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Nicolau Saião

A PENITÊNCIA

Já por várias vezes, em artigos algo vivazes, tenho tecido críticas ao homem que Deus propiciou que fôsse nosso actual primeiro-ministro.
Deixei mesmo escapar, aqui e além, a ideia de que o creio - mais que incompetente, isso seria o menos...já estamos habituados a esses disfrutes - arrogante, maldoso, ligeiramente peralvilho e trapaceiro politicamente.
Mas como sou, creio, no fundo um patriota e um sujeito afinal boa-boca (fora os arroubos de temperamento cidadão) venho hoje - com muito gosto e alegria! - dar a mão à palmatória. Ou seja - fazer a penitencia. Irei ainda a tempo de ser perdoado?
Foi através do Portugal Diário que lavei a minha pequena hostilidade, em texto que vos dou já a seguir:


O MEU VOLTE-FACE...

Muitas pessoas, e cada vez mais, têm dito - saiba-se lá com que aleivosas intenções! - que o político que ora temos como primeiro-ministro é um mentiroso.
Discordo frontalmente! Agora discordo frontalmente!
E discordo porque ouvi as declarações do senhor em causa a um periódico, ou uma catrefa deles: "
A vencer o NÃO na Irlanda, isso seria muito mau para a minha carreira política...".
Quere-se maior exemplo de sinceridade?
O brioso Engº Sócrates mostrou que é um homem verdadeiro e, até, muito humano: posto ante o terramoto que se perspectiva por aí venha, afivela uma preocupação legítima e sã, mostrando ao mesmo tempo que tem auto-estima!...
É destes homens que a Europa precisa!
(Embora alguns malandrecos digam e jurem a pés juntos que nem Portugal precisa deles...).
Mas isso já é outra história, como o Zé Povinho gosta de dizer...
NS
É assim que se faz a Estória


Existe numa cidade portuguesa um estoriador de gabarito: o Prof. José Armando de Pitta Raposo.
Uma maliciosa lenda regional tentou difundir o preceito de que este homem de estudo não passava de um apepinador. Estamos em condições de demonstrar o contrário!
Pitta Raposo é um grande talento. Talvez seja apenas ultrapassado pelo, aliás seu confrade e amigo, ensaísta A. Mendes da Cunha, ainda que outros observadores discordem.
Aliás os seus livros provam-no à saciedade. Ultimamente, ainda, para corolário duma carreira sumptuosa, o grande estoriador assumiu mesmo o cargo de editor da revista ilustrada
A barbacã, uma das mais conhecidas entre os sinólogos nacionais.
Descendente de uma das mais excelsas famílias lusas, os Pereiras Curitiba, Pitta Raposo deu à estampa diversos tomos de alto valor cerebral.
Começando por uma pequena homenagem ao seu trisavô (
Anatólio Raposo, cozinheiro inspirado e patriota) incursionou depois pelo memorialismo com Memórias de Antão Raposo, meu primo em terceiro grau, o qual lhe valeu elogios do renomado crítico espanhol Juan Capullo Follante e do também estoriógrafo local P. Tadeu Rabecaz.
Além de outros mais, cheios de originalidade (a saírem) e tendo sempre como protagonistas personalidades da sua multifacetada família, Pitta Raposo é também autor de músicas (marchinhas) interpretadas por Romão Carabosse, o grande violoncelista franco-luso.
O poeta e titular Alfonso Bilharoz de Moncada, grande amigo e admirador de Pitta Raposo, dedicou-lhe este poema assumidamente laudatório - o que lhe confere ainda maior valor descritivo e lírico como se poderá comprovar pela sua atenta leitura. -
Nicolau Saião


Perfil de um grande homem

É arteiro como um cigano
elegante e donairoso
- um magnífico fulano
o grande Pitta Raposo!

Melífluo e insinuante
dá de si boa impressão
e embora seja um tunante
é um belo cidadão!

Sabe aguentar a parada
para levar tudo a eito
- entra em qualquer titarada
desde que lhe dê proveito.

Um fidalgote fogoso
mexido até dizer basta
- o grande Pitta Raposo
o que ele gosta da pasta…

Com a mão esquerda arrebanha
com a direita arrebata.
O que faz falta é ter manha,
o que é preciso é ter lata!

É real homem de bem
nada há que lhe não valha:
pois seguro prestígio tem
entre outros da mesma igualha.

Mesmo sem obra imponente
que o venha a cobrir de louros
vai deixar um nome ingente
aos lusitanos vindouros

e a Estória registará
o seu nome valoroso
mesmo sendo a escrita má.
- E viva o Pitta Raposo!

Alfonso Bilharoz de Moncada


(Na imagem: O grande estoriador proferindo uma palestra.)



ECOS DO MAIO 68

A revista brasileira Correio das Artes, dirigida pelo escritor Linaldo Guedes, dedica o seu número deste mês, a sair dentro de uma semana, ao Maio de 68. Dirigiu a diversos autores do espaço da lusofonia, que viveram aquele ano, as perguntas que seguem.
Transcrevemos adiante a resposta de Nicolau Saião, acompanhada por uma pintura sua.


1. O que você estava fazendo em maio de 1968?
2. Qual importância dos acontecimentos daquele ano para a sua formação política, cultural, ideológica e afins?



Caro Linaldo

Correspondendo à sua sugestão/solicitação, entro na sala das memórias e apanho a gaveta referente a 1968. Pego no dossier de Maio. Como é relativamente pesado, como está um pouco encarquilhado e como sobressai nele um tom amarelo!
Começo por me admirar: na primeira página, preso por um clip, está o retrato a preto e branco - pois ainda não havia fotos a cores - dum fulano esbelto, de basto cabelo castanho-claro que a máquina zero do exército colonial a seguir iria rapar, olhando para mim com uma certa expressão indefinível, entre o sonhador e o espantado. Com certa surpresa reconheço-me nesse jovem de 22 anos que apesar de ter já no pêlo 13 meses de tropa e se lhe perspectivarem mais dois anos ou mais de Guiné, ainda excursionava por uma certa esperança que os anos depois lhe roubaram. A primeira esperança: não morrer na guerra. E a segunda: não ficar encordoado, perro, doido pelas andanças de tiros e quedas que pareciam esperá-lo.
O pobre diabo da foto não morreu. Mas talvez tenha tido que matar.
Em primeiro lugar a inocencia e uma certa suavidade de maneiras - que a Guiné não dava para cavalheirismos. Depois, as certezas ingénuas de pensar que um ser humano merecia respeito, nomeadamente de coronéis, generais, tenentes ou capitães. Mas nisto não irei falar, para não sentir na boca um sabor azedo de desprezo e nos olhos um fuzilar de comiseração por essa gente fardada que nos tratava como se estivéssemos numa quinta de animais de abate. Silencio... Deixemos que seja a História a compor-lhes a figura exacta e merecida. Tanto mais que, se foi na tropa que conheci alguns dos maiores canalhas de que tenho memória, foi também ali que achei a gente mais nobre e devotada de que me lembro, companheiros admiráveis de dignidade e estatura interior varonil e merecedora da minha recordação.
Estava pois na Guiné, na tropa, em Bissau, em Maio de 68.
Foi por vagos periódicos (República, Diário de Lisboa) já atrasados, cedidos fraternalmente por um sargento companheirão, que soube do que se passava nas doces terras de França agitadas por um vendaval que buscava que o homem tivesse mais clareza em torno de si. Digo assim para não politizar muito estas nótulas, inteiramente dadas aqui com a nostalgia que baste. Mas sempre me cabe e quero dizer que o que de lá me chegava não me tranquilizava inteiramente: pois se tomei contacto com a figura libertária e justa e limpa dum Daniel Cohn-Bendit, também sabia que se agitavam pelas ruas que tanto amo dos Champs-Elysées e dos arredores da Sorbonne as bandeiras repugnantes e totalitárias dos maoístas e estalinistas encenando-se em amigos do Povo.
Foi depois de ter contemplado, no Diário de Lisboa (ou seria no República?) uma fotografia onde uma bela jovem olhava a câmara de frente, com o seu rosto de morena encantadora, dando o braço a diversas companheiras e companheiros coroados por uma bandeira negra, que escrevi o meu primeiro poema "africano", que começava assim: "Ter prazer em falar/ como quem fôsse/ um simples animal, um ser da treva/Ter prazer em nascer, como quem desse/ o nascimento à própria solidão(...)". Mas esse Maio distante, para mim eivado de calor e do cheiro pungente, doce e misterioso da terra africana, naquela altura não despertou em mim mais congeminações de teor societário: estava demasiado longe, entregue às penas duma guerra que não escolhera, que não me aprazia e que quase me levou ao calabouço, adversário que era do colonialismo e do cripto-fascismo lusitano de fachada ocidentalizada.
Passei por Maio e por Junho, pelos setembros e pelos janeiros até que num belo dia regressei à minha terra. E foi, estranhamente, nessa época que Maio mais me apanhou pela banda do pensamento especulativo, pelas abas da criação poética e da entrada no sedutor mundo do companheirismo com artistas, pintores, actores e actrizes e jornalistas e poetas que no Café Monte Carlo e no Café Monumental se juntavam pelas noites e pelas tardes lisboetas dum outro Maio, o de setenta, mas onde ecoavam ainda os rumores do outro que existira na Paris que amo como amo Lisboa, que só admiro simplesmente na humana e comovente medida em que me é ou me tem sido também fraternal, fecunda e amiga como um jardim de Portalegre ou de Guimarães.
Foi então por essa altura que pude perceber mais intensamente o que Maio de 68 representara e era para mim, as pistas que nos deu (que ainda hoje nos dá, se o soubermos entender!) esgarçadas já pelas voltas e adequações do tempo as ingenuidades menos defensáveis. Depois - e agora muito mais - entendi melhor a razão que assistia a Raymond Aron e a outros lúcidos observadores, que alertavam as consciencias para o facto de que, se pelas ruas de Paris se soltara um evento salubre de liberdade e salutar exigencia, também corriam miasmas que buscavam atrelar o ser humano e as pessoas por extenso a novos conformismos, novos destrambelhamentos de cariz duvidoso. Percebi então que por debaixo do alcatrão não estaria apenas a praia mas, ardilosamente camuflados, bicharocos monstruosos para mais uma vez morderem o luminoso coração das gentes sedentas de verdadeira emancipação.
Maio de 68 radicou em mim aquilo que sempre fui: libertário mas não de obediencia estreita. E, por estranho que pareça, deu-me a certeza de que a tolerancia, que defenderei até ao fim, não deve nem pode confundir-se com cedencia ou cumplicidades com chantagens morais - ainda que se pretendam apresentar como a necessidade mais premente das populações e dos países.

Receba, caro Linaldo, um firme abraço do seu

Nicolau Saião

( Atalaião de Portalegre, em Maio de 2008)
Nicolau Saião

COGUMELOS LUSITANOS

Esperar-se que este governo demita o chefe da ASAE é o mesmo que esperar que o betão dê cogumelos. Ou que os pinheiros dêem tangerinas.
Portugal, infelizmente, vive já numa fase cripto-autoritária, que só ainda não passou a autoritária expressa porque a Europa ainda por aqui anda.
A todos os momentos, ora aqui ora ali, se sente que o pudor já abandonou o nosso executivo.
Vive-se numa verdadeira navegação à vista: discreta censura, discretos ataques à liberdade de expressão, utilização do sistema judicial e do medo que este, por ser remanchado e desqualificado provoca, enfim: Portugal no seu melhor.
Este senhor da ASAE, num país a sério, não só seria demitido como sujeito a inquérito formal interno e, muito provávelmente, externo através dos mecanismos de Direito em uso numa sociedade civilizada.
Em Portugal é pura utopia esperar tal coisa.
Eis um dos motivos porque já sinto tristeza por ser português. Vergonha sinto há muito mais tempo.
Nicolau Saião

Juízo do ano
(diálogos entre a Tia Brízida e o Seringador)


Introdução

O trecho que agora se dá a lume, o primeiro diálogo que se conhece das duas imortais figuras tornadas célebres no Almanaque o Seringador, foi descoberto quase por acaso numa velha biblioteca pelo Dr. Pitta Raposo, que dispensa apresentações: com efeito, pela mão de Ruy Ventura e de outros dois fabianos, o famoso estoriador – um émulo do Prof. Teodoro Rabejana, o melhor especialista português em Estoriografia Sustenida - publicou no suplemento FANAL textos fundamentais a mais dum título e que todos mais ou menos conhecerão.
Abreviando: Pitta Raposo, já depois de abandonar o cargo de catedrático de Alentejanismo Espiritual, que regeu com insuperável mestria na Universidade da Avenida de Ceuta, votou-se à investigação quase arqueológica, nomeadamente nas vetustas salas de gente ilustre que faz o favor de lhe franquear os inóspitos solares.
Eis a primeira das suas descobertas, que aqui largamos para deleite do leitor.


TIA BRÍZIDA – Ora bons olhos o vejam, meu caro Seringador. Então o que traz para me contar?

SERINGADOR – Coisas bonitas, Tia Brízida, coisas amáveis. Então já sabe que o nosso país continua a ser a menina dos olhos dos estrangeiros que nos visitam? No dizer de alguém é um exemplo para todos os europeus, incluindo o Mugabe, que têm uma visão sagaz do mundo moderno!

TIA BRÍZIDA – Já ouvira dizer, sim senhor, já cá me chegara. Muito se tem falado no facto, único no mundo, em que as crianças, sejam elas de 11 ou de 23 anos, caso se mantenham em funções nessa idade, podem frequentar a Escola sem temerem o traumatismo de chumbarem. E isso devido ao sentido humanista e compreensivo de uma senhora que por aí está ministra...

SERINGADOR – Desculpe se a corrijo, Tia Brízida. Deverá dizer antes: graças ao senhor que aí está como, assim a modos que, Caudilho salvo seja. Um homem proficiente que, depois de ter sido “animal feroz da política”, como disse um pensador de primeira, soube a seguir transmutar-se numa espécie de “anjo guardião” dos moleques populares. Que a seguir lhe irão dar o votinho, mas isso são outras voltas. E, Brízida, diga-me: já ouviu falar que os jovens verão aumentada de 30 para 50 anos a possibilidade de liquidarem a continha do empréstimo para comprar casa?

TIA BRÍZIDA – Não me diga! Ai, que é uma medida de grande alcance, sim senhor. Já viu o descanso que é um rapazola de 25 anos e uma moçoila de 28, ao entrarem nos setentas e muitos, verem a sua continha calada finalmente raspada? A que, bondosamente, diria, os acompanhou toda a vida de casados? É de se sentir uma certa nostalgia!

SERINGADOR – Faço idéia... E que me diz a nossa Brízida à atitude, de grande visão patriótica, do senhor Presidente da coisa pública ao queixar-se docemente, no discurso abrilongo, de que os jovens têm uma memória de passarinho, não sabem quem é este cavalheiro da Nação, aquele acontecimento, aqueloutra data fundacional?...

TIA BRÍZIDA – Olhe, só me ocorre dizer que esse salvador me parece ter também pouca memória. Já se terá esquecido das parlendas com que nos encheu outrora as orelhas, em que falava a granel no país de sucesso e noutros centros de Belém? Olhe, leia um artigote do Cardeal Pulido Valente na folha-de-couve de qualidade onde ele escreve e não terá dúvidas nenhumas...

SERINGADOR – Os exercícios de memória podem ser cruéis...Lá nisso tem a Tia Brízida razão...Mas vamos a outra: que me diz desta telenovela mais actual que a nossa TV nos anda a fornecer para nosso gáudio?

TIA BRÍZIDA – A “Gabriela cravo e canela”?

SERINGADOR – Ó Brízida, deixe-se de piadinhas... Refiro-me, como é óbvio, à “Manuela y sus muchachos”, que segundo me disse um sobrinho meu está a fazer grande êxito nos écrans de lares, tascas e até nuns lugares estranhos onde se reunem, parece, os políticos do Reyno para fazer as suas serenatas.

TIA BRÍZIDA – Ah, essa! Digo-lhe que tem grandes intérpretes – aquele Santana enche-me as medidas!! - e o argumento também não está nada mau... Há golpes de teatro súbitos, aliás já esperados por todos, que mantêm o auditório a salivar. Ele é uns que entram e uns que saiem, outros que juram pela pele a este, ao outro. Um forrobodó, que diz bem a que pontos de qualidade chegou o telenovelismo nacional...

SERINGADOR – E o Alberto? Como se tem portado o Alberto?

TIA BRÍZIDA – Ao seu nível habitual, não se preocupe. Mas, embora haja outros muito talentosos, o melhor tem sido um Coelho, um galã cheio de sofisticação e que veio do estrangeiro para fazer a fita. Atira uns olhares tão devastadores, enquanto diz o seu papel, que de certezinha já “tombou” por aí uma dúzias de moças romanticas sempre de espreita aos moços tafuis. E a Manuela também tem actuado bem, embora já esteja um pouco como a Meryl Streep: ligeiramente passada. Mas é um papel de respeito, uma espécie de mãe salvadora do elenco!

SERINGADOR – Pois muito me conta. E que outras novidades há por aí que valha a pena saber?

TIA BRÍGIDA – Talvez literaturas. Letras, artes, economia, finanças, futebóis a fartar...

SERINGADOR – (com um estremecimento indisfarçável) Safa, Brízida, safa! Como dizia o Outro, co'abreca. Não me venha com esses temas, que fico todo a tremer! Até pr'ó ano, minha amiga!

(E os dois compadres, com um riso entre o nervoso e o escarninho, separam-se com o proverbial abraço).

A MANDRÁGORA EM BICICLETA

Vai, em breve, sair mais um número de Bicicleta, organizada por Manuel Almeida e Sousa e dirigida por Bruno Vilão. A revista, em fase de impressão, trabalha sem rede; por outras palavras, tal como os anteriores números, não tem subsídio e acontece por ternura teatral da Mandrágora.
Será lançada no decorrer da Edita de Punta Umbria (princípio de Abril).
Há nela colaborações de Antonio Gomez, Renato Suttana, A.Sousa, B. Vilão, Fernando Aguiar, Vergílio Alberto Vieira, Clemente Padin, Uberto Stabile, Pedro Serra, João Bentes, Gonçalo Mattos, traduções de Georges Ribemont- Dessaignes e Tristan Tzara e dois poemas referentes a Luiz Pacheco, Lud e Pedro Oom, além de uma carta inédita de Mário Cesariny dirigida a NS. A encerrar condignamente, o geral da peça em representação, sobre texto de Maquiavel transtornado por Almeida e Sousa. E um pequeno manifesto para condimentar.
A Bicicleta será uma das revistas que estarão presentes na Bienal do Livro e das Artes do Ceará (Fortaleza) deste ano.

Nicolau Saião
(c/ ilustração de João Garção)


A nostalgia de viver...

De há uns tempos a esta parte tenho a doce sensação de ter voltado atrás no tempo, tornando-me agradavelmente mais novo. Pois está de novo em curso, abençoadamente, um tique que não é bem tique, um estilo que não é bem estilo - será antes uma amorável característica de agora - propiciado pelos "orgãos de informação" do reino.

"Fontes policiais afirmam...Fontes policiais sustentam...De acordo com fontes policiais...".Ou seja: de acordo com fontes policiais a realidade é esta, a que elas referem. E não outra.Por outras palavras: a Polícia como fulcro e penhor da verdade. Nomeadamente do número e mansuetude de manifestantes...

Falemos sem justos sarcasmos: esta é a melhor bitola, para quem não abdica de ter um pensamento autónomo, para aferir da acentuada policiarização do regime, estimulada pelo mesmo.Se juntarmos a isto os discretos actos de intimidação e os menos discretos de censura levados a efeito em diversas instancias, mesmo informativas e alegadamente de referência, teremos a radiografia perfeita da "democracia" em que vamos existindo.

A saudade que eu já tinha destes carinhos!

"Plaudite, cives!", como dizia Marco Aurélio.

Nicolau Saião

O MASSACRE DOS INOCENTES

“O governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, avançou esta sexta-feira que «há mais de 13 milhões de operações de crédito» e que, por esse motivo, não lhe compete ver tudo. «Há certas coisas que podem existir e que podem não ser encontradas. São encontradas normalmente por acaso ou por denúncia como neste caso (BCP)», disse Vítor Constâncio no Parlamento, onde está a ser ouvido no âmbito de alegadas irregularidades na instituição financeira. “
(Dos jornais)

As declarações do sr.governador do Banco de Portugal (sublinho: de Portugal, não do Governo, do Estado ou de qualquer fabiano de vulto) são uma pérola que despertaria comicidade se não tivesse um eco trágico. Com efeito, dão bem o tom do descalabro a que chegou esta "democracia tendencial", em que os mandantes, apesar da prosápia que ostentam, parecem - a atender a estas declarações que nos deixam estupefactos - estar enfronhados numa brincadeira de garotos.
Não lembra ao diabo o sr. governador dizer que não tem possibilidades de ver tudo. Se não vê, se isso é de facto assim, devia procurar arranjar os mecanismos que obstassem a que qualquer aventureiro do sector argentário possa fazer o ninho atrás da orelha ao Povo, ao Estado a que deve contas. Além disso, parece-nos que o cidadão vulgar não deve gozar certamente da possibilidade material (a não ser que disponha dos poderes do Mandrake) de conseguir tirar milhões da cartola, para empregar esta expressão que desejaria sugestiva...
O que o sr. governador, que é regiamente pago e muito bem, pois deve fazer um trabalho excelente, nos deixa inferir - é que o Estado de que é alto funcionário está inerme como um anjola perante os díscolos de alto coturno. Assim sendo, eu pasmo (ou não pasmo, o que vem a dar no mesmo) e fico com a certeza, material e comezinha, de que esta democracia tão festejada pelo sr. primeiro-ministro e outros maravilhosos mantenedores do progresso que nos envolve está de facto, como costuma dizer-se, “de cabeça para baixo”.
Não fui o primeiro a fazê-lo - outros antes de mim, na Assembleia da República, já disseram coisas que o sr.governador certamente apreciou, porque decerto, apesar da sua aparência macambúzia, é pessoa com senso de humor. Mas eu quero dar-lhe os parabéns pela sua “verve”.
O país necessita, como do pão para a boca, de pessoas assim expeditas e vivazes!
Nicolau Saião

"Em Portalegre cidade"... ou Portalegre no seu melhor

Não é todos os dias que, na chamada grande imprensa, o nome da cidade de Portalegre é citado. Em geral costuma ser pelos motivos menos positivos: um burlão que é apanhado com a doutorice na botija, um desastre ou um assalto perpetrado em plena luz do dia na rua mais concorrida da terra, um grupo de funcionários/polícias que, por denuncia do seu comandante da altura, é investigado e (processado?) por se ter enredado em "ligações perigosas" com comerciantes, um caso momentoso no hospital, noutra entidade funcionalista, ou a derrocada súbita duma casa entaipando quem lá morava...
Verdade seja que lá de vez em quando também aparecem citados, ainda que ao de leve, acontecimentos positivos de relevo: um prémio atribuído, à autarquia e ao arquitecto, pela recuperação de um edifício histórico integrado na renovação da cidade, os sucessos de autores de reconhecido mérito (em geral depois discriminados portas adentro, porque não interessa que façam concorrencia aos "galhetas" semi-intelectuais), um alto empresário que, segundo consta, virá para cá trabucar, um bispo novo que vai ser para cá nomeado, etc...Enfim, creio que me faço entender.

[ler continuação no Arquivo do Norte Alentejano]
Nicolau Saião

DUAS REFLEXÕES

1.
Pecadores ou criminosos - ou uma coisa e também outra?

Concordo com o que é referido, oportunamente, num texto de A.Mello (*). E porquê? Porque, como está expresso na asserção cristã, os sepulcros caiados, os hipócritas - que tanto mal têm feito a uma Igreja autêntica, verdadeiramente humana e fundacional - não podem continuar a exercer os seus maus propósitos com a complacencia da Hierarquia. Ignorando os males feitos por pedófilos, abusadores, gente desse jaez. Ainda que tonsurados.

Independentemente de, como Santo Agostinho referiu, "Ignorar ou desculpar o mal é pactuar com o mal, é na verdade fazer o Mal", não podemos esquecer que, se Cristo é a Verdade, compete à Igreja que dele parte dar testemunho impoluto, claro, realmente respeitador dos postulados que ele trouxe para nos salvar.

Com o pretexto de um perdão que muito se parece com cumplicidade, um perdão mal entendido e em última análise efectivamente relapso, a Hierarquia está a comprometer a luz da Fé, a justeza da Crença e a magnificência dum apostolado que é limpo e digno mesmo no século.

Escândalo maior que trazer à luz estes miasmas subterrâneos é ser-se conivente com a maldade e a perversidade cruel. O perdão, como Bernardo de Claraval nos ensinou, é de compreensão, não de abafamento! De contrário é apenas perfídia, cubra-se ou não com a púrpura do Poder de facto. Que Deus ilumine os cardeais e os bispos, como parece ter já iluminado o Papa.

(*) Alude ao texto dado a lume no Portugal Club no qual o seu autor refere que uma parte da Hierarquia da ICAR, de acordo com informações fidedignas, subvertendo ardilosamente a vontade do próprio Bento XVI tem tentado abafar o aclaramento dos crimes de pedofilia protagonizados por eclesiásticos com, pasme-se, o pretexto de que “causa escândalo”...

2.

Apólogo da rã e do lacrau

A questão, candente e momentosa, das acções levadas a efeito pelo Governo lusitano actual no seu afã de acabar com o fumo, devem convidar-nos - à guisa de sherloques simbólicos e experimentais - a efectuar uma ligeira reflexão ao jeito dos detectives da ficção, utilizando com discernimento as "células cinzentas". Ou seja, inquirirmo-nos: a quem aproveita a dita acção? Isto em primeiro lugar. E logo a seguir: porquê este afã redencionista anti-tabagista?
Lembremo-nos que estamos a contas com um governo que é emanação dum Estado que pôs os hospitais em petição de miséria, que manipula o ensino sem ponderação nem tacto, que relega os mais velhos para um estatuto pré-vegetativo, que não acautela os direitos dos jovens, que abusa da classe média e que discrimina (pela positiva...) drogados, díscolos e bandidos de alto coturno e que, colocado ante vergonhas como a daquele Banco em que todos estamos a pensar, perdeu todo o senso honrado que eventualmente residisse nas acções dos seus fiscais.

Assim sendo, é fácil inferir que, na verdade, o actual governo - no qual o Estado português claramente se revê - é uma máquina de desmiolar sem pudor e sem mérito, um aparelho de constranger de tal forma capcioso, grosseiro e alvar, que já certos comentadores, aparentemente calmos burgueses, estão a perder a calma.
E, como todas essas máquinas, este Estado trapaceiro tem de arranjar cortinas de fumo (passe a aparente ironia) para nos distrair - enquanto artilham as suas negociatas, afinam os seus truques e entesouram as suas mordomias.

Há o apólogo da rã que acerta com o lacrau transportá-lo para o outro lado do rio sob a promessa de que nenhum mal lhe seria feito - tanto mais que se a picasse morreriam os dois afogados. No entanto, o lacrau picou a rã - e lá se finaram os dois a meio do rio. E, antes de expirar, explicou o lacrau à rã que não pôde deixar de o fazer - e sublinho - porque o picar estava na sua natureza.

Tal como o governo, espelho deste Estado mesureiro por um lado, mas autoritário e remanchado na realidade, não pode deixar de proceder arteira e maldosamente.
Está-lhe na "ideologia", está-lhe nos genes políticos e sociais...

É necessário, é já caso de sobrevivência nacional MUDAR DE REGIME. Para além de se enviar Sócrates de férias.

Para uma verdadeira Democracia, sem "lacraus".

In Portugal Club

Nicolau Saião
(imagem & texto)


CHAVEZ PERDEU O APITO


Nas urnas, o Povo venezuelano disse a Chavez como queria por lá o panorama político: sem mandantes vitalícios. A pouco e pouco o mito "índio" deste cavalheiro primário e demagogo, falso amigo do Povo e malcriadão de primeira, vai-se desfazendo. Este émulo de Cunhal, de Fidel e, agora, de Sócrates, verá a sua hipocrisia de assecla de Stalin quebrar-se contra a democracia. Porque, entendamo-nos: não é por ser a favor do pobre que é nefando. Não! É porque é contra ele, fingindo que é a favor. Como todos os demagogos fazem, a exemplo destes aparatchikis lusitanos que nos fritam a paciência. O que está mal, pois, não é haver gente de esquerda. É haver gente que disso se finge e é apenas totalitária. Como Chavez. Como Fidel. Como o senhor de cá.

Permitir-me-ão que solte um viva à democracia e à liberdade?
Recomeço


Os mitos do amor


Os animais fabulosos

História da Branca de Neve



Uma volta por Espanha
(quadros e texto de Nicolau Saião)

Ir a Espanha, viajar por Espanha, percorrer os caminhos de Espanha - duma Espanha que nos
agrada, que é amorável e aventurosa – não é o mesmo que ir à Brandoa.

O que aliás até pode ser agradável se por lá tivermos um amor, um derriço, uma almoçarada
valente, um mistério por desvendar. Na Brandoa. Mas de facto não é o mesmo...

Começa-se pelo inevitável salero da terra-ela mesma, dessa terra que parece mais larga assim
que se cruza a fronteira. Preconceito de lusitano que já está um pouco cansado de politicões e
videirinhos deste país onde vigora a lei vígara do “muito tens muito vales”?
Talvez... Mas mais parece ser por amor a lugares onde se sente vibrar um hausto de limpeza e
de liberdade. Doces terras de Espanha...doces lugares da Extremadura!

Trocado por miúdos: veni, vidi, vici, como dizia o romano. Ou seja: armado do meu portfólio, consegui seduzir uns apreciadores e tive Natal antecipado, vendendo os bonecos, “cartões para painel de azulejo” por um preço muito consolador. Os que vos deixei algures num bloquinho viajeiro, para iluminar os olhos de quem me estimar.

No dia de S.Martinho, foi o meu presente – acompanhado de uns tragos do tinto dos Fortios e de
um punhadinho de castanhas assadas. E querem melhor iguaria, seja em Espanha ou em Portugal?
Nicolau Saião

O Circo dos horrores

Tinha jurado a mim próprio que, por uns dias, me iria remeter ao silêncio irmão do que se sente na modesta rua desta pequena localidade algarvia onde, por mor de um familiar afável, me encontro sediado.
Mas o mundo mundo vasto mundo, como dizia Drummond, insiste em se fazer lembrado – e confesso que embora a contragosto cedo às suas seduções.
Agora foi aquele senhor simpático, de ar familiar – um excelente cidadão, logo se percebe – que está ministro e se chama Rui Pereira, que com a lhaneza que o caracteriza nos veio garantir as boas obras das autoridades na captura dos assaltantes da ourivesaria e museu, sitos em Viana, e da segurança do País em geral.
Pouco tempo durou o meu contentamento. A minha tranquilidade. Igual à, se calhar, de alguns portugueses mais pacatos e inocentes…
Pois logo a seguir, com rasgos de verdade, a marota da “comunicação social” nos veio referir abundantemente que – nem os assaltantes foram detidos, nem se sabe muito bem quem são, estando as polícias em sucessivas declarações a desmentirem-se, a contradizerem-se, a desconferirem-se.
Reina a mais perfeita confusão, chegou mesmo a ler-se num importante periódico…
Para cúmulo, isto sucede na altura em que grassa no país dos brandos costumes de Salazar e José Sócrates uma onda de assaltos em estilo hollywoodesco.
E eu, como sou um cidadão de boa-fé, pese às amarguras que me pungem cíclica e socialmente (pudera! com um país assim!), apenas digo como naquela célebre imprecação de António Nobre: “Georges! Que é do meu país de pintores…que venham pintar esta estranhíssima realidade que nos rodeia?”.
E, por Toutatis, não foi preciso esperar muito… Ângelo Correia, que é um homem inteligente e um especialista atento das questões de segurança, pegou na paleta e, sem complexos de pinta-monos, em entrevista concedida a João Adelino Faria (Rádio Clube) colocou o pincel na ferida: as forças de segurança, sendo basicamente competentes e não estando tão mal equipadas como se tenta em certos sectores fazer crer, estão sob uma pecha do executivo: a má organização provinda da perversidade política e da incompetência ética e conceptual.
Este é que é o verdadeiro busílis.
E, como se diz na literatura policial: a quem aproveita o crime?
Ao povo, à nação, não é de certeza!

Nicolau Saião


Até que a voz me doa

Em (pequenas) férias nestas doces plagas algarvias, leio - entre o risonho e o embatucado - num jornal de referência como os zoilos inteligentes costumam dizer, que o senhor primeiro-ministro nomeou o Dr. Soares para presidir à comissão da liberdade religiosa.
Com o ar sedutor e nervosamente tranquilo que sempre o caracterizou, este declara na cerimónia formal, e cito impressamente, que a sua condição de agnóstico é uma mais valia de truz.
E eu, que também sou agnóstico não praticante (assim como se pode ser, ao que me dizem, cristão não praticante…) como ainda se vive em democracia (não é?) deixo esta reflexão:

Mário Soares será agnóstico, e diz-se tolerante, mas a sua prática tem sido outra: foi ele que até há bem pouco tempo, em declarações conhecidas, revelou a maior “compreensão” para com os motivos dos crentes da Al-Qaeda, chegando ao absurdo insensato de dizer que devia conversar-se com eles para saber o que queriam...
Soares é um produto típico da mentalidade que levou Sócrates ao poder: ser aparentemente tolerante, mas ser na prática, isso sim, o "compreensor" de todos os que, através do pretexto confessional, procuram no fundo que estejamos e fiquemos submetidos, reféns, das cliques "religiosas". Como, desejavelmente, das cliques políticas.
O dizer-se ou ser agnóstico não é mais valia, pode ser mesmo uma falha. Basta não se ter sensatez. É a melhor maneira de, com essa aparente caução, servir de alibi aos fanáticos. Ou aos habilidosos como Sócrates.
Soares, que nas últimas eleições o povo repudiou, é agora um dos homens com quem o actual primeiro-ministro conta para encenar a sua diatribe autoritária com disfarce liberal.
Para ser o bom valete dum autoritário, que melhor do que se ser um pseudo-sensato de mansas bochechas de avôzinho? Isso é que é um eficaz “disfarce”!
Pensem um pouco, por favor.

AINDA NICOLAU


Para além da entrevista, que recomendámos há dias, de Nicolau Saião merecem ainda visita a sua exposição virtual intitulada "Ruínas" e leitura um seu artigo sobre Agostinho da Silva.

TRIÁLOGO
com Nicolau Saião

Por motivos pessoais e de saúde, Nicolau Saião tem andado afastado das lides literárias (o que não significa afastamento em relação à Arte e à Poesia). Como noticiámos, publicou recentemente uma antologia pessoal no Brasil e preparam-se, para breve, edições noutros países da América do Sul. Quebrou há pouco tempo um relativo silêncio, através de uma entrevista concedida à revista brasileira Agulha, um triálogo com Augusto José e Manuel Caldeira de que seleccionámos algumas declarações. O documento vale no entanto como um todo - merece ser lido e reflectido.

Em primeiro lugar desprezo os oportunistas, tanto na vida quotidiana como nas letras & artes… Aqui na cidade de Portalegre e no Alentejo, para não sair da região, tenho conhecido vários. Pequenos oportunistas, porque isto é uma terra pequena. O que aliás não me descansa, às tantas uma pessoa gostava de encontrar canalhas em grande, como no Balzac… e apanha só canalhinhas à portuguesa! Bom… E desprezo também os enfatuados, os que se escondem por detrás do dinheiro ou do poder. A nível geral desprezo os politiqueiros, os raposões que fazem grandes frases e apenas querem enganar o povo, os – no caso da escrita – que constroem as suas lendas, grandes ou pequenas, sobre a desgraça dos povos, para acatitarem as respectivas produções. Mas os que desprezo acima de todos são os que se proclamam irmãos dos homens e nada mais têm para lhes dar que obtusidade, dureza e frieza. Pessoas por vezes com grande formação académica e intelectual, universitários e quejandos, mas que são uns perfeitos patifórios, usando o lugar de que dispõem para exterminar a dignidade com um evidente sentido de que o podem fazer impunemente.


Ao contrário do que às vezes se usa fazer (“os outros que me definam” e tal… ) tenho muito gosto em me definir… até para poder epigrafar o que me parece legítimo: creio que sou um poeta surrealista pop. Nos meus textos, se bem notar, o universo onírico entra e sai (como uma bomba de pistão?) pela sociedade de consumo adentro, são constantes nos meus textos as referencias aos objectos e coisas característicos dos tempos que correm, comidas, lugares quotidianos, coisas vulgares em suma. Isso não é, evidentemente, premeditado, garanto-lhe que não tenho gosto pelo miserabilismo, não há tanto quanto me dou conta qualquer propósito preconcebido. Sinto a dada altura que os textos vivem vida própria, vivem por eles mesmos. Os mundos à Dali não me atraem nada enquanto hacedor, nada me dizem, os vastos painéis oníricos encaro-os como entidades… bem, falecidas. A meu ver o universo da poesia não é extático, há uma intrínseca vitalidade nas coisas. Sonho, sim, mas com cadeiras, janelas, motocicletas, roupas até. Que eu me lembre nunca sonhei com cavalos voadores ou homens espantados de olhos na ponta do nariz ou assim… O meu surrealismo é de situações inusitadas entre os factos e as personagens, o que me parece ser muito peculiar e ter muita força. Aliás, a “imagerie” surrealista à la page (ou pseudo-surrealista, se quiser) nunca foi cultivada com insistência senão por falsos surrealistas e explorada por publicistas pouco éticos ou propriamente tolos.

Não me diz nada enquanto literatice e creio mesmo que autores que se respeitam sofrem um pouco com esse cenário. Enquanto paixão interessa-me muito, é uma parte muito importante da minha vida. Aliás, numa palestra que fiz há uns dois anos em Espanha deixei isso bem claro. É uma grande aventura. Não posso esquecer o gosto com que defrontei – não apenas como simples leitor - livros como Mau tempo no canal de Nemésio, Voltar atrás para quê? de Irene Lisboa, Apresentação do rosto de Herberto Hélder, os livros de contos de Branquinho da Fonseca, prosa de Pascoaes e de Raul Brandão… O teatro do Ionesco, mesmo os seus contos, as reflexões memorialísticas em que se vasou às vezes, o Margarita e o mestre de Bulgakov, A montanha mágica de Thomas Mann… São experiências absolutas, só por isso valeu a pena ter vivido. Não falando em certos autores mais chegados, cuja escrita também sigo atentamente. No entanto o comboio literário em estilo Deve-Haver é frequentemente uma tristeza mas, como vivo fora desses meios onde as pugnas mais intensas acontecem, não sou muito tocado pela eventual peralvilhice. De vez em quando em fortuitos órgãos de informação topo com inquéritos género “ano passado nas letras” ou “para onde vai a literatura” que relanceio com certa má disposição porque aquilo tem mais o tom de treta mercantilista, o usual tique de coscuvilhice. Pacoviada. A literatura para onde vai? Para onde sempre foi, para o limbo dos séculos. O que interessa é a poesia e a escrita que se erguem altivamente para escarnecer as leis e ofender os deuses, como dizia Brassai. O resto é assim como que cocoricó para seis anos de imortalidade…”

“[…] nos últimos tempos têm tentado dar a poesia, a escrita, o “complexo literário”, como algo de supranumerário, talvez porque antes se tentava fazer dele uma arma de ascensão político-partidária. O que por vezes me parece que há é tácticas de sector onde o que se busca é fazer do autor uma espécie de padre sem sotaina, no mais acabado estilo de super-mercado ou de assanhada evangelização para primários. Aponto, como exemplo, para o neo-naturalismo (para empregar a expressão cunhada por Levi Condinho e posta a circular por Ruy Ventura) que entre nós quer agora ocupar totalmente, totalitariamente, a paisagem. De forma ainda mais nefanda que os antigos próceres e proponentes do “realismo-socialista”, pois esses ainda tinham uma justificação ideológica. Nestes lê-se, sem ser necessário binóculos, o simples nivelamento por baixo, para que a sua mediocridade, controlando por fora e em simultâneo “a praça”, seja legítima e imprescindível.
No campo das escritas as mais diversas os surrealistas trabalham sem rede, a própria busca de continentes novos a que se votam é por vezes empatada e prejudicada por gente que, já sem sequer disfarçar, o que quer é prebendas mesmo que a sua falta de talento as não justifique. E há encenações para “
inglês ver”: certos prosopoemadores, que se desunham em tragédias artilhadas em livro, quando na vida quotidiana tiram a mascarilha afinal são cidadãos cheios de calma, muito contentes com o lugar que ocupam na árvore dos níveis…


Nicolau Saião



GÉNESIS


Pode fazer-se um poema com restos de poemas
e nem sequer só nossos. Basta saber escolher, tal como
uma dona de casa catando coisas frugais
numa perdida loja de subúrbio. (No entanto
o problema é: como conciliar os invisíveis
ou visíveis rastos de luz que as palavras
fazem rodar entre a noite e a manhã
das letras).Ou, melhor ainda
entre mil silhuetas de páginas desconhecidas
de esquecimentos
de risos ou
de decisivos desprezos.

O como, o talvez, os advérbios de lugar
ora dormem ora despertam. Podemos dispô-los
como flores silvestres
como pedras fibrosas ou tijolos
ao longo dum muro de quinta
no interior real dum jardim
ou como pedras tumulares
essenciais e descontínuos. Podemos trocar
a memória dum substantivo, de uma mancha de sangue, de uma
bastonada na cara ou de um suspiro. Podemos tirar
duma frase engolida o duro perfil duma alegria, ou mesmo
um verbo definitivo para um contentamento
um tempo a morrer
estático ou já liberto. Ouçam

o canto da noite: nesse silencio, pé ante pé
há ruídos e gestos, uma que outra amargura, a matéria sensível
que os poemas abandonaram. Ouçam o canto
da noite: cidades ao amanhecer, os sons inúmeros, nítidos, a substância
de um vulto ao crepúsculo. (A grande chuva, o grande sol
que nada mais são que recordações
trazidas por alguém
numa folha rasgada, num fragmento de minutos). Ouçam
o canto da noite
e saibam depois esquecer.

Todo o livro é um simulacro. Algo que se perdeu. Mas todo o livro existe
na sua atmosfera de fechada revelação
de velada inexistência
de apenas sopro ou vestígio
de móvel ou imóvel figura destroçada. Sim, pode fazer-se
não um mas muitos poemas sobre o como e o porquê
ou sobre o nada que eles, afinal, revelam
ou sobre o muito que eles, afinal, são
ou sobre o muito e o nada que lhes reside em volta
enquanto os anos perdem a nitidez
e as fronteiras perdem o sul e o norte
a sua altíssima impresença o seu finíssimo vazio
a sua transparência abominável
e sagrada
de desabafo
ou sortilégio. Sim, ouçam o canto da noite
a tal coisa que engrena
e se põe a correr
e se põe a parar
e cria em volta como que o esvoaçar de um planeta
com barulhos, com súbitas cores, com mágoas e magias. Sim,
ouçam o canto
da noite.

Ou até, talvez
o começar do dia
as palavras uma a uma no seu sereno balbuciar
quando as páginas são apenas ardilosas reminiscências
num papel amarfanhado

e a nossa voz é um reflexo num conjuntivo ou numa vírgula.


(in Flauta de Pan, 1998 - com pintura de João Garção, "Génesis")

Nicolau Saião



PREÇÁRIO

O poeta tem que descobrir situações.
É isso que lhe exige o protocolo. Saber
que por detrás ou ao lado
da imagem fosforescente (como num espelho
apenas pensado)
existem outras coisas (essas sim importantes):
um regresso um rádio de pilhas um primo

O poeta fica muito calado. Não sabe nada.
Não consegue - nunca conseguiu - reparem
contornar situações. Lembra-se, é evidente
de uma certa manhã em que havia mais claridade
(mas isso, sem o privilégio da revelação
é apenas um arbusto entre muitos)
e calcula, sem palavras, rotações e translações
em locais inóspitos.
O poeta, naturalmente, sempre sabe qualquer coisa.
Sabe, por exemplo, que não se pode calar.
As palavras são efectivamente les mots: colunas
em qualquer língua, graus de sustentação
para florestas, casas-de-campo, matrimónios
entre o planeta e o firmamento. É como

uma encruzilhada: aqui há uma vela sobre uma cadeira
ali alguém que se inclina sobre a imagem duma montanha
e o poeta tem de optar. Por isso não escolhe nada
e quando é noite diz para si que tudo voltou ao princípio

e sabe que tudo foi rápido como um silêncio.
E, vai daí, agarra aqui e acolá uma frase
um sorriso
um pacote de batatas fritas, um relancear

que é o que lhe fica dos olhares alheios
sempre ligeiramente hirtos como um eco ou um reflexo.


(in Flauta de Pan, 1998, c/ ilustração igualmente de Nicolau Saião)