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A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

É hoje lançado, na FNAC Chiado, pelas 18h30, o novo livro do antropólogo Aurélio Lopes (um dos mais interessantes autores actuais neste domínio do saber). O volume - que recensearemos brevemente - intitula-se A Sagração da Primavera e tem a chancela das Edições Cosmos, sediadas em Alpiarça. A apresentação terá a participação de José do Carmo Francisco; aí lerá o seguinte poema, que tomamos a liberdade de divulgar, com autorização do autor:


Uma memória de luz
ou pequena dissertação sobre a Primavera

Uma tarde estava eu na Ilha de Murano
A ver o esplendor do fogo das forjas
De onde saem peixes, relógios e cavalos
Quando me lembrei da força da terra
Não da terra propriamente dita, o planeta
Mas a terra de onde viemos e nos espera
Terá sido porque tinha estado em Burano
E no caminho vi o cemitério de Veneza
Cruzando a força das rendas das mulheres
E das redes dos pescadores dessa laguna
Com a fragilidade das flores mais secas
Sobre as pedras com as datas e os nomes
Lembrei-me mais da Primavera nesse lugar
Onde a terra era tão escassa e o mar imenso
No sono dos pequenos barcos no nevoeiro
No sossego interrompido pelos navios de luxo
Que descem o Adriático ao som da música
Mais fria, pobre e triste que se pode imaginar
Lembrei-me mais do cortejo do trem do cuco
Quando as coisas mais velhas e mais feias
Enchiam todos os carros de bois em desfile
Por entre os risos dos homens de barrete
E a desaprovação das mulheres velhas à porta
Porque havia ali coisas ainda boas de servir
Lembrei-me mais das fogueiras antigas
Nessas noites de cortejo no nosso Largo
Onde o Pelourinho é memória de justiça
E os rapazes mais velhos não deixavam
Que os pequenos saltassem a fogueira
Porque tudo tem o seu tempo na vida
Lembrei-me mais da nossa primeira festa
Que era sempre no Domingo de Pascoela
No Lugar da Granja Nova onde eu ia a pé
E o primeiro arroz de ervilhas da minha avó
Com o coelho do meu avô e dos meus tios
Era comido pelos músicos à beira do rio
Lembrei-me das nossas procissões à tarde
Quando eu segurava a naveta do incenso
E o turíbulo tinha brasas da nossa lareira
Que o meu tio ia buscar sempre a correr
Porque tinha o casaco de músico para vestir
Tocava trompete e fazia falta na filarmónica
Lembrei-me mais das festas de arraial
As gasosas a subirem do poço num cesto
A frescura nada tem a ver com frigorífico
Quando o vinho tinto amolecia as cavacas
E só assim o menino que era eu as comia
A olhar o coreto rodeado de sol e de pó

Lembrei-me mais de eu ser tão pequeno
E toda a gente na família me dizia
Para me levantar cedo e eu falhava
Não sejas lapão não deixes entrar o Maio
Repreendia a minha avó todos os anos
Sem nunca me explicar esta sua fala
Lembrei-me mais de ir ao Vale de Água
Para trazer os vários ramos da Primavera
Para nós, para a Tia Velha, para a Ti Zabel
Será por isso que ainda hoje no Chiado
Há quem venda estes ramos a alto preço
E um vai logo para o meu neto em Londres
Será isso hoje a Primavera possível
Um ramo num envelope almofadado
Ingénua maneira de prolongar o tempo
Que flutua numa memória qualificada
Mas não existe na verdade no campo
Onde se vive o esplendor dos pesticidas
Afinal nem tudo se perdeu, nem tudo caiu
Como eu não percebia as falas da minha avó
O meu neto vai demorar a perceber o ramo
Que ele possa chegar ao Outono como eu
Com o fogo da Primavera no seu olhar
E uma memória de luz onde tudo continua

João Garção


FOTO DE ABRIL



O pai chegava tarde…A mãe e os avós
(que o mano era pequeno) estavam sempre comigo.
Então o pai chegava, perguntava da escola
perguntava das coisas que a mãe lhe sussurrava.

A escola era a Escola onde eu agora andava.
E a mãe pela manhã falava devagar
arranjava-me o lanche, chamava-lhe merenda
e eu ia no autocarro (sem o mano que tinha)

Eu não sabia de anos só sabia de meses
- o que a mãe me ensinara e que na escola aprendia –
(o mano era pequeno!) eu jogava sozinho.
O pai que vinha tarde não jogava comigo.

E o pai que vinha tarde mesmo se era Domingo
chegou perto da porta na manhã daquele dia.
Havia gente na rua e gente que gritava
E na televisão muitos desconhecidos.

E o pai depois daquilo disse-me: anda jogar
Anda jogar meu filho pois já não há fascismo.
E o pai que vinha tarde jogou comigo à bola
na rua da Amoreira a rua pequenina

E a mãe chorou ao ver-nos e eu não a entendia
a mãe que era só minha (e do mano que havia)
Eu sabia de meses mas não sabia de anos
E jogava com o pai pois já não há fascismo

A avó não gritava Levava-me p’la mão
até ao autocarro E para a Escolas eu ia
Sozinho ia p’rá Escola (o mano era pequeno…)
- E eu e o pai jogávamos quando eu de lá vinha

Jogávamos jogávamos – eu e o pai jogávamos
E o mano (era pequeno!) olhava sentadinho
E a mãe também por vezes nos olhava a jogar
Pois já não há fascismo Pois já não há fascismo!


(Publicado em antologia com o nome de F.Frazão.
O garoto/personagem obviamente cresceu e é hoje o triplóvico João Garção.)

SAÚL DIAS



Eu não quero esquecer os dias que viveram.
Por eles escrevi estes versos mofinos;
escrevi-os à tarde ouvindo rir meninos,
meninos loiro-sóis que bem cedo morreram.

Eu não quero esquecer os dias que enumeram
desejos e prazeres, rezas e desatinos;
e, em loucuras ou entoando hinos,
lá na Curva da Estrada, azuis, desapareceram.

Eu não quero esquecer dos dias mais felizes
a bênção branca-e-astral, lá das Alturas vinda,
nem tampouco o travor das horas infelizes.

Eu não quero esquecer... Quero viver ainda
o tempo que secou, mas que deixou raízes,
e em verde volverá, e florirá ainda...



(in Ainda, 1938)
José do Carmo Francisco


Anabela na Coelho da Rocha

Uma lisboeta exilada
Numa terra de nevoeiro
Chega ao fim da estrada
Fica no mês de Fevereiro

Tem saudades verdadeiras
Dos lugares e capelistas
Onde havia sardinheiras
E se compravam revistas

Plateia, Século Ilustrado
Flama, Crónica Feminina
Os homens iam para o lado
As mulheres junto à esquina

Onde grupos de varinas
Vendiam o peixe na rua
E no pó das oficinas
Dormia a sombra da lua

Onde ainda havia carroças
Petróleo, azeite, verduras
As batas brancas das moças
Eram luz das ruas escuras

Onde o vinho e o carvão
Se vendiam numa taberna
E os copos desse balcão
Brilhavam pela lanterna

Onde havia barbearias
E retratos pendurados
Falavam todos os dias
De jogadores admirados

Onde à noite os ardinas
Trazem notícias na mão
As palavras pequeninas
Não chegam ao coração

Eléctricos de atrelado
Com bilhetes de operário
Na paragem do passado
A vida anda ao contrário

Ninguém toca campainha
A dar o sinal de partida
No assento de palhinha
Está sentada a nossa vida

É uma vida misteriosa
Que fica por desvendar
E a poesia tão teimosa
Não desiste de cantar

Uma lisboeta isolada
Numa terra de nevoeiro
Chega ao fim da estrada
Fica no mês de Fevereiro


Casa Fernando Pessoa, 30-11-2006

Nicolau Saião



GÉNESIS


Pode fazer-se um poema com restos de poemas
e nem sequer só nossos. Basta saber escolher, tal como
uma dona de casa catando coisas frugais
numa perdida loja de subúrbio. (No entanto
o problema é: como conciliar os invisíveis
ou visíveis rastos de luz que as palavras
fazem rodar entre a noite e a manhã
das letras).Ou, melhor ainda
entre mil silhuetas de páginas desconhecidas
de esquecimentos
de risos ou
de decisivos desprezos.

O como, o talvez, os advérbios de lugar
ora dormem ora despertam. Podemos dispô-los
como flores silvestres
como pedras fibrosas ou tijolos
ao longo dum muro de quinta
no interior real dum jardim
ou como pedras tumulares
essenciais e descontínuos. Podemos trocar
a memória dum substantivo, de uma mancha de sangue, de uma
bastonada na cara ou de um suspiro. Podemos tirar
duma frase engolida o duro perfil duma alegria, ou mesmo
um verbo definitivo para um contentamento
um tempo a morrer
estático ou já liberto. Ouçam

o canto da noite: nesse silencio, pé ante pé
há ruídos e gestos, uma que outra amargura, a matéria sensível
que os poemas abandonaram. Ouçam o canto
da noite: cidades ao amanhecer, os sons inúmeros, nítidos, a substância
de um vulto ao crepúsculo. (A grande chuva, o grande sol
que nada mais são que recordações
trazidas por alguém
numa folha rasgada, num fragmento de minutos). Ouçam
o canto da noite
e saibam depois esquecer.

Todo o livro é um simulacro. Algo que se perdeu. Mas todo o livro existe
na sua atmosfera de fechada revelação
de velada inexistência
de apenas sopro ou vestígio
de móvel ou imóvel figura destroçada. Sim, pode fazer-se
não um mas muitos poemas sobre o como e o porquê
ou sobre o nada que eles, afinal, revelam
ou sobre o muito que eles, afinal, são
ou sobre o muito e o nada que lhes reside em volta
enquanto os anos perdem a nitidez
e as fronteiras perdem o sul e o norte
a sua altíssima impresença o seu finíssimo vazio
a sua transparência abominável
e sagrada
de desabafo
ou sortilégio. Sim, ouçam o canto da noite
a tal coisa que engrena
e se põe a correr
e se põe a parar
e cria em volta como que o esvoaçar de um planeta
com barulhos, com súbitas cores, com mágoas e magias. Sim,
ouçam o canto
da noite.

Ou até, talvez
o começar do dia
as palavras uma a uma no seu sereno balbuciar
quando as páginas são apenas ardilosas reminiscências
num papel amarfanhado

e a nossa voz é um reflexo num conjuntivo ou numa vírgula.


(in Flauta de Pan, 1998 - com pintura de João Garção, "Génesis")

Faleceu faz hoje 47 anos na sua terra-natal, Montdidier, o poeta que soube ser aviador em todos os sentidos da palavra. Nascido a 14 de Abril de 1890, Maurice Blanchard é ainda hoje um dos mais importantes e desconhecidos autores de língua francesa. Homenageando o autor de Les Barricades mystérieuses, aqui deixamos o seu olhar sobre a poesia.


ART POÉTIQUE


I
C' est la terre que porte les fruits, et c'est la terre qui produit l'herbe verte el les arbres fruitiers et c'est la terre qui porte la semence, et Adam est là, couché dans la boue, couché dans les profondeurs de la boue sous le ciel noir des orages. Et le ciel est porté par la terre.


II
Il est là, Adam, le héros primordial qui nommera les choses et les êtres, et l' existence, et la non-existence, il est là rigide et qui attend l'éveil d'un nouveau printemps.


III
Vivre, c'est la guerre avec les trolls sous la voûte du coeur et du cerveau.
Écoutons alors ce que nous apprennent les maîtres: ceux du Nord, celui du Midi ravagé par les guerres fratricides et celui d'entre deux mers qui mourut fou sur un sac de copeaux!


IV
"Le poète est un homme qui n'a pas de pudeur, qui, réellement ne rougit pas!
Comme um bouquet de fleurettes saisi par le gel nocturne, il se penche et se referme et dès que le soleil l'illumine, il se dresse tout droit sur sa tige.
Ainsi, comme vous le voyez, um poète n'est pas de son époque.
Ainsi a-t-il le droit de détester la loi, voire même l'humanité.
Le poète n'est rien.
Ce qu'il cherche est tout."


V
Le poète ouvre les yeux sur toutes les apparitions du monde visible, opération magique entièrement soumise au hasard des rencontres. Ici, la rivière et sa baigneuse effarouchée, plus loin la forêt naissante, plus loin encore: une armée en marche. Une telle simplicité porte en elle tout le devenir.


VI
Entre le mystère et la violence, c'est l'exil dans um monde séparé de lui-même et qui n'éclatera pas selon les lignes, méridiens et parallèles tracés sur sa peau, mais par les deltas des fleuves déchirés par les orages, parturitions du feu divin.


VII
Les poètes, hommes du moment, sont des enfants sensuels et exaltés et qui passent brusquement et sans raison de la confiance à la défiance.
Avec un âme où se cache généralement quelque fêlure, ils se vengent souvent dans leurs ouvrages d'une souillure intime et cherchent, par leur envolée, à fuir une mémoire trop fidèle.


(in Splendeurs et misère, 1977)

Obrigado, Daniel, pela referência de 2 de Março no seu blogue.

Nicolau Saião



PREÇÁRIO

O poeta tem que descobrir situações.
É isso que lhe exige o protocolo. Saber
que por detrás ou ao lado
da imagem fosforescente (como num espelho
apenas pensado)
existem outras coisas (essas sim importantes):
um regresso um rádio de pilhas um primo

O poeta fica muito calado. Não sabe nada.
Não consegue - nunca conseguiu - reparem
contornar situações. Lembra-se, é evidente
de uma certa manhã em que havia mais claridade
(mas isso, sem o privilégio da revelação
é apenas um arbusto entre muitos)
e calcula, sem palavras, rotações e translações
em locais inóspitos.
O poeta, naturalmente, sempre sabe qualquer coisa.
Sabe, por exemplo, que não se pode calar.
As palavras são efectivamente les mots: colunas
em qualquer língua, graus de sustentação
para florestas, casas-de-campo, matrimónios
entre o planeta e o firmamento. É como

uma encruzilhada: aqui há uma vela sobre uma cadeira
ali alguém que se inclina sobre a imagem duma montanha
e o poeta tem de optar. Por isso não escolhe nada
e quando é noite diz para si que tudo voltou ao princípio

e sabe que tudo foi rápido como um silêncio.
E, vai daí, agarra aqui e acolá uma frase
um sorriso
um pacote de batatas fritas, um relancear

que é o que lhe fica dos olhares alheios
sempre ligeiramente hirtos como um eco ou um reflexo.


(in Flauta de Pan, 1998, c/ ilustração igualmente de Nicolau Saião)
Aurélio Porto


2

O preço da beleza, nestas ruínas amorosamente
reerguidas, é sem preço. O calcário em pedra solta
e firmes angulares, a talha rasando rente
e os volumes que como harmónio em volta

um só concerto tangem. E a rocha em frente
à pedra impõem a pequenez, enorme nessa rota
que faz a baía tecer de azul fremente
o belo impoluto na mais pura nota.

Até os pássaros no vinhedo prestam o tributo
debicando os bagos, e o majestoso pinheiro
no silêncio ergue seu hino. Lazareto outrora,

hoje este canto do passado ao presente faz o luto,
a ele trazendo a exacta medida do dinheiro,
do que vale e não vale, e do que vale a Hora.

Hotel Lazareto, Castro de Monemvassiá, 16.05.05


15

Defronte a mim Ítaca. Mas era esta? Ou outra? Ou
Quefalónia? Ou quê? Mas é pátria, a pátria sempre
buscada, nunca encontrada. O retorno impossível, anos
a fio. E, de súbito, ei-la. E não é ela. Que pátria temos?
O mundo, a terra? Estamos no mundo até ao pescoço,
unha com carne nós e o mundo. E porém não somos
deste mundo. Inacessível pátria, não ta dão gritos,
bandeiras, cores, aplausos. Outros que a ordenhem
assim. Dela recordas a face agora oculta, a terra que
amaste, a que se retirou. Quem dela regressará?

Antisamos, Quefalónia, 22.05.05
Tróia, Setúbal, 13.07.06


(in O Sopro A Mãe A Grécia - 22 sonetos e dois prosopoemas, que integra a colectânea da poesia inédita do autor intitulada Flor de um Dia, ela também inédita)

Nicolau Saião



POEMA


Não eram vulgares as mãos de meu Pai.
Um dos dedos tinha mesmo uma unha rachada
E quando pela noite o vento me fazia
tremer
algo me entrava pelos olhos e era
uma espécie de mapa
e eu lembrava-me esforçando-me contraindo
a cara
se era de facto uma luz o que se via
rés-vés ao telhado muito perto
do grande portão de pedra em ruínas.


Naqueles tempos morávamos no campo
Muitos anos mais tarde visitei a casa
com dois filhos e vários garotos vizinhos
numa tarde ao fim dum passeio pelas matas
dos arredores. Ao canto da cozinha
estava um banco velho e a madeira
ganhara uma cor acinzentada devido
ao tempo. Disse-me depois
- enquanto comíamos pão com azeitonas -
o dono dessa quinta alucinante
no páteo da outra moradia da herdade
que durante trinta e cinco anos
não morara ali ninguém. Éramos pois
nós os fantasmas daquele lugar.

Era no Inverno e as palavras repousavam
e de vez em quando ouvia-se um ruído
como de turbilhão
- certo dia um pássaro morreu junto à
porta da entrada, onde havia
uma planta como de antigas eras -

e algum tempo depois tive de partir e olhar
o universo de tudo de isto e daquilo

O oceano e as vozes recriavam-se algures.

in Flauta de Pan (1998)

Floriano Martins


CORPOS SAINDO DO FOGO


Ponho teu pé em meu seio e quando o retiras
o poente revela seu nome. Vibras em mim
com teu abraço e quando te afastas o sol se esvazia.
Um dia mordes meu queixo e despertas uma horda
de alucinadas mulheres que se confundem entre si.
O sol e o amor – urram – são flores carnívoras.
Amo o esplendor de teus tentáculos, a carnificina
de tua enfiada em meu ser, narrativa de curvas
em que te reproduzes para ampliar a fome.
Não sei que espécie de vagabundo viciado em totens
eu alimento – por vezes creio que és tua única
superstição –, porém me acaricias os despojos
de uma vida imaginária e não me perguntas nada.
Me enterras no inferno de tuas cidades em fuga.
(Pintura de Hélio Rola.)

Floriano Martins





A TORTURA DA REFLEXÃO





Precipitas teu olhar sobre meu corpo,
entrelaçando vertigens, salpicando hábitos,
adiando aquele último verso que expande
o que jamais em mim conquistarias.
Não é em mim que teu mundo se esgota.
Nem sou o lastro de tua agonia irremediável.
Tuas mãos soluçam ilusões quando me tocam,
lapidam amores perfeitos pela tarde inteira.
Não há linguagem que não se adie ante a flor
que descanso à margem de minha saia.
Não importa que me confundas com outra:
os teus enganos serão sempre os mesmos.





(Pintura de Hélio Rola.)

AMADEU BAPTISTA


calhou que um amigo foi pai da sofia
e eu andava a fazer incursões nas cores
que dão ao mundo não a medida certa
mas a forte desmedida de haver mundo.

e descobri que há entre o azul-clematite
e o azul da baviera duas espécies de azuis
verdadeiramente alucinantes,
sendo que uma é o azul-coração

e a outra o azul-criança – ou foi isto
o que inferi pela leitura. assim, imaginei
que esse amigo devia estar feliz e, para celebrar,
resolvi criar mais uma cor entre estas duas
para o fazer, quem sabe?, ainda mais feliz.

e inventei o azul-sofia.


PS - Como não sei falar nem escrever, pedi ao meu pai para agradecer ao Amadeu por este belíssimo poema. Bem haja! - Sofia Ventura

Dois poemas de
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
(em jeito de homenagem)




Para N.G., R.B., L.N.J., C. de O., L.M.N.
e os outros que já viveram

Tantos poetas morreram, em minha vida,
antes de mim, não só no sangue ou só na carne,
mas na portuguesa língua.
Deles fica a obra que fizeram.
Todavia vocábulos, para sempre
insonoros, ou no futuro incriados,
demonstram que os poetas todos
morrem sempre mais na língua.

(in Cenas Vivas)


Os amigos que morrem: Luiza, Carlos de Oliveira

Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
com a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte,
próximos do Sol, que torna as outras
árvores mais ténues que os isolados freixos.

(idem)
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Sobre um tema
de Vitorino Nemésio

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
(Vitorino Nemésio)

Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto
FIRMINO MENDES


Alentejo

Escolhe-se uma palavra no plural – ondulações,
para poder dizer tudo o que és, com cheiro
a papoila e a montado, a coentros e orégãos,
à volta das casas brancas. A terra é de mais
– ondulada volteia, gira na distância plana.

À porta dos montes ladram alguns cães
– os mesmos que rodeiam os rebanhos
que transportam a música pelos valados.

Aos largos das vilas chegam alguns homens
– os mesmos que afagaram e bafejaram a terra
e esperam a morte como um surdo regresso.

Tão forte – tão de pão, vinho e cortiça.
Tão frágil – de aromáticas ervas na cozinha.

Tão ondulado – o pão, as migas.
Tão áspero – a cortiça, os cardos.
Tão doce – conventuais delícias.


Outro Alentejo

O céu múltiplo à noite, no monte abandonado às aves
ou esta festa de gente para o girassol que nasce:

– as casas térreas brancas alongadas, os poços redondos,
as cegonhas, as garças, a nespereira cheia, o tronco negro
dos sobreiros cheios de cortiça, as figueiras, as roseiras bravas,
a semente das papoilas no inverno.

Que flor lilás cobre o campo de Maio,
ao lado da camomila branca e do malmequer?

A luz dos olhos: – este texto branco ao lado das casas,
como o rebanho que passa em plano, cobrindo tudo e mostrando
as cores dos corpos, dos figos, das pedras, da alfarroba.
Quem poderá dizer o berço das memórias?

Tão perto parou o tempo: – parece um verso dizê-lo ou um silêncio
neste montado onde adormecem todos os animais perdidos.

A cortiça tem a sombra das figueiras, ao lado da casa, ou um caminho
de vento para a viagem. De quem a corta poucos falarão no poema
e de quem a afaga nunca se falará neste lugar entre mar e Espanha,
tão múltiplo como o céu que o protege.

(nº 14, 29/6/2001)

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Miguel Torga (Retrato Breve)

Sobre tudo o mais
Grande amor à terra
Pomares e olivais
E a neve da serra
O som dos animais
O rio em pé de guerra
Os princípios gerais
Que a vida encerra

Sobre tudo o mais
Grande amor à terra
Sem palavras a mais
O poema não emperra
Os sonhos e os ideais
Que não estão na berra
Os princípios gerais
Que a vida encerra


(Este poema será incluído na antologia do centenário do nascimento de Miguel Torga, a publicar no próximo ano pelas edições Almedina.)
DINIS MACHADO


II Soneto para Cesário
(escrito há 40 anos)

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas

(oferta e celebração a José do Carmo Francisco no dia do seu 43º aniversário)

(nº 13, 25/05/2001)
DÍMITRA MANDÁ


Nem tu sequer

Em longínquas magníficas paisagens do negro
como pude esquecer
levaram-me até ao mais áspero branco do sol
aos contornos dispersos das ilhas de ontem
como me perdi
buscando sombras
e nem uma só árvore
nem um mar
nem tu sequer


O último mar

Não é já tempo para sonhos
nem para os trabalhos do amor
e nem sequer para as palavras.
Outrora falavas de tantas coisas falavas
e de toda a parte chegavas
no meio de aventuras de cores e de estrelas
e de paisagens marinhas
ao meu corpo chegavas.
Viagens já não existem agora;
quanto tempo passou desde o último mar.


Ausência

Vazio de luz o quarto
vazio o teu corpo
o teu rosto;
as formas silenciam por trás do negro
e lá fora o eco da chuva por sobre a noite.
Esvaziou-se de luz o quarto
o teu corpo
o teu rosto;
as minhas mãos apertam a tua ausência
e a chuva
como se perdeu também ela no meio da noite.


Dímitra Manda nasceu no Peloponeso (Grécia). Os poemas que aqui divulgados, retirados do O Momento do Amor (agora publicado na colecção UniVersos Poesia, das Edições Sempre-em-Pé, com tradução de José Carlos Marques) foram musicados por Mikis Theodorakis e cantados por Angeliki Ionatos no disco Um Mar (Mía Thálassa), de 1995.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Soneto para o primeiro neto

Eu estava bem perto de ti mas não sabia
E tu nascias no Bloco da Universidade
Por isso foi tarde que rompeu a alegria
Havia obras no Metropolitano da cidade

Nasceste quando os jogos têm início
No domingo à tarde em toda a terra
Serás talvez mais um a gozar o vício
Dum jogo que é também arte de guerra

Não sabes que fui comprar uma galinha
E que fizemos com ela uma canjinha
Para que a tua mãe possa ser mais forte

Catorze dias perto de ti no Barbican
Eu a olhar essa Catedral cada manhã
Pedindo que Deus te dê saúde e sorte