do Instituto Cervantes de Lisboa (Rua de Santa Marta, 43), será feita uma apresentação de dois livros de poesia bilingues.

Um deles, editado pelas Edições Sempre-em-Pé, intitula-se TEORIAS DA ORDEM, sendo o autor José María Cumbreño, que reside em Cáceres, Extremadura. A apresentação será feita por Ruy Ventura, que traduziu para português o original castelhano.

Será igualmente apresentado pelo Poeta espanhol Ángel Guinda um livro de poemas de Casimiro de Brito, também em versão bilingue, em que o texto original português é acompanhado de tradução em espanhol.

Estarão igualmente presentes os autores, José Maria Cumbreño e Casimiro de Brito.
A sessão é organizada por Edições Sempre-em-Pé e pelo Instituto Cervantes de Lisboa.
Agradecemos o seu interesse e a sua presença, bem como a eventual divulgação.


Edições Sempre-em-Pé

http://www.sempreempe.pt/

26 de Outubro de 2009


ÁLVARO VALVERDE
(entrevista publicada no jornal "Hoy")

«Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje de paisajes»

EL PERFIL DE LA FRONTERA
Álvaro Valverde (Plasencia, 1959) da clases en un colegio de su ciudad natal. Ha sido coordinador del Plan Regional de Fomento de la Lectura y ha dirigido la Editora Regional de Extremadura. Fue presidente de la Asociación de Escritores Extremeños y comisario del expotren Marca Extremadura. Es autor de libros de poemas como Una oculta razón (Premio Loewe), A debida distancia, Ensayando círculos, Mecánica terrestre y Desde fuera, de las novelas Las murallas del mundo y Alguien que no existe y de los libros de ensayo literario El lector invisible y Lejos de aquí. Su relación con Portugal viene de antiguo. Fue cofundador de la revista hispano-lusa, en dos lenguas, Espacio/Espaço escrito, a su paso por la Editora Regional abrió una línea, Letras Portuguesas, para dar a conocer libros publicados originalmente en el país vecino. Reconoce haber leído con fervor la poesía portuguesa contemporánea, gracias a las excelentes traducciones, entre otras, de su amigo Ángel Campos Pámpano.


- ¿Qué significa para usted Portugal?
-Quizá porque no lo conozco como debiera, por no haber nacido o vivir allí, un país ideal. Quiero decir que para uno es algo más imaginario que real, más mítico que otra cosa. Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje. Un paisaje, cabe precisar, de paisajes. Una suma de, pongo por caso, el Tras-Os-Montes de Torga y el Alentejo de Andrade; la Lisboa de Cesário Verde o Pessoa y el Algarve de Teresa Rita Lopes, etc. A estas alturas de mi vida no sé si quiero conocer el país concreto o si prefiero quedarme a vivir en el entrevisto a través de unos cuantos viajes y, por encima de todo, en el leído. Por ejemplo, acabo de recorrer, de la mano de António Cândido Franco, los lugares de Pascoaes, en el «noroeste galaico de la Península Ibérica», en torno a la quinta familiar de São João de Gãtao, Amarante y Travassos. En lo esencial, me gusta ver a Portugal como una Extremadura extensa y, lo que no es poco, con mar. Además, y por aquello de la saudade, uno diría que tiene un carácter portugués. Ruy Ventura ha traducido unos poemas míos que bien podrían haber sido escritos en esa lengua: la de la melancolía.
- ¿Qué ha sido lo mejor y lo peor de su contacto con Portugal?
- Lo mejor, todo. No tengo ningún mal recuerdo de esos pocos pero intensos viajes y, menos aún, de lo visto desde fuera o lo leído. No he dejado de ir y venir, primero cruzando la frontera y luego ya sin ella. Por cierto, nunca me pareció menos necesaria. Según creo, el espíritu rayano no sólo afecta a las localidades limítrofes sino a Extremadura entera. Al menos de un tiempo a esta parte y para no pocos extremeños. Lo peor de Portugal, casi para cualquiera que no sea ciudadano portugués, es un conjunto de tópicos que el tiempo se ha encargado de desgastar. Esa hora menos es una bonita metáfora.
-¿Cuál cree que debe ser el papel de Extremadura como región fronteriza?
-El que ha venido jugando. El normal en una relación de favorable vecindad. Como es lógico, a uno le interesa, ante todo, el papel cultural. Espacio/Espaço escrito se encargó de definirlo hace muchos años: dar a conocer lo de aquí allá y viceversa. Respetando, por encima de todo, las lenguas respectivas, que es tanto como decir los correspondientes territorios artísticos, musicales y literarios. De igual a igual. Al fondo, por qué no, puede subyacer un viejo anhelo que sigue siendo tabú: el del iberismo. Pero esa es otra utópica historia.
- ¿Cuáles son sus principales proyectos y retos, de cara al futuro, en su relación con Portugal?
-Ya decía que quizá uno debería conocer Portugal mejor, viajando más por el país. Hay zonas que no conozco; a veces, muy cercanas. No me cabe duda de que seguiré leyendo a los poetas portugueses con la misma pasión de siempre. Por suerte, cuento para ello con excelentes traductores, a pesar de pérdidas tan dolorosas como las de Campos y Merlino.
REVISTA TRIPLOV
DE ARTES, RELIGIÕES E CIÊNCIAS
número 02
fortaleza, brasil - britiande, portugal
novembro de 2009
vasos comunicantes
Editorial Maria Estela Guedes
1. Cripturas Carlos M. Luís
2. MONDO - Literatura e Democracia
Emanuel Dimas Pimenta
3. Cruci-Fiction Carlos M. Acabado
4. Dois vivos e um morto (vivo) Nicolau Saião
5. Caligrafias Utopikus Cirkus
6. Gladys Mendía y la silenciosa desesperación del sueño Valeria Zurano
7. Sombras raptadas - Imagens poéticas de Floriano Martins Nicolau Saião
8. Panorama das livrarias em todo o Brasil Mileide Flores
9. Quem não gosta de J.G. de Araújo Jorge? Cunha de Leiradella
10. Liber Mundi Paulo Brito e Abreu
11. Fabio Amaya: vida en la mancha Sean Funes
12. Esboço de aproximação: obras portuguesas e africanas da hora Maria Lúcia dal Farra
13. Teatro Imposible: La poesía de Floriano Martins David Cortés Cabán
14. La poética de la exactitud de Marcel Kemadjou Gladys Mendía
salão do folhetim
1. A arte curativa dos celtas Maria do Sameiro Barroso Capítulo I Os povos celtas
2. O mundo do Pai Raïssa CavalcantiI - Prometeu, o pai dos homens
3. Histórias brasileiras de arte e artistas Jacob Klintowitz I - Naquela noite o Bardi dormiu tarde obras em processo4. Alta fidelidade Maria Estela GuedesParte I Uma festa punk

Maria Estela Guedes
Rua Direita, 1315100-344 Britiande Portugal
Floriano Martins
Caixa Postal 52817 - Ag. Aldeota
Fortaleza CE 60150-970 BRASIL

21 de Outubro de 2009

NO VELÓRIO DE SARAMAGO

Saramago disse o que disse. Já todos conhecemos o génio comercial desse "mau escritor talentoso" (como o definiu um europeu galardoado com o Nobel da Literatura), geralmente associado ao disparate. Muito se tem comentado. Ateus, católicos, judeus, protestantes e outros mais indefinidos vêm dizendo de sua justiça. Uns bem e outros mal, uns com demasiada fartura, outros com infeliz magreza.
Quanto a mim - perdoem-me... -, não quero gastar velas com ruins defuntos. Sinceramente, não vale a pena comentar as palavras de alguém com tão pouca autoridade moral e ética.

16 de Outubro de 2009


VIRNA TEIXEIRA



Detox


Enrolou os ferimentos em gaze. Feridas cicatrizam com o tempo. Ainda que restem entalhes. Memórias desenhadas nos ossos, adornos.

Tirou fotografias como registros. Meses após o trauma. Sem sangue nas conjuntivas.

Deixou para trás a câmera. Travesseiro, lençol branco, a água morna do banho. Inverno, lembrança noturna.

A transformação do rosto. Quando retirou as ataduras, as suturas.

No dia da partida, árvores. De perfil no trem, a luz sobre os cabelos, castanhos.



Titan


contava histórias
nos desenhos
da pele


mensageiro do submundo
mercúrio


um vulto
de mãos velozes
na poeira lunar


em trânsito
visões onde


se escondeu
das crateras
sulcos - mofados


na outra
superfície


Virna Teixeira nasceu em 1972 na cidade de Fortaleza, mas vive desde há vários anos em São Paulo (Brasil). Os dois poemas publicados são retirados do seu livro Trânsitos, recentemente publicado na Lumme Editor. Gostei da sua maneira de escrever logo na primeira leitura, acontecida numa antologia da nova poesia brasileira publicada entre nós. Da maneira como lida com uma linguagem elíptica, criadora de segredos e de um mundo suspenso, prestes a acontecer ou ainda acontecendo. Do "quase", do não-dito ou por-dizer. Corpos, os poemas não se abrem; deixam que sejamos nós a abri-los lentamente. Ou permitem a construção de uma relação interactiva, sempre inacabada e, por isso, incessante.

9 de Outubro de 2009


Um comentário de João Miguel Henriques sobre Chave de ignição pode ser lido aqui. Obrigado pela vossa leitura!

7 de Outubro de 2009


PORTUGUESIA
– AO SERVIÇO DO VERBO


Não é com ingenuidade que se coloca num volume com cerca de 500 páginas o subtítulo “Contraantologia”. Nem é com inocência que um dos primeiros poemas incluídos nesse tomo afirma que “ou se gosta / ou não se gosta”, concluindo – antes dum peremptório “eu” – ser “impossível determinar o conteúdo deste livro” e acabando por sugerir: “podes chamar-lhe poesia, podes chamar-lhe nevoeiro”. Os ágrafos – a quem este trabalho monumental do poeta mineiro Wilmar Silva é dedicado – terão certamente uma palavra a dizer, agentes de um trabalho de dissolução da autoria, que (num mais ou menos longo e mais ou menos complexo processo de produtransmissão) conduziu sempre ao desaparecimento da paternidade/maternidade do texto e ao seu anonimato. Também não será inconsciente a colocação na capa do primeiro volume da Portuguesia uma reminiscência do primeiro símbolo nacional dos falantes de língua portuguesa – cruz azul sobre prata –, a lembrar talvez os propósitos deste projecto: descer às raízes da língua e da sua palavra para aí descobrir a autenticidade poética de um vasto mundo, transversal a vários continentes.

*

Afirmar que uma antologia é o seu contrário exige resultados consequentes. Contrariar hábitos instalados – quase nunca justificados e nem sempre justificáveis – obriga a uma responsabilidade acrescida.
Convenhamos. Há antologias de poemas e há antologias de poetas. Às primeiras interessa a palavra, servida estética e/ou filosoficamente – os poemas, tornados quase anónimos, neles buscando e apresentando valores intrínsecos. Nas segundas, são os autores que determinam tudo ou quase tudo – mais como ícones do que como índices, para utilizar os termos felizes de E. M. Melo e Castro –, enquanto figuras históricas, localizadas no espaço e/ou no tempo, rodeadas ou não de notoriedade pública. São olhares completamente diferentes sobre o texto: num caso, interessa a Poesia; no outro, a Literatura, a sua História e/ou a sua Sociologia. As primeiras (independentemente do seu nível de conseguimento estético e da capacidade de organização do antologiador) serão sempre obras de arte, na sua composição entrelaçada, entrançada. As segundas só terão interesse enquanto objectos de estudo histórico, quando a elas preside um desejo de registo, de homenagem ou de afirmação, a vontade recuperar uma memória perdida ou o propósito de analisar o tratamento dado a um determinado tema num tempo mais ou menos alargado; a consideração artística da antologia dificilmente terá em conta o livro inteiro, mas cada um dos poemas, enquanto objecto de Arte individual.
Wilmar Silva, ao organizar a sua Portuguesia, escolheu – quanto a mim – o melhor caminho. Deixando para o final do livro a indicação da autoria dos poemas irmanados ao longo de mais de quatro centenas de páginas, colocou-se ao serviço da palavra – logo, da Poesia – transformando o seu trabalho numa obra de Arte que nos obriga a uma aproximação global da sequência, seja qual for a nossa opinião sobre cada um dos textos escolhidos. Colocados como estão, os 484 poemas apresentam mesmo uma linha que tem tanto de narrativa quanto de ensaio – a requerer uma leitura múltipla, unificada e unificante.
Esta “contraantologia” corresponde, portanto, a uma abordagem conceptual da poesia que se faz hoje em Portugal, no Brasil (Minas Gerais), em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Valorizando a palavra, opõe-se à valorização do autor enquanto ícone de fama e de notoriedade, quantas vezes sem capacidade fazedora correspondente, não conseguindo sair da mera produção epigonal, inofensiva.

*

Um livro como este tem a vantagem da surpresa, se nos deixarmos levar pela proposta do seu edificador. O jogo estruturado por Wilmar Silva não facilita a identificação do autor do poema lido, embora a permita. É essa organização que, no entanto, valoriza a obra. Deslumbramo-nos com poemas de autores que desconhecíamos, desgostamo-nos com textos de poetas estimados, confirmamos adesões ou exclusões, percebemos quanto trabalhou o poeta de Yguarani para encontrar na produção de um determinado nome algo que não fosse indigno.

*

Ao ler uma e outra vez este grosso volume – acompanhado por um dvd em que os poemas surgem ditos pelos seus autores empíricos – tentei não falsear a proposta desta obra de Arte. Fui lendo e apontando os códigos alfanuméricos que ladeiam cada poema, para no final estabelecer a minha lista de preferências – não de poetas, mas de poemas. Não me custa afirmar que li com muito gosto os textos de Adolfo Maurício Pereira, Adriano Menezes, Alexandre Nave, Ana B., Ana Viana, André Sebastião, Arménio Vieira, Daniel Bilac, E. M. Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Fabrício Marques, Fernando Aguiar, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Guido Bilharinho, Iacyr Anderson Freitas, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Joaquim Palmeira, Jorge Melícias, José Luís Peixoto, José Rui Teixeira, Luiz Edmundo Alves, Márcio Almeida, Márcio Catunda, Milton César Pontes, Narciso Durães, Nuno Rebocho, Pedro Mexia, Prisca Agustoni, Rui Costa, Rui Lage, Tânia Alice, Valter Hugo Mãe, Wagner Moreira – entre outros que não menciono aqui para não alongar a lista.
Nuns casos confirmei preferências antigas; noutros, surpreendi-me a apreciar poemas de autores cuja obra pouco considero; especialmente saborosas foram as descobertas de poéticas completamente desconhecidas, inclusive de autores residentes dentro do rectângulo ibérico que é Portugal.

*

Há exclusões “lamentáveis” – como diria um crítico sem boas intenções ou um poeta despeitado? Ausências, sim. Exclusões, não, muito menos “lamentáveis”. Wilmar Silva pretende editar outros volumes da sua Portuguesia em que muitos ausentes se farão presentes, numa demanda que lhe ocupará a vida inteira – conforme confidenciou no encontro ocorrido em Julho passado, no Centro de Estudos Camilianos, em Seide. Quanta gente precisa de cartografar no oceano da poesia escrita em língua portuguesa! O esforço valerá a pena, certos estando de que continuará a contrantologiar, isto é, a valorizar os poemas – porque a Poesia se faz com eles, como afirmou Ruy Belo –, relegando os poetas para o lugar discreto que lhes compete.


NOTA: Portuguesia é editada pela Anome Livros, sediada em Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil). Página: www.anomelivros.com.br Endereço electrónico: anomelivros@anomelivros.com.br


Publicado aqui:
http://www.triplov.com/poesia/ruy_ventura/2009/portuguesia.htm a 2/10/2009


A revista Notícias Sábado, do Diário de Notícias, publicou no passado fim-de-semana uma recensão de Maria Augusta Silva sobre o meu mais recente livro de poemas, Chave de ignição. Está disponível também aqui. Na minha página pessoal pode também ser lido a nota introdutória desse livro, assinada por Gonçalo M. Tavares.

2 de Outubro de 2009


Revista Confraria chega a Portugal


Periódico binacional oferece um amplo e irreverente panorama da arte, literatura e reflexão crítica contemporâneas.
Após quatro anos de contribuição para a literatura e crítica de língua portuguesa, com um formato online de prestígio internacional e mais de cinco milhões de acessos, a Revista Confraria converte-se numa edição impressa bimestral, editada simultaneamente no Rio de Janeiro e em Lisboa e com contribuições regulares de autores brasileiros e portugueses.

Após o lançamento no Brasil no passado dia 14 de Setembro, o número inaugural da Confraria chega finalmente a Portugal, numa distribuição que procurará chegar a número crescente de bancas e livrarias. Para além de dossiês sobre vanguardas internacionais, perfis de autores menos conhecidos e entrevistas, a revista oferece também textos críticos, filosóficos, contos e poesia, sendo cada edição ilustrada por um artista plástico convidado. Adicionalmente, a revista conta com um conjunto de colunistas fixos de importante projecção, entre eles Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Gonçalo M. Tavares, Carlos Felipe Moisés, Clóvis Bulcão e valter hugo mãe. Neste primeiro número o leitor pode encontrar, entre outras pérolas, material inédito de Arnaldo Antunes, Gonzalo Rojas, Maria do Rosário Pedreira, Octávio Paz, Raimundo Carrero e E.M. de Melo e Castro.Em Portugal, a Revista Confraria é coordenada por João Miguel Henriques (para qualquer contacto editorial ou pedido de encomenda escrever para: joao@confrariadovento.com).

O primeiro número encontra-se já à venda nas seguintes livrarias de Lisboa (com a certeza de que muito em breve estará também disponível nas cidades do Porto e Coimbra): Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa) Trama (R. São Filipe Nery) Letra Livre (Calçada do Combro) Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)

1 de Outubro de 2009

CONVERSA COM

FERNANDO RODRIGUES DE ALMEIDA



“Na nossa sociedade ser ‘semita’ é mau, e por isso se nega a importância que alguns povos semitas, particularmente os fenícios, tiveram para a vida na antiguidade”, afirma o investigador.


Fernando Rodrigues de Almeida (n. 1960) - fundador da Quercus, escritor e investigador - acaba de publicar um livro que merece toda a nossa atenção. Intitula-se O Outro Lado da História e saiu com a chancela da Câmara Municipal de Odemira, vila onde desenvolve actividade docente na Escola Secundária local. Embora um olhar comodista procure arrumar a sua obra no campo das monografias com interesse meramente local, o facto indesmentível é que o seu estudo tem um enorme interesse para o entendimento das raízes mais remotas da cultura portuguesa, radicadas numa herança fenícia / cartaginesa, que foi sendo ocultada a partir do domínio político do Império Romano, o qual teve como principal opositor na Península Ibérica e no Norte de África precisamente o poder de Cartago. Traz-nos ainda uma sólida leitura da chamada “Escrita do Sudoeste”, que teimosamente alguns investigadores e divulgadores continuam a apresentar como indecifrável. A investigação de Fernando Almeida não dispensa ainda um olhar sobre alguma toponímia e documentação ligada ao litoral alentejano, provando quanto uma visão atenta da nomeação do espaço não consegue desviar-se do encontro com fósseis do falar semita das camadas populares do nosso país.
Resolvemos conversar um pouco com autor a propósito dessa edição. Aqui ficam as respostas de um homem que não tem medo de remar contra a maré de alguns cuja principal preocupação é demolir o conhecimento com insinuações, sem apresentar argumentos científicos minimamente sólidos para a sua discordância.




O seu livro intitula-se “O Outro Lado da História” e defende um visão pouco consensual dos tempos mais remotos do território hoje português. Que outro lado é esse?

O povo deste canto da Península, povo que depois de vencido pelo império romano não mais deixou de ser gente anónima sem direito à sua própria História, é efectivamente o objecto de estudo deste livro. Sigo-o desde o tempo em que possuía os seus próprios chefes e escrevia a sua língua no seu próprio alfabeto (a que chamamos hoje “escrita do Sudoeste”), até aos nossos dias, em que tanto a escola como os poderosíssimos meios de comunicação social tentam esmagar o mais possível os vestígios da antiga língua de origem fenícia, uniformizando todos os falares regionais à norma urbana de base latina. Esse é O Outro Lado da História, mas é essa a nossa verdadeira História, e que no essencial está por escrever. A que conhecemos, é a dos generais romanos, dos reis bárbaros, dos emires árabes, das famílias reais europeias; é a História de todos os que nos tentaram (com mais ou menos sucesso) impor a sua língua, forma de pensar e cultura; a quem pagámos impostos e de quem fomos escravos, servos, criados ou mesmo trabalhadores pobres e indiferenciados. Sabemos a História das elites. O povo no entanto não escreveu a sua História, e nem sequer falou a língua das elites. Redescobrir essa língua, quer pela decifração da escrita do Sudoeste, quer pela toponímia, pelas lendas, ou mesmo pela língua portuguesa actual, é a essência desse O Outro Lado da História. Evidentemente que esta perspectiva terá que ser sempre pouco consensual…

Até que ponto a sua visão foi influenciada pelos livros de Moisés Espírito Santo?

Moisés Espírito Santo é nesta matéria o pioneiro que para além de muitos outros méritos tem o de estabelecer a relação fundamental entre o português e o fenício. Sem ele, provavelmente a escrita do Sudoeste continuaria indecifrada por se desconhecer a língua em que os textos teriam sido escritos.

Que confirmação no terreno o levou a concordar com esse autor?

Tudo no terreno apoia a tese inicial de Moisés Espírito Santo, e só não o verá quem obstinadamente o não quiser ver. Há centenas de exemplos nos quais o investigador tropeça a cada dia. Um exemplo de entre muitos que constam do O Outro Lado da História, e de muitos outros que se poderiam dar: o topónimo “Malavado” provém de “mal av ad”, e significa em fenício “poço de águas subterrâneas que transborda”; em todos os locais com este nome (ou nomes parecidos, como “Malvado”, “Mal Lavada”, etc.) existe grande abundância de água, e poços artesianos. Tudo o mais, na toponímia, nas lendas, no nosso falar actual, etc. mostra claramente que se falou “fenício” por aqui.

Propõe uma leitura inovadora da chamada “Escrita do Sudoeste” numa época em que ainda ouvimos alguns académicos, historiadores e arqueólogos afirmarem que ela é indecifrável. Onde se alicerça a sua audácia, se ela existe?

A proposta de decifração que faço é fruto de perto de 15 anos de trabalho, e não lhe vejo nenhuma audácia, mas apenas alguma intuição combinada com muito trabalho e esforço dedutivo. É normal que haja resistências ao meu trabalho, quer pela natural tendência do ser humano de desconfiar do que é novo, quer porque é efectivamente complexo todo o processo de decifração e tradução, e eventualmente nem todos serão capazes de o compreender com facilidade…

De onde virá a resistência do meio académico português à aceitação de um passado semita da nossa cultura?

A ciência, como todos sabemos, é feita por gente, e a gente, cientista ou não, tem preconceitos que afectam a sua visão e compreensão do mundo. Na nossa sociedade ser “semita” é mau, e por isso se nega a importância que alguns povos semitas, particularmente os fenícios, tiveram para a vida na antiguidade, o que às vezes acaba por roçar o ridículo. Para nós, seria bom por exemplo ter origens gregas, era tão bom que até já houve quem pretendesse encontrar em Ulisses o fundador de Lisboa…
Palermices à parte, devem ter sido os romanos quem mais denegriu o nome dos seus inimigos mais perigosos – os fenícios, que estavam instalados em Cartago, na Península Ibérica e grande parte da bacia do Mediterrâneo. Os documentos escritos que se conservaram ao longo dos séculos são romanos, dos seus aliados, e de elites religiosas e intelectuais europeias que se filiam na cultura latina, e daí o preconceito que passa de geração em geração entre investigadores e académicos. Na nossa cultura gostamos tão pouco de povos semitas que até dizemos que foram os judeus a matar Cristo, como se Cristo não fosse ele próprio judeu…

Na sua opinião, como se deu a introdução dos falares fenícios / cartagineses em território do ocidente peninsular?

Esta é uma questão complicada para a qual não tenho uma resposta segura. Parece plausível que os povos portadores da agricultura e do Neolítico fossem semitas. A agricultura é uma actividade complexa que não é fácil de dominar sem uma vivência quotidiana prolongada, e foram semitas os povos que primeiro a desenvolveram. Parece portanto tentador admitir que o povo que trouxe a agricultura tenha trazido a língua. Mas há topónimos que têm uma distribuição que sugere uma ocupação do território mais tardia; por outro lado, é igualmente tentador admitir que o povo da escrita do Sudoeste tenha chegado na época em que foram feitas as inscrições, ou seja, no Bronze Final e início da Primeira Idade do Ferro; seria portanto uma vaga de colonos fenícios a chegar e impor a língua… Penso que neste momento ainda não se podem ter certezas nesta matéria.

Que manifestações ainda existem dessa maneira de falar e dessa cultura?

Há muitíssimas marcas dessa língua, que de resto sobrevive mesmo no português padrão: quando dizemos “chão”, “curral”, “labareda”, etc., etc., estamos a usar palavras fenícias. Penso que é essa influência fenícia que cria as particularidades das línguas ibéricas (em especial do português) no contexto das línguas latinas. No que se refere à cultura teremos certamente muitas marcas, a começar pela religião popular: quem leia o Antigo Testamento encontrará nele descrições que podiam ser aplicadas aos nossos santuários rurais.

Que é preciso fazer para continuar a aprofundar esse veio da nossa identidade cultural?

É necessário prosseguir com este tipo de trabalho baseado no estudo da língua e da cultura popular, pois é aí que reside a verdadeira essência do “ser português”. Com mais investigadores, mais tempo, mais trabalho, novos e mais profundos conhecimentos surgirão. Haverá ganhos até ao nível do conhecimento das línguas mortas como o ugarítico ou o acádio, já que mantemos no português termos comuns a essas línguas e ainda hoje se pode ver o contexto em que são usados, o que pode mesmo ajudar a melhorar traduções de textos antigos. Há portanto todo um mundo a explorar, assim haja quem o trabalhe.

Também escreve contos, estreitamente ligados à memória do espaço e dos seres que o habitam, como é visível em Histórias ao Serão [2009]. Existe alguma relação entre o seu trabalho como investigador e aquele que desenvolve escrevendo a partir da memória local?

As historinhas que escrevo mergulham na cultura rural que tento conhecer o melhor possível, e esse é o único elo de ligação à investigação histórica e linguística. São histórias simples e sem pretensões, mas que retratam o mundo rural antigo, e que penso que se consigam ler com gosto. Eu pelo menos gostei de as escrever.

25 de Setembro de 2009

FABRÍCIO MARQUES


Mini Litania de Política Editorial

Me suplica que eu te publico
Me resenha que eu te critico
Me ensaia que eu te edito
Me critica que eu te suplico
Me edita que eu te cito
Me analisa que eu te critico
Me cita que eu te publico
Me publica


(Publicado por Wilmar Silva na página 214 da contrantologia Portuguesia, recentemente editada.)

23 de Setembro de 2009


WILMAR SILVA





arranjo de gaivotas e pampulha, dia 31


eu-menino-do-campo, te faço conviva
e digo que a palavra que escrevo é
origem, invento gaivotas no sertão
ilha é meu corpo de encontro ao teu
aqui, longe, após o inverno da tempestade
verto o amálgama da pampulha veleiro
arco-íris que choram de solidão, eu
agora impávido e celeste, anjo de fogo
eu-espelho d' agua, narciso e orfeu
flautas e flores, eu-pássaro cais e flora -



Creio que este poema é a chave que nos permite entrar na poesia de Wilmar Silva, recentemente publicada em Portugal num volume intitulado Yguarani (Edições Cosmorama). Autor de uma obra invulgar e inclassificável no espaço lusófono, Joaquim Palmeira (outro dos nomes com que assina os seus textos) nasceu a 30 de Abril de 1965 em Rio Paranaíba (Minas Gerais, Brasil) e coordena o projecto Portuguesia, cuja primeira contrantologia foi lançada no passado mês de Julho em Seide, no Centro de Estudos Camilianos. Conhecer melhor o seu trabalho é possível através do seu blogue Cachaprego.

21 de Setembro de 2009

“Cultura no Centro”
sábado, dia 26 de Setembro, às 17 horas
Novos caminhos da poesia portuguesa em análise
Poetas, críticos e livreiros
debatem o rumo da poesia portuguesa contemporânea

O Dolce Vita Porto vai receber, no dia 26, às 17h, os poetas Manuel António Pina, Fernando Guimarães, Rosa Alice Branco, Catarina Nunes de Almeida e Emílio Remelhe para um debate inteiramente dedicado à poesia portuguesa. A livreira Dina Ferreira, proprietária da Poetria, também participa neste encontro que, durante hora e meia, se propõe analisar a "expressão máxima do génio literário português", na opinião de vários especialistas.Organizado pelo jornalista Sérgio Almeida nos últimos sábados de cada mês, o ciclo “Cultura no Centro” debate temas relacionados com as artes, reunindo um naipe alargado de criadores e responsáveis.
A literatura infanto-juvenil, a banda desenhada e a edição foram os temas inaugurais do ciclo.
O encontro tem lugar no piso 2 de descanso do Shopping.

18 de Setembro de 2009



Esta é, em português, a primeira edição de um livro do escritor espanhol José María Cumbreño. A antologia poética intitula-se Teorias da Ordem e é traduzida do espanhol por Ruy Ventura. A obra é publicada pelas Edições Sempre-em-Pé, na sua colecção UniVersos. (Quem carregar na imagem da contracapa poderá ler um dos poemas do livro; brevemente serão divulgados outros neste espaço.)

17 de Setembro de 2009


ALGUNS POEMAS
DE RUI ALMEIDA

O brilho da névoa
Uma febre luminosa arrastada adiante
Todos os pés de quem passa sem ruído
Sempre longe o mínimo tremor
E o vento, uma toalha solta agitada
Há os que dizem coisas por não as saberem
E os que olham passam suspensos
Os dias são sinais, são tardes inteiras
Corrosão que pode ser dita
Actualizada a cada momento
Tentativas sem sucesso para avançar
A destreza dos barcos nos dias de chuva
Ou a lentidão observada à distância.


*


1.
A nitidez da folha rasgada
Da falha corroída no centro
Sugere o movimento de quem caminha
De quem não sabe aonde ir

Mas que não espera, mas que não se esconde


2.
Quando se projecta no vidro a sombra
De um ser que voa e voando surge
Nunca pássaro, nunca anjo, sempre sombra
Que se ausenta sendo visível e certo

Então de luz o olho de repente arde


3.
Da deslocação para a margem se envolve
A presença da minúcia, o reflexo
Raro a sedução pela distância ou
Qualquer tentativa de aumentar a queda

Porém de novo se alimenta o sopro da pobreza


Saídos do seu primeiro livro, Lábio Cortado (uma estreia que não envergonharia ninguém – tanto mais que recebeu o Prémio Manuel Alegre – 2008, instituído pela Câmara Municipal de Águeda), estes poemas de Rui Almeida são, quanto a mim, os pontos mais luminosos da colectânea. Não dispensam contudo a visitação da obra inteira – editada pela Livro do Dia Editores, sediada em Torres Vedras –, a qual conta com o posfácio de Paulo Sucena, um dos membros do júri que decidiu galardoá-la.

16 de Setembro de 2009


ALGUNS POEMAS DE
JOÃO MIGUEL HENRIQUES



A ideia


e no momento exacto da compreensão
no preciso fulgor do entendimento
esse fugaz instante gasoso
entre a apreensão da língua
e a ideia consagrada
decidi fechar os olhos
apertar os punhos com força
retorcido sobre mim mesmo

era para ver apenas
se poderia suceder
a palavra ser só palavra
nada mais que linguagem
nada mais que um som despido
liberto de todo o sentido
matéria sem peso violento

a ausência da ideia
essa puta opressora



P. M.

eles vão sobreviver-te, tu sabes disso

por isso odeia-os profundamente
desprezas os membros ágeis
os olhos com dúvida e tempo

sabes que as tuas palavras sábias
não ecoarão para além da morte

e eles vão sobreviver-te, naturalmente
sem a tua linguagem
e esquecidos da tua memória



A erva alta

teria podido escrever os outros versos
soubesse eu da erva alta lá por fora
a que cresce nociva
junto ao muro da casa
e a mais distante, junto à estrada,
rasteira e inútil

teria alcançado a estância mais pura
soubesse ainda dizer as verdades
da erva a roçar-me pelos flancos



Poemas publicados em Também a memória é algum conhecimento, recentemente editado no Brasil na Lumme Editor, sediada em São Paulo. João Miguel Henriques (Cascais, 1978) estreou-se com O Sopro da Tartaruga, tendo divulgado desde aí textos seus em várias revistas e páginas em linha. É autor do blogue Quartos Escuros (www.quartosescuros.blogspot.com).
Este livro, para além das suas linhas de sentido e de fuga (que me dispenso de comentar, incitando o leitor à descoberta e à sua silenciosa indagação), deveria obrigar-nos a reflectir seriamente sobre as razões que levam cada vez mais poetas portugueses a verem publicados no estrangeiro os seus escritos, quando dentro de casa são relegados para um lugar que não merecem.

14 de Setembro de 2009


"Igreja Nova de Nossa Senhora d' Alva, Templo da Memória"
(sobre a matriz de Aljezur)
disponível aqui.

11 de Setembro de 2009


TEMPLO DA MEMÓRIA

No próximo domingo, dia 13 de Setembro, irei proferir em Aljezur uma pequena comunicação intitulada "Igreja Nova de Nossa Senhora d' Alva, templo da memória". A minha intervenção ocorre no âmbito das comemorações do Bicentenário da sagração da igreja matriz de Aljezur, debruçando-se sobre os catorze anos de construção deste edifício religioso, com projecto atribuído ao arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri. Será ao fim da tarde no salão da Santa Casa da Misericórdia local. O texto será publicado em breve na minha página pessoal.

10 de Setembro de 2009


NUMA ENCRUZILHADA DA PENÍNSULA
(publicado em tradução castelhana no nº 15 da revista Imagen de Extremadura)

Para quem chega de Jerez de los Caballeros – onde avulta, nas palavras do poeta Nicolau Saião, “uma torre singular” no meio da “serena alvura” dessa terra geradora de uma “comoção inexplicável” –, Fregenal de la Sierra apresenta-se como sucessora natural na viagem, com a sua herança também fenícia, romana, islâmica e templária. Muito próxima da mais raiana das localidades portuguesas – Barrancos – e a pouquíssima distância dos limites administrativos que separam a Extremadura da Andaluzia, a sua localização no mapa configura-a enquanto encruzilhada e, encruzilhada sendo, como ponto de encontro de povos e de culturas. Do outro lado, Aracena e a sua serra têm uma função semelhante (tanto mais que, num curto tempo da Idade Média, chegou a ser governada por um rei português). Barrancos, Fregenal e Aracena parecem ser, aliás, os vértices de um triângulo que, aos mais atentos, permite entender muito do que estrutura e argamassa a identidade raiana.
Os livros e outras fontes de informação dizem-nos que, entre os filhos mais ilustres de Fregenal de la Sierra, se conta o pintor Eugenio Hermoso. Se o artista de Badajoz que tanto aprecio – Luis de Morales, el divino – apresenta nas suas tábuas ora a doçura do olhar e dos gestos humanos ora a “alucinatória imagem da carne” (na expressão de Antonio Sáez, meu companheiro de crónicas raianas), as telas do autor serrano – que podemos apreciar nomeadamente num museu da cidade do Guadiana – mostram talvez melhor quanto nos atrai nessas terras: a inteireza da paisagem e dos rostos, a alegria ora expansiva ora recatada, a serenidade de um território peculiar, pleno de vegetação, resistente como os seus habitantes.
O melhor meio para chegar ao conhecimento das centenas de milhares de hectares que se estendem entre as duas localidades será, creio, o da caminhada. Não há melhor maneira de nos embebermos da paisagem e do povoamento de uma parcela do mundo – isto se não pudermos aproveitar a melhor de todas, a daqueles que deixam tudo para habitá-la, talvez para sempre. Pela serra de Aracena – mas também pelo território de Fregenal – são muitos os caminhos pedestres (assinalados ou por assinalar) que permitem ao viajante a convivência com o espaço. A pé – mas também a cavalo ou de bicicleta – é possível descobrir cumes e vales, bosques e clareiras, aldeias e campos, culturas e matagais, arquitectura popular e construções eruditas. De carro também, mas o gosto nunca será o mesmo… Pelas veredas ou pelas estradas, será sempre possível fazer paragens e alimentarmo-nos não só da contemplação visual, mas também – porque nem só do espírito vive o Homem… - dos deliciosos produtos que reforçam o corpo e estimulam o paladar, como os queijos, os derivados do porco preto, os cogumelos cozinhados com sabedoria, etc..
Por entre um património natural riquíssimo, entremeando azinheiras, sobreiros e castanheiros, há muito para ver nesta encruzilhada da Península. Desde os vestígios mais remotos à importante rede de fortificações andaluzes e templárias, passando por um impressionante conjunto de construções religiosas ou por múltiplas edificações vernaculares igualmente interessantes, na sua rudeza e simplicidade, temos ingredientes para muitos dias de encontro.
Se começarmos pela praça maior de Fregenal e nos demorarmos no seu castelo, nos seus conventos e igrejas (entre as quais destaco a muito concorrida ermida dos Remédios) e nas suas casas nobres, passando, já em Aracena, à visitação da sua fortaleza (com sedimentos islâmicos, portugueses e castelhanos), dos seus templos mudéjares ou de um conjunto de esculturas ao ar livre, terminando com uma descida ao interior do mundo, ao apreciarmos com tempo o esplendor das estalactites e das estalagmites da Gruta das Maravilhas – veremos muito, mas teremos sempre observado muito pouco.
Todo este território encostado a Portugal é muito mais rico física e culturalmente, tem muito mais a oferecer ao viajante, para nele existir, viver e conviver. A orografia favorece a multiplicação de expectativas e o mistério. E, se em Fregenal de la Sierra, uma “Casa do Sangue” nos recorda os horrores de que é capaz o ser humano, será sempre possível recuperar o ânimo e a esperança visitando o Convento de la Paz, na mesma localidade, ou bebendo em qualquer fonte da água oferecida pela Serra de Aracena.

27 de Julho de 2009

SOBRE CHAVE DE IGNIÇÃO

José do Carmo Francisco publicou no blogue Aspirina B uma recensão sobre o meu novo livro de poemas, Chave de ignição (Labirinto,2009). Agradeço a sua leitura.

24 de Julho de 2009


23 de Julho de 2009

SEIS APONTAMENTOS
SOBRE CHAVE DE IGNIÇÃO

Não é ainda a versão final do texto de João Candeias, mas já é possível ler aqui uma versão prévia do ensaio lido pelo autor de Voltei à casa pequena no lançamento de Chave de ignição, em Sesimbra. Agradeço desde já a vossa leitura.

22 de Julho de 2009

FRUTOS DA ÁRVORE MEDITERRÂNICA


Permitam-me que inicie esta viagem recorrendo à minha memória e saindo um pouco da faixa de território que constitui a Raia. Escrever sobre a gastronomia desse espaço não é para mim possível sem que ao meu pensamento venham lembranças gustativas cujo valor é indissociável dalguns contactos humanos, paisagísticos e arquitectónicos havidos em toda a Extremadura de Espanha. Embora o eixo desta crónica e das suas antecessoras seja sempre a identidade raiana, penso que ela nunca será devidamente compreendida sem se relacionar com a paisagem e o povoamento de outros milhares de quilómetros quadrados que a rodeiam e sem termos sempre em mente que tudo se passa no âmbito de uma cultura e de uma civilização sedimentar com raízes mediterrânicas.
Como esquecer, falando deste tema, uma morcela assada comida à sombra do mosteiro de Guadalupe, as excelentes migas saboreadas sob as arcadas de Plasencia, o arroz de lebre que (em Zorita ou Logrosán) me deu forças para continuar uma viagem, o doce de amora que adoçou um encontro de poetas ocorrido em Yuste, as alcachofras a tortilha e o gaspacho degustados nas proximidades da catedral de Badajoz, o licor de bolota que nunca deixa a minha garrafeira, a reconfortante torrada à moda extremenha – com alho esfregado, tomate e finas tiras de presunto – comida na casa de um poeta muito amigo? Não seria possível. Tal como não é possível olvidar alguns produtos que trago para minha casa sempre que posso deslocar-me às agrestes mais fortes paisagens da Extremadura. São sabores que ficam, inesquecíveis, sabedorias que nos foi dado conhecer pelo paladar e que, mais do que quaisquer outras facetas do verdadeiro corpo desta parcela da Península Ibérica, se tornam logo irrepetíveis, imateriais.
Não sou de coleccionar nomes de restaurantes. Posso assegurar-vos de que a nenhuma das experiências gustativas antes enumeradas consigo juntar o nome comercial do estabelecimento onde tiveram lugar. Esse hábito, hoje muito em voga, cheira-me sempre (na melhor das hipóteses) à colagem infantil de cromos numa caderneta ou (na pior) ao exibicionismo turístico daquela gente que tanto gosta de mostrar t-shirts compradas (ou não) em Cuba, no Brasil ou nas Canárias. Há no entanto espaços que não podem ser esquecidos, ao aliarem sabor e saber. Lembro o “Palacio de Arteaga”, em Olivença, onde tradição toma ares renovados. Recordo com particular veemência o quanto se come e bebe bem naquele espaço histórico das terras de Alcántara, “El Convento”, instalado no cenóbio de San Pedro de Majarretes, onde viveu essoutro Pedro, santo monge franciscano que um dia aportou ao mosteiro da Serra da Arrábida, vizinho da minha casa.
Mais do que tudo, tenho sempre presentes – ao lembrar-me da gastronomia raiana, extremenha ou alentejana – os ingredientes a que as mãos e o cérebro de muitos homens e mulheres souberam dar sabedoria e arquitectura no gosto: sobretudo o azeite, o vinho e o pão, mas também as peças de caça, o bezerro, o cabrito e o borrego, o porco (bravo ou manso), as aves de capoeira, algum peixe do rio, o leite e o mel, as frutas de horta ou silvestres, os legumes nascidos de uma terra exigente e sequiosa… Com estes elementos se confecciona tudo ou quase tudo na raia que nos une.
Se falássemos de música, poderíamos dizer que temos alguns temas básicos e muitíssimas variações. O arroz de coelho, as migas e o gaspacho, por exemplo, na minha aldeia de Carreiras são feitos de outro modo… mas já o “cachafrito” tem uma grande semelhança com algum borrego frito comido em terras da Extremadura. Valerá a pena repetir? Estamos tão próximos que nem a gastronomia nos separa. Mediterrânicos de um e de outro lado, embora hoje ponhamos no prato uma enorme variedade de receitas, aprendemos todos a mesma lição milenar, somos todos frutos da mesma árvore genealógica.

(Publicado em castelhano na revista Imagen de Extremadura)

6 de Julho de 2009



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30 de Junho de 2009



Seis anos depois, volto a publicar em Portugal um livro de poesia. Chave de ignição, cuja capa (construída a partir de um óleo sobre tela do pintor Nuno de Matos Duarte) se apresenta, é publicado pela Editora Labirinto, contando com um prefácio do escritor Gonçalo M. Tavares. Será lançado no próximo dia 16 de Julho, 5ª. feira, pelas 21 horas, na sala polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, sendo apresentado pelo poeta João Candeias. Honrar-me-á muito a sua presença.

18 de Junho de 2009

Considero este quadro de Nuno de Matos Duarte uma das melhores interpretações da poesia que tenho escrito. Será, dentro de três ou quatro semanas, o centro da capa do meu próximo livro de poemas, intitulado Chave de Ignição.

28 de Maio de 2009

CILADA

Wilmar Silva


a
sayonara
flautas e agreste



flauta agreste I

esculpo minha boca dentro de teus ouvidos
onde ninfas e duendes cometem o sonho
trilham o caminho da vertigem e vivem
à beira da estrada comendo verde poeira
as cores sobradas da última festa campestre
bichos e lendas no ermo dos seres

o olhar de ceres rompendo o teu abandono
cansada de tanto cuidar dos campos
dos cereais e do gado que se perde






flauta agreste II

envergo meus olhos e desfolho os deuses
encontro na enchente o bico sibilar
de um pássaro vindo de muito longe
voando nesta primavera onde nascem
floradas tão ímpias que não me calam
pétalas que se arvoram ao encanto do sol

gasto meu tempo mirando esse pássaro
no crepúsculo onde fadas gelam no inverno
insones sôfregas e úmidas por mim







flauta agreste III

canto esta quimera como quem se despe
e desnudo alça a godiva da fantasia
deságuo meu corpo em busca do teu
febril e descalço meu faro é de lobo
e a floresta e a selva entre árvores a cilada
mesmo de longe é por ti que espero

anseio uma noite e verdejo entre ramagens
meu disfarce é virar camaleão o bicho delicado
e picar teu sexo com meus tentáculos







flauta agreste IV

disperso abelhas e marimbondos em nevoaças
um réptil de puro veneno para espantar
aquele que vier contigo cantar-me
levo um tigre atado em minha pele
para assustar esse cúmplice sempre notívago
que te persegue pelas noites adentro

desenho em minhas mãos o rumo das setas
que irão mirar o coração de teu amante
sim eu serei bálsamo e lanço os dardos





flauta agreste V

guardo agora a sombra da lua e do medo
nuvens que debruam olhos e cabelos
dissipo a legião de andarilhos que me caça
sou pássaro e as penas de safira e rubi
errante e de músculos viris risco
esse amor tão doentio que me estrangula

eu pinto os meus lábios de carmim
e esqueço o meu orquidáceo em tua língua
serei mais ou serei menos basta o ópio









flauta agreste VI

orvalho as maçãs maduradas de vermelho
e ofereço fálicas papoulas que matam
afoito em teu motim armo orgias e festim
deslumbrado por ti minha avícula é ave
em teu ermo o esboço é um bote de áspide
árido mas esperando que se umedeça

o clima que invento é mais do que ruminar
é uma matança é uma carnificina é uma vingança
onde medra o meu pânico todo vândalo







flauta agreste VII

varo entre eclipses os meus olhos de jade
escamas e cactos em minha boca o meu sexo
a oferenda eu perfaço e amarelo
de tanto mirar teu corpo primavera
teus músculos que suam vertem fisgam
teu quadril onde afogo minha insânia

tuas coxas que ventam em meus lábios e cílios
o susto a culminar em vindima a vigília
e todo ardor enseada de montanha







flauta agreste VIII


habito a mesma noite em que habitas
como o mesmo pasto que ruminas
mas sou todo insônia e amálgama de heras
desejo apenas adivinhar o que escondes
ouvir o modo como respiras e as pausas
que tanto me crispam de gelo e paixão

a noite onde dormimos tem uma constelação
ela orna teu semblante e recria em mim
esse medo visceral de me entregar







flauta agreste IX

levo árvores flutuadas sobre cerrados
para o fundo da memória onde guarneço
divindades e a fome e a sede por ti
não esta fome cotidiana de cada ser vivo
mas a fome que é pranto rito fixação
fome de amor fome de carne fome de meter

a tua boca quando vergasta sons
é uma cadência que me iça doidivanamente
misturado a terra careço de adubo







flauta agreste X

arrumo mil disfarces à beira do instante
inverto o gume da ventania
mas o que seria o instante que anseio
o talhe de teu corpo que me doura
sim eu furto as palavras eu fuço as cores
e falo apenas no sangue que me escorre

meu disfarce é o simples ato de colorir
teu baile tão longe de ficar em mim
eu me ofereço após a incidental floração







flauta agreste XI

floresço na selva noturna que me espanta
onde aninham serpentes e estrelas
floresço prisioneiro em ti e os girassóis
são objetos servidos de adorno e pasto
mais do que florescer esse poema
floresço meu sexo no meio da chuva

no ápice da tempestade brenha e escuro
onde empunho armas de fogo e visgo
esse cúmplice a desbravar os descaminhos







flauta agreste XII

anoiteço e uivos dentro dos ouvidos
onde as corujas delatam os invasores
as axilas plenas de suor calor e deserto
rasgam-me a pele até o incêndio
caço teu corpo misturado de verdes coágulos
e receio não alçá-lo antes do amanhecer

emendarei os meu dedos aos teus
e calarei teus gemidos com os meus gestos
a noite é um segredo e estás dentro dele







flauta agreste XIII

durmo povoado de imagens que me escapam
sobre essa relva onde passeiam insetos
também sonho lamber os teus meandros
tuas coxas de outono quase orfeu
sonho deter tua ânsia tão estranha
e balbuciar nos ouvidos o que me consome

eu ávido caminhante dilacero o meu sangue
e desenho um oásis no céu
que purifique os meus pulsos de lâminas






flauta agreste XIV

vivo por ti o floral devaneio do vento
sopram teus quadris cedros quadrantes
como águias no espaço imitam sombras
revelo em tua direção alvo e flecha
e todos os ritmos que hajam em setas
junto a ti esse impávido minotauro de abril

aborígene e andrógino alado e condor
minha boca tem marfim e tem azul
eu ensurdeço teus ganidos até o clímax







flauta agreste XV

azulo por inteiro as ancas vindas de ti
os músculos que escondem meus semens
eu gralha a foragir agonia e agouro
azulo os cabelos a dourar este pássaro
não somente a miragem mas o que houver
falo por mim o que jamais diriam

canto a junção entre bambus e flautas
sísmico e fixo devoro eu narciso em eros
e todo o afogamento será ausência e mar






flauta agreste XVI

amadureço o verdor que brota dos dedos
uníssonos caminheiros de vertigens e ilhas
sulcam a direção de uma messe
vértebras fisgam meu olhar de falcão
virilhas derretidas de pêlos e suor
eu sigo a vertente das cabras e longe

uma camponesa atravessa ladeiras
o vadio está desnudo e mais uma vez afoga
em ti o pênis a verdejar até a raiz






flauta agreste XVII

ouço as batidas que aceleram e sobram
no domínio agreste a desmantelar o hímem
retido pelo aluvião e varado a muque
não somente a forma de miná-lo e ferí-lo
mas esdrúxulas disformas alinharam neles
ouço falos que me açoitam nesse outono

quebro as folhas coladas em meu ventre
e endoideço a lembrança da água no umbigo
eu vejo o mapa sem plexo e sou fatigado






flauta agreste XVIII

domino as retinas e flexos flautins
nu e ávido com o meu arco e flecha
espanto-me entre árvores as aves de rapina
armo a cilada e por completo o que falta
salto como tigre os laços de seiva e sangue
eis que esparge em meu sexo um oceano

ele eriçado vem escampar-me como fera
de tocaia ruge e arma o bote
sobe em meus ombros e vira amazonas







flauta agreste XIX

atravesso fauna e flora antes do inverno
o sol entre as folhas vara as montanhas
e inunda o córrego com o seu fulgor
descubro sargaços que me enleiam à água
e arremedo a dança que salta do verde
vívidos comemos nácares vivemos em tríade

a essência em nós é um laço ou cipó
nascidos da terra somos nós a passarada
e o amante assassinado também sou eu







flauta agreste XX


escondo em ânforas a paisagem das papoulas
e o que vislumbro é sempre emboscada
andarilhos do mato somos os herdeiros
e remoemos os cabelos vindos dos jasmins
sim içamos os pêlos até emergi-los na água
remoemos a alcatéia que foge pela lonjura

eu guardo em mim a derradeira cilada
fisgarei os olhos que me seguem afoitos
e prestes ao orgasmo o meu pênis é todo seu

27 de Maio de 2009

A LUMINOSIDADE ESTRANHA
DA POESIA DE C. RONALD
"Tendo começado a publicar sua obra nos anos 70 do século passado, é possível que C. Ronald ainda não tenha encontrado o seu público leitor. E não tanto porque essa obra, difícil e reservada em muitos sentidos, pouco acolhedora aos primeiros contatos, mas ao mesmo tempo portadora de uma luminosidade estranha que se oferece de modo aparentemente generoso àqueles que se aventuram a um convívio mais íntimo, esteja ela mesma fechada ao contato. Ocorre que esse modo reservado de ser aponta para alguma instância que nela surge como fundamental, devendo-se admitir que a reserva é ali, também, uma convocação.
[...]"
C. Ronald e a sua poesia já mereciam um ensaio como este, assinado por Renato Suttana.

21 de Maio de 2009

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18 de Maio de 2009

OS SETE EPÍGONOS DE TEBAS
de José Carlos Barros




“[…] as mulheres dos montes / viravam os estrados / para o lado de dentro / dos teatros / […]”
“Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa – / […] / a libertar-se da âncora genealógica / pela destruição do livro / dos exemplos. […]”
“[…] mudava / os parágrafos / e depois procurava no forno do povo / ou no tanque do largo / ou na lenha de bétula arrumada nos telheiros / o eco da frase inaugural /[…]”

Escolho, mais ou menos ao acaso, alguns versos de um livro de José Carlos Barros, ainda inédito. Quanto mais o leio, mais se aproxima de mim a sua estrutura, os pilares e lintéis de um edifício a que o autor empírico resolveu chamar Os Sete Epígonos de Tebas. Não estou perante uma colectânea de poemas; tenho nas mãos um livro de poesia. E, como qualquer objecto digno dessa classificação (isto é, que não seja apenas uma reportagem ou muita verborreia, empilhadas em linhas que não chegam ao final da folha impressa), escolhe – seguindo a frase de Herberto Helder colocada na obra como epígrafe – a arte “de ver cometas / despenharem-se / nas grandes massas de água”. Ou seja: arrisca assistir ao movimento descendente, violento, de corpos ígneos, cuja matéria entra em contacto explosivo com terra, purificando-a pelo fogo e, depois, pela expansão rápida de um líquido cuja passagem lava o espaço, os seres nele viventes e a sua memória. Terminado o maremoto, o contacto do fogo com a água – que José Carlos Barros parece desejar ver e registar – produz ainda uma matéria volátil: essa “nuvem” ou “névoa” que (segundo um poema do mexicano Luis Arturo Guichard) transforma os campos mais comuns em bosques plenos de mistério, embora quase sempre se veja apagada pelo fumo. E são os adoradores do fumo que vencem a primeira de duas batalhas pela sobrevivência de Tebas. Tebas – uma cidade contaminada por contínuas lutas pelo poder absoluto, condenada à desagregação por ter destruído dessa forma a herança civilizadora de Cadmo, o seu fundador –, que só pelo fogo poderá talvez ser conservada. É essa tentativa de preservação que, na minha leitura, se vê reflectida no livro de José Carlos Barros.
Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo, sobre o seu registo num texto escrito feito poesia e sobre as circunstâncias adversas que este tem de vencer para atingir a sua melhor realização estética e ética. Quem lê “Tebas” nesta obra deve pensar na “escrita” ou na “poesia” (aí renascida pela mão dos gregos ou de fenícios chegados à Grécia), sendo a luta dos “epígonos” (ou seja, dos descendentes) um processo de revitalização – dura e violenta – do texto artístico. É preciso destruir toda a escrita mergulhada no caos dos interesses e do poder temporal para que algo nasça de novo a partir dos alicerces – ainda que os vencedores finais (após a destruição da cidade) sejam sempre acompanhados pelo “opróbio da emulação”, porque “Os heróis” derrotados na primeira refrega “[pereceram] nos campos / de batalha / com a lança dos desastres”.
A vitória contra a erosão dos poderes literários consegue-se através da interioridade (virando “os estrados / para o lado de dentro / dos teatros”) e do espírito (procurando com ironia e desprendimento a “energia eólica” nascida nas “vagarosas pás / dos aerogeradores”), porque – segundo afirma o livro – “há um momento / em que a heresia e a coragem se confundem / e a baixa densidade dos núcleos / remove / por intuição / a desmesura / das memórias / descritivas / dos interesses”. Não esquecendo que é a memória da derrota dos antepassados (esse desenho nos “subterrâneos labirintos” da “cartografia pretérita dos desastres”) que conduz à vitória na guerra pela vertical dignidade da escrita e do texto, contra os seus hábeis manipuladores e niveladores que se servem deles para conseguirem honrarias jornalísticas, académicas e sociais. Porque só essa vitória permite que nunca se quebre, mesmo na humilhação, “esse / fio de novelo / que levava ao ouro e à água subtraída das nascentes: / ao rumor da pedra volátil / do volfrâmio”.
A mensagem de José Carlos Barros neste livro (cujo mérito, muito saliente, João Candeias, Joaquim Cardoso Dias e o autor destas linhas – como membros do júri do Prémio Nacional de Poesia “Sebastião da Gama” – resolveram premiar) é clara e muito importante nestes tempos de alheamento e de confusão: “[…] / ninguém diz uma palavra. / E ninguém se move em redor do lume / com medo / da repercussão / dos desastres”, mas quando alguém procura água que purifique esse silêncio cúmplice e criminoso, “O vedor / [sente] que a vara / [aponta] ao céu: / a nuvem / em vez / das nascentes”. É então que o cometa de Herberto Helder produz o seu incêndio e a sua redenção: “[…] a nuvem das palavras [desce] sobre as tendas / e as dunas da península: / duas mãos” – o passado e o presente?, pergunto – “[tocam-se] / por um instante breve / e [ergue-se] no ar irrespirável / o rumor incandescente / dos incêndios / das florestas”.

Azeitão, 16 de Maio de 2009
Lido por RV na sessão de entrega do Prémio “Sebastião da Gama”

13 de Maio de 2009


Maria do Sameiro Barroso
vence Prémio de Poesia António Patrício 2008

Maria do Sameiro Barroso é a vencedora do Prémio de Poesia António Patrício 2008, atribuído pela SOPEAM (Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos) com o livro As Vindimas da Noite. O prémio será entregue no próximo dia 16, às 10h da manhã, na Ordem dos Médicos.
Este livro foi destacado como um dos quatro melhores livros de 2008 pelo Diário de Notícias. Maria do Sameiro Barroso, nascida em Braga, é licenciada em Filologia Germânica, em Medicina e Cirurgia, pela Universidade de Lisboa. Inicialmente vocacionada para a poesia, tem vindo a alargar a sua actividade à tradução de autores de língua alemã, ao ensaio e à investigação no âmbito da História da Medicina.
Obra Poética:
O Rubro das Papoilas, 1.ª ed. 1987; 2.ª ed.1998.
Rósea Litania, 1997 (prefácio de João Rui de Sousa).
Mnemósine, 1997 (prefácio de António Ramos Rosa)
Jardins Imperfeitos, 1999.
Meandros Translúcidos, Labirinto, 2006 (prefácio de António Ramos Rosa).
Amantes da Neblina, Labirinto, 2007 (prefácio de Maria Teresa Dias Furtado).
As Vindimas da Noite, Labirinto, 2008.
Para além do Prémio de Poesia António Patrício 2008, Maria do Sameiro Barroso já tinha ganho o mesmo prémio em 1999 com o livro Jardins Imperfeitos. Recentemente, ganhou o Prémio Poesia Palavra Ibérica 2009 com o original Uma ânfora no Horizonte, instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, numa parceria com o Ayuntamiento de Punta Umbria e com a colaboração de Sulscrito – Círculo Literário do Algarve. Este último, será entregue no próximo dia 13, em Vila Real de Stº António, durante as comemorações da fundação daquela cidade.

11 de Maio de 2009


Lucilio Santoni

CORPO DE GUERRA

1 (até ao fundo)

Sobretudo de noite, os reflexos prateados excluíam a necessidade de uma conclusão, a iminência de uma conclusão. Mas os olhos rapidamente se dissolvem, se perdem nas cavidades do firmamento num atormentado abraço com a terra.
A luz deste dia não deixa imaginar um poder ser, nem um ser presente, nem um ter sido. Resta tão só um deslizar para o fundo, para buscar quem ainda não se transformou em sombra, silêncio puro.


2 (em exposição)

Se alguém viu a história dos vivos
separados da carne
transformados em ar
água terra e fogo
transformados no sal do mundo,
se alguém viu a história
pela primeira vez,
então pode encontrar também um corpo
exposto aos confins,
em exposição
para dar testemunho da própria vida infame.


3 (fogem)

É um ódio
que vem de outro tempo;
é um desejo que deriva dos séculos.
E agora mesmo eles se perderam,
Perderam a sua própria cidade sem nunca a possuírem.
Por todo o lado, a chuva, os camiões que viajam lentos,
o cansaço, o casaco pesado como um sudário.
Fogem.


4 (quatro)

E não fala
nada diz do seu tormento,
fechada numa língua cheia, pela metade,
de consoantes, confiando-se
à voz dos vingadores e enquanto sonha
delira no final da tarde
chama os mortos, para que venham
à sua festa. A sua respiração leve
é daquelas que deixam imaginar
a perda de tudo.


5 (o ódio)

Quando o sangue e a memória são uma única coisa
não faz falta cumprir a nudez, não faz falta
evitar a tortura, não faz falta salvar a alma.
Basta gritar “odeio todos esses rostos, odeio-os”.


6 (vós)

Fostes chamados
fostes chamados para produzir escombros
para viver o tempo da mentira e das sentinelas.
Assisti agora à corrida dos uniformes
na direcção do mar
também corrompido pelas cidades de areia.
Oh, as fugas… os regressos
as ruínas da primavera, o vidro
opaco que se quebra na mão do viajante antes de chegar à terra prometida.
Os vossos olhos voltarão ao horizonte, para não o verem,
numa inútil dor submersa pela etnia do pó.


7 (pai)


Não é justo que as coisas durem demasiado,
pensou enquanto olhava o desertor que não queria cair.
A claridade seca debaixo da ponte era quase acolhedora
e aquele corpo agitava-se, talvez pela primavera
ou talvez pelas balas que o preenchiam sob a pele.
Imaginou os milénios e os povos, e notava um doce langor
como se a matéria das estrelas lhe entrasse nas artérias.
Pai, recordo que também a ti te custava estar de pé…
Por que não se cai?


8 (oito)


Queimar-se no corpo de outro,
assim sem dar nas vistas
haverá decerto um motivo, um critério, uma razão
e no entanto sustenho a respiração para não chorar
quando a toda a volta não há mais do que aquele corpo imerso no furor
dos soluços. Os documentos queimados, oriente ocidente imenso
desorientado por um corpo e uma voz
que nunca soube de quem fosse ou que razão a mantinha calada.


9 (a brisa entre as oliveiras)

Recordais certamente quanto era triste a brisa entre as oliveiras
naquela hora precisa daquela tarde.
Afirmo, contudo, que a desejei
como por vezes se deseja um coágulo de sangue e de esperança,
Deus que fizeste deste reino um jardim
faz que chegue quanto antes a ressurreição da carne.
A minha boca empastada de palavras irá em procissão, todos os dias até ela
e fá-lo-ei de tal forma que as tuas obras venham em procissão até mim, ao meu corpo
que quer ressuscitar e nada lhe importa, nada mais.


10 (esgotada)

Não haveis visto nada da minha cidade.
Viestes, trouxestes comida e medicamentos, trouxestes armas,
mas nada haveis visto. Tentastes aliviar a nossa via sacra,
experimentastes o fel e a amargura, viestes dar-nos uma oferta régia,
mas não vistes nada.
Eu, senhores, reclinada sobre o flanco, esgotada
ao ponto de não me reconhecer, rogo-vos que não queirais cobrir
que não queirais esconder o meu corpo, para que todos possam ver, finalmente,
a cidade que me dá a alegria, a agonia e a páscoa dentro deste silêncio.


11 (noutro lugar)

Diz que vê, ali, debaixo daquela ponte, que vê os seus semelhantes
em caravana. Abandonam a cidade, seguindo as grandes estradas para norte
até ao norte do mundo. Diz que também ela queria partir
do que lhe resta, deixar aquele corpo, aquela memória imensa
não mais sentir o bafo dos sobreviventes. Diz que vê…
mas enquanto não observa, tem os olhos fechados sobre o tempo
que se esfarela. As perguntas da existência estão todas ali, com calma
se juntam para além do novelo dos sentimentos. Diz que vê
que intui o milénio que está lá fora, mas fora está a história
jogada nas barricadas, cheia de névoas e lendas;
há outro lugar infinito.


12 (doze)

Aqui se cumpre a minha história, ainda que a vida não queira partir, não possa partir. Começa agora o gotejar das palavras vazias, das horas sem sentido. Sinto-me a cair nas cavidades do ser, onde não há voz, onde a escuridão se abriu à escuridão e a terra à terra.


13 (nada mais)

No fim, nada mais. Continuo, porém, a viver, num tempo imprevisível, tão misterioso quanto o passado, nas carícias, e o futuro em que perco o sangue.



NOTA: Estes treze poemas de Lucilio Santoni, primeira parte de Corpo di guerra, livro publicado em Grottammare (Stamperia Dell’ Arancio), na Itália, em Outubro de 2002, serviram de base a uma obra musical homónima, divulgada pela “I CD del Manifesto”,

29 de Abril de 2009


QUATRO POEMAS
DE ÁLVARO VALVERDE



Então, a morte


1

Na cabeça, palavras amargas;
palavras dolorosas
pelo seu peso de morte.
Nos olhos, tristeza.
E de súbito, ali,
numa esquina apertada da terra,
algo te reconcilia com o tempo.
Uma árvore devolveu-te a esperança.
Com ela regressou essa verdade,
para o resto sempre precária,
com que se pode justificar até a vida.
Com a visão humilde de um marmeleiro.


2

Junto desta cama de hospital,
utilitária e branca, em que agora
descansa o corpo doente do meu pai,
neste mesmo sítio onde agora
eu mesmo estou sentado,
esteve um dia ele
velando o seu.
Recorda-mo às vezes, lá pela noite,
quando apagam as luzes do corredor
e se ouvem os passos silenciosos
do pessoal de vigia
e a tosse do vizinho e o gemido longínquo
de alguém que sofre alheio
no quarto do fundo.
Em voz baixa, conta outras noites de insónia
semelhantes a esta,
ainda que ele não fosse então
o sujeito passivo dos meus inábeis cuidados
e somente o representante dessa força
que sem dúvida tiramos da fraqueza
para poder estar à altura
de tão penoso acontecimento.
Entre duas luzes,
com a respiração forçada do oxigénio,
enquanto altera as doses no conta-gotas,
penso em mim por momentos
e, sem querer,
vejo-me a mim mesmo
estendido nesta cama,
e, ao meu lado, sentado, como eu,
na mesma cadeira,
um dos meus filhos segurando
com muita força a minha mão.


3

Na realidade, não sei
se vamos ao encontro da morte
ou se provimos já da sua certeza.
Não me recordo, de qualquer modo, alheio
à sua larga sombra sigilosa.
Ali estava, no escuro, na enfermaria,
ao fundo do corredor, na penumbra
daquele mesmo canto em que agora
estou encolhido contra o tempo.
Estava nas palavras sussurradas
e estava nos silêncios clamorosos
e nos olhos tristíssimos e húmidos
dos meus pais voltando da igreja
sem outras explicações para além das naturais.
Estava ali, sem dúvida,
e sempre estivera
fazendo-me a mesma companhia
e sei perfeitamente como cheira
e a formas que adopta e reconheço,
como se fossem minhas, as suas mentiras.
Por isso tenho dúvidas se vamos morrer
ou de uma vez por todas deixaremos
de estar já nesta vida mortos.


4

Tudo me leva a ti; assim, esta tarde
aberta ao céu azul que sucedeu
ao irado negrume da tormenta,
sob esta luz que, mais do que vespertina,
me parece ofuscante e matinal,
quando atravesso o vale
e volto a Jerte, sem conhecer a razão,
seguindo não sei bem que raro impulso,
curva a curva, bem sabes, leito acima,
até às mesmas nascentes da vida.
É tudo igual, porém também diferente,
e me remete para ti. E as cascatas,
e os talhões e o rio e as cerejeiras
parecem ser olhados pelos teus olhos
e através deles ainda me falas
e voltas a explicar-me o importante:
sentir-se aqui feliz e rodeado
de quanto qualquer homem necessita:
a luz, o campo, a árvore, a montanha,
coisas, talvez, vulgares ou anacrónicas
mas que nos confortam e nos salvam;
os seres e as forças desse mundo
solar onde vivias;
onde, para meu bem, comigo vives.


Álvaro Valverde (Plasencia, Espanha, 1959) é autor de livros de poesia (Las aguas detenidas; Una oculta razón; Ensayando círculos; Mecánica terrestre), de ficção (Las murallas del mundo e Alguién que no existe) e de relatos de viagem (recolhidos em Lejos de aqui) – sendo considerado em Espanha um dos poetas mais importantes da sua geração. Os poemas aqui traduzidos pertencem à sua colectânea mais recente, Desde fuera, editada em 2008 pela Tusquets Editores (Barcelona) na sua colecção “Nuevos textos sagrados”.

20 de Abril de 2009


LIVRO DE JOSÉ CARLOS BARROS
GALARDOADO COM O PRÉMIO
"SEBASTIÃO DA GAMA"


José Carlos Barros, nascido em Boticas no ano de 1963 e actualmente vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, foi o vencedor da 12ª. edição do Prémio Nacional de Poesia "Sebastião da Gama" com o original intitulado Os Sete Epígonos de Tebas. O autor premiado, que já em 1990 recebera o mesmo galardão, é licenciado em Arquitectura Paisagista pela Universidade de Évora. Vive em Cacela, no Algarve, desde o início dos anos noventa. Publicou os seguintes livros de poesia: Pequenas Depressões (em colaboração com Otília Monteiro Fernandes – 1984); Uma Abstracção Inútil (1991); Todos os Náufragos(1994); Teoria do Esquecimento (1995); As Leis do Povoamento (1996); Las Moradas Inútiles (edição bilingue, Punta Umbría, 2007; edição em castelhano, La Habana, Cuba, 2009). Publicou, em prosa, O Dia em que o Mar Desapareceu (2003) e está em preparação a edição de um romance seu na Oficina do Livro, a sair em Junho.
A cerimónia de entrega do prémio terá lugar a 16 de Maio, pelas 21 horas, no Auditório Carlos Alberto Ferreira Júnior, na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Vila Nogueira de Azeitão. Actuará o Grupo de Dança Renascentista Ars Luce e a Orquestra Filarmónica da Sociedade. Serão lidos poemas de Sebastião da Gama e de José Carlos Barros.


O Júri deste Prémio - constituído pelos poetas João Candeias, Joaquim Cardoso Dias e Ruy Ventura - reunido no passado dia 17 de Abril, decidiu também por unanimidade atribuir duas menções honrosas aos livros A Demanda do Conhecimento, de Firmino Mendes, e Objecto Persistente, de Rui Costa.

15 de Abril de 2009


A MAIS RAIANA DAS VILAS PORTUGUESAS
(texto publicado em espanhol no nº. 13 da revista Imagen de Extremadura)

Muito pouco conhecem os portugueses da vila de Barrancos, uma das mais remotas do território nacional, sede de concelho apenas com uma única freguesia. A maior parte de nós recorda esse pequeno pedaço de Portugal apenas pelos touros de morte e pelos excelentes enchidos de porco preto, associados a vagos ecos de um português diferente que por lá se fala.
Durante anos e anos o conhecimento foi mesmo mais restrito, limitando-se à acesa polémica entre os chamados “defensores dos direitos dos animais” e a população local, tendo como centro a realização anual de corridas de touros em que o animal morria, contrariando o estabelecido na lei portuguesa. Era já uma tradição lusa assistir na televisão ao folclore das forças policiais tentando impedir sem sucesso o acontecimento festivo, aos garridos e (por vezes) descabelados protestos dos protectores dos bichos e ao manguito contumaz dos barranquenhos que – depois de muita resistência – lá conseguiram que a Assembleia da República do seu país consagrasse no Diário do Governo a sua excepção cultural. Fizeram bem os políticos? Fizeram mal? Matar os touros no meio da arena em vez de abatê-los no matadouro será pior ou melhor? Cada um responda na sua consciência.
Cessada a refrega, resta aos portugueses mais distraídos, como lembrança de Barrancos, o sabor dos seus chouriços – delicioso como o de poucos. Reconheçamos que é injusto. A pequena vila com escassos milhares de habitantes merece que a lembrem de uma forma mais poliédrica. Nomeadamente como a mais raiana de todas as vilas portuguesas. Ao seu lado talvez, apenas, a cidade de Miranda do Douro, com o seu mirandês descendente do leonês, agora também língua oficial com direito a ensino público.
Em Barrancos, aos touros de morte e a uma ligação umbilical com os seus vizinhos espanhóis, associa-se um falar em que se misturam marcas do português falado no Baixo Alentejo com as do castelhano falado para além da fronteira. Estudado com sabedoria (embora com limitações) pelo investigador José Leite de Vasconcellos no seu livro Filologia Barranquenha, editado postumamente em 1955, não pode considerar-se – segundo afirma Luís Filipe Lindley Cintra – um dialecto autónomo, mas é ainda assim uma das mais concretas manifestações da cultura raiana (tecido muito matizado, no qual os séculos e os homens que os povoaram foram entrançando fios diversos, com cores diferentes, mas complementares e (hoje) indissociáveis).
Será a peculiar – e polémica – tauromaquia barranquenha outra coisa para além de uma das faces dessa manta colorida, feita de muitos tecidos recortados e recompostos? Se a praça onde decorre o espectáculo, edificada no efémero com barrotes de madeira no largo principal da vila, faz lembrar aquelas onde decorrem por esse Alentejo fora as “ferras” ou “touradas à vara larga”, a largada das reses e a sua lide a pé lembram algumas das mais conhecidas tradições de Espanha. Quer apreciemos ou não o ritual sangrento, traz-nos à memória raízes muitíssimo antigas, milenares, de uma época em que não existiam nem “Alentejo” nem “Extremadura”, mas havia uma cultura agrária com touros e deuses ctónicos que era preciso vencer para afirmar a força da humanidade, uma cultura cujos vestígios correm hoje o sério risco de desaparecer enquanto manifestações autênticas.
Por muitos motivos (uns positivos, outros nem tanto) podemos afirmar que essa cunha portuguesa em território extremenho, vigiada pelo abandonado castelo de Noudar e protegida por uma santa com resplendor à castelhana, não é nem de Portugal nem de Espanha. Apenas uma das eminências desse território peninsular agreste mas misterioso chamado “Raia”.

1 de Abril de 2009


Que Cristo da Paciência
nos dê muita paciência para aturarmos este mundo
e nos aturarmos uns aos outros.

Boa Páscoa!


(Imagem: "Cristo da Paciência", cultuado numa igreja de Buenos Aires.)

26 de Março de 2009

José María Cumbreño

Los poetas inventados
o el traje nuevo del emperador

Sé de algunos poetas que no existen, poetas que no han sido creados por dios, sino por su editor. La jugada es sencilla. No hay más que seguir los siguientes pasos.
- Primero. Debe elegirse a un escritor (o escritora) joven y de provincias, preferiblemente con aire lánguido, mirada perdida y gafas de pasta.
- Segundo. A continuación se le concede uno de los premios que publica la propia editorial (aquí interesa darle mucho bombo a la noticia, asegurar que se trata de la nueva promesa de la poesía española o algo así).
- Tercero. Seguidamente el editor omnisciente se encargará de ir publicando los sucesivos libros que el escritor (o escritora, no lo olvidemos) vaya produciendo.
- Cuarto. Los poemarios de marras se distribuirán por todo el país y se regalarán a cuanto crítico habite los principales suplementos literarios.
- Quinto. Aprovechar el efecto el traje nuevo del emperador para volver a afirmar que, sin duda, nos encontramos ante una de las voces más intensas (a pesar de sus silencios) de la poesía patria. Dejar que tales cantinelas corran de boca en boca.
- Sexto. Lograr que, como prueba de su talento, vuelva a ganar otro premio publicado por la misma editorial de siempre.
- Séptimo. Por último, publicar una antología del citado escritor (o escritora) como confirmación de que prácticamente es un clásico vivo y, mediante encendidos elogios en la solapa o la contraportada, animar a los indecisos lectores que aún no lo hayan hecho a comprar de inmediato su obra completa.Y asunto concluido.

(E em Portugal? Será diferente?)

24 de Março de 2009


Concordo com a frase de Nicolau Saião
inscrita neste seu quadro.

23 de Março de 2009


COMEMORAÇÃO
DO 21 DE MARÇO



Sabendo que também na poesia há eucaliptos, acácias, pinheiros, carvalhos, sobreiros, castanheiros, oliveiras e laurissilvas - comemoração por comemoração preferi celebrar por dentro o Dia da Árvore, como era hábito na minha infância.

18 de Março de 2009

Pedro Du Bois

ALÉM

Além do pensamento
riscar ao autor
o fósforo
incendiado
no desafio
de se fazer
luz

incinerar a idéia
do autor na velocidade
antecedente.

A consumação estrófica
deixa o desejo ardente
da febre mortal da exceção.

Na luz inconsumida
piora o desentendimento:

rouba ao autor
a solidez da pedra
deslocada: a entrada
ilumina o inexistente.

Outros poemas do autor:
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