CONVITE

Lançamento de livros
de José María Cumbreño
e Casimiro de Brito


Quarta-feira, 11 de Novembro, às 18:15, no auditório do Instituto Cervantes de Lisboa (Rua de Santa Marta, 43), será feita uma apresentação de dois livros de poesia bilingues.

Um deles, editado pelas Edições Sempre-em-Pé, intitula-se TEORIAS DA ORDEM, sendo o autor José María Cumbreño, que reside em Cáceres, Extremadura. A apresentação será feita por Ruy Ventura, que traduziu para português o original castelhano.

Será igualmente apresentado pelo Poeta espanhol Ángel Guinda um livro de poemas de Casimiro de Brito, também em versão bilingue, em que o texto original português é acompanhado de tradução em espanhol.

Estarão igualmente presentes os autores, José Maria Cumbreño e Casimiro de Brito.
A sessão é organizada por Edições Sempre-em-Pé e pelo Instituto Cervantes de Lisboa.
Agradecemos o seu interesse e a sua presença, bem como a eventual divulgação.


Edições Sempre-em-Pé

http://www.sempreempe.pt/

ÁLVARO VALVERDE
(entrevista publicada no jornal "Hoy")

«Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje de paisajes»

EL PERFIL DE LA FRONTERA
Álvaro Valverde (Plasencia, 1959) da clases en un colegio de su ciudad natal. Ha sido coordinador del Plan Regional de Fomento de la Lectura y ha dirigido la Editora Regional de Extremadura. Fue presidente de la Asociación de Escritores Extremeños y comisario del expotren Marca Extremadura. Es autor de libros de poemas como Una oculta razón (Premio Loewe), A debida distancia, Ensayando círculos, Mecánica terrestre y Desde fuera, de las novelas Las murallas del mundo y Alguien que no existe y de los libros de ensayo literario El lector invisible y Lejos de aquí. Su relación con Portugal viene de antiguo. Fue cofundador de la revista hispano-lusa, en dos lenguas, Espacio/Espaço escrito, a su paso por la Editora Regional abrió una línea, Letras Portuguesas, para dar a conocer libros publicados originalmente en el país vecino. Reconoce haber leído con fervor la poesía portuguesa contemporánea, gracias a las excelentes traducciones, entre otras, de su amigo Ángel Campos Pámpano.


- ¿Qué significa para usted Portugal?
-Quizá porque no lo conozco como debiera, por no haber nacido o vivir allí, un país ideal. Quiero decir que para uno es algo más imaginario que real, más mítico que otra cosa. Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje. Un paisaje, cabe precisar, de paisajes. Una suma de, pongo por caso, el Tras-Os-Montes de Torga y el Alentejo de Andrade; la Lisboa de Cesário Verde o Pessoa y el Algarve de Teresa Rita Lopes, etc. A estas alturas de mi vida no sé si quiero conocer el país concreto o si prefiero quedarme a vivir en el entrevisto a través de unos cuantos viajes y, por encima de todo, en el leído. Por ejemplo, acabo de recorrer, de la mano de António Cândido Franco, los lugares de Pascoaes, en el «noroeste galaico de la Península Ibérica», en torno a la quinta familiar de São João de Gãtao, Amarante y Travassos. En lo esencial, me gusta ver a Portugal como una Extremadura extensa y, lo que no es poco, con mar. Además, y por aquello de la saudade, uno diría que tiene un carácter portugués. Ruy Ventura ha traducido unos poemas míos que bien podrían haber sido escritos en esa lengua: la de la melancolía.
- ¿Qué ha sido lo mejor y lo peor de su contacto con Portugal?
- Lo mejor, todo. No tengo ningún mal recuerdo de esos pocos pero intensos viajes y, menos aún, de lo visto desde fuera o lo leído. No he dejado de ir y venir, primero cruzando la frontera y luego ya sin ella. Por cierto, nunca me pareció menos necesaria. Según creo, el espíritu rayano no sólo afecta a las localidades limítrofes sino a Extremadura entera. Al menos de un tiempo a esta parte y para no pocos extremeños. Lo peor de Portugal, casi para cualquiera que no sea ciudadano portugués, es un conjunto de tópicos que el tiempo se ha encargado de desgastar. Esa hora menos es una bonita metáfora.
-¿Cuál cree que debe ser el papel de Extremadura como región fronteriza?
-El que ha venido jugando. El normal en una relación de favorable vecindad. Como es lógico, a uno le interesa, ante todo, el papel cultural. Espacio/Espaço escrito se encargó de definirlo hace muchos años: dar a conocer lo de aquí allá y viceversa. Respetando, por encima de todo, las lenguas respectivas, que es tanto como decir los correspondientes territorios artísticos, musicales y literarios. De igual a igual. Al fondo, por qué no, puede subyacer un viejo anhelo que sigue siendo tabú: el del iberismo. Pero esa es otra utópica historia.
- ¿Cuáles son sus principales proyectos y retos, de cara al futuro, en su relación con Portugal?
-Ya decía que quizá uno debería conocer Portugal mejor, viajando más por el país. Hay zonas que no conozco; a veces, muy cercanas. No me cabe duda de que seguiré leyendo a los poetas portugueses con la misma pasión de siempre. Por suerte, cuento para ello con excelentes traductores, a pesar de pérdidas tan dolorosas como las de Campos y Merlino.
REVISTA TRIPLOV
DE ARTES, RELIGIÕES E CIÊNCIAS
número 02
fortaleza, brasil - britiande, portugal
novembro de 2009
vasos comunicantes
Editorial Maria Estela Guedes
1. Cripturas Carlos M. Luís
2. MONDO - Literatura e Democracia
Emanuel Dimas Pimenta
3. Cruci-Fiction Carlos M. Acabado
4. Dois vivos e um morto (vivo) Nicolau Saião
5. Caligrafias Utopikus Cirkus
6. Gladys Mendía y la silenciosa desesperación del sueño Valeria Zurano
7. Sombras raptadas - Imagens poéticas de Floriano Martins Nicolau Saião
8. Panorama das livrarias em todo o Brasil Mileide Flores
9. Quem não gosta de J.G. de Araújo Jorge? Cunha de Leiradella
10. Liber Mundi Paulo Brito e Abreu
11. Fabio Amaya: vida en la mancha Sean Funes
12. Esboço de aproximação: obras portuguesas e africanas da hora Maria Lúcia dal Farra
13. Teatro Imposible: La poesía de Floriano Martins David Cortés Cabán
14. La poética de la exactitud de Marcel Kemadjou Gladys Mendía
salão do folhetim
1. A arte curativa dos celtas Maria do Sameiro Barroso Capítulo I Os povos celtas
2. O mundo do Pai Raïssa CavalcantiI - Prometeu, o pai dos homens
3. Histórias brasileiras de arte e artistas Jacob Klintowitz I - Naquela noite o Bardi dormiu tarde obras em processo4. Alta fidelidade Maria Estela GuedesParte I Uma festa punk

Maria Estela Guedes
Rua Direita, 1315100-344 Britiande Portugal
Floriano Martins
Caixa Postal 52817 - Ag. Aldeota
Fortaleza CE 60150-970 BRASIL
NO VELÓRIO DE SARAMAGO

Saramago disse o que disse. Já todos conhecemos o génio comercial desse "mau escritor talentoso" (como o definiu um europeu galardoado com o Nobel da Literatura), geralmente associado ao disparate. Muito se tem comentado. Ateus, católicos, judeus, protestantes e outros mais indefinidos vêm dizendo de sua justiça. Uns bem e outros mal, uns com demasiada fartura, outros com infeliz magreza.
Quanto a mim - perdoem-me... -, não quero gastar velas com ruins defuntos. Sinceramente, não vale a pena comentar as palavras de alguém com tão pouca autoridade moral e ética.

VIRNA TEIXEIRA



Detox


Enrolou os ferimentos em gaze. Feridas cicatrizam com o tempo. Ainda que restem entalhes. Memórias desenhadas nos ossos, adornos.

Tirou fotografias como registros. Meses após o trauma. Sem sangue nas conjuntivas.

Deixou para trás a câmera. Travesseiro, lençol branco, a água morna do banho. Inverno, lembrança noturna.

A transformação do rosto. Quando retirou as ataduras, as suturas.

No dia da partida, árvores. De perfil no trem, a luz sobre os cabelos, castanhos.



Titan


contava histórias
nos desenhos
da pele


mensageiro do submundo
mercúrio


um vulto
de mãos velozes
na poeira lunar


em trânsito
visões onde


se escondeu
das crateras
sulcos - mofados


na outra
superfície


Virna Teixeira nasceu em 1972 na cidade de Fortaleza, mas vive desde há vários anos em São Paulo (Brasil). Os dois poemas publicados são retirados do seu livro Trânsitos, recentemente publicado na Lumme Editor. Gostei da sua maneira de escrever logo na primeira leitura, acontecida numa antologia da nova poesia brasileira publicada entre nós. Da maneira como lida com uma linguagem elíptica, criadora de segredos e de um mundo suspenso, prestes a acontecer ou ainda acontecendo. Do "quase", do não-dito ou por-dizer. Corpos, os poemas não se abrem; deixam que sejamos nós a abri-los lentamente. Ou permitem a construção de uma relação interactiva, sempre inacabada e, por isso, incessante.

PORTUGUESIA
– AO SERVIÇO DO VERBO


Não é com ingenuidade que se coloca num volume com cerca de 500 páginas o subtítulo “Contraantologia”. Nem é com inocência que um dos primeiros poemas incluídos nesse tomo afirma que “ou se gosta / ou não se gosta”, concluindo – antes dum peremptório “eu” – ser “impossível determinar o conteúdo deste livro” e acabando por sugerir: “podes chamar-lhe poesia, podes chamar-lhe nevoeiro”. Os ágrafos – a quem este trabalho monumental do poeta mineiro Wilmar Silva é dedicado – terão certamente uma palavra a dizer, agentes de um trabalho de dissolução da autoria, que (num mais ou menos longo e mais ou menos complexo processo de produtransmissão) conduziu sempre ao desaparecimento da paternidade/maternidade do texto e ao seu anonimato. Também não será inconsciente a colocação na capa do primeiro volume da Portuguesia uma reminiscência do primeiro símbolo nacional dos falantes de língua portuguesa – cruz azul sobre prata –, a lembrar talvez os propósitos deste projecto: descer às raízes da língua e da sua palavra para aí descobrir a autenticidade poética de um vasto mundo, transversal a vários continentes.

*

Afirmar que uma antologia é o seu contrário exige resultados consequentes. Contrariar hábitos instalados – quase nunca justificados e nem sempre justificáveis – obriga a uma responsabilidade acrescida.
Convenhamos. Há antologias de poemas e há antologias de poetas. Às primeiras interessa a palavra, servida estética e/ou filosoficamente – os poemas, tornados quase anónimos, neles buscando e apresentando valores intrínsecos. Nas segundas, são os autores que determinam tudo ou quase tudo – mais como ícones do que como índices, para utilizar os termos felizes de E. M. Melo e Castro –, enquanto figuras históricas, localizadas no espaço e/ou no tempo, rodeadas ou não de notoriedade pública. São olhares completamente diferentes sobre o texto: num caso, interessa a Poesia; no outro, a Literatura, a sua História e/ou a sua Sociologia. As primeiras (independentemente do seu nível de conseguimento estético e da capacidade de organização do antologiador) serão sempre obras de arte, na sua composição entrelaçada, entrançada. As segundas só terão interesse enquanto objectos de estudo histórico, quando a elas preside um desejo de registo, de homenagem ou de afirmação, a vontade recuperar uma memória perdida ou o propósito de analisar o tratamento dado a um determinado tema num tempo mais ou menos alargado; a consideração artística da antologia dificilmente terá em conta o livro inteiro, mas cada um dos poemas, enquanto objecto de Arte individual.
Wilmar Silva, ao organizar a sua Portuguesia, escolheu – quanto a mim – o melhor caminho. Deixando para o final do livro a indicação da autoria dos poemas irmanados ao longo de mais de quatro centenas de páginas, colocou-se ao serviço da palavra – logo, da Poesia – transformando o seu trabalho numa obra de Arte que nos obriga a uma aproximação global da sequência, seja qual for a nossa opinião sobre cada um dos textos escolhidos. Colocados como estão, os 484 poemas apresentam mesmo uma linha que tem tanto de narrativa quanto de ensaio – a requerer uma leitura múltipla, unificada e unificante.
Esta “contraantologia” corresponde, portanto, a uma abordagem conceptual da poesia que se faz hoje em Portugal, no Brasil (Minas Gerais), em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Valorizando a palavra, opõe-se à valorização do autor enquanto ícone de fama e de notoriedade, quantas vezes sem capacidade fazedora correspondente, não conseguindo sair da mera produção epigonal, inofensiva.

*

Um livro como este tem a vantagem da surpresa, se nos deixarmos levar pela proposta do seu edificador. O jogo estruturado por Wilmar Silva não facilita a identificação do autor do poema lido, embora a permita. É essa organização que, no entanto, valoriza a obra. Deslumbramo-nos com poemas de autores que desconhecíamos, desgostamo-nos com textos de poetas estimados, confirmamos adesões ou exclusões, percebemos quanto trabalhou o poeta de Yguarani para encontrar na produção de um determinado nome algo que não fosse indigno.

*

Ao ler uma e outra vez este grosso volume – acompanhado por um dvd em que os poemas surgem ditos pelos seus autores empíricos – tentei não falsear a proposta desta obra de Arte. Fui lendo e apontando os códigos alfanuméricos que ladeiam cada poema, para no final estabelecer a minha lista de preferências – não de poetas, mas de poemas. Não me custa afirmar que li com muito gosto os textos de Adolfo Maurício Pereira, Adriano Menezes, Alexandre Nave, Ana B., Ana Viana, André Sebastião, Arménio Vieira, Daniel Bilac, E. M. Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Fabrício Marques, Fernando Aguiar, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Guido Bilharinho, Iacyr Anderson Freitas, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Joaquim Palmeira, Jorge Melícias, José Luís Peixoto, José Rui Teixeira, Luiz Edmundo Alves, Márcio Almeida, Márcio Catunda, Milton César Pontes, Narciso Durães, Nuno Rebocho, Pedro Mexia, Prisca Agustoni, Rui Costa, Rui Lage, Tânia Alice, Valter Hugo Mãe, Wagner Moreira – entre outros que não menciono aqui para não alongar a lista.
Nuns casos confirmei preferências antigas; noutros, surpreendi-me a apreciar poemas de autores cuja obra pouco considero; especialmente saborosas foram as descobertas de poéticas completamente desconhecidas, inclusive de autores residentes dentro do rectângulo ibérico que é Portugal.

*

Há exclusões “lamentáveis” – como diria um crítico sem boas intenções ou um poeta despeitado? Ausências, sim. Exclusões, não, muito menos “lamentáveis”. Wilmar Silva pretende editar outros volumes da sua Portuguesia em que muitos ausentes se farão presentes, numa demanda que lhe ocupará a vida inteira – conforme confidenciou no encontro ocorrido em Julho passado, no Centro de Estudos Camilianos, em Seide. Quanta gente precisa de cartografar no oceano da poesia escrita em língua portuguesa! O esforço valerá a pena, certos estando de que continuará a contrantologiar, isto é, a valorizar os poemas – porque a Poesia se faz com eles, como afirmou Ruy Belo –, relegando os poetas para o lugar discreto que lhes compete.


NOTA: Portuguesia é editada pela Anome Livros, sediada em Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil). Página: www.anomelivros.com.br Endereço electrónico: anomelivros@anomelivros.com.br


Publicado aqui:
http://www.triplov.com/poesia/ruy_ventura/2009/portuguesia.htm a 2/10/2009


A revista Notícias Sábado, do Diário de Notícias, publicou no passado fim-de-semana uma recensão de Maria Augusta Silva sobre o meu mais recente livro de poemas, Chave de ignição. Está disponível também aqui. Na minha página pessoal pode também ser lido a nota introdutória desse livro, assinada por Gonçalo M. Tavares.

Revista Confraria chega a Portugal


Periódico binacional oferece um amplo e irreverente panorama da arte, literatura e reflexão crítica contemporâneas.
Após quatro anos de contribuição para a literatura e crítica de língua portuguesa, com um formato online de prestígio internacional e mais de cinco milhões de acessos, a Revista Confraria converte-se numa edição impressa bimestral, editada simultaneamente no Rio de Janeiro e em Lisboa e com contribuições regulares de autores brasileiros e portugueses.

Após o lançamento no Brasil no passado dia 14 de Setembro, o número inaugural da Confraria chega finalmente a Portugal, numa distribuição que procurará chegar a número crescente de bancas e livrarias. Para além de dossiês sobre vanguardas internacionais, perfis de autores menos conhecidos e entrevistas, a revista oferece também textos críticos, filosóficos, contos e poesia, sendo cada edição ilustrada por um artista plástico convidado. Adicionalmente, a revista conta com um conjunto de colunistas fixos de importante projecção, entre eles Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Gonçalo M. Tavares, Carlos Felipe Moisés, Clóvis Bulcão e valter hugo mãe. Neste primeiro número o leitor pode encontrar, entre outras pérolas, material inédito de Arnaldo Antunes, Gonzalo Rojas, Maria do Rosário Pedreira, Octávio Paz, Raimundo Carrero e E.M. de Melo e Castro.Em Portugal, a Revista Confraria é coordenada por João Miguel Henriques (para qualquer contacto editorial ou pedido de encomenda escrever para: joao@confrariadovento.com).

O primeiro número encontra-se já à venda nas seguintes livrarias de Lisboa (com a certeza de que muito em breve estará também disponível nas cidades do Porto e Coimbra): Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa) Trama (R. São Filipe Nery) Letra Livre (Calçada do Combro) Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)

CONVERSA COM

FERNANDO RODRIGUES DE ALMEIDA



“Na nossa sociedade ser ‘semita’ é mau, e por isso se nega a importância que alguns povos semitas, particularmente os fenícios, tiveram para a vida na antiguidade”, afirma o investigador.


Fernando Rodrigues de Almeida (n. 1960) - fundador da Quercus, escritor e investigador - acaba de publicar um livro que merece toda a nossa atenção. Intitula-se O Outro Lado da História e saiu com a chancela da Câmara Municipal de Odemira, vila onde desenvolve actividade docente na Escola Secundária local. Embora um olhar comodista procure arrumar a sua obra no campo das monografias com interesse meramente local, o facto indesmentível é que o seu estudo tem um enorme interesse para o entendimento das raízes mais remotas da cultura portuguesa, radicadas numa herança fenícia / cartaginesa, que foi sendo ocultada a partir do domínio político do Império Romano, o qual teve como principal opositor na Península Ibérica e no Norte de África precisamente o poder de Cartago. Traz-nos ainda uma sólida leitura da chamada “Escrita do Sudoeste”, que teimosamente alguns investigadores e divulgadores continuam a apresentar como indecifrável. A investigação de Fernando Almeida não dispensa ainda um olhar sobre alguma toponímia e documentação ligada ao litoral alentejano, provando quanto uma visão atenta da nomeação do espaço não consegue desviar-se do encontro com fósseis do falar semita das camadas populares do nosso país.
Resolvemos conversar um pouco com autor a propósito dessa edição. Aqui ficam as respostas de um homem que não tem medo de remar contra a maré de alguns cuja principal preocupação é demolir o conhecimento com insinuações, sem apresentar argumentos científicos minimamente sólidos para a sua discordância.




O seu livro intitula-se “O Outro Lado da História” e defende um visão pouco consensual dos tempos mais remotos do território hoje português. Que outro lado é esse?

O povo deste canto da Península, povo que depois de vencido pelo império romano não mais deixou de ser gente anónima sem direito à sua própria História, é efectivamente o objecto de estudo deste livro. Sigo-o desde o tempo em que possuía os seus próprios chefes e escrevia a sua língua no seu próprio alfabeto (a que chamamos hoje “escrita do Sudoeste”), até aos nossos dias, em que tanto a escola como os poderosíssimos meios de comunicação social tentam esmagar o mais possível os vestígios da antiga língua de origem fenícia, uniformizando todos os falares regionais à norma urbana de base latina. Esse é O Outro Lado da História, mas é essa a nossa verdadeira História, e que no essencial está por escrever. A que conhecemos, é a dos generais romanos, dos reis bárbaros, dos emires árabes, das famílias reais europeias; é a História de todos os que nos tentaram (com mais ou menos sucesso) impor a sua língua, forma de pensar e cultura; a quem pagámos impostos e de quem fomos escravos, servos, criados ou mesmo trabalhadores pobres e indiferenciados. Sabemos a História das elites. O povo no entanto não escreveu a sua História, e nem sequer falou a língua das elites. Redescobrir essa língua, quer pela decifração da escrita do Sudoeste, quer pela toponímia, pelas lendas, ou mesmo pela língua portuguesa actual, é a essência desse O Outro Lado da História. Evidentemente que esta perspectiva terá que ser sempre pouco consensual…

Até que ponto a sua visão foi influenciada pelos livros de Moisés Espírito Santo?

Moisés Espírito Santo é nesta matéria o pioneiro que para além de muitos outros méritos tem o de estabelecer a relação fundamental entre o português e o fenício. Sem ele, provavelmente a escrita do Sudoeste continuaria indecifrada por se desconhecer a língua em que os textos teriam sido escritos.

Que confirmação no terreno o levou a concordar com esse autor?

Tudo no terreno apoia a tese inicial de Moisés Espírito Santo, e só não o verá quem obstinadamente o não quiser ver. Há centenas de exemplos nos quais o investigador tropeça a cada dia. Um exemplo de entre muitos que constam do O Outro Lado da História, e de muitos outros que se poderiam dar: o topónimo “Malavado” provém de “mal av ad”, e significa em fenício “poço de águas subterrâneas que transborda”; em todos os locais com este nome (ou nomes parecidos, como “Malvado”, “Mal Lavada”, etc.) existe grande abundância de água, e poços artesianos. Tudo o mais, na toponímia, nas lendas, no nosso falar actual, etc. mostra claramente que se falou “fenício” por aqui.

Propõe uma leitura inovadora da chamada “Escrita do Sudoeste” numa época em que ainda ouvimos alguns académicos, historiadores e arqueólogos afirmarem que ela é indecifrável. Onde se alicerça a sua audácia, se ela existe?

A proposta de decifração que faço é fruto de perto de 15 anos de trabalho, e não lhe vejo nenhuma audácia, mas apenas alguma intuição combinada com muito trabalho e esforço dedutivo. É normal que haja resistências ao meu trabalho, quer pela natural tendência do ser humano de desconfiar do que é novo, quer porque é efectivamente complexo todo o processo de decifração e tradução, e eventualmente nem todos serão capazes de o compreender com facilidade…

De onde virá a resistência do meio académico português à aceitação de um passado semita da nossa cultura?

A ciência, como todos sabemos, é feita por gente, e a gente, cientista ou não, tem preconceitos que afectam a sua visão e compreensão do mundo. Na nossa sociedade ser “semita” é mau, e por isso se nega a importância que alguns povos semitas, particularmente os fenícios, tiveram para a vida na antiguidade, o que às vezes acaba por roçar o ridículo. Para nós, seria bom por exemplo ter origens gregas, era tão bom que até já houve quem pretendesse encontrar em Ulisses o fundador de Lisboa…
Palermices à parte, devem ter sido os romanos quem mais denegriu o nome dos seus inimigos mais perigosos – os fenícios, que estavam instalados em Cartago, na Península Ibérica e grande parte da bacia do Mediterrâneo. Os documentos escritos que se conservaram ao longo dos séculos são romanos, dos seus aliados, e de elites religiosas e intelectuais europeias que se filiam na cultura latina, e daí o preconceito que passa de geração em geração entre investigadores e académicos. Na nossa cultura gostamos tão pouco de povos semitas que até dizemos que foram os judeus a matar Cristo, como se Cristo não fosse ele próprio judeu…

Na sua opinião, como se deu a introdução dos falares fenícios / cartagineses em território do ocidente peninsular?

Esta é uma questão complicada para a qual não tenho uma resposta segura. Parece plausível que os povos portadores da agricultura e do Neolítico fossem semitas. A agricultura é uma actividade complexa que não é fácil de dominar sem uma vivência quotidiana prolongada, e foram semitas os povos que primeiro a desenvolveram. Parece portanto tentador admitir que o povo que trouxe a agricultura tenha trazido a língua. Mas há topónimos que têm uma distribuição que sugere uma ocupação do território mais tardia; por outro lado, é igualmente tentador admitir que o povo da escrita do Sudoeste tenha chegado na época em que foram feitas as inscrições, ou seja, no Bronze Final e início da Primeira Idade do Ferro; seria portanto uma vaga de colonos fenícios a chegar e impor a língua… Penso que neste momento ainda não se podem ter certezas nesta matéria.

Que manifestações ainda existem dessa maneira de falar e dessa cultura?

Há muitíssimas marcas dessa língua, que de resto sobrevive mesmo no português padrão: quando dizemos “chão”, “curral”, “labareda”, etc., etc., estamos a usar palavras fenícias. Penso que é essa influência fenícia que cria as particularidades das línguas ibéricas (em especial do português) no contexto das línguas latinas. No que se refere à cultura teremos certamente muitas marcas, a começar pela religião popular: quem leia o Antigo Testamento encontrará nele descrições que podiam ser aplicadas aos nossos santuários rurais.

Que é preciso fazer para continuar a aprofundar esse veio da nossa identidade cultural?

É necessário prosseguir com este tipo de trabalho baseado no estudo da língua e da cultura popular, pois é aí que reside a verdadeira essência do “ser português”. Com mais investigadores, mais tempo, mais trabalho, novos e mais profundos conhecimentos surgirão. Haverá ganhos até ao nível do conhecimento das línguas mortas como o ugarítico ou o acádio, já que mantemos no português termos comuns a essas línguas e ainda hoje se pode ver o contexto em que são usados, o que pode mesmo ajudar a melhorar traduções de textos antigos. Há portanto todo um mundo a explorar, assim haja quem o trabalhe.

Também escreve contos, estreitamente ligados à memória do espaço e dos seres que o habitam, como é visível em Histórias ao Serão [2009]. Existe alguma relação entre o seu trabalho como investigador e aquele que desenvolve escrevendo a partir da memória local?

As historinhas que escrevo mergulham na cultura rural que tento conhecer o melhor possível, e esse é o único elo de ligação à investigação histórica e linguística. São histórias simples e sem pretensões, mas que retratam o mundo rural antigo, e que penso que se consigam ler com gosto. Eu pelo menos gostei de as escrever.