9 de Fevereiro de 2010

POEMAS DE RENATO SUTTANA




TALVEZ



O ouro de amanhã é talvez,
a certeza dos portos é quem sabe.
A verdade de amanhã,
engastada no fundo das minas –
é uma hipótese a que nos confiamos,
mas que não se confirma no vento.
(Que motivo teria para tudo se confirmar?)
De hoje até amanhã tudo é hipótese –
e o vento, que não se esclarece num mapa.





SÃO SEBASTIÃO

(De uma gravura de Egon Schiele)



As flechas que o atravessam
(dardos de sol que o contestam) –
querem passar além dele
(eis a intenção que as impele).







NO MAIS FUNDO



No mais propício e no mais fundo
descobre-se que ter estado escavando
adulterou o sentido da procura:
e que o ouro que nos pôs nas mãos
(quanto irrisório triunfo!)
nos tornou mais pobres a cada vitória
conquistada.



Poemas publicados em Fim do Verão, livro editado pela Virtual Books (Pará de Minas, Minas Gerais, Brasil). O seu autor, Renato Suttana, nasceu em Barroso (1966), sendo professor na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Grande Dourados, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Como ensaísta, publicou os livros João Cabral de Melo Neto: o poeta e a voz da modernidade (São Paulo, 2005) e Uma poética do deslimite: Poema e imagem na obra de Manoel de Barros (Dourados, 2009). Coordena a página Arquivo de Renato Suttana.
AVELINO DE SOUSA




QUATRO QUASE-SONETOS



1.

Noite escura da alma. Altas portas
que se entreabrem, nos gonzos rangendo.
Como em lagos parados, horas mortas,
vai em meus olhos a luz anoitecendo.


A vela sobre a mesa. Linhas tortas
são as que a mão, tremente, vai escrevendo.
A cera derretida. A quanto exortas
exangue coração que estás ardendo!


Noite escura da alma. São João,
o Baptista, o da Cruz – o que é que importa?
Tudo são coplas, glosas de outras vidas.


Noite escura da alma. Até o cão,
adormecendo, a cabeça deixa cair, absorta,
no vale negro das esperanças perdidas.



2.
Altas as portas nos gonzos rangendo.
Ferrolhos que retinem com fragor.
Espiral de escadarias. Ascendendo
vai a alma. Escuro é o corredor.


A mão que inúteis versos vai escrevendo.
Que ritmo é que a guia, que rumor?
Embalada no rito, nada vendo,
vai a alma. Estreito é o corredor.


Súbito, no patamar ao fim da escada,
uma forma de luz, subido raio,
logo surge em todo o esplendor.


A noite dá lugar à alvorada.
A mão, tremendo, já não escreve nada.
A alma é estrela, enfim, de raro fulgor!



3.
Altas portas fechadas, sem entrada.
Altas portas fechadas, sem batentes.
Todo o céu exterior é uma estrada
que as estrelas polvilham de sementes.


Essa estrada conduz a uma entrada
de um palácio trancado a cadeado.
Altas portas que não se abrem para nada.
Altas portas fechadas sem telhado.


Para sempre fechadas para tudo,
só para a Alma-Estrela sempre abertas
no palácio do seu ser mais profundo.


Todo o céu interior se fecha, mudo,
atrás de portas altas mas secretas,
as mais altas portas do Profundo.



4.
A vela sobre a mesa. Linhas vagas
são as que a mão, tremente, foi escrevendo:
versos velhos, puído ouro de sagas.
E logo a fraca chama escurecendo.


Ali ao lado o escudo e as adagas.
Um som, ao longe, de gonzos rangendo.
Um galo está cantando horas pressagas.
E nos meus olhos a luz esmorecendo.


O cão fiel num sono sem rebate
é uma glosa da alma em noite escura.
Silêncio nos jardins da alvorada!


Só num compasso certo bate, bate
o coração – são coplas de resgate
p’la Alma: Estrela transfigurada!


(in Pastor de Estrelas, edição do autor, 2009)

4 de Fevereiro de 2010

DIVINA MÚSICA

Chegou há poucos dias há minha caixa de correio a antologia Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música, uma edição comemorativa do 25.º Aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu, organizada por Amadeu Baptista.

Nela podem ser lidos poemas de Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.
Há no volume poemas que gostei muito de ler, como por exemplo os assinados por C. Ronald, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Echevarría, Fiorese Furtado, Iacyr Anderson Freitas, Joaquim Cardoso Dias, João Camilo, José Carlos Barros, José Mário Silva, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, Maria Andersen, N. Saião, Nuno Dempster e Rui Almeida. De outros, nem tanto, sou sincero. (Continuo a não perceber como pôde ficar à porta um poeta da craveira de Wilmar Silva - mas Amadeu lá conhecerá as suas mais íntimas razões). Pessoalmente, assino por lá um poema dedicado a Bach, numa versão que os últimos tempos se encarregaram já de modificar.
ALBERTO VELHO NOGUEIRA
ENTREVISTADO PELA "LER"


Ao decidirem avançar com a publicação na revista LER de uma entrevista do escritor Alberto Velho Nogueira, Francisco José Viegas (director) e José Riço Direitinho (entrevistador) praticaram um acto de justiça.
Num período de grande confusão e rebaixamento na nossa literatura (em que dia a dia se confirma a promoção de génios de papelão e a ocultação de todos quantos servem a palavra com uma arte exigente e questionadora, sem se vergarem a modas, facilidades ou regras de mercado), ler as palavras de alguém como Nogueira confirma que são as veredas e outros caminhos escondidos que levam ao lugar do tesouro. Não estamos condenados a comer apenas sopa literária (por mais saborosa que ela seja); há outros manjares mais substanciais nesta mesa com vários séculos de criação e de frequência.
A escrita de Alberto Velho Nogueira (com as obras de Maria Gabriela Llansol, Fernando Echevarría, C. Ronald, Carlos S. C. Couto, Wilmar Silva e muitos outros) poderá exigir uma caminhada iniciática e uma digestão lenta - mas alimentar-nos-á muito mais do que certos acepipes pseudo-realistas que nunca passarão de comida rápida comprada nos supermercados de uma literatura sem ousadia nem experimentação.

(A partir de uma carta enviada a Francisco José Viegas.)

3 de Fevereiro de 2010

COMO FOI A PRIMEIRA REPÚBLICA
Opiniões de uma testemunha ocular republicana:
Fialho de Almeida in Saibam quantos...




"Este Portugal republicano é aquele mesmo [...] que crê parvamente em Messias políticos e bruxas, que vive d' indústrias fictícias e agriculturas rutinárias, e com um jornalismo pedante de reporters, uma ciência de copistas e uma literatura de decalcos [...]." (1/11/1910, p. 15)


*



"[...] Para implantar no país essas reformas, não vale a pena derribar o monarca para assentar no trono o presidente.
O que é preciso é ter confiança na capacidade mental e moral do cidadão. O que é preciso é ter fé na sinceridade e honra política dos chefes. O que é preciso é curar da disciplina austera dos grupos. E tudo isto não é a forma de governo que o dá, mas uma instrução e uma educação singularmente perfeitas e solícitas. [...]" (pp. 17-18)


*





"[...]
Políticos, politicantes, peste!...
Em toda a parte a política é uma ocupação subalterna que só tenta os faladores e os intrigantes, e em geral se abandona às gentes de pequena virtude que a exploram como uma alquilaria ou uma tenda.
[…] E o resultado é este! Corrupção, ignorância, anarquia geral e marcado retrocesso em todas as representações da vida pública e privada.
Partidos recrutados por senhas de bónus pulverizando-os em patrulhas que inviabilizam o parlamento, tornando a queda de ministérios num sport d’ aventureiros e bravucões. Uma burocracia cleptómana que açambarcou os cargos, com mote de não deixar medrar na vida pública ninguém que não seja do can-can. Meses e meses d’ assembleia onde os deputados fazem lutas d’ apaches, ou exploram narizes de cera, abandonando o terreno quando algum assunto sério vem à fala. Uma imprensa que, aparte três ou quatro jornais, sintomatiza bem o descalabro da terra, tão desorientada e ignorante como o parlamento, vivendo de bagatelas e difamações injuriosas, ou reportagens tão reles que por elas se aquilata a complacência estúpida e a degradação moral de quem na lê. Nem literatura, nem ciência, nem arte, nem marinha, nem exército, nem agricultura bastante ao sustento da gente, nem indústria capaz de resgatar as dezenas de milhões em que, com importações estrangeiras e juros da dívida se esgotam os recursos da mesquinha epargne nacional!... (pp. 191-192)

2 de Fevereiro de 2010

SEBASTIÃO DA GAMA


 
Nasceu um blogue dedicado a Sebastião da Gama:  http://sebastiaodagama-acsg.blogspot.com/
Aguardamos muitas novidades e a grande dedicação a que a sua Associação já nos habituou.



1 de Fevereiro de 2010


A GRANDE BARRELA

Começou ontem oficialmente a grande barrela chamada "Comemorações do Centenário da República". Ora dizendo que apenas devemos comemorar a revolução de 1910 olhando para o futuro (para esquecermos o triste passado). Ora afirmando que a má imagem da Primeira República foi uma criação propagandística da ditadura do Estado Novo. Ora lançando para os olhos dos portugueses a poeira dos "pequenos erros" do período compreendido entre 1910 e 1926, de forma a ocultar os desmandos graves do jacobinismo sectário e anti-democrático que foram, de facto, os principais responsáveis pelos 48 anos de ditadura vividos pelo nosso país no século XX.
Basta lermos os textos de vários republicanos desinteressados e clarividentes que acompanharam os acontecimentos como testemunhas oculares (como por exemplo Fialho de Almeida) para chegarmos à conclusão de que estas comemorações são um erro e uma imensa campanha de propaganda destinada a manipular a consciência história de todos nós, de maneira a não vermos com olhos limpos o que se passa neste momento em Portugal.
Voltarei ao assunto, eu, republicano que não se revê em nenhuma das três repúblicas que dominaram a história nacional a partir de 1910, republicano que não confunde regime com forma de governo (no fundo o importante não é a república, regime político, mas uma forma de governo, a democracia - de que estamos ainda muito distantes).


Imagem: Bandeira nacional a partir da opinião do poeta republicano Guerra Junqueiro, que afirmou: "O Campo azul e branco permanece indelével. É o firmamento o mar o luar, o sonho dos nossos olhos o êxtase eterno das nossas almas. Os castelos continuam em pé inabaláveis, de ouro de glória, num fundo de sangue ardente e generoso ... A cruz do calvário, as das cinco chagas essa não morre, é o abraço divino, o abraço imortal... A coroa do Rei, coroa de vergonhas, já o não envilece, o não vislumbra. No brasão dos sete castelos e das quinas erga-se de novo a esfera armilar da nossa glória... E ao símbolo augusto do nosso génio ardente e aventuroso, coroemo-lo enfim de cinco estrelas em diadema dos cinco astros de luz vermelha e verde [ ...] dessa manhã heróica da rotunda." - Guerra Junqueiro, citado em "Do Azul-Branco ao Verde-Rubro. A Simbólica da Bandeira Nacional", de Nuno Severiano Teixeira, 1991


Acabou de sair, segundo me comunicou o Autor.
Uma excelente notícia!

29 de Janeiro de 2010

UMA CARTA PARA JOSÉ MIGUEL SILVA
(depositada aqui: http://eumeswill.wordpress.com/2010/01/26/progresso-onde-e-que-isso-ja-vai/#comments)


Caro José Miguel Silva, com toda a admiração que me granjeou o seu primeiro livro, pensei que lhe seria agradável a leitura deste texto sobre si que descobri há tempos num lugar de que infelizmente perdi a referência. Cumprimentos do RV



[de Edward Burton p/ José Miguel Silva]


as tábuas do balcão são de resina, contraplacado, pvc ou aparite. o mármore (onde escorrem copos) é prancha velha cujo cavername, lavrado pelo bicho da madeira, se revestiu de linóleo, de oleado.
cheira a vómito no canto da taberna.
não nego que alguns metros desse fluxo dão ao ouvido corpo e luzimento. mas a conversa (sem paralelismo) que, de hora a hora, repete a mesma frase (com charros, cuspo, vinho-carrascão), invade o olfacto, dá uma volta ao estômago.
um vómito (odor e ladainha) lança-nos fora, tira o apetite. porque um canto sem tasca, sem taberna, não sabe que um longo passadiço separa o esterco da estrumeira. que a merda e o estrume não deixam sobre a terra o mesmo adubo, a mesma voz (semente).



uma bebedeira não precisa de metáforas. overdose e falta de equilíbrio sujam o ritmo, as palavras, o olhar.
nessa taberna um canto (se) obscurece.



o cenário atrai, traz visitantes. continuará sendo simulacro à espera do ecoponto, do aterro.
pelo fogo passará (sem ignição). e nem o crescimento das gramíneas (sobre o terreno, livre de cascalho) conseguirá ocultar, passados anos, à sonda perfurando o solo e o plástico – o entulho de um canto que se ouvia, a toda a hora (gonorreia) sem cessar.
CICLO "PORTUGAL RENASCENTE"


É já no próximo sábado, pelas 15 horas, que, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, se inicia o ciclo Portugal Renascente, com a realização do colóquio "Entre Guerra Junqueiro e Teófilo Braga" – Luís Paixão (que fará uma breve locução introdutória, alusiva ao 31 de Janeiro) Pedro Sinde e Rodrigo Sobral Cunha serão os oradores. A sessão completa-se com o lançamento do livro "Cartas de Noé para Nayma", de Carlos Aurélio (Colecção Nova Águia), apresentado por Pedro Sinde, na presença do autor e de Renato Epifânio, director da Colecção Nova Águia. Esta é uma iniciativa conjunta dos "Cadernos de Filosofia Extravagante" e da revista "Nova Águia", em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra.


Ainda no dia 30, mas em Setúbal, na Casa Bocage, pelas 18h00, serão apresentados o 4.º número da revista "Nova Águia" e o livro "A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa", de Rodrigo Sobral Cunha (Colecção Nova Águia).

25 de Janeiro de 2010





As palavras em jogo
pelo seu autor, José do Carmo Francisco




Está quase a chegar às livrarias este livro de 220 páginas que recupera do pó do relativo esquecimento 30 entrevistas e 1 memória, lembrando deste modo 30 anos de jornalismo. No universo multifacetado dos entrevistados há um abrangente olhar sobre o Desporto e a Sociedade: Álvaro Cunhal, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, António Roquete, Carlos Mendes, Clara Pinto Correia, Daniel Sampaio, David Mourão-Ferreira, Dinis Machado, E.M. Melo e Castro, Eduardo Guerra Carneiro, Eduardo Nery, Fausto, Francisco dos Santos, Francisco José Viegas, Helena Marques, Joaquim Pessoa, José Duarte, José Fernandes Fafe, José Manuel Mendes, José Nuno Martins, José Quitério, Lídia Jorge, Luís Filipe Maçarico, Mário Jorge, Matos Maia, Mia Couto, Nicolau Saião, Rita Ferro, Romeu Correia e Urbano Tavares Rodrigues.

As entrevistas e a memória de Francisco dos Santos (1878-1930), o primeiro português a jogar em Itália, foram publicadas entre 1992 e 1996 na revista Bola Magazine que entretanto cessou publicação. Algumas delas foram mais sintéticas devido à falta de espaço mas todas apresentam o interesse do depoimento das diversas figuras públicas sobre a sua relação com o Desporto. Apenas dois aspectos: primeiro – algumas delas trazem anexos em verso e em prosa do entrevistado que muito enriquecem o conteúdo final; segundo – a partir destes textos é possível organizar um perfil do futebol em Portugal no século XX desde a memória de Francisco dos Santos em Roma na primeira década ao Eusébio da década de setenta aqui recordado por José Duarte passando pelo Mário Jorge dos anos oitenta e sem esquecer António Roquete que jogou nas década de vinte e de trinta além de Francisco José Viegas que recorda Madjer e Dinis Machado que lembra nomes dos anos 40, 50 e 60 como Araújo, Passos, Jesus Correia, Arsénio, Vasques, Travassos, Germano, Matateu, Jaime Graça, Hernâni, Águas, Humberto Coelho, Ian Rush, Yazalde, Carlos Gomes, Azevedo, Bento, Banks, Yashine, um nunca acabar de homens, de memórias e de mitos. Sem esquecer as motos de Eduardo Guerra Carneiro e as bicicletas de Lídia Jorge.

22 de Janeiro de 2010

CERCOS VOLUNTÁRIOS


in Bar na Cave


(Rua da Imprensa Nacional 116b, Lisboa - entre o Jardim do Príncipe Real e o Largo do Rato)



Exposição Permanente de Sandra Filipe
(5as, 6as e sábados)


22 de Janeiro (6a feira - 23h): Catarina Nunes de Almeida e Pedro Lamares lêem "Cerco Voluntário", de Vasco Gato

23 de Janeiro (sábado - 23h): Entropic Duo - Gonçalo Gato (Guitarra) e Nuno Almeida (Bateria)





20 de Janeiro de 2010

SUN INTO SEA
Traduções de Brian Strang


O endereço é http://sunintosea.blogspot.com/ e é um blogue criado por Brian Strang para divulgar as suas traduções de poetas portugueses contemporâneos. O sítio merecerá toda a nossa atenção futura:

"Olá amigos! Welcome to SUN INTO SEA, a site for occasional translations of contemporary Portuguese poetry. The first poet I'll introduce is Jorge Melícias (b. 1970), author of several books of poetry and translation. His most recent book, disrupção, is a collection of his previously published work. More translation of his work, and an essay of mine on it, can be found at Duration Press."
http://sunintosea.blogspot.com/

18 de Janeiro de 2010




INSTRUMENTOS DE SOPRO

A edição de Instrumentos de Sopro na colecção UniVersos, das Edições Sempre-em-Pé, está bem encaminhada. Posso desde já avançar que a ilustração apresentada - "Vislumbre 13", óleo sobre tela (60x70) da autoria de Nuno de Matos Duarte - constará na capa desta colectânea de poemas. O prefácio será assinado pelo poeta brasileiro C. Ronald.
Lembro que este novo livro será a edição revista e muito aumentada de El lugar, la imagen, publicado em 2006 na Editora Regional de Extremadura, em Espanha.

6 de Janeiro de 2010

LIVROS DE 2009

Ninguém espere de mim uma lista dos melhores livros publicados em 2009. Quem quer que a apresente nunca será intelectualmente sério, uma vez que é impossível ter lido todos os volumes editados num ano no nosso país e/ou no mundo. Logo, a escolha será (consciente ou inconscientemente) viciada e manipuladora, sobretudo se divulgada num grande meio de comunicação.
Não deixo no entanto de partilhar a lista dos livros que mais me recompensaram no ano passado. Como será fácil de verificar, têm anos de publicação muito díspares, estando vinculados a um leitor que gosta de caminhar por estradas e veredas muito diferentes, muitas vezes pouco frequentadas.
Na apresentação, optei por listar as obras pela ordem de leitura, prescidindo da ordem alfabética ou cronológica.


GONÇALO M. TAVARES - "O Senhor Breton" (2008)
CLAUDE ROY - "Diário de Viagens" (1962)
ROBERT MUSIL - "L' homme sans qualités" (trad. francesa)
MIGUEL JORGE - "O deus da hora e da morte" (2008)
HORÁCIO - "Odes"
LUIS ARTURO GUICHARD - "Nadie puede tocar la realidad" (2008)
ARTURO PÉREZ-REVERTE - "Con ánimo de ofender (artículos 1998 - 2001)"
FERNANDO PESSOA - "Poesia 1918-1930"
TEIXEIRA DE PASCOAES - "Vida Etérea" (1906)
TEIXEIRA DE PASCOAES - "Para a Luz" (1904)
ELIO PECORA - "Simetrias" (2007)
NUNO DEMPSTER - "Dispersão" (2008)
J. M. G. LE CLÉZIO - "A Febre" (1965)
PEDRO SINDE - "O Canto dos Seres - saudade da natureza" (2008)
JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS - "Aforismos e Desaforismos de Aparício"
BRITO CAMACHO - "Matéria Vaga" (1934)
MARIA GABRIELA LLANSOL - "Onde vais, drama-poesia?" (2000)
JOÃO CANDEIAS - "O Narrador / O Mar" (1989)
HELENO GODOY - "Fábula Fingida" (1985)
RUI KNOPFLI - "O escriba acocorado" (1978)
MICHEL GRAS - "O Mediterrâneo Arcaico" (1995)
JOSEP M. RODRÍGUEZ - "La Caja Negra" (2004)
THOMAS BERNARD - "Na terra e no inferno" (1957)
LUIZ PACHECO - "Pacheco versus Cesariny" (1974)
LUIZA NETO JORGE - "Terra Imóvel" (1964)
WILMAR SILVA (org.) - "Portuguesia" (2009)
CAMILO CASTELO BRANCO - "Vinte Horas de Liteira" (1864)
MICHEL VOLKOVITCH (org.) - "Anthologie de la Poésie Grecque Contemporaine"
GEORGE STEINER - "Os livros que não escrevi" (2008)
RAINER MARIA RILKE - "O Livro de Horas"
G. K. CHESTERTON - "O Homem Eterno" (1925)
HEINER MULLER - "O Anjo do Desespero" (1992)
PAUL AUSTER - "Inventar a Solidão" (1982)
CHARLES PÉGUY - "Le Porche du mystère de la deuxième vertu" (1929)
FERNANDO SAVATER - "O Valor de Educar" (1997)
WILMAR SILVA - "Yguarani" (2009)
ANTONIO SÁEZ DELGADO - "Espíritus Contemporáneos" (2009)
CRISTINA CAMPO - "Sob um falso nome"
STÉPHANE MALLARMÉ - "Igitur"
EDMOND JABÈS - "Le Livre des Ressemblances" (1976)
JOSÉ MARÍA CUMBREÑO - "Teorías del Orden" (2008)
FIALHO DE ALMEIDA - "Figuras de Destaque" (1923)
MARIA GABRIELA LLANSOL - "Uma data em cada mão - Livro de Horas I"
TEIXEIRA DE PASCOAES - "O Penitente" (1942)
LUIS MANUEL PÉREZ-BOITEL - "Conversaciones con máscara" (2009)
ETTY HILLESUM - "Cartas 1941-1943"

5 de Janeiro de 2010

LENDAS DA SERRA DE SÃO MAMEDE

Iniciei há pouco tempo a publicação no Arquivo do Norte Alentejano do conjunto de lendas dos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre por mim recolhido de há quinze anos a esta parte. Garanto-vos que são textos com muito interesse. Aqui fica a ligação: http://nortealentejano.blogspot.com/search/label/Lendas

4 de Janeiro de 2010


DESEJO A TODOS QUANTOS ME LEREM UM ANO 2010 CHEIO DE ESPERANÇA.


NA IMAGEM: pintura mural existente no coro baixo da igreja do convento da Saudação, em Montemor-o-Novo (fotografia de Patrícia Monteiro).

22 de Dezembro de 2009

Castelo de Vide, igreja do Salvador do Mundo:
"Fuga para o Egipto"
Gabriel del Barco
Basta estarmos atentos. Encontraremos sempre o caminho, a linha de fuga deste mundo e o nosso Egipto (seja lá onde for) como destino. A salvação chegará. Desejo um Natal muito feliz a todos os quantos visitam e lêem este espaço.

10 de Dezembro de 2009


Convite para a exposição
e reprodução do quadro de João Filipe Bugalho aí apresentado.
É conveniente carregar nas imagens para ampliar.

4 de Dezembro de 2009


CONVITE

Armindo Reis, a Editora Vega e a Câmara Municipal de Almada têm o prazer de convidar V.EX.ª para a sessão de apresentação do livro de poesia para crianças «O TIC-TAC DO CORAÇÃO», que se realizará na Sala Pablo Neruda do Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada, no dia 12 de Dezembro de 2009 (sábado), pelas 16 horas.

A sessão será animada por:·
Manuel Catarino (apresentação do livro);·
Judite Peres (poesia);·
António Sales (guitarra clássica) e Ana Falcão (canto);·
Grupo de pequenos leitores da Biblioteca da Escola D. António da Costa (dramatização poética);·
Pedro Silvestre (violino).·
Mostra de quadros (óleos s/tela) do professor/escritor/pintor Armindo Reis.

Fórum Municipal Romeu Correia, Praça da Liberdade - ALMADA

2 de Dezembro de 2009

NO AI COSSA / QVE MAS DISPIERTE / QVE DORMIR / SOBRE LA MVERTE / AÑO DE 1699. ("Não há coisa que mais desperte do que dormir sobre a morte.") Descobri está inscrição, registada nas paredes da igreja de Villamiel, graças ao blogue do poeta espanhol Daniel Casado. Séneca poderia tê-la escrito.

23 de Novembro de 2009

ASSINAR A "BÍBLIA"

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Vimos por este meio enviar-te um e-mail para te informar sobre a campanha de assinaturas da revista Bíblia. Nesta época de Natal, onde tanto se apela ao “consumo-rápido-deita fora”, a Bíblia vem apelar a que assines a Revista, que já existe há 13 anos, podendo esta assinatura definir-se como um investimento na cultura. A Revista Bíblia já publicou mais de seiscentos autores, fez mais de cem lançamentos, debates, apresentações, happenings, etc., por todo o país e estrangeiro, sendo um espaço de liberdade para todos os leitores e autores que lêem e participam na Revista. Pedimos o teu sólido apoio (assinando a Revista) para continuarmos este projecto que tanto tem feito pela cultura em Portugal. Se queres que a Revista Bíblia continue: - a ser um espaço de experimentação de tendências contemporâneas das artes visuais e da literatura; - a divulgar e projectar novos talentos artísticos;- incentivar autores a divulgarem os seus trabalhos;- promover debates sobre temas específicos relacionados com a sociedade;- promover e organizar oficinas relacionados com edição de revistas;...adere à campanha de assinaturas da Bíblia!
A campanha consiste na assinatura de quatro números da Revista por 20 Euros, recebendo ainda um número atrasado à tua escolha (totalmente grátis) sendo as revistas enviadas para casa sem ter de se pagar os portes. Se quiseres também podes anunciar as tuas actividades/empresa/instituição na Revista Bíblia. Os leitores podem fazê-lo enviando cheque, vale postal ou mesmo dinheiro para:
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Esta é a altura de fazeres algo pela revista Bíblia. Só com um apoio consciente podemos continuar a fazer revistas livres, publicando os trabalhos que queremos e criando espaço de liberdade. Saludos,

Tiago Gomes
Revista Bíblia
Rua da Boavista, nº76, 2º
1200-068 Lisboa
Tel. 213479241 e 934571627
cimagomes@hotmail.com
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20 de Novembro de 2009


A minha crónica sobre a antologia Portuguesia

pode ser lida também aqui.

Obrigado pelo tempo que lhe possam dedicar.

17 de Novembro de 2009

É hoje já a apresentação do livro de Victor de Oliveira Jorge.
Carregue na imagem para mais pormenores.

12 de Novembro de 2009

SUGESTÃO

Continuando o trabalho de arquivo em www.ruyventura.blogspot.com já estão disponíveis nesta página artigos ou referências de Catarina Nunes de Almeida, Eberhard Geisler, José do Carmo Francisco, Manuel G. Simões e José Vieira sobre alguns livros ou poemas que venho publicando. Desde já agradeço a sua leitura.

CUMBREÑO EM LISBOA

Ocorreu ontem, na sede do Instituto Cervantes em Lisboa, o lançamento de Teorias da Ordem, do poeta espanhol José María Cumbreño, obra editada pelas edições Sempre-em-Pé, com tradução minha para a língua portuguesa. Foram momentos de grande interesse, compartilhados com a apresentação de um livro de Casimiro de Brito, a partir de intervenção de Ángel Guinda.
Entre as palavras que proferi, já como leitor da antologia, talvez sejam uma síntese aceitável aquelas com que terminei:

"Nascido em 1972 na cidade de Cáceres, onde ainda hoje reside, com textos espalhados por várias revistas e poesia (em verso ou em prosa) publicada em livros como Las ciudades de la llanura (2000), Árboles sin sombra (2003), De los espacios cerrados (2006), Estrategias y métodos para la composición de rompecabezas (2008) e Diccionario de dudas (2009) ou na antologia Teorias da Ordem (2009), José María Cumbreño é uma das vozes que mais me interessam na poesia espanhola dos nossos dias. Feita de fragmentos de seres, de espaços e de memórias, que se combinam de forma por vezes inusitada, sem esconder o seu carácter de estilhaços e de escombros provenientes de uma catástrofe verbal, logo existencial, a sua poesia interpela-nos e inquieta-nos com uma ironia discreta, matizada pela nostalgia de quem vê o mundo por um espelho retrovisor. Porque, num mundo como o nosso, é preciso ter a coragem de “Beber de um copo partido. / Acalmar a sede, mesmo com o risco de conhecer a ferida”. Porque, mais tarde ou mais cedo, os estilhaços provocados pela catástrofe chegarão ao coração."


[Da esquerda para a direita: RV, José María Cumbreño, Casimiro de Brito, Ángel Guinda e José Carlos Marques.]

9 de Novembro de 2009

O poema como aventura etnográfica

Eduardo Jorge

Desde os remotos tempos míticos até a contemporaneidade, o poema está entrecruzado por diversas travessias. Travessias estas repletas de aventura, repletas de saber. Passando por diversas épocas e civilizações, o poema, ao seu modo, sobrevive e se transforma, garantindo, inclusive, um estatuto de documento na sua dimensão mais material. Daí um fato questionável do poema ser lido como objeto não apenas em um contexto após as vanguardas históricas, tendo em vista que esta já seria sua condição de existência. Se o poema nos fala de um lugar distante, o mais contemporâneo dos poetas ainda guarda uma dimensão ritual e performática com a palavra. O poema, mesmo inserido em um ambiente digital, guarda o ritmo, o canto e chama a atenção para outros usos da palavra, deslocando-a de sua invisibilidade no mundo informacional, que traz em seu conteúdo o sentido da mensagem. Ainda foi e é, a partir do poema, que diversos escritores, críticos e tradutores realizaram mapeamentos de diversas estirpes, pondo em prática um ofício de cartógrafo, localizando e deslocando diversas poéticas ao redor do mundo. Poética aqui tomada em seu étimo, isto é, seu fazer. Alguns destes fazeres podem ser conferidos em diversas antologias, reunião de escritores ou poetas agrupados por um traço geracional, comunitário ou afirmação em alguma minoria étnica. Frente a isto, um projeto parece interessante para pensar esta questão, sobretudo geracional das antologias. E neste projeto um subtítulo a princípio inquieta: “contraantologia”. Esta “contraantologia”, grafada assim mesmo, chama-se Portuguesia. Organizada pelo poeta e editor Wilmar Silva, Portuguesia parece questionar uma positividade de antologias que operam em um recorte que marca uma linearidade da historiografia literária. Neste aspecto, Portuguesia parece ser um objeto atravessado por uma prática etnográfica, na qual a viagem foi matéria-prima para o organizador que mapeou estas poéticas in loco. O livro comporta 101 poetas agrupados no fato de escreverem em língua portuguesa, em torno do Brasil (o recorte do projeto toca alguns poetas de Minas Gerais), Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Goa, Macau e Galícia.

Choque interno
No livro existe outra inquietação, afinal o poema fala mais alto. Os poemas de cada autor estão distribuídos de maneira randômica, praticamente aleatória, mas com o objetivo de concentrar uma leitura no poema, onde no rodapé da página encontra-se um pequeno código que dará a localização do autor em um índice remissivo contido no final da publicação. Encartado no livro, um DVD faz o papel inverso, com o registro das leituras dos participantes do Portuguesia apresentando os poetas por seus respectivos nomes e países. A presença de um DVD com tais registros de leitura aponta para um passo do projeto que reforça seu trabalho etnográfico com a dicção de cada poeta, isto é, saindo da dimensão da palavra impressa que este choque interno da própria língua portuguesa torna-se evidente. Portanto, o traço justificável que une os poetas neste livro – a língua portuguesa – é frágil e a qualquer momento pode ganhar outros contornos. é com esta “antropologia de uma poética” que Wilmar Silva parece ter iniciado um projeto que possivelmente se desdobrará como acontece com os primeiros resultados de uma expedição etnográfica, que geram índices para novas buscas, novas viagens. Nesta diversidade na qual se insere Portuguesia, o poema traça o seu caminho, porque os desafios para articular novos projetos que desmontem o que já está dado como forma fixa armam novas questões estéticas e políticas para se pensar o fenômeno literário.

Eduardo Jorge é mestre em estudos literários pela UFMG. Organizou o livro de ensaios Areia, animal, arquivo e alcachofra.
fonte: Estado de Minas 07 novembro 2009 caderno Pensar jornal Estado de Minas Belo Horizonte MG Brasil

6 de Novembro de 2009

JOSÉ Mª CUMBREÑO
(entrevista publicada aqui)

El poema como fracaso


Ángel Gómez Espada

José Mª Cumbreño (Cáceres, 1972) es uno de los poetas jóvenes de voz más personal en el actual panorama literario extremeño. Hasta ahora ha publicado Las ciudades de la llanura (Editora Regional, 2000), Árbol sin sombra (Algaida, 2003), Estrategias y métodos para la composición de rompecabezas (El Bardo, 2008), Diccionario de dudas (Calambur, 2009), así como el libro de relatos De los espacios cerrados (Fundación José Manuel Lara, 2006) y la antología bilingüe española-portuguesa Teorias da ordem (Ediçoes Sempre-em-Pé, 2008) [a lançar no próximo dia 11 de Novembro no Instituto Cervantes de Lisboa, pelas 18.15]. Poemas suyos han aparecido en revistas como Turia, El extramundi, Reloj de arena, Müsu, Diversos o Espacio / Espaço Escrito.
En la actualidad dirige la colección Litteratos de la editorial Littera libros y tiene en prensa la segunda edición (revisada) de Las ciudades de la llanura (Ediciones Trashumantes) y el poemario Breve biografía apócrifa de Walt Disney (Algaida)..
Viejo amigo de esta revista nuestra, hemos tenido la oportunidad de hablar con él de sus últimos logros, tanto en su faceta de editor como en la de excelente poeta.

—EL COLOQUIO DE LOS PERROS: ¿En estos tiempos que corren, meterse a editor de poesía se puede considerar un deporte extremo?
—JOSÉ MARÍA CUMBREÑO: Seguramente. Sobre todo si lo que se pretende es vivir de ello. En nuestro caso, a lo único a lo que aspiramos es a publicar libros que creemos necesarios. Por tanto, practicamos el equilibrismo con red. Vamos, que no vivimos de esto, lo que nos permite apostar por autores en función únicamente de su talento. Sin depender de premios ni de otras servidumbres. Los casos de Luis Arturo Guichard, Omar Pimienta, Elena Román o David Yáñez (escritores magníficos de los que oiremos hablar en el futuro) creo que son el ejemplo.
—ECP: Pero entonces, usted es de los que opinan que la poesía vive un momento de salud envidiable.
—JMC: Sí y no. Sí porque nunca ha habido tanta gente escribiendo poemas. No porque encontrar en medio de esa legión a artistas de verdad ya es muchísimo más complicado. En literatura actúa un ingrediente muy peligroso: la vanidad. Y es la vanidad (el hecho de ver el nombre de uno en la portada de un libro) la que empuja a la mayoría a no ser críticos con la obra propia. No parece saludable que el cajón de un escritor se encuentre vacío.
—ECP: ¿Convertir un poema en un rompecabezas es reconocer que se ha fallado con ese poema? O, muy al contrario, ¿es un signo de esa búsqueda de la esencialidad que alguna vez se le ha argumentado a sus poemarios?
—JMC: Todo poema es la constatación de un fracaso. La idea no es mía, por supuesto, pero me parece que describe con precisión lo que cualquier escritor debería sentir al terminar una obra. Precisamente será esa insatisfacción la que lo empujará a iniciar el poema siguiente.
—ECP: En una poética, usted dice que un poema es una casa que se construye con ausencias y presencias. ¿También con dudas, podríamos añadir ahora?
—JMC: Con dudas, recortes, retales, caminos sólo de ida, verdades a medias y mentiras piadosas. Es la asimetría lo que me parece que define la naturaleza humana.
—ECP: Esa metáfora de las puertas como vía por donde entra el poema y por donde comienza la búsqueda es una constante en sus poemarios, creo entender. Entonces, ¿su poesía se nutre más de las puertas que ha ido cerrando o de las puertas que gusta de abrir para observar?
—JMC: En cualquier caso, de huecos por los que pasar o colarse. Las puertas (incluso las que se tapian) son seres misteriosos que cambian a quien los atraviesa.
—ECP: Usted ha afirmado que un poema ha de aspirar a ser pura tensión. ¿Eso es lo que José Mª Cumbreño le pide al poema, por tanto?
—JMC: Es que la poesía debe tensar el idioma hasta llevarlo a decir cosas que habitualmente no dice.
—ECP: Un árbol sin sombra, un diccionario de dudas, una estrategia para componer un rompecabezas… ¿Es así como ve José Mª Cumbreño el poema antes de llevarlo al papel?
—JMC: Supongo que siento debilidad por lo imperfecto.
—ECP: De sus cuentos, tan vinculados a su forma de entender el poema y la poesía dice que son espacios cerrados. ¿No hay, por tanto, en el cuento posibilidad de puertas?
—JMC: Al contrario. Las cárceles se construyeron para huir de ellas. Como los cuentos a los que se refiere. Porque se supone que los textos que componen De los espacios cerrados son cuentos, aunque yo no lo tengo tan claro. La narrativa breve y la poesía comparten su debilidad por el escapismo.
—ECP: ¿Cómo se siente al ver su obra trasvasada a una lengua tan amiga de los extremeños como es el portugués?
—JMC: Como un privilegiado. La consideración que en Portugal se tiene de la poesía no tiene nada que ver con lo que ocurre en España. Pensemos que un autor como Peixoto ha vendido de su último poemario nada menos que 12.000 ejemplares. Eso en nuestro país no lo logra ni el poeta más consagrado [...] A ello hay que unir que la traducción de Teorias da ordem la ha realizado uno de los mejores poetas portugueses, Ruy Ventura, quien estoy seguro de que ha mejorado el original.
—ECP: Con la desaparición, triste para todos, de Ángel Campos Pámpano, ¿ha perdido más la literatura extremeña o la literatura portuguesa?
—JMC: La ibérica.
—ECP: ¿Qué deberían aprender los jóvenes poetas extremeños —por extensión pongamos también a los españoles— de la poesía hecha hoy en Portugal?
—JMC: Su curiosidad por buscar nuevos caminos para la poesía.
—ECP: ¿Qué poemarios de los que han aparecido en los tres últimos años le hubiera gustado incluir en su colección Litteratos?
—JMC: Más que libros en concreto, citaré algunos autores cuyos nombres me encantaría ver en el catálogo Litteratos. Porque sería magnífico contar con algún título de escritores como Déborah Vúkusic, Benito del Pliego, Víctor M. Díez, Susana Medina o Miriam Reyes.

4 de Novembro de 2009

Mário Crespo
in Jornal de Notícias

Os intocáveis

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

2 de Novembro de 2009


NOVO LIVRO
DE PRISCA AGUSTONI
A Editora Vozes convida
para o lançamento do livro de poesia A Recusa, de Prisca Agustoni,
dia 04 DE NOVEMBRO DE 2009 Quarta-Feira 21 HORAS
CASA DA AMÉRICA LATINA
A Casa da América Latina fica na Av. 24 de Julho, 118 B, em Lisboa.

29 de Outubro de 2009


CONVITE

Lançamento de livros
de José María Cumbreño
e Casimiro de Brito


Quarta-feira, 11 de Novembro, às 18:15, no auditório do Instituto Cervantes de Lisboa (Rua de Santa Marta, 43), será feita uma apresentação de dois livros de poesia bilingues.

Um deles, editado pelas Edições Sempre-em-Pé, intitula-se TEORIAS DA ORDEM, sendo o autor José María Cumbreño, que reside em Cáceres, Extremadura. A apresentação será feita por Ruy Ventura, que traduziu para português o original castelhano.

Será igualmente apresentado pelo Poeta espanhol Ángel Guinda um livro de poemas de Casimiro de Brito, também em versão bilingue, em que o texto original português é acompanhado de tradução em espanhol.

Estarão igualmente presentes os autores, José Maria Cumbreño e Casimiro de Brito.
A sessão é organizada por Edições Sempre-em-Pé e pelo Instituto Cervantes de Lisboa.
Agradecemos o seu interesse e a sua presença, bem como a eventual divulgação.


Edições Sempre-em-Pé

http://www.sempreempe.pt/

26 de Outubro de 2009


ÁLVARO VALVERDE
(entrevista publicada no jornal "Hoy")

«Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje de paisajes»

EL PERFIL DE LA FRONTERA
Álvaro Valverde (Plasencia, 1959) da clases en un colegio de su ciudad natal. Ha sido coordinador del Plan Regional de Fomento de la Lectura y ha dirigido la Editora Regional de Extremadura. Fue presidente de la Asociación de Escritores Extremeños y comisario del expotren Marca Extremadura. Es autor de libros de poemas como Una oculta razón (Premio Loewe), A debida distancia, Ensayando círculos, Mecánica terrestre y Desde fuera, de las novelas Las murallas del mundo y Alguien que no existe y de los libros de ensayo literario El lector invisible y Lejos de aquí. Su relación con Portugal viene de antiguo. Fue cofundador de la revista hispano-lusa, en dos lenguas, Espacio/Espaço escrito, a su paso por la Editora Regional abrió una línea, Letras Portuguesas, para dar a conocer libros publicados originalmente en el país vecino. Reconoce haber leído con fervor la poesía portuguesa contemporánea, gracias a las excelentes traducciones, entre otras, de su amigo Ángel Campos Pámpano.


- ¿Qué significa para usted Portugal?
-Quizá porque no lo conozco como debiera, por no haber nacido o vivir allí, un país ideal. Quiero decir que para uno es algo más imaginario que real, más mítico que otra cosa. Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje. Un paisaje, cabe precisar, de paisajes. Una suma de, pongo por caso, el Tras-Os-Montes de Torga y el Alentejo de Andrade; la Lisboa de Cesário Verde o Pessoa y el Algarve de Teresa Rita Lopes, etc. A estas alturas de mi vida no sé si quiero conocer el país concreto o si prefiero quedarme a vivir en el entrevisto a través de unos cuantos viajes y, por encima de todo, en el leído. Por ejemplo, acabo de recorrer, de la mano de António Cândido Franco, los lugares de Pascoaes, en el «noroeste galaico de la Península Ibérica», en torno a la quinta familiar de São João de Gãtao, Amarante y Travassos. En lo esencial, me gusta ver a Portugal como una Extremadura extensa y, lo que no es poco, con mar. Además, y por aquello de la saudade, uno diría que tiene un carácter portugués. Ruy Ventura ha traducido unos poemas míos que bien podrían haber sido escritos en esa lengua: la de la melancolía.
- ¿Qué ha sido lo mejor y lo peor de su contacto con Portugal?
- Lo mejor, todo. No tengo ningún mal recuerdo de esos pocos pero intensos viajes y, menos aún, de lo visto desde fuera o lo leído. No he dejado de ir y venir, primero cruzando la frontera y luego ya sin ella. Por cierto, nunca me pareció menos necesaria. Según creo, el espíritu rayano no sólo afecta a las localidades limítrofes sino a Extremadura entera. Al menos de un tiempo a esta parte y para no pocos extremeños. Lo peor de Portugal, casi para cualquiera que no sea ciudadano portugués, es un conjunto de tópicos que el tiempo se ha encargado de desgastar. Esa hora menos es una bonita metáfora.
-¿Cuál cree que debe ser el papel de Extremadura como región fronteriza?
-El que ha venido jugando. El normal en una relación de favorable vecindad. Como es lógico, a uno le interesa, ante todo, el papel cultural. Espacio/Espaço escrito se encargó de definirlo hace muchos años: dar a conocer lo de aquí allá y viceversa. Respetando, por encima de todo, las lenguas respectivas, que es tanto como decir los correspondientes territorios artísticos, musicales y literarios. De igual a igual. Al fondo, por qué no, puede subyacer un viejo anhelo que sigue siendo tabú: el del iberismo. Pero esa es otra utópica historia.
- ¿Cuáles son sus principales proyectos y retos, de cara al futuro, en su relación con Portugal?
-Ya decía que quizá uno debería conocer Portugal mejor, viajando más por el país. Hay zonas que no conozco; a veces, muy cercanas. No me cabe duda de que seguiré leyendo a los poetas portugueses con la misma pasión de siempre. Por suerte, cuento para ello con excelentes traductores, a pesar de pérdidas tan dolorosas como las de Campos y Merlino.
REVISTA TRIPLOV
DE ARTES, RELIGIÕES E CIÊNCIAS
número 02
fortaleza, brasil - britiande, portugal
novembro de 2009
vasos comunicantes
Editorial Maria Estela Guedes
1. Cripturas Carlos M. Luís
2. MONDO - Literatura e Democracia
Emanuel Dimas Pimenta
3. Cruci-Fiction Carlos M. Acabado
4. Dois vivos e um morto (vivo) Nicolau Saião
5. Caligrafias Utopikus Cirkus
6. Gladys Mendía y la silenciosa desesperación del sueño Valeria Zurano
7. Sombras raptadas - Imagens poéticas de Floriano Martins Nicolau Saião
8. Panorama das livrarias em todo o Brasil Mileide Flores
9. Quem não gosta de J.G. de Araújo Jorge? Cunha de Leiradella
10. Liber Mundi Paulo Brito e Abreu
11. Fabio Amaya: vida en la mancha Sean Funes
12. Esboço de aproximação: obras portuguesas e africanas da hora Maria Lúcia dal Farra
13. Teatro Imposible: La poesía de Floriano Martins David Cortés Cabán
14. La poética de la exactitud de Marcel Kemadjou Gladys Mendía
salão do folhetim
1. A arte curativa dos celtas Maria do Sameiro Barroso Capítulo I Os povos celtas
2. O mundo do Pai Raïssa CavalcantiI - Prometeu, o pai dos homens
3. Histórias brasileiras de arte e artistas Jacob Klintowitz I - Naquela noite o Bardi dormiu tarde obras em processo4. Alta fidelidade Maria Estela GuedesParte I Uma festa punk

Maria Estela Guedes
Rua Direita, 1315100-344 Britiande Portugal
Floriano Martins
Caixa Postal 52817 - Ag. Aldeota
Fortaleza CE 60150-970 BRASIL

21 de Outubro de 2009

NO VELÓRIO DE SARAMAGO

Saramago disse o que disse. Já todos conhecemos o génio comercial desse "mau escritor talentoso" (como o definiu um europeu galardoado com o Nobel da Literatura), geralmente associado ao disparate. Muito se tem comentado. Ateus, católicos, judeus, protestantes e outros mais indefinidos vêm dizendo de sua justiça. Uns bem e outros mal, uns com demasiada fartura, outros com infeliz magreza.
Quanto a mim - perdoem-me... -, não quero gastar velas com ruins defuntos. Sinceramente, não vale a pena comentar as palavras de alguém com tão pouca autoridade moral e ética.

16 de Outubro de 2009


VIRNA TEIXEIRA



Detox


Enrolou os ferimentos em gaze. Feridas cicatrizam com o tempo. Ainda que restem entalhes. Memórias desenhadas nos ossos, adornos.

Tirou fotografias como registros. Meses após o trauma. Sem sangue nas conjuntivas.

Deixou para trás a câmera. Travesseiro, lençol branco, a água morna do banho. Inverno, lembrança noturna.

A transformação do rosto. Quando retirou as ataduras, as suturas.

No dia da partida, árvores. De perfil no trem, a luz sobre os cabelos, castanhos.



Titan


contava histórias
nos desenhos
da pele


mensageiro do submundo
mercúrio


um vulto
de mãos velozes
na poeira lunar


em trânsito
visões onde


se escondeu
das crateras
sulcos - mofados


na outra
superfície


Virna Teixeira nasceu em 1972 na cidade de Fortaleza, mas vive desde há vários anos em São Paulo (Brasil). Os dois poemas publicados são retirados do seu livro Trânsitos, recentemente publicado na Lumme Editor. Gostei da sua maneira de escrever logo na primeira leitura, acontecida numa antologia da nova poesia brasileira publicada entre nós. Da maneira como lida com uma linguagem elíptica, criadora de segredos e de um mundo suspenso, prestes a acontecer ou ainda acontecendo. Do "quase", do não-dito ou por-dizer. Corpos, os poemas não se abrem; deixam que sejamos nós a abri-los lentamente. Ou permitem a construção de uma relação interactiva, sempre inacabada e, por isso, incessante.

9 de Outubro de 2009


Um comentário de João Miguel Henriques sobre Chave de ignição pode ser lido aqui. Obrigado pela vossa leitura!

7 de Outubro de 2009


PORTUGUESIA
– AO SERVIÇO DO VERBO


Não é com ingenuidade que se coloca num volume com cerca de 500 páginas o subtítulo “Contraantologia”. Nem é com inocência que um dos primeiros poemas incluídos nesse tomo afirma que “ou se gosta / ou não se gosta”, concluindo – antes dum peremptório “eu” – ser “impossível determinar o conteúdo deste livro” e acabando por sugerir: “podes chamar-lhe poesia, podes chamar-lhe nevoeiro”. Os ágrafos – a quem este trabalho monumental do poeta mineiro Wilmar Silva é dedicado – terão certamente uma palavra a dizer, agentes de um trabalho de dissolução da autoria, que (num mais ou menos longo e mais ou menos complexo processo de produtransmissão) conduziu sempre ao desaparecimento da paternidade/maternidade do texto e ao seu anonimato. Também não será inconsciente a colocação na capa do primeiro volume da Portuguesia uma reminiscência do primeiro símbolo nacional dos falantes de língua portuguesa – cruz azul sobre prata –, a lembrar talvez os propósitos deste projecto: descer às raízes da língua e da sua palavra para aí descobrir a autenticidade poética de um vasto mundo, transversal a vários continentes.

*

Afirmar que uma antologia é o seu contrário exige resultados consequentes. Contrariar hábitos instalados – quase nunca justificados e nem sempre justificáveis – obriga a uma responsabilidade acrescida.
Convenhamos. Há antologias de poemas e há antologias de poetas. Às primeiras interessa a palavra, servida estética e/ou filosoficamente – os poemas, tornados quase anónimos, neles buscando e apresentando valores intrínsecos. Nas segundas, são os autores que determinam tudo ou quase tudo – mais como ícones do que como índices, para utilizar os termos felizes de E. M. Melo e Castro –, enquanto figuras históricas, localizadas no espaço e/ou no tempo, rodeadas ou não de notoriedade pública. São olhares completamente diferentes sobre o texto: num caso, interessa a Poesia; no outro, a Literatura, a sua História e/ou a sua Sociologia. As primeiras (independentemente do seu nível de conseguimento estético e da capacidade de organização do antologiador) serão sempre obras de arte, na sua composição entrelaçada, entrançada. As segundas só terão interesse enquanto objectos de estudo histórico, quando a elas preside um desejo de registo, de homenagem ou de afirmação, a vontade recuperar uma memória perdida ou o propósito de analisar o tratamento dado a um determinado tema num tempo mais ou menos alargado; a consideração artística da antologia dificilmente terá em conta o livro inteiro, mas cada um dos poemas, enquanto objecto de Arte individual.
Wilmar Silva, ao organizar a sua Portuguesia, escolheu – quanto a mim – o melhor caminho. Deixando para o final do livro a indicação da autoria dos poemas irmanados ao longo de mais de quatro centenas de páginas, colocou-se ao serviço da palavra – logo, da Poesia – transformando o seu trabalho numa obra de Arte que nos obriga a uma aproximação global da sequência, seja qual for a nossa opinião sobre cada um dos textos escolhidos. Colocados como estão, os 484 poemas apresentam mesmo uma linha que tem tanto de narrativa quanto de ensaio – a requerer uma leitura múltipla, unificada e unificante.
Esta “contraantologia” corresponde, portanto, a uma abordagem conceptual da poesia que se faz hoje em Portugal, no Brasil (Minas Gerais), em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Valorizando a palavra, opõe-se à valorização do autor enquanto ícone de fama e de notoriedade, quantas vezes sem capacidade fazedora correspondente, não conseguindo sair da mera produção epigonal, inofensiva.

*

Um livro como este tem a vantagem da surpresa, se nos deixarmos levar pela proposta do seu edificador. O jogo estruturado por Wilmar Silva não facilita a identificação do autor do poema lido, embora a permita. É essa organização que, no entanto, valoriza a obra. Deslumbramo-nos com poemas de autores que desconhecíamos, desgostamo-nos com textos de poetas estimados, confirmamos adesões ou exclusões, percebemos quanto trabalhou o poeta de Yguarani para encontrar na produção de um determinado nome algo que não fosse indigno.

*

Ao ler uma e outra vez este grosso volume – acompanhado por um dvd em que os poemas surgem ditos pelos seus autores empíricos – tentei não falsear a proposta desta obra de Arte. Fui lendo e apontando os códigos alfanuméricos que ladeiam cada poema, para no final estabelecer a minha lista de preferências – não de poetas, mas de poemas. Não me custa afirmar que li com muito gosto os textos de Adolfo Maurício Pereira, Adriano Menezes, Alexandre Nave, Ana B., Ana Viana, André Sebastião, Arménio Vieira, Daniel Bilac, E. M. Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Fabrício Marques, Fernando Aguiar, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Guido Bilharinho, Iacyr Anderson Freitas, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Joaquim Palmeira, Jorge Melícias, José Luís Peixoto, José Rui Teixeira, Luiz Edmundo Alves, Márcio Almeida, Márcio Catunda, Milton César Pontes, Narciso Durães, Nuno Rebocho, Pedro Mexia, Prisca Agustoni, Rui Costa, Rui Lage, Tânia Alice, Valter Hugo Mãe, Wagner Moreira – entre outros que não menciono aqui para não alongar a lista.
Nuns casos confirmei preferências antigas; noutros, surpreendi-me a apreciar poemas de autores cuja obra pouco considero; especialmente saborosas foram as descobertas de poéticas completamente desconhecidas, inclusive de autores residentes dentro do rectângulo ibérico que é Portugal.

*

Há exclusões “lamentáveis” – como diria um crítico sem boas intenções ou um poeta despeitado? Ausências, sim. Exclusões, não, muito menos “lamentáveis”. Wilmar Silva pretende editar outros volumes da sua Portuguesia em que muitos ausentes se farão presentes, numa demanda que lhe ocupará a vida inteira – conforme confidenciou no encontro ocorrido em Julho passado, no Centro de Estudos Camilianos, em Seide. Quanta gente precisa de cartografar no oceano da poesia escrita em língua portuguesa! O esforço valerá a pena, certos estando de que continuará a contrantologiar, isto é, a valorizar os poemas – porque a Poesia se faz com eles, como afirmou Ruy Belo –, relegando os poetas para o lugar discreto que lhes compete.


NOTA: Portuguesia é editada pela Anome Livros, sediada em Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil). Página: www.anomelivros.com.br Endereço electrónico: anomelivros@anomelivros.com.br


Publicado aqui:
http://www.triplov.com/poesia/ruy_ventura/2009/portuguesia.htm a 2/10/2009


A revista Notícias Sábado, do Diário de Notícias, publicou no passado fim-de-semana uma recensão de Maria Augusta Silva sobre o meu mais recente livro de poemas, Chave de ignição. Está disponível também aqui. Na minha página pessoal pode também ser lido a nota introdutória desse livro, assinada por Gonçalo M. Tavares.

2 de Outubro de 2009


Revista Confraria chega a Portugal


Periódico binacional oferece um amplo e irreverente panorama da arte, literatura e reflexão crítica contemporâneas.
Após quatro anos de contribuição para a literatura e crítica de língua portuguesa, com um formato online de prestígio internacional e mais de cinco milhões de acessos, a Revista Confraria converte-se numa edição impressa bimestral, editada simultaneamente no Rio de Janeiro e em Lisboa e com contribuições regulares de autores brasileiros e portugueses.

Após o lançamento no Brasil no passado dia 14 de Setembro, o número inaugural da Confraria chega finalmente a Portugal, numa distribuição que procurará chegar a número crescente de bancas e livrarias. Para além de dossiês sobre vanguardas internacionais, perfis de autores menos conhecidos e entrevistas, a revista oferece também textos críticos, filosóficos, contos e poesia, sendo cada edição ilustrada por um artista plástico convidado. Adicionalmente, a revista conta com um conjunto de colunistas fixos de importante projecção, entre eles Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Gonçalo M. Tavares, Carlos Felipe Moisés, Clóvis Bulcão e valter hugo mãe. Neste primeiro número o leitor pode encontrar, entre outras pérolas, material inédito de Arnaldo Antunes, Gonzalo Rojas, Maria do Rosário Pedreira, Octávio Paz, Raimundo Carrero e E.M. de Melo e Castro.Em Portugal, a Revista Confraria é coordenada por João Miguel Henriques (para qualquer contacto editorial ou pedido de encomenda escrever para: joao@confrariadovento.com).

O primeiro número encontra-se já à venda nas seguintes livrarias de Lisboa (com a certeza de que muito em breve estará também disponível nas cidades do Porto e Coimbra): Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa) Trama (R. São Filipe Nery) Letra Livre (Calçada do Combro) Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)

1 de Outubro de 2009

CONVERSA COM

FERNANDO RODRIGUES DE ALMEIDA



“Na nossa sociedade ser ‘semita’ é mau, e por isso se nega a importância que alguns povos semitas, particularmente os fenícios, tiveram para a vida na antiguidade”, afirma o investigador.


Fernando Rodrigues de Almeida (n. 1960) - fundador da Quercus, escritor e investigador - acaba de publicar um livro que merece toda a nossa atenção. Intitula-se O Outro Lado da História e saiu com a chancela da Câmara Municipal de Odemira, vila onde desenvolve actividade docente na Escola Secundária local. Embora um olhar comodista procure arrumar a sua obra no campo das monografias com interesse meramente local, o facto indesmentível é que o seu estudo tem um enorme interesse para o entendimento das raízes mais remotas da cultura portuguesa, radicadas numa herança fenícia / cartaginesa, que foi sendo ocultada a partir do domínio político do Império Romano, o qual teve como principal opositor na Península Ibérica e no Norte de África precisamente o poder de Cartago. Traz-nos ainda uma sólida leitura da chamada “Escrita do Sudoeste”, que teimosamente alguns investigadores e divulgadores continuam a apresentar como indecifrável. A investigação de Fernando Almeida não dispensa ainda um olhar sobre alguma toponímia e documentação ligada ao litoral alentejano, provando quanto uma visão atenta da nomeação do espaço não consegue desviar-se do encontro com fósseis do falar semita das camadas populares do nosso país.
Resolvemos conversar um pouco com autor a propósito dessa edição. Aqui ficam as respostas de um homem que não tem medo de remar contra a maré de alguns cuja principal preocupação é demolir o conhecimento com insinuações, sem apresentar argumentos científicos minimamente sólidos para a sua discordância.




O seu livro intitula-se “O Outro Lado da História” e defende um visão pouco consensual dos tempos mais remotos do território hoje português. Que outro lado é esse?

O povo deste canto da Península, povo que depois de vencido pelo império romano não mais deixou de ser gente anónima sem direito à sua própria História, é efectivamente o objecto de estudo deste livro. Sigo-o desde o tempo em que possuía os seus próprios chefes e escrevia a sua língua no seu próprio alfabeto (a que chamamos hoje “escrita do Sudoeste”), até aos nossos dias, em que tanto a escola como os poderosíssimos meios de comunicação social tentam esmagar o mais possível os vestígios da antiga língua de origem fenícia, uniformizando todos os falares regionais à norma urbana de base latina. Esse é O Outro Lado da História, mas é essa a nossa verdadeira História, e que no essencial está por escrever. A que conhecemos, é a dos generais romanos, dos reis bárbaros, dos emires árabes, das famílias reais europeias; é a História de todos os que nos tentaram (com mais ou menos sucesso) impor a sua língua, forma de pensar e cultura; a quem pagámos impostos e de quem fomos escravos, servos, criados ou mesmo trabalhadores pobres e indiferenciados. Sabemos a História das elites. O povo no entanto não escreveu a sua História, e nem sequer falou a língua das elites. Redescobrir essa língua, quer pela decifração da escrita do Sudoeste, quer pela toponímia, pelas lendas, ou mesmo pela língua portuguesa actual, é a essência desse O Outro Lado da História. Evidentemente que esta perspectiva terá que ser sempre pouco consensual…

Até que ponto a sua visão foi influenciada pelos livros de Moisés Espírito Santo?

Moisés Espírito Santo é nesta matéria o pioneiro que para além de muitos outros méritos tem o de estabelecer a relação fundamental entre o português e o fenício. Sem ele, provavelmente a escrita do Sudoeste continuaria indecifrada por se desconhecer a língua em que os textos teriam sido escritos.

Que confirmação no terreno o levou a concordar com esse autor?

Tudo no terreno apoia a tese inicial de Moisés Espírito Santo, e só não o verá quem obstinadamente o não quiser ver. Há centenas de exemplos nos quais o investigador tropeça a cada dia. Um exemplo de entre muitos que constam do O Outro Lado da História, e de muitos outros que se poderiam dar: o topónimo “Malavado” provém de “mal av ad”, e significa em fenício “poço de águas subterrâneas que transborda”; em todos os locais com este nome (ou nomes parecidos, como “Malvado”, “Mal Lavada”, etc.) existe grande abundância de água, e poços artesianos. Tudo o mais, na toponímia, nas lendas, no nosso falar actual, etc. mostra claramente que se falou “fenício” por aqui.

Propõe uma leitura inovadora da chamada “Escrita do Sudoeste” numa época em que ainda ouvimos alguns académicos, historiadores e arqueólogos afirmarem que ela é indecifrável. Onde se alicerça a sua audácia, se ela existe?

A proposta de decifração que faço é fruto de perto de 15 anos de trabalho, e não lhe vejo nenhuma audácia, mas apenas alguma intuição combinada com muito trabalho e esforço dedutivo. É normal que haja resistências ao meu trabalho, quer pela natural tendência do ser humano de desconfiar do que é novo, quer porque é efectivamente complexo todo o processo de decifração e tradução, e eventualmente nem todos serão capazes de o compreender com facilidade…

De onde virá a resistência do meio académico português à aceitação de um passado semita da nossa cultura?

A ciência, como todos sabemos, é feita por gente, e a gente, cientista ou não, tem preconceitos que afectam a sua visão e compreensão do mundo. Na nossa sociedade ser “semita” é mau, e por isso se nega a importância que alguns povos semitas, particularmente os fenícios, tiveram para a vida na antiguidade, o que às vezes acaba por roçar o ridículo. Para nós, seria bom por exemplo ter origens gregas, era tão bom que até já houve quem pretendesse encontrar em Ulisses o fundador de Lisboa…
Palermices à parte, devem ter sido os romanos quem mais denegriu o nome dos seus inimigos mais perigosos – os fenícios, que estavam instalados em Cartago, na Península Ibérica e grande parte da bacia do Mediterrâneo. Os documentos escritos que se conservaram ao longo dos séculos são romanos, dos seus aliados, e de elites religiosas e intelectuais europeias que se filiam na cultura latina, e daí o preconceito que passa de geração em geração entre investigadores e académicos. Na nossa cultura gostamos tão pouco de povos semitas que até dizemos que foram os judeus a matar Cristo, como se Cristo não fosse ele próprio judeu…

Na sua opinião, como se deu a introdução dos falares fenícios / cartagineses em território do ocidente peninsular?

Esta é uma questão complicada para a qual não tenho uma resposta segura. Parece plausível que os povos portadores da agricultura e do Neolítico fossem semitas. A agricultura é uma actividade complexa que não é fácil de dominar sem uma vivência quotidiana prolongada, e foram semitas os povos que primeiro a desenvolveram. Parece portanto tentador admitir que o povo que trouxe a agricultura tenha trazido a língua. Mas há topónimos que têm uma distribuição que sugere uma ocupação do território mais tardia; por outro lado, é igualmente tentador admitir que o povo da escrita do Sudoeste tenha chegado na época em que foram feitas as inscrições, ou seja, no Bronze Final e início da Primeira Idade do Ferro; seria portanto uma vaga de colonos fenícios a chegar e impor a língua… Penso que neste momento ainda não se podem ter certezas nesta matéria.

Que manifestações ainda existem dessa maneira de falar e dessa cultura?

Há muitíssimas marcas dessa língua, que de resto sobrevive mesmo no português padrão: quando dizemos “chão”, “curral”, “labareda”, etc., etc., estamos a usar palavras fenícias. Penso que é essa influência fenícia que cria as particularidades das línguas ibéricas (em especial do português) no contexto das línguas latinas. No que se refere à cultura teremos certamente muitas marcas, a começar pela religião popular: quem leia o Antigo Testamento encontrará nele descrições que podiam ser aplicadas aos nossos santuários rurais.

Que é preciso fazer para continuar a aprofundar esse veio da nossa identidade cultural?

É necessário prosseguir com este tipo de trabalho baseado no estudo da língua e da cultura popular, pois é aí que reside a verdadeira essência do “ser português”. Com mais investigadores, mais tempo, mais trabalho, novos e mais profundos conhecimentos surgirão. Haverá ganhos até ao nível do conhecimento das línguas mortas como o ugarítico ou o acádio, já que mantemos no português termos comuns a essas línguas e ainda hoje se pode ver o contexto em que são usados, o que pode mesmo ajudar a melhorar traduções de textos antigos. Há portanto todo um mundo a explorar, assim haja quem o trabalhe.

Também escreve contos, estreitamente ligados à memória do espaço e dos seres que o habitam, como é visível em Histórias ao Serão [2009]. Existe alguma relação entre o seu trabalho como investigador e aquele que desenvolve escrevendo a partir da memória local?

As historinhas que escrevo mergulham na cultura rural que tento conhecer o melhor possível, e esse é o único elo de ligação à investigação histórica e linguística. São histórias simples e sem pretensões, mas que retratam o mundo rural antigo, e que penso que se consigam ler com gosto. Eu pelo menos gostei de as escrever.

25 de Setembro de 2009

FABRÍCIO MARQUES


Mini Litania de Política Editorial

Me suplica que eu te publico
Me resenha que eu te critico
Me ensaia que eu te edito
Me critica que eu te suplico
Me edita que eu te cito
Me analisa que eu te critico
Me cita que eu te publico
Me publica


(Publicado por Wilmar Silva na página 214 da contrantologia Portuguesia, recentemente editada.)

23 de Setembro de 2009


WILMAR SILVA





arranjo de gaivotas e pampulha, dia 31


eu-menino-do-campo, te faço conviva
e digo que a palavra que escrevo é
origem, invento gaivotas no sertão
ilha é meu corpo de encontro ao teu
aqui, longe, após o inverno da tempestade
verto o amálgama da pampulha veleiro
arco-íris que choram de solidão, eu
agora impávido e celeste, anjo de fogo
eu-espelho d' agua, narciso e orfeu
flautas e flores, eu-pássaro cais e flora -



Creio que este poema é a chave que nos permite entrar na poesia de Wilmar Silva, recentemente publicada em Portugal num volume intitulado Yguarani (Edições Cosmorama). Autor de uma obra invulgar e inclassificável no espaço lusófono, Joaquim Palmeira (outro dos nomes com que assina os seus textos) nasceu a 30 de Abril de 1965 em Rio Paranaíba (Minas Gerais, Brasil) e coordena o projecto Portuguesia, cuja primeira contrantologia foi lançada no passado mês de Julho em Seide, no Centro de Estudos Camilianos. Conhecer melhor o seu trabalho é possível através do seu blogue Cachaprego.

21 de Setembro de 2009

“Cultura no Centro”
sábado, dia 26 de Setembro, às 17 horas
Novos caminhos da poesia portuguesa em análise
Poetas, críticos e livreiros
debatem o rumo da poesia portuguesa contemporânea

O Dolce Vita Porto vai receber, no dia 26, às 17h, os poetas Manuel António Pina, Fernando Guimarães, Rosa Alice Branco, Catarina Nunes de Almeida e Emílio Remelhe para um debate inteiramente dedicado à poesia portuguesa. A livreira Dina Ferreira, proprietária da Poetria, também participa neste encontro que, durante hora e meia, se propõe analisar a "expressão máxima do génio literário português", na opinião de vários especialistas.Organizado pelo jornalista Sérgio Almeida nos últimos sábados de cada mês, o ciclo “Cultura no Centro” debate temas relacionados com as artes, reunindo um naipe alargado de criadores e responsáveis.
A literatura infanto-juvenil, a banda desenhada e a edição foram os temas inaugurais do ciclo.
O encontro tem lugar no piso 2 de descanso do Shopping.

18 de Setembro de 2009



Esta é, em português, a primeira edição de um livro do escritor espanhol José María Cumbreño. A antologia poética intitula-se Teorias da Ordem e é traduzida do espanhol por Ruy Ventura. A obra é publicada pelas Edições Sempre-em-Pé, na sua colecção UniVersos. (Quem carregar na imagem da contracapa poderá ler um dos poemas do livro; brevemente serão divulgados outros neste espaço.)

17 de Setembro de 2009


ALGUNS POEMAS
DE RUI ALMEIDA

O brilho da névoa
Uma febre luminosa arrastada adiante
Todos os pés de quem passa sem ruído
Sempre longe o mínimo tremor
E o vento, uma toalha solta agitada
Há os que dizem coisas por não as saberem
E os que olham passam suspensos
Os dias são sinais, são tardes inteiras
Corrosão que pode ser dita
Actualizada a cada momento
Tentativas sem sucesso para avançar
A destreza dos barcos nos dias de chuva
Ou a lentidão observada à distância.


*


1.
A nitidez da folha rasgada
Da falha corroída no centro
Sugere o movimento de quem caminha
De quem não sabe aonde ir

Mas que não espera, mas que não se esconde


2.
Quando se projecta no vidro a sombra
De um ser que voa e voando surge
Nunca pássaro, nunca anjo, sempre sombra
Que se ausenta sendo visível e certo

Então de luz o olho de repente arde


3.
Da deslocação para a margem se envolve
A presença da minúcia, o reflexo
Raro a sedução pela distância ou
Qualquer tentativa de aumentar a queda

Porém de novo se alimenta o sopro da pobreza


Saídos do seu primeiro livro, Lábio Cortado (uma estreia que não envergonharia ninguém – tanto mais que recebeu o Prémio Manuel Alegre – 2008, instituído pela Câmara Municipal de Águeda), estes poemas de Rui Almeida são, quanto a mim, os pontos mais luminosos da colectânea. Não dispensam contudo a visitação da obra inteira – editada pela Livro do Dia Editores, sediada em Torres Vedras –, a qual conta com o posfácio de Paulo Sucena, um dos membros do júri que decidiu galardoá-la.

16 de Setembro de 2009


ALGUNS POEMAS DE
JOÃO MIGUEL HENRIQUES



A ideia


e no momento exacto da compreensão
no preciso fulgor do entendimento
esse fugaz instante gasoso
entre a apreensão da língua
e a ideia consagrada
decidi fechar os olhos
apertar os punhos com força
retorcido sobre mim mesmo

era para ver apenas
se poderia suceder
a palavra ser só palavra
nada mais que linguagem
nada mais que um som despido
liberto de todo o sentido
matéria sem peso violento

a ausência da ideia
essa puta opressora



P. M.

eles vão sobreviver-te, tu sabes disso

por isso odeia-os profundamente
desprezas os membros ágeis
os olhos com dúvida e tempo

sabes que as tuas palavras sábias
não ecoarão para além da morte

e eles vão sobreviver-te, naturalmente
sem a tua linguagem
e esquecidos da tua memória



A erva alta

teria podido escrever os outros versos
soubesse eu da erva alta lá por fora
a que cresce nociva
junto ao muro da casa
e a mais distante, junto à estrada,
rasteira e inútil

teria alcançado a estância mais pura
soubesse ainda dizer as verdades
da erva a roçar-me pelos flancos



Poemas publicados em Também a memória é algum conhecimento, recentemente editado no Brasil na Lumme Editor, sediada em São Paulo. João Miguel Henriques (Cascais, 1978) estreou-se com O Sopro da Tartaruga, tendo divulgado desde aí textos seus em várias revistas e páginas em linha. É autor do blogue Quartos Escuros (www.quartosescuros.blogspot.com).
Este livro, para além das suas linhas de sentido e de fuga (que me dispenso de comentar, incitando o leitor à descoberta e à sua silenciosa indagação), deveria obrigar-nos a reflectir seriamente sobre as razões que levam cada vez mais poetas portugueses a verem publicados no estrangeiro os seus escritos, quando dentro de casa são relegados para um lugar que não merecem.

14 de Setembro de 2009


"Igreja Nova de Nossa Senhora d' Alva, Templo da Memória"
(sobre a matriz de Aljezur)
disponível aqui.

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