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JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Sobre um tema
de Vitorino Nemésio

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
(Vitorino Nemésio)

Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto

José do Carmo Francisco


Natal Feliz com lágrimas


Não se trata de andar à volta do livro magnífico do João de Melo, um belo romance e um dos mais felizes e bem achados títulos que conheço. E conheço muitos pois escrevo sobre livros em jornais e revistas desde 1978. Mas para mim o Natal é a época do ano mais complicada de gerir, de sentir e de viver. Enquanto somos novos o Natal é muito bonito pois tudo é de graça. Nada pagamos nem pelos beijos nem pelas lágrimas mas com a idade tudo se complica. Começa a faltar gente na lareira: o avô, a avó, a mãe. E começam as distâncias: uma filha que emigrou à procura de melhores condições de vida num país estrangeiro. Não pode vir porque passa os Natal com os sogros, gente idosa e doente. Tem que ser assim. E começam as angústias. Um filho recém-licenciado em História e autor de uma tese de mestrado não consegue colocação compatível. Nem incompatível. Uma filha está no quarto ano de um curso de arquitectura paisagista e já começa a pensar que não tem saída. Talvez emigrem os dois. Eu próprio estou desempregado desde 2 de Novembro e a minha mulher desde 23 de Setembro. Tudo isto acontece 32 anos depois do 25 de Abril que eu modestamente ajudei a concluir na Pontinha e cujo registo está na minha caderneta militar. Por isso a angústia é maior. Por isso este título de crónica tem toda a justificação. Natal Feliz com lágrimas pois ainda há encontro, ainda há partilha e ainda há ternura em circulação mas já não estamos todos à mesa. E a única resposta positiva é, tem que ser, só pode ser, o sorriso ingénuo e confiante do meu neto Thomas Francisco Sutherland. Ele pode ser o rosto desta aposta teimosa do amor contra a angústia. Da alegria possível contra a paisagem desolada do egoísmo e da solidão.

José do Carmo Francisco


O Cemitério de Pianos
de José Luís Peixoto


Nos Jogos Olímpicos de 1912 em Estocolmo o maratonista português Francisco Lázaro morreu ao quilómetro trinta. Era carpinteiro numa oficina do Bairro Alto e vivia em Benfica.
A partir deste "drama em gente" José Luís Peixoto organiza uma ficção na qual se permite algumas fugas ao verosímil. Por isso há passeios em Monsanto, há a telefonia a tocar, há semáforos e há telefones na casa do carpinteiro, ou seja, quatro coisas que não existiam em 1912.
Mas o que José Luís Peixoto alcança é uma ponte entre a realidade real de um carpinteiro atleta de 1912 e uma família dum certo tempo português. Uma família onde os alcatruzes da vida colocam amor e morte em doses iguais, onde se respira o verso dum folheto. O verso é o seguinte: "enquanto um de nós estiver vivo seremos sempre cinco". Tal como num poema ou numa oração, as palavras de José Luís Peixoto ligam de novo duas realidades que o tempo separou. As páginas deste livro são um encantatório ponto de encontro entre verdade e ficção. Mas sem equívocos. O narrador avisa: "O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que contaram que me aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento."
Este Cemitério de Pianos é a inesperada, fascinante e impressiva metáfora do Tempo Português do século XX. E a prova de que a única resposta à morte só pode ser o amor.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Miguel Torga (Retrato Breve)

Sobre tudo o mais
Grande amor à terra
Pomares e olivais
E a neve da serra
O som dos animais
O rio em pé de guerra
Os princípios gerais
Que a vida encerra

Sobre tudo o mais
Grande amor à terra
Sem palavras a mais
O poema não emperra
Os sonhos e os ideais
Que não estão na berra
Os princípios gerais
Que a vida encerra


(Este poema será incluído na antologia do centenário do nascimento de Miguel Torga, a publicar no próximo ano pelas edições Almedina.)


948 TEXTOS DEPOIS...

... 18 anos passados, José do Carmo Francisco foi saneado do jornal Sporting, agora dirigido por Miguel Salema Garção. Com esta saída, fecha as suas portas uma das mais antigas colunas de divulgação de livros da imprensa portuguesa. É pena! É pena que tal aconteça, no momento em que se lança um “Plano Nacional de Leitura” (que inventa uma roda já inventada há milénios), em que a crítica literária vem sendo substituída pelo chamado “jornalismo cultural”, frequentemente ignorante, bacoco e/ou traficante de influências.
Em conjunto com outros colegas, José do Carmo Francisco saiu do jornal que ajudou a tornar conhecido na cultura portuguesa. Foi despedido por “não se integrar no espírito da nova equipa”, por ser “demasiado velho” (as desculpas do costume).
É este o mundo (e o país) em que vivemos. A competência, mesmo reconhecida publicamente, vale pouco ou nada. São outros os contra-valores que nos dominam, nos desgastam e nos afundam.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Louvor e glorificação
do senhor António


Chama-se Maria da Conceição a mais bela habitante da Beira Litoral da colheita de 1954 e teve a feliz ideia de me apresentar o senhor António. Ora o senhor António é daquelas pessoas que pode trabalhar muito mas não vai enriquecer. O seu fato de todos os dias é o fato-macaco e o lugar é a oficina de mecânica onde a sua arte pontifica. Chamar-lhe arte é pouco. No senhor António é mais do que arte; é ciência. Para ele a possibilidade de reparar uma avaria num automóvel é sempre a oportunidade de exercitar o seu sentido de poupança, de desenrascanço e de honradez. É que o olhar do senhor António é mesmo honrado e límpido. Ele quer ajudar as pessoas a resolverem o problema que é o automóvel avariado. Ele não tem o sonho de enriquecer à custa dos automóveis dos seus clientes. Por isso o senhor António mostra as peças que foi preciso substituir. Por isso o senhor António chega a perguntar se o cliente não se importa que ele compre uma nova placa de matrícula para o lugar da outra já velha de oito anos. E a placa custa só cinco euros. Por isso o senhor António perde uma manhã na inspecção da viatura do seu cliente mas no fim cobra apenas vinte euros pelo seu trabalho. E todos nós sabemos que uma manhã de trabalho para nós vale mais que vinte euros. Para o senhor António também. Percebe-se que o senhor António não enriqueceu nem vai enriquecer. Isto em termos de dinheiro. Mas a amizade, o respeito e a consideração dos seus clientes vale mais do que o dinheiro. Vale o sorriso do senhor António que sente prazer em ajudar os seus clientes que chegam à oficina preocupados e partem tranquilos. E esse sorriso não tem preço nem em euros nem em qualquer outra moeda.
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


A voz de Ana Paula


Por um erro semântico para mim ainda inexplicável há quem chame ao timbre de uma determinada voz o metal da voz. Ao ouvir a voz de Ana Paula – intensa, alta e veemente – percebe-se o erro, percebe-se que não há nada de metálico no esplendor do seu som. Tudo na voz de Ana Paula é redondo, cheio e doce, tudo nos lembra as ondas e a sua espuma branca desmaiada nas praias da Arrábida, tudo nos recorda o murmúrio oceânico, poderoso e antigo de onde nasceram as partituras de todas as orquestras do Mundo. A voz de Ana Paula transporta no seu volume a força da água, a veemência de um lugar líquido que é origem da vida, não apenas da vida individual mas também das civilizações que, sabemos hoje, nasceram e cresceram todas à beira dos rios e dos lagos. A voz de Ana Paula tem sete elementos: desenho, volume, movimento, cor, luz, eloquência e musicalidade. Na janela do comboio que entre Cascais e Lisboa serpenteia entre terra e água, Ana Paula fixa o olhar nas ondas que no lugar da Gibalta quase tocam o metal da composição em marcha. A terra à esquerda é o símbolo da rotina, da monotonia e da vida parada; o mar à direita é o símbolo das viagens, do inesperado, do lugar onde os dissabores, os desgostos e as amarguras podem ser objecto de consolação e purificação. No lugar entre terra e água, a voz de Ana Paula surge como um intervalo feliz que teima em elevar o seu murmúrio por cima do ruído da mesquinhez quotidiana. E não desiste de cantar uma canção que ninguém ouve (porque Ana Paula a canta para dentro) num sussurro sempre doce, sempre cheio e sempre redondo. A voz de Ana Paula é a impetuosa voz da água contra o arrastado cinzento da voz da terra.
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Não há contrato nem recibos


Numa das minhas idas ao supermercado aqui do meu bairro (o Bairro Alto fidalgo e fanfarrão...) deparei com um curioso anúncio colocado numa caixa de vidro. Vejamos:
Aluga-se casa pequena com tecto abaixo do normal. Sem máquina de lavar. Semi mobilado. Dois quartos, sala, cozinha e WC. Renda 300 euros mais calção. Não há contrato nem recibos. Fica ao pé do Metro da Avenida.
Segue-se um telemóvel que começa por 961 e termina em 731 e um nome – DORIS. Completa o quadro insólito um horário para contactos das 19 às 20 horas.
Este anúncio pode ser lido como um sintoma do despudor, da impunidade e da desvergonha que grassa por aqui. Não me refiro à péssima utilização da língua portuguesa. De facto “caução” não é “calção”. “Calção” é para vestir. Mas o mais importante é a possibilidade de alguém se atrever a anunciar em público um aluguer que não fica registado em qualquer documento e cujos pagamentos não estão sujeitos ao controlo de qualquer recibo. É um triste sinal dos tempos e nem está em causa se existe mesmo essa senhora que se assina DORIS. Também não está em causa se aquele telemóvel existe mesmo. O que está em causa é a impunidade com que isto se faz à luz do dia, dentro de um supermercado no coração da cidade de Lisboa. Até parece que estamos não na Europa mas no Terceiro Mundo. Aqueles países onde tudo é irreal e qualquer pessoa pode colocar no seu automóvel um letreiro com a palavra «Táxi» a desatar logo a fazer fretes mas sem taxímetro. O problema não é ela escrever “Não há contratos nem recibos” mas sim ela poder fazer isso sem que ninguém a responsabilize pela ilegalidade que está a anunciar. E ela sabe isso muito bem.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Soneto para o primeiro neto

Eu estava bem perto de ti mas não sabia
E tu nascias no Bloco da Universidade
Por isso foi tarde que rompeu a alegria
Havia obras no Metropolitano da cidade

Nasceste quando os jogos têm início
No domingo à tarde em toda a terra
Serás talvez mais um a gozar o vício
Dum jogo que é também arte de guerra

Não sabes que fui comprar uma galinha
E que fizemos com ela uma canjinha
Para que a tua mãe possa ser mais forte

Catorze dias perto de ti no Barbican
Eu a olhar essa Catedral cada manhã
Pedindo que Deus te dê saúde e sorte

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


O tempo das antigas emoções

Hoje folheei um livro de Marina Tavares Dias cujo título é Sporting Clube de Portugal – Uma história diferente. O facto de folhear o volume, página a página, fotografia a fotografia, leva-me a pensar como deve ter sido difícil fazer um trabalho de 320 páginas contando hoje a história de um Clube fundado em 1906. No passado, no passado de todos nós, havia poucas fotografias. Quem tirava retratos era quase sempre em ocasiões especiais. Ia-se ao retratista que tinha um estúdio decorado com motivos próprios para cada idade: crianças, adolescentes, militares, noivos, bodas de ouro. Havia menos fotografias mas havia mais emoções. Viajava-se menos mas liam-se muitos livros de viagens.
Aqui há tempo soube de uma história deliciosa passada nos anos quarenta com o escritor Dinis Machado e o seu pai, o jornalista Oliveira Machado. O pai levou o filho à Rua Jardim do Regedor para lhe mostrar a Sala de Troféus do Benfica. Pensava o dito senhor que a criança, depois de ter levado um banho de taças, troféus e medalhas, acabaria por se render ao Benfica, mas não. Questionado pelo pai, o jovem Dinis Machado afirmou com toda a força da simplicidade: «Pai, sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!» Era a força das emoções e o pai do jovem Dinis, apesar da sua força de pai e de ser o dono do restaurante «Farta Brutos», nada conseguiu do filho que já estava desde pequenino vacinado para ser um grande sportinguista. Hoje os miúdos têm tudo desde as play station a toda a espécie de brinquedos. Os miúdos do passado tinham a força das antigas emoções, as chamadas emoções para toda a vida. E para além da vida. Jesus Correia já morreu mas Dinis Machado continua a ser «leão».

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


O pão de São Roque


O meu fim-de-semana foi muito especial.
Na sexta-feira à noite ouvi desabafos de uma empregada de consultório a propósito da maldade das pessoas. Desde as velhas que, tendo consulta às 7 da tarde aparecem às 4 e meia, até ao caso mais grave de um grupo que se insurgiu contra o facto de a médica de cardiologia ter parado tudo quando soube que uma senhora na consulta de oftalmologia estava a começar a fazer um enfarte. As outras começaram a protestar porque não havia direito de uma pessoa passar à frente da sua vez.
No sábado à noite fui ao jantar de aniversário de um grande amigo da vida militar. Pois eu, entre a estação de comboios de Santa Apolónia e o rio Tejo, tive dificuldades em acertar com o restaurante que tem a fama e o proveito de ser um dos melhores do País e da Europa. Dois maloios, dois vacões, dois bardinos que estavam a receber víveres num restaurante mesmo ao lado disseram-me que não sabiam onde era esse tal restaurante famoso em todo o País e em toda a Europa. Fiquei revoltado sobretudo porque além de demonstrarem falta de categoria como empregados de um pequeno e vulgar restaurante não perceberam que eu, quando ando à procura de um restaurante excepcional, não vou desistir de o encontrar só porque dois bardinos, dois vacões e dois maloios fingem que não sabem.
No domingo recebi o pão de São Roque na missa da manhã na Igreja de São Roque. Percebi melhor a dimensão do santo que era sobrinho do presidente da Câmara de Montpellier e partiu da sua cidade para ajudar os pobres dando-lhes pão. Os pobres de espírito do consultório e do pequeno restaurante entre Santa Apolónia e o Tejo, esses já não há São Roque que lhes possa valer.

Luís Veiga Leitão
– Uma memória feliz
em algumas histórias exemplares

De Luís Veiga Leitão guardo diversas memórias, todas felizes. Comecei por ter o gosto de incluir um poema seu no livro O Trabalho – Antologia Poética que organizei com Joaquim Pessoa e Armando Cerqueira para o Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. Mais tarde encontrámo-nos em Vila Viçosa num encontro poético promovido por Orlando Neves e no qual participavam (entre outros) Mendes de Carvalho, Raul de Carvalho e Manuel Lopes. Num divertido almoço com um grupo de senhoras que gravitavam à volta dos poetas e queriam entrar no Círculo da Poesia Portuguesa, uma das senhoras dirigiu-se a Luís Veiga Leitão (que ostentava o seu nome na camisa e era de longe o poeta mais bonito do nosso grupo) perguntando com alguma ingenuidade: «O senhor fez parte do processo dos 254 e esteve preso em Caxias, não esteve?» A resposta do nosso poeta foi de um fino humor que arrasou por completo a senhora: «Não minha senhora! Eu sou muito mais antigo. Eu estive preso mas em São Julião da Barra!» A senhora em vez de sorrir com a piada que colocava Luís Veiga Leitão ao lado de Gomes Freire de Andrade no século XIX, respondeu apenas: «Desculpe!»
Uma vez pedi-lhe um depoimento sobre o poeta Daniel Filipe e ele escreveu um texto enxuto e sem emendas, um texto manuscrito entenda-se. Saiu numa edição especial do jornal Poetas e Trovadores que dirigi com Joaquim Pessoa e Travanca-Rêgo em 1982 e 1983. Ainda hoje guardo esse belo depoimento sobre Daniel Filipe – um poeta quase esquecido e que é também um brilhante cronista.
Luís Veiga Leitão distinguia os amigos com cartas escritas à mão num modelo com um pastor a tocar flauta. Uma das suas cartas foi por mim oferecida para um leilão a favor da Associação Portuguesa de Escritores e foi arrematada no Fórum Picoas pelo galerista que era proprietário da Galeria 111 no Campo Grande.
Uma última história que recordo com ternura: o desabafo que teve para comigo em Moimenta da Beira depois de uma homenagem da Câmara Municipal que colocou uma placa na casa onde o poeta nasceu: «Não se sabe. Não se sabe. A minha tia tem a ideia de que foi ali mas isso também não interessa muito.» E é verdade. O que interessa é que foi em Moimenta que nasceu o poeta Luís Veiga Leitão, um grande poeta português do século XX e de sempre. Uma das vozes mais puras e genuínas da nossa tradição lírica.
Isto, já agora, se eu não estou em erro...

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


As flores estão sempre frescas


As recentes antevisões e notícias da aproximação de furacões e de tempestades tropicais perto das diversas ilhas dos Açores trouxeram-me a memória de uma outra tempestade mas esta no Rio Tamisa. Foi no dia 20 de Agosto de 1989 que o navio Marchioness naufragou no rio que atravessa Londres muito perto da catedral de Southark. Nesse terrível desastre perderam a vida dois portugueses – António Vasconcelos e Domingos Vasconcelos. O primeiro tinha 26 e o segundo 28 anos de idade. Claro que nada acontece por acaso e eu descobri esta tragédia que me comoveu pela simples razão de que a minha filha mais velha viveu alguns anos no bairro de Southark. Nada me liga a essas pessoas que perderam a vida no seu ponto talvez mais esperançoso e bonito – o caminho da maturidade. Em termos mais ou menos simples são estes os quatro primeiros estádios da nossa vida. Os sete anos marcam a saída da primeira infância, os catorze a entrada na adolescência, os vinte e um a entrada na idade adulta e os vinte e oito a chegada à maturidade. Nada me liga de modo directo mas tudo afinal me sugere uma aproximação. Porque todos falamos português, porque somos todos membros da família da humanidade. Quem sabe se eles não eram açorianos; há muitos Vasconcelos nos Açores.
Resolvi fazer as férias de 2006 na cidade de Londres. Foram vinte e quatro longos dias que me custaram os olhos da cara. Em Londres é tudo caro a começar pelos cafés. O ano de 1989 não foi assim há tanto tempo. Às vezes parece que foi ontem. No passado mês de Agosto lá estive na Catedral de Southark para lhes prestar a minha discreta homenagem. E uma vez mais reparei que as flores estão sempre frescas.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Entre a ausência e a memória


Estamos num quente fim de tarde no Café Peter de Lisboa entre uma sandes de atum e o inevitável gin tonic. Entre o pão que sabe a terra e o atum que sabe a mar. O gin tonic, esse, é um convite a todas as viagens. Mesmo aquelas que se fazem sem sair da nossa mesa. Uma velha fragata recuperada aguarda os passageiros para uma volta pelo Mar da Palha. Parece que o nome deste estuário lhe vem das grandes inundações no Ribatejo no passado quando a corrente violenta trazia numerosos fardos de palha da Lezíria até Lisboa. Oiço, julgo que oiço, palavras, restos de palavras, sílabas, ditongos perdidos, pequenos sons da voz de Maria José. Misturam-se os dois tempos da ausência e da memória. E a mesa que parecia vazia surge povoada pelo tempo em que não havia distância nem silêncio. Todas as manhãs nesse tempo eram iluminadas pelos passos decididos de Maria José. Hoje, neste fim de tarde onde uma brisa teimosa procura empurrar o calor para o estuário do Tejo, despeço-me do Café Peter e passo de novo junto à fragata de cores garridas. De súbito vejo, julgo ver, o seu nome que mudou – em vez de Castro Júnior é agora Maria José. A voz de Maria José é um vento novo que empurra a velha fragata recuperada para uma travessia até ao outro lado do Mar da Palha. Eu sou apenas um pequeno ponto na grande multidão do Parque das Nações. Passam centenas de atletas urbanos a correr, outros pedalam vigorosamente em bicicletas caríssimas porque são leves como penas. Grupos de turistas multiplicam os flashes das fotografias de recordação. Entre a ausência e a memória de Maria José eu já não sou uma pessoa mas apenas um frágil e pequeno organismo sentimental.
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Uma geografia de afectos


Há quem diga que em Portugal não há desporto mas sim clubismo. As pessoas vivem para o seu clube, vivem com o seu clube, vivem, muitas vezes, no seu clube desde a manhã até à tarde. É no clube que tomam o café matinal e ao longo do dia vão comentando arbitragens, treinadores, estratégias e jogadores. Esta ideia de amar o desporto como espaço de privilégio para o homem se defrontar com os seus limites, ultrapassando-se nos sucessivos recordes que vai batendo, não colhe num país onde tudo se faz debaixo do calor da paixão. Pela mesma razão nos Estados Unidos da América nunca será popular o nosso futebol porque admite a hipótese de haver um empate. Ora para eles tem que haver sempre um vencedor e um vencido. Tem que haver sempre alguém que esmaga alguém. Por isso o nosso futebol não será nunca popular por aquelas paragens.
Voltando à ideia do clubismo eu tenho a ideia de que é mesmo o clubismo que ainda aguenta este frágil edifício do desporto em Portugal. Por exemplo esta semana o Sporting Clube de Portugal foi brutalmente prejudicado pela arbitragem que não viu um golo marcado com a mão nem as grandes penalidades cometidas sobre João Moutinho e sobre Liedson. Pois a minha resposta foi simples. Não barafustei, não gritei, não acusei – nem era preciso porque as imagens das televisões são muito explícitas. Então fui à secretaria inscrever o meu neto que ainda não tem dois meses. Ele é agora o sócio nº 87.588. Mais um para sentir esta geografia de afectos que vive e que luta como um leão desde 1906. Ele passa o tempo a descansar do difícil trabalho de nascer mas já faz parte desta multidão de verde e branco. Desta geografia de afectos.
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

Os cães e os gatos de Tel Aviv

O insuspeito jornal diário espanhol El Mundo, pela prosa do seu jornalista António Gala revela-me num artigo intitulado Terrorismo de Estado um facto que a nossa adormecida e narcotizada imprensa não me tinha revelado. O gabinete de imprensa do governo israelita, em pleno auge da invasão do Líbano, resolveu expressar a sua preocupação pelos milhares de cães e gatos que foram abandonados pelos donos por causa desta guerra. Poderia ser humor negro mas não é. Um conjunto de publicações do Grupo Ahava chega ao despudor de apelar à colaboração e à simpatia de veterinários de todo o Mundo. Hoje tal como em 1982 quando invadiram os bairros de Shatila e de Sabra matando indiscriminadamente mulheres e crianças, crianças e mulheres, o governo israelita prossegue cegamente a sua série de crimes de guerra. Foi há 24 anos mas parece que foi ontem porque a agressão não parou. Israel é o único país do Mundo que tem aumentado regularmente a sua superfície desde que em 1948 foi criado sob os auspícios da ONU. A Jordânia, a Síria, o Líbano, o Egipto têm perdido terras e ribeiras, montanhas e planícies para o vizinho Israel. Esse mesmo Israel que insiste pelo cumprimento escrupuloso da resolução nº 1559 da ONU mas ignorou olimpicamente até agora 46 resoluções da mesma ONU. Como diz o meu amigo e jornalista Rodrigues Vaz «eles podem ganhar a guerra mas estão cada vez mais longe de ganhar a paz.» E este jornalista que nasceu em Moimenta da Beira até tem origem judaica. Mas não se deixa narcotizar seja pelo gabinete de imprensa do governo israelita seja por outro qualquer gabinete de imprensa.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


O dedo mindinho da mão esquerda

De vez em quando acontecem pequenas coisas que, percebemos depois, não são coisas pequenas. Pode este pacato cidadão passar um dia cheio de dores no dedo mindinho da mão esquerda. A origem desta dor intensa deve ser o aumento da gota, uma doença que no meu tempo de criança era uma doença dos ricos. Eu nunca fui nem serei rico mas acabo por ter uma doença de ricos. De repente lembrei-me do meu avô José Almeida Penas que era carpinteiro e tinha o dedo mindinho da mão esquerda completamente ancilosado. De vez em quando o meu avô dizia ao doutor Bertolino (o único médico numa zona de mais de vinte quilómetros) que ia cortar o dedo com uma enxó. Claro que não passava de uma ameaça nunca concretizada. O dia está cheio de sol, a vida corre, há uma brisa fresca no meio do esplendor do sol mas o dedo mindinho da mão esquerda espalha incomodidade por todo o corpo. É um sentimento estranho. De repente sinto-me mais perto do meu avô, estranhamente perto, eu que tenho 55 anos de idade e que ouvi o meu avô dizer muitas vezes que cortava o dedo com uma enxó. O doutor Bertolino sorria, a minha avó resmungava, eu não percebia nada mas agora começo a perceber. Não é o bilhete de identidade que nos dá a entender que estamos velhos. São estes pequenos sinais do corpo, estas pequenas intuições da alma. São estas dores que se espalham, intensas e profundas, numa espécie de máquina sentimental a projectar memórias. É tudo isto que nos explica de modo implícito e não explícito que o nosso tempo está a passar cada vez mais veloz e nós cada vez mais sem tempo para o acompanhar na sua velocidade. E o dedo mindinho da mão esquerda continua a doer.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


O motorista da carreira 56

Não há muitos fiéis na missa das oito da manhã na Catedral de São Paulo em Londres. É domingo e para muitos é madrugada. Uma senhora entrega-nos o desdobrável com as leituras do dia e convida-nos a ir para a capela mór onde estamos francamente melhor instalados. Ingleses poucos, alguns turistas, o ofertório decorre com rapidez e só a homilia se alonga um pouco. No fim da liturgia o sacristão avança com a sua vara à frente do sacerdote e estaca na zona limite da capela mór. Então o presbítero cumprimenta um a um os fiéis, desejando a todos um bom dia. Como eu precisava de ter um bom dia... A minha filha estava a dar à luz um rapaz nos Hospitais da Universidade e eu à espera de uma chamada telefónica que não chegava. Sorridente o motorista do autocarro 56 «faz tempo» junto à igreja de São Bartolomeu e pergunta-nos de onde somos. Pergunta também se gostamos de magia. Claro que sim, foi a resposta. E faz para nós uma magia com uma navalha que dum lado é preta e doutro é branca. Mal ele sabe que eu sou de uma terra de navalheiros, Santa Catarina. E enquanto os novos assassinos de Beirute matavam mulheres e crianças tal como os velhos carniceiros tinham feito em 1982 em Shatila e Sabra eu, egoísta, e sem ser capaz de me preocupar com mais nada, só pensava no bebé que estava a nascer, o meu primeiro neto. Isto mesmo depois de saber que em Beirute tem havido muitos abortos espontâneos em mulheres apavoradas com as bombas que destroem pontes e casas, estações de serviço e estradas, quintas e armazéns de víveres. E crianças para que não cheguem a homens e mulheres para que não tenham filhos. O motorista do autocarro 56 continuava a sorrir.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


A explicação das coisas

Há quarenta anos quando terminei o curso geral do comércio e me comecei a interessar pela Comunicação Social era costume, entre as pessoas da arte, ouvir dizer esta frase: «A TV mostra, a rádio conta, o jornal explica». Nesse tempo os jornais desportivos eram trissemanários, tinham o formato broadsheet e, como saíam só três vezes, tinham mais tempo para serem feitos. Por isso eram melhores. Agora há três diários desportivos e, como cada um tem 44 páginas, temos a bonita soma de 132 páginas diárias. A solução é, na aparência simples, mas os resultados são desastrosos. Não havendo tema para preencher 132 páginas inventa-se assunto. E inventa-se da pior maneira. Recorrendo à baixa intriga. Se um guarda-redes é preterido pelo seleccionador nacional vão fazer perguntas ao outro guarda-redes e não ao seleccionador. Nasce uma guerra de palavras. Se o presidente de um clube afirma que o novo presidente da Liga de Clubes foi eleito para travar o processo Apito dourado que corre no Tribunal de Gondomar, então em vez de chamarem a atenção para o erro crasso do presidente do clube que mistura alhos com bugalhos com intenções de desviar o foco dos problemas do seu clube para um assunto que corre os seus trâmites num Tribunal e não na Liga de Clubes, aparecem artigos a estranhar que o dito presidente da Liga não responda ao presidente do clube. Tudo isto acontece no dia em que o nome de Maria Margarida Ribeiro dos Reis desaparece do cabeçalho do jornal A BOLA. Com ela desaparece um certo tempo português quando os jornais existiam para serem a explicação das coisas e não a actual carne para canhão que enche todos os dias 132 páginas de vazio e de sem sentido.


(Lido aos microfones da RDP Açores em 25-8-2006 às 12 horas)

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Conhece Carlos de Oliveira?


Um dos poucos poemas que sei de cór é um dos poemas de Carlos de Oliveira em Sobre o lado esquerdo e diz assim: «A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra.» O outro é o que fala do sal: «O sal é o mar servido às nossas praias domésticas de linho.» São poemas muito belos que me acompanham todos os dias desde sempre, desde que um dia o visitei nas águas furtadas da Avenida Praia da Vitória. A Maria Ângela ainda era uma mulher muito bonita nesse fim de tarde em que me ofereceu uma fotografia de Carlos de Oliveira tirada pelo Augusto Cabrita.
Encontro casualmente nas escadas rolante dos Armazéns do Chiado um poeta meu amigo que é também jornalista profissional. No passado dia 1 de Julho registaram-se 25 anos sobre a morte física de Carlos de Oliveira, o poeta de Micropaisagem, o romancista de Uma abelha na chuva. Bem informado e perfeitamente capaz de organizar um texto motivador chamando a atenção para a obra do autor de Casa na duna, que nasceu no Brasil em 1921, o meu amigo poeta e jornalista elaborou e assinou o respectivo texto e fê-lo entrar no circuito dos assinantes da sua agência noticiosa. Pois a verdade é que nenhum jornal pegou no assunto. Nem transcrevendo o texto nem convidando nenhum dos seus «sábios» colaboradores a pegar no tema. Há alguma crueldade nesta situação. Não sei os motivos deste esquecimento mas talvez todos tenhamos que dar razão ao próprio Carlos de Oliveira que, em O aprendiz de feiticeiro, escreveu esta frase lapidar: «Escrever é lavrar e lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, significa sacrifício, abnegação, alma de ferro.»