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ANO NOVO

Eis-nos entrados em 2008, com maior peso sobre os ossos e certamente menos ilusões. Nele ingressámos não com o pé direito (provocaria desequilíbrio), mas com os dois pés bem assentes na terra, que o tempo não está para brincadeiras.
O Presidente, com esperteza e sensibilidade - tentando levar-nos a esquecer os dez anos em que geriu o país -, alertou-nos para os problemas do Portugal dos nossos dias (mas haverá alguém que ainda não tenha dado por deles... mesmo aqueles que tentam tapar o sol com a peneira?): a erosão da exigência e da responsabilidade na Educação, o acentuar da desertificação humana dos meios rurais interiores e litorais por políticas desastradas ou mal-intencionadas, a quase-total descrença no sistema judicial, as falsas políticas de promoção da natalidade, o desemprego, o abismo entre ricos e pobres, etc., etc., etc.. São realidades que nenhuma propaganda irá esconder... Entretanto recebemos mensagens (sms) de amigos que nos escrevem de longe: a Ana, que partiu para Inglaterra; o André, que por lá anda; a Emília e o Vítor, que só na América viram o seu valor reconhecido; a Paula, que ficará pela Alemanha... Unamuno escreveria: "Que desgraçado país!"
Lá fora, assistimos com preocupação ao processo de instalação da anarquia no Paquistão, estratégia dos terroristas para melhor chegarem às armas atómicas com que querem ameaçar-nos e, quiçá, destruir-nos. Vemos, entretanto, como nuvem cinzenta a possível subida de um politicamente-correcto ao poder global - que nada resolverá, com grandes riscos para todos nós.
Apesar tudo, resta-nos a Esperança, a Esperança num Homem que saiba entender os sinais dos tempos, desvelar e acolher a Luz onde quer que ela se manifeste. Só a Esperança nos salvará! É neste princípio - acreditando nela - que vos desejo um 2008 muito feliz.

(Na imagem, uma foto de André Alface.)

AL BERTO E JOAQUIM CARDOSO DIAS
(Vislumbres de uma Amizade)


A grande maioria dos poetas, após a sua morte, tende a entrar num limbo que precede ou o esquecimento ou uma consagração duradoura. Numa sociedade como a nossa – em que a exposição pública nos grandes meios de comunicação social faz a notoriedade dos seres, mas nunca o seu génio –, a ausência física de um autor pode relegá-lo para as caves de um injusto (ou justo) esquecimento. A não ser que, previdente, tenha tratado em vida da sua presença póstuma, tenha deixado uma influência suficientemente forte para permitir uma continuidade temporal ou uma obra dotada de importância incontestável. Há ainda o caso de herdeiros diligentes ou de amigos bem colocados que, para não desmentirem as devoções manifestadas durante a presença biológica do poeta (seria vergonhoso reconhecer um erro ou uma amizade interesseira...), continuam a incensá-lo. Temos, depois, os casos (transversais) de necrofilia ou de antropofagia, em que certas hienas do meio literário aproveitam o silêncio de um autor morto para se banquetearem à vontade com a sua obra suculenta, manipulando-a ou mostrando dela apenas aquela parte que não incomoda ninguém ou, sobretudo, não macula a sua própria imagem de “especialistas”.
Existem sempre, é claro, os amigos e os leitores desinteressados que se encarregam de zelar pelo futuro da arte édita e/ou inédita dos seus poetas, mas esses pertencem a outro campo – e não é bom misturar o ouro com a trampa...
Reconheçamos, no entanto, com Fernando Pessoa: “o presente não vê para além do óbvio.” O futuro, às vezes longínquo, é sempre o grande juiz. O autor de Heróstrato ou a busca da imortalidade chega mesmo a afirmar: “Não é possível servir simultaneamente a nossa época e todas as outras, nem escrever o mesmo poema para deuses e homens.” E acrescenta: “Que as obras superiores acabam sempre por se evidenciar no decurso da sua futuridade é verdadeiro; mas também é verdadeiro que uma obra meritória de segunda categoria acaba sempre por se evidenciar na sua própria época. / [...] / Se o grande poeta aparecesse, quem aqui estaria para reparar nele? Quem poderá dizer se não apareceu já? O público leitor vê nos jornais recensões da obra de homens cuja influência e amizades os tornaram conhecidos, ou cuja subalternidade os tornou aceites pela multidão. O grande poeta pode já ter aparecido [...].”



Quer se goste quer não da poesia de Al Berto, todos temos a obrigação de reconhecer que o autor d’ O Medo tem, por enquanto, fugido ao limbo que sucede aos poetas mortos. Em parte porque foi/é um autor influente – com a sua poesia desmedida, de um confessionalismo torrencial, matizado por imagens surreais –, em parte porque os seus herdeiros materiais têm diligenciado pela contínua publicação e divulgação da sua obra (por vezes em edições que nada acrescentam à glória do autor, mas apenas ao pecúlio de quem recebe os direitos), em parte porque a sua personalidade transgressora mas afectiva deixou marcas fundas de amizade em seres que, desinteressadamente, pensam ser seu dever pugnar pela memória integral do poeta de Horto do Incêndio, mesmo que isso os obrigue a sofrer a hostilidade de alguns habitantes das trevas do nosso pífio meio literário.
Joaquim Cardoso Dias – autor de um auspicioso O Preço das Casas – pertence ao último grupo. Fiel a uma amizade intensa (“Al Berto [...] foi o mais perfeito dos amigos que a vida me ofereceu”), resolveu organizar um livro como forma de homenagem ao autor nos dez anos da sua morte. Sem interesses subreptícios. Apenas com o desejo de conservar a presença de um ser humano singular feito poeta. Apesar de, noutros tempos de maior inocência, não ter reconhecido a dura verdade das palavras de Pidwell Tavares (“Vivemos num país de merdas, Quim”), Joaquim Cardoso Dias vê-se obrigado a revelar no prefácio que “todos aqueles que de qualquer forma ou de todas as maneiras tentaram impedir a edição desta antologia [...] pensaram que este livro de homenagem a Al Berto seria um perigo explícito para as suas mentes perversas, circulares, mesquinhas”.
Dez Cartas para Al Berto, Dez Cartas de Al Berto é um belo livro, introduzido por um texto de Joaquim Cardoso Dias com passos comoventes. Discreto, atinge os seus objectivos. Entre as “quase duas centenas de cartas, postais, poemas, textos, recados, convites, confidências, desabafos, conselhos e tanta solidão”, o organizador escolheu uma dezena de missivas, de modo a apresentar “uma espécie de microbiografia” do autor, embora tendo o cuidado de seleccionar textos que não revelassem ou expusessem “entidades, acontecimentos ou situações susceptíveis de ferir ou desnudar atitudes, ressentimentos e interesses que se referem à vida privada de pessoas que conviveram com Al Berto”. Convidou ainda dez escritores (Alexandre Nave, Fernando Pinto do Amaral, Francisco José Viegas, José Agostinho Baptista, José Luís Peixoto, Luís Quintais, Nuno Artur Silva, Nuno Júdice, Tiago Torres Silva e Vasco Graça Moura) que aceitassem homenagear o poeta, comentando ou escrevendo a partir de cada uma das cartas, os quais produziram textos com género, intensidade e interesse muito diferentes.
Leitor assíduo de textos íntimos de artistas de todo o mundo, neste livro interessam-me sobretudo as dez cartas do poeta homenageado, reproduzidas em fac-símile e cuidadosamente transcritas. Se não constituem, de facto, uma “microbiografia” de Al Berto, estruturam-se enquanto retrato revelador, políptico com os traços sinuosos de Lucien Freud ou de Francis Bacon. Em todas elas, desnudam-se um imenso abandono e uma enorme melancolia, cortados apenas pela necessidade de intensificar um contacto epistolar e uma amizade que se estruturam enquanto analgésicos possíveis, enquanto dádivas: “é-me tudo tão indiferente, distante, aborrecido. mas por hoje basta de lamúria. tenho-te a ti, a quem escrevo, e que me dá imenso prazer fazê-lo. não devia queixar-me tanto.
Quem deseje conhecer um pouco melhor a verdadeira face do poeta que se refugiava por vezes em Sines – localidade com que tinha uma relação contraditória (“nada é como era há alguns anos. tudo se modificou. as pessoas voltaram a uma espécie de bimbalhice surpreendente. Aflitivo.”) –, tem neste livro documentos indispensáveis. Entre 30.07.1989 e 17.04.1997 existiu uma intensa amizade entre dois autores que, quando um dia for totalmente revelada nas suas epístolas, permitirá entender melhor não só os sujeitos escreventes, mas também o meio literário e artístico em que se inseriram. Vislumbre desse documento, estas dez cartas merecem o tempo devotado à sua leitura.
Duas frases de Al Berto ficam na cabeça, talvez como máximas de vida. Conhecemos a doença que o afectava quando as escreveu, meses antes de morrer. Mas, mesmo assim, teimam não sair da memória: “Apenas o silêncio... depois da barafunda. Olhar para dentro e limpar... limpar – apenas o silêncio.”


Joaquim Cardoso Dias (org.)

Dez Cartas para Al Berto, Dez Cartas de Al Berto

Quasi Edições, 2007

Tempo do Advento


Fui buscar a minha filha ao infantário. Havia, por todos os espaços, enfeites de Natal. Fitei paredes e recantos. Barbas e mais barbas, árvores fingidas – mas do eixo e justificação da festa da Natividade, nem sombras. Do Menino Jesus, que tanto agradaria aos petizes (um entre iguais, pensariam...), nem vestígios. À entrada da sala da Sofia vi um conjunto de anjos, cada um com o nome de uma criança. Foi fraca compensação.
O cenário repete-se um pouco por todo o lado. Deus Menino é sinal de escândalo. A sua pobreza, fonte de fortaleza, não se encaixa na sociedade de consumo, onde todos somos vítimas de um anti-Cristo chamado “Economia”, que nos quer fracos e alienados. É preciso esconder (manipular, ridicularizar até) essa frágil criança que (se) tornou Deus presente. A ameaça é muito perigosa para o comércio do mundo.
Entrei em casa irritado. Tentei esbater esse mau sentimento com a leitura de um livro do poeta congolês Alain Mabanckou, Tant que les arbres s’ enracineront dans la terre. As suas palavras vieram no entanto ao encontro do que não me saía da cabeça. Traduzo: “eis que veio o tempo dos risos hipócritas / o tempo da mediocridade servida com todos os molhos / o tempo em que o homem já não descende do macaco / mas a ele retorna / o tempo dos vendedores ambulantes de quimeras / o tempo dos aprendizes de feiticeiro // eis que veio o reino dos homens vestidos de mentira / os novos Sísifos transportando o rancor / como insectos apocalípticos / condenados a rebolar trampa até à margem seguinte”. O bálsamo deste poeta vem da natureza (“eis contudo a montanha altiva / orgulhosa da sua altura // eis a montanha da alma / silenciosa guardiã da imensidade // eis a montanha que se cala há séculos / deseja apenas uma nesga de céu azul / erva sempre verde / orvalho matinal / um rebanho a pastar nas suas cercanias / pássaros de todas as espécies / a cantar”). As imagens de despojamento seduziram-me – sobretudo essa “montanha da alma”, tão ligada à espiritualidade de São João da Cruz – mas não me satisfizeram completamente.


*


Dia santo. Conforme a tradição recebida dos antepassados serranos, pus-me a preparar o presépio. Não tinha musgos, nem me dispus a comprá-los na florista. Os musgos precisam de pedras – e as que existem nesta minha colina de exílio não prestam para o seu crescimento. Reciclei a caixa dum brinquedo, oferecido à Sofia no dia do seu baptizado, para montar o altar doméstico ao Deus Menino. Peguei em cavacos de azinho e ramos de sobreira para criar um cenário plausível. (Cheira a Serra de São Mamede... Anestesia a distância...) Dispus as peças, este ano de marfinite, bonitas mas sem arte, resistentes contudo aos possíveis avanços de uma bebé activa (as de barro ficaram a espreitar no móvel). Terminado o trabalho, dei por mim reconciliado. Pelo menos aqui tentamos que as coisas sejam de outra maneira.
Folheando livros na biblioteca, veio ao meu encontro um velho conhecido, Antonio Colinas. Involuntariamente quase, pus-me a traduzir um poema seu que – talvez sem querer – me desejou um tempo do Advento tranquilo. Com a mesma intenção aqui deixo. Desejo-vos dias felizes “Com o Deus escondido”:
Uma mulher e um homem ardem no seu silêncio. / Que faze-mos tu e eu / aqui, nesta penumbra? // Tu escutas o meu silêncio / e eu escuto o teu, / e até parece que esquecemos / essoutro silêncio deste lugar sagrado / pelo qual estamos aqui, em princípio, / sem sequer sabermos para quê. / Talvez seja por esta ignorância, / pela qual decidimos ir cerrando os lábios, / e cerramos os olhos como se / nada nos importassem as nossas vidas e o mundo. // Uma mulher e um homem ardem no seu silêncio, / buscam no seu interior / o que não encontram fora: / o escondido deus, o deus desconhecido, / esse ser, ou esse espírito ou silêncio, / que se cala mais do que ninguém há muitos séculos? / Ou fala-nos oscilando na chama do altar? // E, no entanto, há entre tu e eu / uma gozosa atmosfera, / pois algo vem e vai entre os nossos corpos, / da tua mente para a minha mente, / dos teus olhos fechados para os meus olhos fechados, / do teu silêncio para o meu silêncio. // Talvez o que flui de maneira tão doce / seja essoutro silêncio / do deus desconhecido que se esconde, / mas que, por vezes (é certo!), nos envolve / como fogo, pois vai e vem como música, / recorda-nos e prova-nos / que estar contigo aqui, / que viver é, simplesmente, um milagre.
SOCIEDADES CRIMINAIS

Sándor Márai, um dos vultos cimeiros da narrativa europeia, escreveu nas suas Memórias da Hungria:
"Começámos a interrogar-nos sobre a responsabilidade do indivíduo num Estado criminal, culpado de actos ilegais no plano moral. Não será responsável na medida em que aprova ele mesmo esses actos e neles participa activamente? O seu dever primordial consiste certamente em se proteger e em proteger os seus - mas poderá ir ao ponto de executar as ordens que a sua consciência condena? Necessita sobreviver, como um camaleão, mas sem dar o seu concurso aos assassinatos cometidos pelo poder, sem beneficiar dos seus crimes desumanos nem aceitar os privilégios que lhe valeria uma eventual cumplicidade."
Sobre as "sociedades criminais" (que por vezes tomam a aparência de "democracias representativas") escreveu Nicolau Saião um artigo que merece ser lido. Ficamos muito mais esclarecidos.
João Garção

Educação e ensino - PROTEGER, CAPACITANDO

(Texto da conferência efectuada na FNAC da R. de Sta. Catarina, no âmbito da semana do Instituto Politécnico do Porto)




Há alguns anos, uma Universidade apresentou um cartaz promocional no qual se salientava que os peixes maiores comem os mais pequenos e que os primeiros, mais agressivos, estão em situação de vantagem perante os segundos na luta pela sobrevivência. A analogia com a vida social é evidente: extremando-se as posições, há que comer e evitar ser comido e há que matar para não morrer. Capacidades que, pelos vistos, essa instituição ajudaria a adquirir...
Pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre a correcção ética desta forma de procurar captar potenciais alunos, uma vez que a Escola - qualquer escola - deverá formar pessoas sensatas e creio não haver sensatez em apelos dirigidos às mais primitivas e menos nobres pulsões do ser humano, como não a haverá na aceitação fácil do ‘darwinismo social’ como fundamento da organização das sociedades.
Seja como for - e já fora deste quadro de valores - não estranharia se me dissessem que essa campanha promocional tinha sido, afinal, um sucesso, chegando a um número muito significativo de candidatos. Na verdade, em sociedades em acelerada transformação, como são aquelas da nossa contemporaneidade, a rápida redefinição/reinvenção dos quadros sociais no qual o indivíduo se move suscita-lhe vários temores e angústias, os quais parecem ser mais facilmente apaziguados e mesmo ultrapassados se houver a aquisição de um estatuto social que sobreleve o dos seus concidadãos. Ora, para muitos portugueses, as instituições de ensino superior continuam a ser encaradas como apetecíveis mecanismos que, num mundo crescentemente complexo e competitivo, conferem essa tão almejada posição. Contudo, como sabemos, a realidade não é assim tão linear.
As apreciações que acabei de fazer não impedem, é claro, que constate o óbvio: a existência (hoje como sempre, afinal) de um clima de profunda competição entre os indivíduos e entre as nações - agora talvez mais exacerbado por via das enormes mudanças, nos mais diversos domínios, que resultam das constantes inovações dos dispositivos tecnológicos de que os seres humanos vão dispondo. Esta nossa ‘Aldeia Global’ de que nos falou Marshall McLuhan parece estar cada vez mais globalizada, mais pequena e mais povoada e é neste contexto, frequentemente percepcionado como turbulento, que os Estados e os indivíduos vão procurando responder aos desafios que se lhes vão colocando.
O nosso país não é, obviamente, uma excepção. No esforço de modernização que tem empreendido ao longo das últimas décadas, Portugal tem sido apresentado de forma algo ambivalente – ora visto como ‘bom aluno’, ora encarado como exemplo a evitar. Independentemente deste facto – que, ao fim e ao cabo, reflectirá a existência de diversas boas práticas a correr em paralelo a outras profundamente reprováveis – a Educação tem estado sempre no centro dos diversos discursos relacionados com as correctas metodologias de promoção do desenvolvimento do país - mesmo que nem sempre a prática confirme essas disposições.
A recente implementação de uma nova oferta formativa profissionalizante, os denominados Cursos de Especialização Tecnológica, insere-se nesse esforço de modernização. O Decreto-Lei n.º 88/2006, de 23 de Maio, que reorganiza o funcionamento dos CET, é claro em relação a este aspecto, indicando que essa reorganização tem como objectivo último ‘fomentar a competitividade do país’, sendo para tal indispensável qualificar o seu capital humano, sobretudo o mais jovem, almejando-se que estes ‘não entrem para o mercado de trabalho sem uma prévia qualificação profissional orientada para os perfis profissionais em défice’. Tratando-se de Cursos pós-secundários não superiores, visando a aquisição do Nível 4 de formação profissional, possibilitam, no entanto, o prosseguimento de estudos a nível do ensino superior, sobretudo mediante a prévia definição de cursos existentes em estabelecimentos de ensino superior aos quais o detentor de um Diploma de Especialização Tecnológica se pode candidatar, bem como das unidades curriculares dos respectivos planos de estudos de cuja frequência se encontram dispensados.
Não deixa de ser interessante constatarmos que no Preâmbulo do diploma legal a que atrás aludo expressamente se indica, por duas vezes nos três primeiros parágrafos, que um dos objectivos do Governo é o incremento da competitividade do país, mas com coesão social.
Permito-me sublinhar este aspecto porque ele me parece ser bem sintomático de um dilema com que os actuais governantes dos diferentes países estão a ser confrontados e a que o sociólogo Jacques Donzelot tem dedicado particular atenção: o facto de a competitividade e a coesão social já não andarem necessariamente de mãos dadas. Com efeito, a chamada ‘Crise do Estado Providência’, que, independentemente da componente ideológica adversa com que alguns se têm armado para contra ele arremeterem, me parece ser, sobretudo, o resultado de uma constatação óbvia – a de os recursos disponíveis serem finitos, ao passo que as solicitações são potencialmente ilimitadas - essa crise, dizia, tem obrigado os Estados a redefinirem algumas das suas formas de actuação. A própria OCDE tem entendido como indispensável que essa reforma se processe e que os Estados, mais do que efectuarem despesas sociais, façam investimentos sociais. A mudança não é superficial, apesar de, à primeira vista e com uma apreciação simplificada, poder parecer pouco profunda. Não nos deixemos enganar, pois essas alterações semânticas traduzem, afinal, uma maneira muito diferente de entender o papel do Estado no seu relacionamento com os cidadãos que o integram. Mais do que protegê-los, entende-se actualmente que o Estado os deve capacitar, dotando-os de meios que lhes permitam adquirir uma melhor formação, visando uma igualmente melhor integração no mercado de trabalho e, por essa via, na própria sociedade. Daí que o investimento no chamado capital humano seja considerado indispensável atendendo a duas vertentes, afinal complementares: a que se refere ao actual quadro de redefinição do papel do próprio Estado relativamente aos indivíduos; e a que tem a ver com o actual panorama de exacerbada competição à escala mundial.
Para que essa integração se processe de forma tendencialmente perdurável (e para além desse trabalho formativo visando ‘armar’ os indivíduos de maneira conveniente), entende-se que é indispensável, em paralelo, inseri-los no esforço colectivo de construção da sociedade, fazê-los sentir que devem integrar esse trabalho sinérgico ao invés de apenas se limitarem a esperar dela protecção na sua existência, por vezes isolada.
Por outras palavras, considera-se que, se o nosso país não terá possibilidades de se excluir desta competição global e que, em consequência, para melhor a enfrentarmos, aos portugueses devem ser facultadas possibilidades de obterem sólidas capacidades operativas, tal não deve ser efectuado sem se ter igualmente em consideração que a esse empreendimento deve corresponder também um acréscimo de coesão social, mediante a partilha de valores e a participação dos indivíduos num desígnio comum.
Ora, este incremento da competitividade do país com coesão social parece-me cada vez mais difícil de alcançar atendendo ao facto de não se estar a conseguir esbater o fosso entre ricos e pobres – pelo contrário, parece tender a aumentar. Com dois milhões de pobres – os tais 20% que teimosamente persistem, como refere Alfredo Bruto da Costa – Portugal tem um número avassalador de indivíduos que se encontram em diversos estádios de privação. Como esperar, pois, que estas pessoas, que se encontram impossibilitadas de satisfazerem algumas das mais elementares necessidades básicas e que estão muito diminuídas no domínio das relações sociais, consigam – e queiram – sentir-se como parte de um todo que parece negligenciá-las? O escritor espanhol Benito Peres Galdós, referindo-se, há várias décadas, ao agricultor castelhano, afirmou que este era ‘um santo condenado e um guerreiro sem glória’. Infelizmente, a meu ver, essa referência poderia ser feita, igualmente, em relação a muitos dos nossos concidadãos.
Estamos claramente perante um problema com significativos contornos políticos, na medida em que a participação cívica destas pessoas é extraordinariamente reduzida ou mesmo nula, com consequências óbvias (e graves!) para a saúde da nossa Democracia. E se a Política, tal como a definiu Daniel Innerarity, é ‘a capacidade de transformar o disjuntivo em aditivo’, importa dizer que, neste domínio do incremento da coesão social, os ditos poderes públicos têm, pois, falhado de forma muito expressiva. E, a meu ver, não nos deveremos deixar embalar pela utilização do pensamento politicamente correcto, frequentemente execrável em diversos domínios, e com argumentações de que ‘todos somos responsáveis por esta situação’ e que ‘todos temos que fazer algo para que ela se altere’, pois tal apenas servirá para que se esfumem responsabilidades já que, na verdade, nem todos os portugueses tem idêntico grau de poder na definição do rosto da nossa sociedade e, dessa forma, na concretização das mudanças que se afiguram necessárias para que esta progrida de maneira consolidada e harmoniosa.
Serão os CET, então, um mecanismo verdadeiramente válido para que o nosso país veja aumentada a sua capacidade competitiva e, paralelamente, se atenuem internamente as desarmonias sociais?
A meu ver, só por si, não, é claro. Mas parecem-me possuir algumas virtualidades significativas, que considero poderem ser tanto mais eficazes quanto melhor se integrem num sistema mais amplo de reestruturação da Formação e da Educação no nosso país.
Desde logo, porque se afirmam como modelos alternativos de aprendizagem que poderão, por um lado, contribuir para minorar as elevadíssimas taxas de abandono escolar e, por outro, por responder às necessidades específicas sentidas pelo tecido sócio-económico no tocante a quadros intermédios convenientemente qualificados – venho de um concelho onde esta questão é frequentemente focada pelos empregadores. Este último aspecto das especificidades locais afigura-se-me bastante importante. Entendo que há que não ceder a tendências centralistas que as negligenciem e que, a pretexto de serem abrangentes e globais, possam acabar por tenderem a uniformizar ideias, indivíduos e comportamentos, com nefastas consequências. Como dizia José Régio, ‘há mais mundos’ e a riqueza do ser humano reside precisamente na sua singularidade, que não tem que ser negada para se afirmarem outras identidades mais amplas. E essa singularidade dos indivíduos, bem como as especificidades locais onde ele actua e se desenvolve, deverá necessariamente ser considerada pelo sistema educativo. Daqui decorre, pois, que, em minha opinião, deverão multiplicar-se as tipologias da oferta formativa, assentes também em contextos de especificidade territorial, para que as oportunidades educativas também se multipliquem e para que, em última instância, o sistema educativo possa acolher, bem melhor do que agora o faz, cada vez mais franjas da população que acabaram por ficar à sua margem – embora formalmente até o possam ter frequentado.
Outro aspecto que me parece muito interessante nos CET é a possibilidade de formação em alternância, ou seja, o processo que permite que se alternem ‘sequências de formação ministradas por instituições de formação com sequências de formação prática realizadas em contexto de trabalho’, por poder constituir uma relevante experiência de vida activa. Este aspecto da formação no terreno é, a meu ver, muito importante.
Se atendermos ao Despacho com que a ESTGF regulamenta, em 20 de Setembro, os três CET que está autorizada a ministrar, verificaremos que estes também compreendem, na formação geral e científica, áreas de cidadania e sociedade e de línguas e comunicação, o que considero de particular relevância. Por um lado, porque essa formação não se demitirá de afixar a referência a estruturas ideativas e comportamentais que se poderão traduzir numa melhor compreensão do próprio processo de cidadania; por outro, porque a instituição atenderá ao desenvolvimento de competências que o mundo profissional cada vez mais exige, como são, por exemplo, as referentes a capacidades de comunicação e de relacionamento.
Finalmente, importa que estes cursos incorporem – como, afinal, todo o sistema de ensino deverá incorporar – uma cultura de exigência, quebrando aquilo que, há meses, Josep Varela i Serra definiu no El Pais como a dinâmica perniciosa da dupla comodidade – a que existe primeiro em casa e depois na Escola. E tal pode ser feito sem que isso se traduza, necessariamente, em os peixes se comerem uns aos outros…
Numa das suas Greguerias, Ramón Gomes de la Serna afirmou que ‘não há relógio nas horas felizes’. É um facto, mas, em situações como esta, impõe-se que não se exija demais da benevolência dos nossos ouvintes, pelo que prefiro seguir agora o conselho que Churchill dava para se conseguir um bom discurso – levar sempre o fim preparado, pelo menos, e introduzi-lo tão cedo quanto possível. Assim sendo, termino agradecendo o gentil convite que a ESTGF me endereçou, ao qual correspondi menos por obrigação de função do que por amizade e por imperativo de cidadania, agradecendo a atenção de todos os presentes e, eventualmente, a paciência.

ANTÓNIO SALVADO

Podemos depor a favor de um escritor por interesse, por gratidão, por amizade ou por justiça. Há quem louve um escritor porque está interessado no seu apoio (editorial, social, etc.). Há quem o elogie porque lhe deve favores ou sente ser sua obrigação de amigo escrever ditirambos. Há, ainda, quem deponha de forma positiva porque acha justo fazê-lo – sem esperar nada em troca, apenas porque o seu depoimento se impõe não como dever pessoal, mas como dever cívico de testemunho.
É uma questão de justiça escrever este depoimento sobre António Salvado, ainda que sejam palavras curtas e despretensiosas. Conheço-o há mais de dez anos (sem nunca nos termos encontrado fisicamente) – tempo breve, é certo, mas para mim suficiente no aquilatar da sua qualidade como poeta, como tradutor, como ensaísta, como divulgador de Cultura e – sobretudo – como ser humano. Poderia registar aqui a minha leitura da sua poesia, alicerçada – em parte – na investigação/transfiguração do classicismo, levada a cabo por uma geração com raízes no 2º Modernismo e fertilizada por alguns dos princípios defendidos por revistas tão ecuménicas quanto Árvore e Távola Redonda. Outros o farão melhor do que eu. Poderia ainda referir-me com demora ao papel de António Salvado como organizador de antologias, como director de revistas culturais (lembro os despretensiosos, mas importantes, cadernos Sirgo) e como importante tradutor e divulgador em Portugal de vários autores de língua castelhana (Claudio Rodríguez ou Ricardo Paseyro, por exemplo). Prefiro contudo recordar a postura cívica do autor de Jardim do Paço, vertical e intransigente na defesa da Justiça e da rectidão.
Há um episódio que, para mim, exemplifica bem a craveira da sua figura cívica e literária. Quando há alguns anos um semanário nacional publicou uma reportagem sobre a face humana de José Régio, foram reproduzidas algumas declarações que punham em causa a boa memória desse homem exemplar que foi o autor de Davam Grandes Passeios aos Domingos. Pois, nessa altura, António Salvado foi dos primeiros a alertar para a necessidade de um desagravo público à figura do escritor e, assim, assinou comigo e com mais onze escritores um texto que, depois, foi divulgado por vários órgãos de imprensa. Mas não ficou por aqui. Quando, em Portalegre, Nicolau Saião, João Garção e o autor destas linhas foram alvo de ataques pessoais – porque ousaram contestar quem pusera em causa Reis Pereira, como professor –, desde a primeira hora o poeta albicastrense se pôs ao seu lado, apoiando-os e dispondo-se até a testemunhar em tribunal, caso fosse necessário. Durante os longos anos do processo que conduziu à condenação de quem escrevera os textos que nos difamaram, sempre António Salvado (com vários escritores e personalidades, nomeadamente José do Carmo Francisco, Carlos Garcia de Castro, Henrique Madeira e Matilde Rosa Araújo) se interessou pelo caso e pela mágoa dos ofendidos – ao contrário de outros cujo apoio era uma obrigação ética, mas cobarde ou interesseiramente borregaram. Salvado, não. Nunca regateou uma palavra amiga, nunca escondeu a sua indignação, nunca tentou branquear atitudes e – sobretudo – nunca desmentiu a sua postura cívica de Homem vertical.
Para alguns, esta atitude valerá pouco. Será até considerada marginal quando se olha para um escritor que nos vem inundando (no melhor sentido da palavra) com a sua poesia. Para mim representa muito, pois sou daqueles que – apesar de acreditarem que a Poesia não se escreve com bons sentimentos – continuam a pensar que a Ética e a Literatura devem ser duas faces da mesma moeda.

HÁBITOS DE LEITURA

Os hábitos de leitura aumentaram em Portugal... dizem os jornais de hoje - e eu acredito, ou faço por acreditar.
Fosse outro o tempo e alegrar-me-ia com a notícia. Hoje, com tantas rebelos-pinto, sousas-tavares, rodrigues-dos-santos, lopos-de-carvalho, dan-browns e quejandos, a nova deixa-me relativamente indiferente.
O problema da leitura não é, nunca foi, nem será um problema de quantidade e de assiduidade, mas de qualidade. Dá vontade de afirmar que mais vale uma iliteracia sábia do que uma literacia estúpida e manipulada. Prefiro um cidadão que lê apenas um livro por ano, mas de qualidade, do que um indivíduo leitor de imensos livros, mas todos ou quase todos de fancaria.
A ARTE DE DESERTIFICAR

Há cerca de quatro, cinco anos participei em Castelo de Vide numa tertúlia que tinha como eixo uma obra de José Luís Peixoto, então recentemente publicada. Inevitavelmente, o conteúdo do romance levou a conversa para a nossa visão do estado do Alentejo. A dado passo, um cidadão lisboeta com ar de hippie fora de prazo afirmou: “Eu cá gosto muito do Alentejo porque é deserto... tem pouca gente... Assim é que é bom!” Com visível incómodo, olhámos todos uns para os outros. O silêncio imperou. Até que um dos presentes respondeu ao dito indivíduo: “O senhor diz isso porque é um gajo bem amanhado, tem dinheiro suficiente para ir à capital a bons médicos, para encontrar por aquelas bandas o que aqui falta. Mas, e quem cá mora?” O forasteiro não retorquiu – nem poderia retorquir. E a conversa continuou, ignorando-o, sobre as causas do suicídio no Alentejo. Chegámos à conclusão de que o alentejano, quando perde a dignidade, mata-se, sacrifica-se. (E quanta dignidade lhe têm retirado, uns que “gostam muito do Alentejo” mas só sabem espezinhar quem por lá habita, outros que, sendo alentejanos, gostam de fomentar um viver social pequenino e dependente, o melhor meio para exercerem o seu caciquismo político, económico, social e/ou cultural.)
Tenho recordado muito a conversa do tal hippie fora de prazo a propósito de algumas medidas que os últimos governos têm vindo a publicar em Diário da República. Quem as vê de um apartamento alfacinha ou tripeiro pode até contemplá-las como benéficas. (Encerrar escolas até é bom, segundo afirmam, pois colocará todos os alunos num só edifício com todas as condições para o sucesso educativo. Obrigar homens e mulheres a deslocarem-se, em plena noite, a um centro de saúde fora da sua área de residência pode até ser positivo, pois terão cuidados de saúde que na sua terra não teriam. Obrigar as elvenses, por exemplo, a terem os seus filhos na maternidade de Badajoz até é porreiro, pois assim ficarão de uma vez por todas com a cidadania espanhola, que já vão adoptando quando preferem fazer compras na cidade do Guadiana. Extinguir freguesias e concelhos rurais até está bem visto – pois para que quer aquela gente junto de si uma junta ou uma câmara municipal, se a podem ter a trinta-quarenta quilómetros de distância...) Quem conhece bem o interior português sabe que estas medidas legislativas, levadas a efeito pelo governo de José Sócrates, mas idealizadas por políticos seus antecessores, são uma machadada fatal na dignidade de quem lá vive e, logo, um veneno mortal que aniquilará a vida de muitas aldeias e vilas portuguesas.
Claro que nada disto interessa a quem vê nas aldeias portuguesas fontes de rendimento. Têm até pena quando uma aldeia começa a ser muito habitada, pois nesse momento as casitas que até aí custavam trinta contecos passarão a valer 50 000 euros ou mais. Que lhes interessa a eles se as terreolas têm junta de freguesia, médico, posto de correios, farmácia ou escola, se os centros de saúde possuem atendimento permanente, se há uma maternidade próxima... As nossas aldeias são para eles pavilhões de caça ou campos de férias, lugares de passagem que eles transformam em não-lugares, sem vida, sem nada para além de um cenário ostentado para turista ver.
Os reis dos primeiros tempos da nossa história pelo menos legislavam no sentido de favorecerem a fixação das populações. Os nossos governantes fazem o contrário. Primeiro adubaram os caciques locais (que, diligentemente, pela sua passividade, pela sua mediocridade e pelo seu fechamento, fizeram diminuir a população residente no interior), esquecendo os habitantes das nossas vilas e aldeias, não pondo em prática quaisquer estratégias que contrariassem o êxodo. Agora, retiram a boa parte dos portugueses condições mínimas de dignidade – para que o esvaziamento se complete. Não tenhamos dúvidas: para muitos citadinos que vêem no mundo rural uma terra de cafres, o interior português será tanto mais atraente quanto mais se transformar num verdadeiro deserto.
PERGUNTAS A ESMO

Há perguntas que nos inquietam no dia a dia. Resolvi deixar aqui expressas algumas que me tocam particularmente, partilhadas decerto por alguns leitores.


Por que razão quase todos os incompetentes com filiação partidária, quando fazem asneira, não são castigados, mas premiados?
Que motivos guiam a maioria que sustenta o Governo a não querer aprovar legislação eficaz contra a corrupção?
O que leva certos municípios a homenagearem caciques e a deixarem na sombra aqueles que verdadeiramente contribuíram para o desenvolvimento da comunidade em que viveram?
Que vaidade conduz tantos autarcas quando desejam deixar a sua marca nas terras que vão gerindo, mesmo que essa marca seja um mamarracho sem sentido, mesmo que a obra seja inútil e dispendiosa?
Por que razão continuam a existir psicólogos, sociólogos e pedagogos que olham de lado para quem exige dos alunos esforço, trabalho e responsabilidade, preferindo antes nivelar por baixo, transformando a seriedade em palhaçada?
Que razões levam o Ministério da Educação a sobrecarregar os professores com burocracias e mais burocracias, nomeadamente na sua avaliação, diminuindo o tempo que estes deveriam dedicar ao crescimento e à aprendizagem dos seus alunos?
Para que existe uma autonomia do Ensino Superior com os contornos actuais, se ela é muitas vezes sinónima de abuso, de irregularidade, de ilegalidade e de impunidade?
Por que continuamos nós a ver licenciados e mestres no desemprego, quanto vemos tantos iletrados e/ou semi-analfabetos (alguns camuflados) a ocupar lugares que nunca deveriam pertencer-lhes?
Quanto tempo mais continuarão alguns a culpabilizar só aqueles que trabalham pela baixa produtividade da nossa economia, quando está provada a inépcia e ignorância de muitos e muitos empresários?
Por que continuam as autoridades policiais e judiciais a fechar os olhos perante alguns cidadãos que passam em velocidade de cruzeiro da mais negra penúria para a mais descarada riqueza, mesmo quando a medo se vai revelando a mola que produziu tão grande salto?
Por que continuam alguns juízes e magistrados do Ministério Público a vergar a sua coluna vertebral perante certos representantes (locais ou nacionais) do poder económico, político ou mediático?
Que interesses levam a gestão do país a querer mirrar aqueles que não podem escapar ao pagamento de impostos, quando não mexe uma palha para obrigar os que mais têm a entregar ao Estado aquilo que lhe é devido?
Para onde vão os donativos obrigatórios que muitas instituições de “solidariedade social” recebem, como resultado da discreta chantagem de que são vítimas tantas pessoas que não podem ter em casa os idosos da sua família? E em que bolsos estarão guardados os fundos indevidamente recebidos do Estado, à conta de falsas declarações e de utentes inventados?
Quanto tempo mais continuaremos a fazer estas e outras perguntas que nos inquietam e angustiam o viver quotidiano?

RESISTIR ÀS TENTAÇÕES


A "oferta" governamental era tentadora - e eu deixei-me tentar, confesso. Um computador portátil com serviço de banda larga daria jeito a este cidadão docente pouco abonado. Trinta contos de entrada com trinta e seis mensalidades de dezassete euros e meio era aliciante...
O assunto começou a dar-me comichão no nariz quanto me apercebi de que a "computadeira" não é propriamente um exemplo de tecnologia de ponta. Não se vende por aí e, não sendo uma raridade, a coisa tem marosca. Existem computadores com muito melhor memória e as empresas já nem se dão ao trabalho de os porem à venda. Ninguém lhes pegaria... dizem-me.
Quando recebi o contrato da empresa de telecomunicações, mandei tudo às urtigas. Apesar das benévolas palavras desse primo do Conde d' Abranhos que nos governa, nunca assinarei um contrato sem hipótese de denúncia que, nas letras pequeninas, quase ilegíveis, me obrigue a pagamentos durante três anos a uma empresa que se reserva o direito de alterar o preço pré-estabelecido, elevando-o a cumes desconhecidos, quiçá altíssimos.
Será esta maneira de proceder (outros chamar-lhe-iam "tramóia") legal? Não sei. A mim, contudo, não me enganaram. Por pouco...

CUNHAS

Dispensam até a hipocrisia... Como António Mega Ferreira (ler Visão, de 02.08.2007), há muitos cidadãos que consideram aceitável as editoras não lerem os originais recebidos, recusando quiçá obras-primas, enquanto publicam livros de "influentes" ou de outros promovidos pelas alavancas da "influência", por mais indigentes que sejam. Mais vale porem à porta um letreiro dizendo: "Acesso reservado. São necessárias cunhas!"

INGENUIDADE

Um amigo saiu há pouco da ingenuidade literária. Começou a aperceber-se da trampa que rodeia a escrita, ou melhor, a sua publicação e/ou divulgação. Mais tarde ou mais cedo, acontece a todos. Nesse momento, só existem três caminhos: resistência, desistência ou cumplicidade.
BAIRRISTAS E FORASTEIROS

Lembro-me como se fosse hoje. Corria o ano de 92. Escrevia eu no Notícias de Elvas. Num debate promovido por este jornal, fôra convidado um moderador qualificado. Feita a introdução necessária ao tema, logo um cavalheiro se levantou da assistência, pedindo a palavra. Quando todos esperávamos uma intervenção suscitadora, o dito cidadão pronunciou: “Com tanta gente boa que há em Elvas, logo havia de vir um gajo de fora dizer das suas!” Assim mesmo. Com a delicadeza de um elefante numa loja de loiça (perdoem-me os paquidermes...).
Há gente assim. Não olham para a qualidade dos seres humanos, para a sua experiência e verticalidade (que consideram, quiçá, incómodas), para as suas capacidades ou para os seus atributos – mas apenas para a certidão de nascimento (verdadeira ou suposta) que, tanto quanto sabemos, não constitui atestado fiável nem de inteligência nem de competência. Certo bairrismo tem destas coisas: há gente que prefere vinho carrascão, só porque nasceu dumas vides enfezadas lá da terra, e rejeita um néctar divino, só porque a cepa rebentou em território que não consegue alcançar com a vista. Esquecem quase sempre um princípio universal: podemos nascer em qualquer canto, até num comboio ou numa avioneta; a “pátria”, contudo, é um assunto do coração, crescendo da adesão espiritual a um lugar, tantas vezes diferente daquele em que lançámos o primeiro grito.
O bairrismo vale a pena quando defende com abertura de espírito e frontalidade crítica as mais profundas aspirações duma colectividade (o seu verdadeiro desenvolvimento mental, cultural, cívico e económico). É manifestação espúria duma sociedade fechada e ignorante sempre que revela uma bacoca miopia, embebida em estupidez, quando defende o indefensável, quando promove a mediocridade local só porque é local, quando recusa a crítica legítima, quando é veículo de reprodução social na promoção do imobilismo e, frequentemente, do caciquismo nas suas expressões mais perigosas e/ou descaradas.

Exemplos contrários também existem. Há habitantes de aldeias, de vilas, de cidades e de países que vão dando bordoada na qualidade dos seus naturais, mesmo que seja notória e reconhecida fora de portas (sobretudo quando esses naturais vêm das camadas desfavorecidas, pois ameaçam a pirâmide social) – mas não hesitam em bajular quem venha de fora, mesmo que seja um burlão ou um vigarista, ou apenas um chico-esperto que habilmente manipula a hospitalidade local.
Por isto e por muito mais escrevo sem hesitações: nem forasteiros nem indígenas. Melhor dizendo: para nada nos deve interessar o bilhete de identidade de uma cidadã ou de um cidadão, desde que mostre verticalidade, qualidade e competência; igual desprezo devemos votar à naturalidade de quem se apresenta na sua mediocridade. Prezemos quanto de bom nasça nas nossas terras, mas com o mesmo amor acarinhemos os frutos saborosos vindos do resto do mundo. Com Marco Aurélio, defendo que “pouco importa viver aqui ou ali se em toda a parte tivermos a ideia que este mundo é uma cidade”. Ninguém vive plenamente sem raízes e sem uma profunda religação ao espaço que ocupa no mundo e à sua memória integral (positiva ou negativa). Mas não deixo de concordar com Pascal: “Não é do espaço que eu devo esperar a minha dignidade, mas do acerto do meu pensamento. (...) pelo espaço, o universo abarca-me e submerge-me como um ponto. Pelo pensamento, abarco-o eu.

AQUILINO NO PANTEÃO


Os ossos de Aquilino Ribeiro foram hoje colocados num sarcófago do Panteão Nacional, fazendo companhia a Garrett, Guerra Junqueiro, João de Deus e Delgado, mas também a Sidónio Pais e Óscar Carmona (o nosso país é assim...). Seja qual for a nossa opinião sobre a sua acção política, é uma atitude louvável do Estado, embora redundante, pois há muito a sua escrita o colocara no panteão da inteligência portuguesa.

Fui convidado pela Assembleia da República para a cerimónia, mas infelizmente não estive presente. A profissão e os condicionamentos impostos pelo Estatuto da Carreira Docente não mo permitiram. Tratando-se dum acontecimento que se desejaria o mais participado possível, não compreendo como se programou a homenagem para um dia e um horário (11 horas) em que apenas os desempregados e os disponíveis (aposentados ou de outra índole) puderam assistir.
100 anos depois...

"Organização política dominada por uma 'tribo' pouco escrupulosa, ávida de poder e proventos"... "rotativismo" criador de "uma série de clientelismos"... "a intriga, o despotismo, a conspiração"... "poder anónimo e irresponsável que frequentemente dirige, duma maneira indirecta, mas efectiva, toda a alta política da governação"... "falência"... "fisco absurdo".
Será o Portugal actual muito diferente do apresentado nestes fragmentos escritos em 1909, retirados de um relatório elaborado pelo sociólogo Léon Poinsard, encomendado pelo rei D. Manuel II e pago do seu bolso? Cada vez me inclino mais para uma resposta negativa. Ontem, como hoje, o problema do país não é de regime, mas de governo.
ALGUMAS PALAVRAS

A entrega do Prémio Nacional de Poesia "Sebastião da Gama" a Amadeu Baptista e o lançamento do livro galardoado, O Bosque Cintilante, decorreram no sábado passado em Azeitão, com assinalável dignidade. Aqui ficam as palavras que proferi na ocasião:


Poderia proferir – em nome do júri do Prémio Nacional de Poesia “Sebastião da Gama” – palavras de circunstância. No entanto, nem o poeta premiado – Amadeu Baptista –, nem a memória do autor de Serra-Mãe (e do outro grande vulto poético da Arrábida, Frei Agostinho da Cruz), nem a assistência o merecem. Palavras de circunstância diria se viesse afirmar ter sido muito difícil e demorado escolher entre os cento e trinta e um originais o merecedor do galardão. Tal informação não corresponderia, contudo, à verdade. Sentados à mesa, depois de aturada leitura de todas as colectâneas submetidas à apreciação dos jurados, em poucos minutos sobressaiu uma decisão unânime. Vergílio Alberto Vieira, José do Carmo Francisco e o subscritor destas frases não tiveram dúvidas quando verificaram que o livro intitulado O Bosque Cintilante (a que fora atribuído o número 24) era um incontestável ponto luminoso. A luz emanada do título correspondia (e corresponde) plenamente à eminência poética. Não fazíamos ideia do ser carnal que se ocultava por detrás do pseudónimo “Paganini”. (Lembrei na altura Ruy Belo, para quem a Poesia é feita de poemas e não de poetas...) Tínhamos no entanto inteira convicção de que a justiça estava do seu lado.
Amadeu Baptista – nome descoberto depois da abertura do envelope lacrado – não era desconhecido de nenhum de nós (nem deveria sê-lo de qualquer olhar clarividente sobre a poesia portuguesa contemporânea). Autor de dezassete livros de poemas e de uma excelente antologia pessoal recentemente publicada, vem rasgando desde 1982 uma das mais importantes vias de circulação sanguínea desse corpo (por vezes paradoxal) que é a literatura em língua portuguesa do nosso tempo. Não precisa dos meus elogios (a qualidade de quanto escreve e/ou publica vale por si), mas há verdades que devem ser repetidas, para que não percamos de vista, na selva de alheamento que envolve o mundo cultural e social que nos foi dado viver, os focos luminosos (aqueles que têm brilho próprio) – e os saibamos distinguir desses espelhos enganadores que apenas reflectem a luz alheia, nada produzindo de válido, mas conseguindo ainda assim ofuscar e desorientar quem tenta encontrar o seu caminho. É preciso sermos, como refere Cristo no Evangelho segundo Tomé, “puros como as pombas e astutos como serpentes”.
Num “país de poetas” que não lê os poetas, como escreveu um dia Alexandre O’ Neill, é urgente separar o ouro do latão dourado ou de outros metais sem nobreza que, mais cedo ou mais tarde, revelam o seu verdete ou a sua ferrugem. Versejar e escrever poesia não são a mesma coisa. A Poesia revela, desvela, ilumina, transfigura, religa, desencanta o Universo. Os versejadores (mesmo os mais hábeis ou bem relacionados) apenas mutilam, ocultam, obscurecem ou conspurcam a realidade tangível ou intangível que nos envolve.
Bem mais que a expressão do inefável / seja a expressão do amor a poesia”, afirma Amadeu Baptista num poema seu. Sebastião da Gama diria que “o segredo é amar”, porque “a nobreza da Poesia [...] está [...] [em] se procurar e se encontrar em todos os lugares em que se está”. Quem escreve precisa, no entanto, como referiu Agostinho da Silva num livro sobre Giacomo Leopardi, “que o meio de algum modo [lhe] favoreça a tarefa”. Estimulá-lo com um prémio é uma boa maneira de o fazer (porque o poeta, ser humano como todos os outros, também come, também se veste, também necessita de um tecto ou de viajar...), desde que esse prémio traga consigo não apenas a compensação monetária, mas sobretudo uma alavanca que faça avançar com maior força a leitura da matéria escrita.
A tarefa cabe a cada um de nós. Parece que ouço, neste momento final das minhas palavras, algo de semelhante a uma frase de Renoir sobre a pintura (desta vez sobre a poesia): “Se os poetas só podem ajudar a Poesia escrevendo-a o melhor que podem, aqueles que não sabem ou não conseguem levar a cabo essa tarefa, têm apenas uma coisa a fazer: leiam poemas, comprem livros de poesia, façam-na chegar a todos os cantos, sirvam-na com humildade e nunca, mas nunca, se sirvam dela.

Azeitão, 19/5/2007

FEIRAS E FESTIVAIS

Sei o que valem as "feiras medievais" e os "festivais", "islâmicos" ou de outra índole, que pululam por Portugal e, talvez, por outras partes. São, sobretudo, invenções políticas e económicas que visam atrair o carcanhol turístico, meios de revitalização de comunidades que caminham muitas vezes para a desertificação social e humana. Têm muito pouco a ver com o entendimento histórico - são, podemos dizer, meios de ocultação da História, na medida em que fazem passar como verdades mentiras ou cenários que nunca corresponderam à realidade. Não passa por aí a compreensão do passado, por essas visões paradisíacas que tapam o sol com a peneira, mas que, no entanto, só enganam os tolos ou os distraídos.
Vêm estas considerações a propósito de uma feira que decorrerá numa vila do Baixo Alentejo. Chamam-lhe "festival islâmico", porque pretende relembrar o passado muçulmano da localidade. Tudo bem para o turismo e para os rendimentos da população; os seres humanos precisam de comer. Tudo mal para verdade histórica, que se vê mutilada em muitos dos cenários propostos.
Reviver o passado só vale a pena quando se mostram as luzes e as sombras. Mostrar estrategicamente apenas as luzes (algumas de duvidosa luminosidade) é mergulhar a História num ácido selectivo e manipulador.
Pergunto apenas: quantos dos participantes ou dos organizadores do "festival" gostariam de viver sob uma teocracia islâmica? Muito poucos, certamente...
FANATISMOS E COBARDIAS
(Oz & Reverte)


"Sentido de humor, a capacidade de imaginar o outro, a capacidade de reconhecer a capacidade peninsular que existe em cada um de nós, pode pelo menos constituir uma defesa parcial contra o gene fanático que todos temos dentro de nós." A proposta é de Amos Oz que, sem maniqueísmos, consegue manter-se, funâmbulo, na linha de fronteira entre a cegueira terrorista palestiniana e o entrincheiramento judeu.

*

A entrevista de Arturo Pérez-Reverte ao Público de 20 de Abril é um raro documento de frontalidade e lucidez perante o nosso tempo. Nada a que não estejam habituados os leitores das suas crónicas poderosas, mas ainda assim esta entrevista é algo de assinalável no meio da cobardia politicamente correcta que está a dar cabo do Ocidente europeu. Quanto mais nos baixamos (nomeadamente perante o terrorismo de todas as proveniências, social e armado), mais o traseiro nos aparece... E é bom que pessoas como o romancista espanhol, ouvidas, digam que o rei vai nu.
"Merecíamos ser invadidos", afirma. É verdade! Mas sofreriam nessa altura os crápulas que, conscientemente, hoje tudo justificam? Duvido.

A RECUSA DE GAMBETTA


Gambetta (então primeiro-ministro francês) justificou assim a Renoir a sua recusa de um projecto de mural para o novo edifício da Câmara Municipal de Paris:
"Mais vale ver a República viver com a má pintura do que vê-la morrer com uma grande arte..."
O político afirmava amar a pintura de Pierre-Auguste, ou pelo menos reconhecia a sua eminência. Os seus (contra)valores eram no entanto outros. Talvez por isso caiu da cadeira pouco tempo depois. Ao contrário do que pensava, a verdadeira Arte vai permanecendo (mesmo quando ocultada), enquanto os regimes e os governos cedem facilmente à erosão do tempo.
E os Gambetta de hoje? Na sua maioria, nem reconhecem nem amam a Arte. Mesmo quando parecem fazê-lo, continuam a preferir pomposos pilritos (que fazem vista sem incomodar ninguém), ignorando o trabalho destes no esboroamento dos políticos e dos regimes que os promovem.



(Na imagem: "Le Moulin de La Galette", de Renoir.)