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SERIA BOM TROCARMOS
ALGUMAS IDEIAS SOBRE O ASSUNTO


As televisões vêm apresentando uma "onda de indignação" pelo que está a suceder na Faixa de Gaza. Não sei até que ponto o que a comunicação social apresenta corresponde à verdade verificável, pois uma das características da "nova Idade Média" em que vivemos é a manipulação política dos factos nos órgãos de comunicação, através de imagens falsificadas e de discursos verbais modelados pela hipocrisia. Assim sendo, gostaria que alguém me explicasse, com os devidos fundamentos sociológicos, históricos e científicos:


1. Como podem os habitantes de um país defender-se de atentados constantes à sua dignidade física e psicológica, se esses ataques são movidos por um terrorismo que visa destruir a sua existência enquanto comunidade organizada em Estado independente e democrático?


2. Que vantagens trará aos habitantes desse país (tenham a identidade cultural que tiverem) a substituição de um regime democrático por uma teocracia tirânica e violadora dos mais elementares direitos humanos?


3. Como se distinguem, no meio de uma população civil, os terroristas dos não-terroristas, os militantes de um movimento "de libertação" dos "inocentes" que os rodeiam?


4. Que características físicas ou psicológicas dão mais valor aos mortos de um grupo sócio-religioso e o retiram aos de outro?


5. Como é possível destruir as armas existentes em edifícios de habitação, locais de culto ou estabelecimentos de ensino sem macular quantos os povoam (talvez de propósito)?


6. Que mecanismos usa para promover a paz dos seus concidadãos um movimento político-religioso cujo único objectivo é provocar o adversário e defender a sua extinção física e cultural?


7. Que respeito tem pelo seu povo um grupo que usa os seus conterrâneos como escudos humanos, expondo-os à violência e à morte?

8. Que consideração tem pelos seres humanos um grupo armado que usa as crianças como combatentes e/ou as educa para a futura prática de atentados?


9. Como é possível existir uma verdadeira paz sem que haja, simultaneamente, uma prática constante de tolerância mútua?


10. Que razões têm levado, nas últimas décadas, muitos dos antigos defensores do "paraíso de leste" a transferirem para a "tolerância islamita" os seus ditirambos e louvores?


Quando essas explicações surgirem, talvez possamos entender quem tem razão e quem a não tem neste conflito. Não podemos esquecer que "o discurso e a escrita política são em grande medida a defesa do indefensável" e "a própria política é uma massa de mentiras, fugas, tolices, ódio e esquizofrenia", como referiu George Orwell no seu ensaio "Politics and the English Language".
ANO NOVO

O ano novo é um corpo velho a que vestiram camisola lavada sem, contudo, lhe darem banho. Se não nos aproximarmos muito, ainda mete vista. Mas, se nos chegarmos, veremos a mesma sujidade de sempre e sentiremos no nariz o mau cheiro habitual.
Por isto, ligo tão pouco aos festejos desta época. Podem ter extroversão e alegria (se se pode chamar "alegria" às bebedeiras, à gritaria e ao foguetório para o povo ver), mas mostram sempre muito pouca felicidade.
Faço o jeito à família, para não me tornar antipático. Mas no fundo estes dias servem-me tão só para agradecer o que recebi no ano defunto e para colocar pilha nova na Esperança, sem a qual ninguém consegue viver e apenas existe.
NÃO HÁ LUGAR NA HOSPEDARIA

"Não havia lugar na hospedaria". De entre todas as frases que constroem a narrativa da Natividade é esta uma das que mais me impressiona. Mais do que uma imagem de pobreza, de ausência de abrigo, esta afirmação ecoa no meu cérebro como desencantada constatação da rejeição da digna humanidade de Jesus.
Hoje vivemos um Natal sem Natividade e sem Menino, envelhecido nas barbas brancas de um velho com barriga de fartura - empanturrado talvez pela "água suja" açucarada do refrigerante que trajou Nicolau de vermelho e lhe retirou o nome e o papel de servo de Cristo. Ausenta-se dele não só a pobreza de Jesus, mas até a sua imagem (envolvida nas notas de banco do comércio ou em papéis de embrulho), numa reverência aos deuses do neo-paganismo dominante (o Dinheiro, o Consumo, a Indiferença, o Relativismo, o Sucesso, etc.). Vivemos, assim, num mundo em que a verdade da frase registada no Evangelho se tornou evidente.
Como há cerca de dois mil anos, não há hospedaria que acolha muitos dos seres humanos que habitam neste planeta Terra. É fácil lembrarmo-nos dos impressionantes números da miséria extrema que revestem alguns países dominados por sanguessugas que, por vezes, até assumem as vestes da "democracia" para melhor se perpetuarem no poder e cometerem os seus crimes. Mais difícil é lembrarmo-nos daqueles que, ao nosso lado, não encontram lugar nas hospedarias da dignidade. E não são apenas quantos povoam as arcadas e os recantos do relento deste país, deitados em caixas de papelão. São também, por exemplo, as crianças que não encontram lugar nos infantários públicos, os jovens altamente qualificados que não têm emprego nem esperança de trabalhar no seu Portugal, os cidadãos dignos que se vêem espezinhados por dirigentes políticos económicos ou sociais levianos e/ou corruptos ou por um sistema de justiça em erosão, aqueles que perdem o seu emprego, os que vêem o seu sustento reduzido pela ganância bancária, os idosos que não têm que olhe por eles, sendo excluídos dos lares por causa das suas doenças ou por não terem dinheiro suficiente que compre a abertura de vagas.

*

Há pouco mais de um ano Rosária foi uma dessas excluídas que, todos os dias em Portugal, não têm lugar na hospedaria. Residente no concelho de Portalegre e doente de Alzheimer, quando a sua família se viu impossibilitada de cuidar dela durante alguns dias, ouviu em quase todos os lares da sua região a mesma resposta. Como se fosse uma pestífera, a sua doença provocou sempre a mesma recusa. Apenas o director do Lar de São Domingos dos Fortios lhe mostrou alguma luz na sua atitude sincera e sensível, apesar das dificuldades de espaço da instituição que dirige.
Felizmente a solidariedade aldeã resolveu as coisas de outro modo.
Ainda não há um mês, Deus, em definitivo, cessou por completo o seu sofrimento, as suas dificuldades e as da sua família.
Há sempre seres humanos que nos fazem acreditar na Humanidade e não descrer completamente deste mundo. No exemplo apontado, vemos o director de um lar, a vizinha solidária (D. Armandina) e até o médico (Dr. Serpa Soares) que, na hora da morte de Rosária, soube vencer os muros da burocracia cega do Estado e da insensibilidade de colegas seus.
Esta história poderá ser de proveito e exemplo, aclarando a consciência. Hoje, como há dois mil anos, há gente que é posta na rua porque não há lugar na hospedaria. Mas há sempre estrelas que guiam, grutas que na pobreza se abrem para acolher os excluídos deste mundo em que vivemos, pastores que oferecem o pouco que têm. Façamos parte deste segundo grupo - e concretizemos, com o nosso contributo, uma verdadeira comemoração da Natividade de Jesus de Nazaré.
PONTES NA DIVERSIDADE

Houve um tempo, na Península Ibérica, em que todos (ou quase todos) falavam a mesma língua. Não me refiro tanto ao conhecido latim anterior ao século V ou a essa língua popular que, na opinião de alguns autores (Moisés Espírito Santo, por exemplo), seria a sobrevivência de falares orientais, semitas, com raízes nas migrações pré-romanas provenientes da Fenícia ou de Cartago – e que teria subsistido até ao século VI. Penso nos dialectos moçárabes com que os povos peninsulares se entenderam até à Reconquista, frutos de uma sedimentação secular de morfologias, sintaxes e vocabulários provenientes de povos e épocas diferentes, entrançando os ramos nascidos de raízes indo-europeias com outros semitas (árabes, berberes e não só).
As políticas senhoriais acabaram por dividir administrativamente povos unidos durante milénios (Lusitânia, reino visigodo, taifa de Badajoz…). De cada lado os habitantes começaram a adoptar a língua de prestígio dos seus senhores, sobretudo a escrever nessa língua – e, mais uma vez, Babel foi fazendo das suas…
Se lermos, contudo, documentos escritos até aos séculos XVI-XVII em português e castelhano (textos literários ou de outra índole) – perceberemos que as proximidades são mais significativas do que as distâncias. Não por acaso, até as elites desse tempo tinham orgulho em serem bilingues. O povo, esse, fazia o seu caminho paralelo – falando, sem escrever, à sua maneira.
Essa proximidade, muito esbatida até aos nossos dias, não viria no entanto a apagar-se de todo. Há uma faixa de território, traçada de norte a sul, com sessenta-setenta quilómetros de largura (tendo, invisível, uma fronteira pelo meio), em que as coisas se passaram de outro modo. No lado português da Raia, se nos adentrarmos pelas aldeias e vilas mais modestas (menos sujeitas às influências mediáticas…), não é raro encontrarmos pessoas que se orgulham de falar "espanhol" – quando, na realidade, apenas praticam uma "língua franca", de contrabandista, entendida e partilhada para além de Segura ou dos Galegos.
Se estivermos com atenção ao escutarmos o seu "falar de Portalegre – Castelo Branco" (como lhe chamam os linguistas), que pouco tem a ver com a pronúncia da Beira Alta ou com o português "cantado" do Alentejo abaixo de Arronches, começaremos então a surpreender-nos com uma fala em que, pelo menos, houve uma sementeira vocabular trazida pelos célebres "ventos" de Castela, fruto talvez dos contactos mútuos nascidos no contrabando e em muitos matrimónios celebrados ora no lado de cá ora nas igrejas das terras de Alcántara.
Termos que nenhum (ou quase nenhum) dicionário de Língua Portuguesa regista – parecem vir de vozes extremenhas, embora hoje estejam de tal maneira enraizados nos falares e na toponímia que muitos os consideram apenas regionalismos. O orvalho matinal é, por estes lados, "mareia"; um rochedo de grandes dimensões, um "canxo"; um matagal será sempre "matorral"; um pêssego come-se como "malaquetão"; um caminho rural largo é uma "carteira". Um homem aborrecido é "empalagoso"; uma mulher sabida e perigosa, uma "culebra"; se veste uma samarra, usa uma "pelice"; uma criança será sempre um "nino"…
Os exemplos poderiam multiplicar-se por muitas dezenas ou centenas. Faz falta, aliás, um trabalho sistemático de pesquisa e estudo deste fenómeno de intercomunicação linguística, afinal bem compreensível, – antes que a normalização imposta pelos modelos televisivos acabe com toda a riqueza dos nossos povos e seus habitantes.
Afinal, na língua, como noutros domínios – por mais que alguns políticos, a xenofobia e as guerras lutem pela separação – o contacto entre seres humanos trabalhará sempre em prol da ligação, da construção de pontes, primeiro motor do entendimento e da paz.

(Publicado, em tradução castelhana, na revista Imagen de Extremadura)

Nicolau Saião

ÀS VEZES CHEGAM CARTAS

Maria Estela

Cá estou de novo no Alentejo – que fica no extremo sudeste de Portugal, como é sabido - aonde cheguei ontem sob um intensíssimo frio que mais me fez sentir o contraste com o calor natural que nesta época do ano envolve Fortaleza, o Ceará e o Brasil por extenso.

Refiro-me agora ao calor do tempo e do espaço, não ao do ambiente pessoal e humano. Esse pôde a Maria Estela senti-lo, como eu o senti, como todos os participantes o sentiram – fôssem de Quito ou de Caracas, de Madrid, de Bogotá ou da Cidade do México...
Creio não me enganar, nem exagerar – como exilado que sou e de asa meio-ferida que ando – se disser que o clima de cordial fraternidade que pude sentir naquele hotel que por dias nos foi lugar de acolhimento, e nos entrepostos de bom tamanho onde decorreu fisicamente a Bienal, me gratificou, me espantou e finalmente me comoveu um bocado, pois fômos tratados com apreço e mesmo estima desde o princípio até ao fim.
Poderá a Maria Estela, que tem experiência destes eventos no estrangeiro, dizer com alguma surpresa ao lusitano/alentejano que sou: ”Mas é habitual ser assim, valha-o Deus!”. De acordo. Mas o que a minha experiência me diz, do que tenho participado dentro de portas, é que lá pelo último dia, perceptivelmente, se começa a sentir um ambiente estilo “já debitaste tua parlenga, agora vai pela sombra e adeusinho...”. Creio que me faço entender.
Não é preciso recordar-lhe a estruturação competente – e o Curador geral decerto se congratulou - que se sentia naqueles enormes salões, nas áreas e jardins de acesso, nos lugares circundantes. Na organização dos diversos lugares de palestra, de colóquio, de debate, de repouso. Até na própria forma como o transporte dos participantes foi congeminado. Coisas simples, está de ver, mas que têm uma importancia que não deve subalternizar-se.

A presença das muitas centenas de milhares de visitantes sentia-se fluir de maneira vivaz e interessada. Talvez seja por ingenuidade da minha visão, mas nas deambulações que tive ocasião de efectuar, nos minutos em que me pude “escapulir” das acções em que participei ou a que assisti, aliás com muito gosto, fiquei com a sensação de que havia nas pessoas – crianças, adolescentes, adultos de várias idades – um genuíno interesse pela leitura, pela presença física dos livros, do eventual saber e da eventual maravilha que neles reside e que deles parte. E aquele salão da literatura de cordel, Maria Estela, com centenas e centenas de títulos mesclando a imaginação e a proverbial vivacidade de um povo pronto para todas as viagens como dizia Ungaretti e que, sim senhora, merece um futuro de luminosidade a construir, como luminosas são as praias de Fortaleza!

Termino epigrafando – em jeito de relembrança aqui entre nós – a comunicabilidade que se estabeleceu entre os confrades que ali iam efectuar seus trabalhos específicos: era boa, era espontânea, era verdadeira. Funcionava como uma leve cooptação. Nos locais das sessões, bem como naquela sala de repastos, no hotel que nos serviu de guarida, radicaram-se momentos de estima fraternal que, para além de tudo, nos garantiram a ideia, que creio apropriada, de que gente diversa, de diversa formação e nacionalidades, podem sentir um leve ou mais marcado frémito de amizade entre seres que passam ao mesmo tempo pelo tempo da Terra. E certos nomes e rostos e vozes ficaram, ficam em mim: o boliviano Gabriel, a quem por ironia amiga eu chamava “anjo gabriel” em vista da sua permanente boa-disposição e simpatia humana; o mexicano Eduardo, cavalheiro-poeta bem digno dos velhos tempos, como dizia Eugène Canseliet; o poeta José Santiago, que eu lia há tanto tempo e ali achei em pessoa de ser bem humano; e tantos, tantos outros e outras que não refiro aqui para não ser redundante e eventualmente maçador...

E pois cá estou de novo no país e na província transtagana, satisfeito mas inquieto. Pois logo que saí do aeroporto e entrei num cafézito para uma bica retemperadora, olhei e vi que, na televisão... Mas cala-te boca, que não vou agora, ainda que ao de leve, linguajar sobre tristezas e caquexias nacionais!

O triplo beijinho de estima do
n.
A VERDADEIRA FACE
DE MARIA DE LURDES RODRIGUES

Os professores só poderão aceitar um modelo de avaliação cujo objectivo primeiro seja a formação, só uma avaliação formativa visando o aperfeiçoamento, científico, pedagógico e cultural dos professores fará destes, em cada dia, melhores professores e melhores pessoas, e consequentemente, só este modelo fará com que tenhamos uma melhor escola.
Este pressuposto fundamental, não só é completamente ignorado pelo actual modelo, como foi por MLR combatido: A primeira medida de MLR, em 2005,foi suspender a formação, dizendo, sem que ninguém a processasse por difamação, que a formação que os professores tinham feito até então era fantochada.
Em 2005, numa mesa redonda patrocinada pela RTP1, onde estavam entre outros,o antigo secretário geral da FENPROF, MLR caluniou, impunemente, faculdades, institutos politécnicos, centros de formação e o próprio ministério (entidades promotoras de formação) e ninguém nada disse.
MRL não quer que sejamos melhores professores e que tenhamos uma melhor escola. MRL quer formatar os professores a um modelo que faça deles funcionários modelados. O modelo de MRL, subjectivo e sinuoso, dar-lhe-aos elementos necessários para fundamentar as arbitrariedades que a cada momento, lhe convierem. A avaliação foi o instrumento legal que os patrões das empresas arranjaram para dispensar quem quiserem, quando quiserem. MRL cumpre o desígnio empresarial. Eis a Escola que quer para o Povo português: a escola-empresa, com organização empresa, com pensamento empresa, com aprendizagemempresa. O povo português quer uma Escola de solidariedade, de conhecimento, de cultura, de igualdade na diferença. A senhora ministra travestida de anjo salvador da educação, engana mas
não poderá enganar toda a gente por muito mais tempo.
Que fez MRL em 3 anos? Encerrou 3000 escolas; enclausurou milhares de crianças de tenra idade nos chamado Centros Educativos: Individualidade, identidade e afectividade tornam-se, ainda que com grande esforço dos professores, dimensões retóricas; fomentou o desemprego e a precariedade entre os jovens professores: Impede que gente jovem chegue às Escolas, aumentando a carga horário dos mais antigos que se vêem, ao fim de 30 anos de serviço, com horários de 25 horas lectivas, acrescendo dezenas de outras inerentes aos desvarios governativos, sem qualquer proveito para os alunos, nem professores. Os jovens professores são sub-contratados por empresas de "inglês a metro e música a quilo", encontrando-se muitos deles entregues à sua sorte, sem qualquer estrutura organizativa no âmbito laboral ou pedagógico. Fracturou a Carreira docente, fazendo surgir professores de primeira e de segunda. Pretendeu com esta medida, matar dois coelhos de um só golpe: fomentar entre os professores comportamentos desviantes da sua integridade e dimensão humanas. (Dividir para reinar, aprendeu com Maquiavel); arrecadar milhões, à custa do empobrecimento dos professores (afinal os milhões são necessários para alimentar os banqueiros).
Como é pois, possível que tenha a ousadia de dizer que o que fez e faz é para termos uma melhor escola? Ela diz, porém já ninguém acredita. MRL continua a apresentar-se travestida de anjo salvador da educação embora, penso, por pouco tempo, uma vez que estará à espera que o pó baixe, para apresentar a Sócrates a carta de demissão que já redigiu e que o seu defensor, penosamente cínico, aceitará. Sairá em volátil tapete vermelho, com "ministra" no currículo. Outro se seguirá que sob mando Sócrates, nada alterará, deixando tudo em lume brando, até ao momento de ter caminho livre, para novo ataque. E uma vez mais, seremos nós, o povo português, a pagara factura, desta feita, muita elevada.

Anabela Almeida, professora que o quer ser
Nicolau Saião

OS VERBOS IRREGULARES

COMO TOUPEIRAS

Em certas alturas, um irreprimível cansaço vai-se apoderando do cronista. Tal como do simples cidadão.
É que não dá, não dá mesmo para subsistir em termos interiores, em vista da catadupa de caquexias, tramelgas, piruetas e outras coisas estranhas que percorrem o quotidiano deste pátria que já foi mãe (de alguns...) e é hoje madrasta (de muitos mais!) ante a irredutível cavalgada de membros da res publica que deviam levar a nação a bom porto e andam a fazer navegar o navio como se de um inquietante pré-Trafalgar se tratasse.
Senão, vejamos: tempos atrás, aí coisa de 2 meses, veio o primeiro-ministro, numa cerimónia luzida e muito propagandeado, garantir in loco aos mineiros de Aljustrel que a empresa da qual dependem estava ali para as curvas, que coisas daquelas é que eram/são necessárias ao país! Pois bem: anteontem, a dita empresa encerrou a laboração nas minas, votando umas centenas de trabalhadores ao desemprego...
E ontem mesmo, após a grande manifestação inequívoca de milhares de professores, que sem escaramuças ou alarme popular disseram de suas razões em Lisboa, como todo o país viu, veio o prof. Cavaco Silva, que como se saberá está presidente – dizer com unção que os portugueses devem ter calma e serenidade. Ao invés de dizer ao chefe do governo que aja de maneira a não despoletar a necessidade de eventos assim – aconselha serenidade. Ou seja, busca colocar nos professores o ónus do tremor social, pois nenhum alarme social se verifica – o que há é natural em democracia.
É o que também fazia (“deixem-se de lamúrias”, lembram-se?) o benquisto Jorge Sampaio, felizmente já passado à Estória, quando presidente. Se algum português aventava, sensatamente, que as coisas andavam mal!
Ante os desmandos duma ministra ao serviço dum chefe de governo, pede-se calma - a quem anda a ser prejudicado. Respeitinho é que é preciso, já lá dizia O'Neill...
E, como corolário referido em todos os jornais e rádios, vem um notório antigo ministro do regime derrubado pelo 25 de Abril, Veiga Simão, apresentado e muito bem pelos mídias como “antigo ministro socialista”, propor aos intervenientes na contestação do Ensino “um pacto de silencio”!... Pois, segundo ele, o diferendo devia ser resolvido entremuros, entre a gente do meio...
É bem a palavra avisada dum antigo ministro do antigo regime. A opacidade e o negrume como método, de preferência tudo tratadinho no interior da Terra!
Como se todos fôssem, conceptualmente, mineiros – andando no interior da terra e afastados da luz do sol e da clareza
Ou, melhor ainda – como se tivéssemos todos perfil interior de toupeiras!
AS PALAVRAS DE MANUEL ALEGRE
sobre o que se passa na política educativa do Governo

"Confesso que me chocou profundamente a inflexibilidade da Ministra e o modo como se referiu à manifestação, por ela considerada como forma de intimidação ou chantagem, numa linguagem imprópria de um titular da pasta da educação e incompatível com uma cultura democrática.
Confesso ainda que, tendo nascido em 1936 e tendo passado a vida a lutar pela liberdade de expressão e contra o medo, estou farto de pulsões e tiques autoritários, assim como de aqueles que não têm dúvidas, nunca se enganam, e pensam que podem tudo contra todos.
O Governo redefiniu a reforma da educação como uma prioridade estratégica. Mas como reformar a educação, sem ou contra os professores? Em meu entender, não é possível passar do laxismo anterior a um excesso de burocracia conjugada com facilitismo. Governar para as estatísticas não é reformar. A falta da exigência da Escola Pública põe em causa a igualdade de oportunidades. Por outro lado, tudo se discute menos o essencial: os programas e os conteúdos do ensino. A Escola Pública e as Universidades têm de formar cidadãos e não apenas quadros para as necessidades empresariais. No momento em que começa a assistir-se no mundo a uma mudança de paradigma, esta é a questão essencial. É preciso apostar na qualificação como um recurso estratégico na economia do conhecimento, através da aquisição de níveis de preparação e competências alargados e diversificados. Não é possível avançar na democratização e na qualificação do sistema escolar se não se valorizar a Escola Pública, o enraizamento local de cada escola, a participação de todos os interessados na sua administração, a autonomia e responsabilidade de cada escola na aplicação do currículo nacional, a educação dos adultos, a autonomia das universidades e politécnicos.
Não aceito a tentativa de secundarizar e diminuir o papel do Estado no desenvolvimento educacional do nosso país. Sou a favor da gestão democrática das escolas, com participação dos professores, dos estudantes, dos pais, das autarquias. Defendo um forte financiamento público e um razoável valor de propinas, no ensino superior, acompanhado de apoio social correctivo sempre que necessário. E sou a favor do aumento da escolaridade obrigatória para doze anos. Devem ser criadas condições universais de acesso à escolaridade obrigatória, nomeadamente através de transporte público gratuito e fornecimento de alimentação. O abandono escolar precoce deve ser combatido nas suas causas sociais, culturais e materiais.Não se pode reformar a educação tapando os ouvidos aos protestos e às críticas. É preciso saber ouvir e dialogar. É preciso perceber que, mesmo que se tenha uma parte da razão, não é possível ter a razão toda contra tudo e contra todos. Tal não é possível em Democracia."

Publicadas no editorial da revista OPS - Opinião Socialista.
DESOBEDECER É PRECISO

"Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. "

"Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente, querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares, documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc., frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase literal do "Big Brother is watching you" da 5 de Outubro."

"Mas o pior de tudo é que o modelo de avaliação fabricado na 5 de Outubro não vai permitir distinguir os bons dos maus professores, ao contrário do que a senhora ministra alega. Talvez seja até pior do que a completa ausência de avaliação, premiando arbitrariamente alguns dos maus e castigando cegamente muitos dos bons. Se assim não fosse, que razões teriam os bons professores que desfilaram na manifestação de sábado para lá estarem? Ou será que os mais de cem mil são todos maus ou simplesmente estúpidos? Os professores sentem-se compreensivelmente ameaçados porque o modelo, além de burocrático, como convém ao Big Brother, obedece a uma espécie de pensamento único pedagógico: há um dogma pedagógico subjacente a que todos têm de aderir, tal como se emanasse do Ministério da Verdade orwelliano."

"A verdade é que neste momento já não são os sindicatos a comandar os professores, mas os professores a empurrar os sindicatos, de tal modo que os próprios sindicatos já não estão em condições de cumprir o acordo assinado há meses com o ministério. De nada serve, portanto, ao primeiro-ministro apontar o dedo ao incumprimento dos sindicatos. Se estes tivessem representado devidamente os professores, nunca teriam de voltar agora atrás com a palavra. Por isso, não vale a pena recorrer a fantasias e negar uma realidade muito crua: a insistência do governo no actual modelo está a degradar como nunca o sistema educativo nacional e a pôr em causa o normal funcionamento das escolas. E esta ministra ficará seguramente na história como a maior desgraça que se abateu nos últimos tempos sobre a educação em Portugal."

"E é também por isso um imperativo de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes circunstâncias Gandi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra, pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser."

O artigo de Aires Almeida, professor na Escola Secundária de Portimão, editado ontem no jornal Público, pode ser lido na íntegra aqui.
Nicolau Saião

UMA MINISTRA PARA MANTER

Em certos círculos, tem sido pedido que a inadequada senhora que está ministra do eensino no governo Sócrates, provavelmente o pior depois de cimentada a democracia tendencial em que Portugal vegeta, seja demitida ou, num arroubo de sensatez ou de pudor intelectual, saia ela mesma por decisão própria.

Peço aos professores, fautores primeiros duma humanização inicial dos alunos enquanto crianças e, mais tarde, enquanto adolescentes, que não alinhem nessa facilidade.

Por consideração minha pela actividade da senhora em causa? De forma alguma.

Por uma razão muito diferente e, arriscaria dizer, de senso comum. Ou, então, de justa estratégia pedagógica e verdadeiramente democrática.

Sigam-me durante um par de minutos e todos entenderemos o porquê do meu alvitre.

Em primeiro lugar, devido ao cinismo político do homem que neste momento é primeiro-ministro. Em segundo lugar, pela sua insensibilidade ante o interesse mais alto da Nação, pervertido que está o seu senso das realidades e do quotidiano. Sócrates, enquanto ser de pensamento societário, é um sujeito que não consegue pensar o múnus político sem ser pela sua bitola conceptual de pequeno líder que, por um bambúrrio de sorte em que por vezes o destino é fértil, chegou alto.

Nesta conformidade, apenas consegue raciocinar a realidade política, enquanto factor de progresso e desejável bem-estar do país, pelos binóculos do interesse partidário e, muito particularmente, pelo óculo de longo alcance da sua carreira pública e dos áulicos que o rodeiam.

Assim sendo, a ministra (“ajudanta”, para empregarmos a expressão vivaz dum antigo manipulador do poder), não passa de uma cera moldável nas suas mãos hábeis enquanto governante.
Se Lurdes Rodrigues fôr alijada, tal como se fez na “jogada” Correia de Campos (ex-titular da Saúde, lembram-se?), isso permitirá que a cégada, mas mais disfarçada e eficaz, continue – para tudo dizer, que a miséria do ensino em Portugal siga em frente mas já camuflada com a sua habilidade de “animal feroz da política”, para citarmos os mídias que o bajulam.

Como na frase famosa do livro de Lampedusa, “O Leopardo”, “é preciso que tudo mude para que tudo continue na mesma”.

Seria fácil para o ardiloso primeiro-ministro correr com a inadequada senhora que, durante o tempo que lhe fez falta, o serviu como aia veneradora e agradecida.

O que é preciso é que a política de remancho termine. E isso só se conseguirá se Sócrates largar o lugar, democrática e popularmente mandado embora pelos cidadãos.

Neste momento, o maior factor de iluminação e esclarecimento é a acção prejudicial da inadequada ministra.

Mantenhamo-la no cargo como se de uma obra-prima de cristal se tratasse!
Nicolau Saião

Tempos de Novo Apólogo

Fátima Felgueiras absolvida de 22 crimes de que vinha acusada e condenada em 3 anos e 3 meses de pena suspensa por apropriação de 177 Euros de ajudas de custo e utilização por diversas vezes de um carro da autarquia” - Dos jornais

SE NÃO FOSTE TU FOI O TEU FILHO

Durante anos, a pretexto de diversas razões intimidatórias, foram feitas contra Fátima Felgueiras verdadeiras campanhas de difamação e de calúnia.
Nomeadamente em órgãos de informação que deviam ser responsáveis e alinharam naquilo a que Unamuno chamou "a solidariedade dos crápulas".
Uma monstruosidade, sim, porque o enquadramento real é este: como é que esta sanha foi possível num país civilizado ou que tem foros de o dever ser?
Para camuflar outros casos, esses sim vergonhosos e gritantes?
Durante anos segui este caso e escrevi sobre ele em Portugal e no estrangeiro. Muitas vezes, sabendo o que sabia de todo este assunto, me perguntei: como é que Fátima Felgueiras aguenta tanta pressão? De tentarem compará-la a um Al Capone, quando eu via olhos nos olhos que era apenas uma mulher determinada a não se deixar esmagar?
Condenada por umas ajudas de custo...por utilização de um carro...
Tenho a certeza de que em recurso se provará a sua completa inocência.
Mas o ódio contra ela, pelos vistos continua.
Não é ela o vosso inimigo, portugueses. Esse - são sim outros!
Em breve virei a lume num jornal estrangeiro, de maneira mais aprofundada, tratar este assunto de forma alongada e com pormenores como por exemplo este: por diversas vezes me foram feitos telefonemas anónimos injuriando-me, ameaçando-me de me “limparem o sarampo” (textual).
Mas porquê, perguntar-se-á? É muito simples: porque o meu filho mais velho, pessoa que como não é covarde nem gosta de sangue na praça pública, que é o que os caluniadores, os falsos moralistas e os difamadores gostam (eles “sabiam” que Fátima Felgueiras tinha roubado milhões, assim como “sabiam” que um carro que comprei com muito custo e continuo a pagar tinha sido outorgado para me taparem a boca - chegaram a esta infâmia) dizia, porque esse filho, de nome João Garção, revoltado com as calúnias concorreu e foi eleito por maioria absoluta como vereador na equipa camarária da “criminosa”. A ele ofertaram-lhe o mimo de difundirem que tinha fugido com o cofre da Escola Superior onde era director; mas não tinha fugido sózinho e sim com duas espanholas de Vigo... Depois, quando tal enxovalho foi desmascarado, fizeram soar que como era de famílias ricas, sempre que se sentia em apertos refugiava-se na paterna herdade de Évora...
Como qualquer ser medianamente culto saberá, a minha herdade é sim em Arronches. E, provavelmente por causa do calor alentejano, ou do frio alentejano, encolheu – e é hoje um simples quintal nas traseiras duma simples casa que uma tia me deixou e que com custo mandei recuperar e ando a pagar – porque, ao contrário do Estado português, que deve mil milhões aos militares além de outros pequenos trocos por aqui e por ali, pago as minhas contas e por isso todos os dias almoço sem ser de cara rebaixada!

Mas o mais vergonhoso é que a sanha odienta de Torquemadas de pacotilha não foi apenas propalada por primários e por gente sem gabarito. Gente houve (lembram-se de comentadores da nossa santa TV, etc?) que, eivados de santíssima sabença (conheciam o processo...sem nunca o terem lido!) deblateravam, deblateraram – e não davam direito de resposta – como aquele conhecido santarrão das letras que disse que as pessoas que concorriam com a autarca eram apenas lixo.
Ou seja: sou, com muita honra e assumidamente, pai dum bocado de lixo. Um bocado de lixo que, todavia, demonstrou de outras formas, publicamente, que é menos lixo e tem mais talento e vergonha numa mão do que o conspícuo indivíduo tem no corpo todo.

Foi esta, durante dez anos, a democracia de tais senhores. A da cobarde injúria. E não me refiro a quem, como era seu direito, analisava e comentava ponderadamente o caso!
Mas sim a essa récua de gente que, como dizia Cesariny, vê os argueiros dos outros sem ver as esguelhas próprias...
Simplesmente.
AINDA A COLÓQUIO

Afinal, segundo noticiou o Público de ontem, a dispensa da Colóquio / Letras atingiu apenas a directora, Joana Varela. Isto é, segundo noticiou o diário lisboeta a partir de informações veiculadas pela direcção da Fundação Calouste Gulbenkian, a revista continuará a existir, e até com periodicidade trimestral, o que é óptimo.
Assim está bem! É justo. Espero apenas que os projectos referidos no texto anterior se concretizem. E, já agora, que o novo director ou a nova directora não seja apenas mais um agente dos interesses instalados do meio universitário e/ou das capelinhas que tudo dominam para que nada evolua.

REQUIEM PELA COLÓQUIO/LETRAS

A direcção poderia ter sido substituída, mas o fim anunciado da revista Colóquio / Letras, na sequência da extinção da Cóloquio / Artes, deixa-me preocupado com o caminho que vem seguindo a Fundação Calouste Gulbenkian, empurrada pelos seus directores.
Sei bem que, nalguns aspectos, a revista perdeu o carácter de proximidade de outros tempos, em prol de um povoamento demasiado académico ou demasiado enfeudado a certos grupos ou tendências, geralmente influentes e bem relacionados. Se o "cinzento" do passado não correspondia a desinteresse, o "luxo" do presente não correspondia totalmente a elevação. Mas acabar com a revista, se se confirmar, será mais um sintoma do apodrecimento das linhas de comunicação da Cultura portuguesa.
Neste momento, ficam-me duas preocupações, referentes a dois números futuros (?) desejados por muita gente. Sairão ainda as cartas de Sebastião da Gama e o volume de homenagem ao poeta Cristovam Pavia? Se a resposta for negativa, ficaremos todos a perder.
É PRECISO DIZER NÃO

É preciso dizer não ao estado a que chegou a Escola portuguesa. Burocratizada, cada vez menos democrática, persecutória, promotora de uma inversão de valores (em que - frequentemente - os menos capazes avaliam os que já deram provas da competência académica e profissional, por exemplo), fabricante de sucesso para inglês ver, destruidora do pensamento autónomo dos seus professores e alunos, castradora das iniciativas individuais tanto na acção quanto na formação ou no enriquecimento pessoal dos docentes - não corresponde ao que se espera de um país democrático, ou que se quer democrático, como o nosso. Assim não! Por isto e por muito mais afirmo que só não abandono o ensino porque tenho de sustentar dois filhos e uma família. Por isto e por muito mais, contra a minha tendência natural, vou estar sábado na manifestação de professores. Por isto e por muito mais concordo com o artigo de Manuel António Pina, publicado no Jornal de Notícias, e que aqui partilho convosco:

Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs. Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria. Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque não tem a idade mínima exigida. Conheço pessoalmente dois professores do ensino secundário, com doutoramento, que optaram pela reforma antecipada com penalizações de 30% e 35%. Um deles, com 53 anos de idade e 33 anos de serviço, no 10º escalão, saiu com uma reforma de 1500 euros. O outro, com 58 anos de idade e 35 anos de serviço saiu com 1900 euros. E por que razão saíram? Não aguentam mais a humilhação de serem avaliados por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Não aguentam a quantidade de papelada, reuniões e burocracia. Não conseguem dispor de tempo para ensinar.
Fogem porque não aceitam o novo paradigma de escola e professor e não aceitam ser prestadores de cuidados sociais e funcionários administrativos.
Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável 'pastiche' de Woody Allen 'Para acabar de vez com o ensino', a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano.
Os professores falam de 'desmotivação', de 'frustração', de 'saturação', de 'desconsideração cada vez maior relativamente à profissão', de 'se sentirem a mais' em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender. Algo, convenhamos, um pouco diferente da 'escola de sucesso', do 'passa agora de ano e paga depois', dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?'
OBAMA

Obama ganhou. Em consciência, um europeu português como eu pode apenas manifestar o seu desejo de que as suas promessas de mudança se concretizem. A esperança só vale a pena se resultar em nascimento.
Não me fio, entretanto, na alteração da má imagem dos EUA no resto do mundo; embora os erros de Bush a tenham carregado, ela é resultado de alicerces ideológicos e psicológicos mais profundos. Bom será, por isso, que o novo presidente não venda pela simpatia a firmeza necessária para conter certas erupções anti-democráticas que dominam uma parte do nosso planeta.
Concordo entretanto com um depoimento de Onésimo Teotónio de Almeida, enviado ao jornal Expresso: "Obama não fará milagres. Aprendi com um antigo aluno, assistente de Al Gore na Casa Branca, que um Presidente é mais um gestor de pressões do que um promotor de mudanças. Mas criará certamente um ambiente psicológico bem mais favorável a mudanças. Na verdade, os problemas que afectam os EUA são de fundo, alguns mesmo estruturais, e esses ultrapassam quem quer que seja que ocupe a Presidência. Não creio, porém, que eles afectem apenas os americanos. Creio que tocam pelo menos todo o Ocidente e por isso ele se empenha tanto nas eleições americanas. É que, por mais que na Europa proteste, o futuro dela está cada vez mais ligado ao dos EUA. Fomos atingidos pelos mesmos males e as curas de que necessitamos não podem ser obtidas independentemente porque nos afectamos mutuamente como se tivessem os dois lados do Atlântico contraído doenças genéticas."
PÁGINAS DE UM DIÁRIO

Há cidades (Portalegre, por exemplo) que são como o vinagre: amolecem os ossos, se não nos precavemos. Só assim se pode explicar que cidadãos com algum exercício de verticalidade e de clarividência aceitem, mais tarde, colaborar com algumas das manifestações mais nocivas e repugnantes da sua vivência social.

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Portugal traduzido - abecedário de reflexões, de John Wolf. Este livro tem a virtude de sistematizar a existência nacional, apertando-lhe o pus quando necessário. Fica-me uma frase: "Caberá a cada um assumir a sua quota de responsabilidade na gestão da 'honra nacional', procurando contrabalançar os comportamentos marginais, através da assunção do contrato individual de consciência própria."

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Percorrer as estantes dum alfarrabista é confrontarmo-nos com quanta erosão apaga as esperanças de notoriedade pública. Isso nos angustia? Trabalhar é contudo preciso. Mesmo que seja para o esquecimento (sempre relativo). Somos todos transeuntes nesta sociedade. Areias anónimas neste deserto.

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O perigo de lermos livros de Claude Roy ou de C. Ronald é que nada, depois, nos aproveita, se não tiver a mesma altura ou uma dimensão estética e ética semelhante.

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Um olhar para os dias, novo livro do poeta brasileiro C. Ronald. Diário de resignação na aproximação do fim? Sobretudo, uma linguagem arcana, simbolizadora, em que até as palavras chãs (ou sobretudo elas) assumem uma dimensão transcendente, que barrela a realidade mais concreta.

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Instalou-se na Itália aquilo a que alguns analistas chamam um "regime pós-democrático" (eufemismo bárbaro para designar um novo autoritarismo, fundado sobre a alienação televisiva, o consumismo, a impunidade e a rasquice). Aqui, em Portugal, como bem viu José Gil na Visão de 2/10/2008, estamos dominados por políticos com capacidade anestesiante, veiculadores duma propaganda ignóbil, porque avilta para dominar.

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A revista Ler trouxe uma entrevista de um poeta transmontano. A principal qualidade desta conversa é não esconder o calculismo e a hipocrisia do autor. Outros, por este país, têm a mesma face, mas escondida.

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O primeiro andamento do Te Deum de Marc-Antoine Charpentier é um bom exemplo de uma obra a tocar a alegria divina do inefável. Transformaram-no no hino da televisão europeia... Emporcalharam-no.
CARTA AO SENHOR PRESIDENTE

"Porque quem merece deferência e respeito é o povo, não esses sujeitos que continuamente, baseados no poder de que disfrutam, tripudiam sobre os cidadãos e fazem pouco de todos nós!
Creio que é notório que a Nação, senhor Presidente, espera de V.Exa. mais que simples paliativos...
Ainda não percebeu que o tempo começa a esgotar-se?
”.

Todos deveríamos escrever ao senhor Presidente Cavaco uma carta como esta. Nicolau Saião fê-lo no Triplov. Ler o texto completo aqui.

O OURO DO TEJO

Não existem fronteiras nas duas margens de um rio. Existem margens. Margens só – e água pelo meio. Podemos encontrar símbolos e colá-los à matéria – mas esta continuará sendo apenas o que é e sempre foi: rocha e terra rasgadas e esculpidas por uma corrente.
Todos os rios são, assim, internacionais, mesmo quando sulcam um só país. Internacionais porque sem nacionalidade (ou com todas as nacionalidades). Por mais que os Homens desejem o contrário, nas suas águas não se espelham línguas nem dialectos – e muito menos bandeiras ou linhas administrativas. A sua gramática é outra. Mesmo quando os seres humanos os transformaram em fronteiras, ditas (erradamente) “naturais”.
Creio que tudo isto entenderam os criadores do Parque Natural do Tejo Internacional. Não é possível separar o que a geografia une. Não se trata apenas de uma questão cultural. Os pontos de contacto e de continuidade são imensos – mas ainda assim insuficientes para o estabelecimento de pontes invisíveis e indissolúveis. A água não separa, une. As margens são metades de um mundo que a corrente bravia, precedida por fortes movimentos tectónicos, afastou, mas não separou. Não por acaso, quando um rei português do século XII doou aos Templários a enorme “herdade de Açafa”, soube incluir nela territórios de ambas as margens do Tejo, tanto do sul da actual Beira Baixa, quanto do norte do Alentejo e do que seriam terras de Cedillo, Herrera e Valencia de Alcántara.
A paisagem é a mesma, sulcada pela espinha dorsal do ocidente peninsular, um Tejo hoje amansado pelas barragens que tentam canalizar toda a sua energia (tradicionalmente temível) para as necessidades humanas. Quem se digne subir a um dos miradouros do termo de Herrera (Negrales, vg.), verá de um e de outro lado das águas uma sucessão de montes agrestes, em que o cinzento-acastanhado das rochas se mistura com a vegetação resistente às inclemências do Verão e do Inverno, à escassa pluviosidade, aos devastadores incêndios que por vezes a atacam. Sobreiros, azinheiras, oliveiras, em simbiose com uma infinidade de espécies integráveis na flora de tipo mediterrânico, podem ser olhadas como indícios de uma abundante fauna – também ela adaptada aos rigores do clima e da geografia.
Entre os habitantes que o tempo colocou nestas partes – ou que a ela aportaram subindo o Tejo, provenientes da Fenícia ou doutras partes –, não podemos deixar de realçar uma população humana que, sendo escassa, merece a nossa admiração pela sua capacidade de resistência ao meio e, até, às investidas de quantos procuraram diminuí-la ao longo de séculos ou milénios. Houve sempre barcas a ligar a sua dispersão. Foi essa necessidade de intensificar o contacto que, na época romana, levou estes povos a construírem uma das mais impressionantes obras da engenharia, a ponte de Alcántara, que – segundo consta numa lápide – existirá “enquanto o mundo durar” (crendo nós que a frase se referirá mais ao contacto entre Homens e menos às pedras talhadas que um dia se dispuseram em ponte).
Andar pelas terras de Herrera e de Cedillo é encontrar costumes, cultos e monumentos que reproduzem, surpreendentemente (ou não), os existentes noutras margens do Tejo. Os monumentos megalíticos (as antas de Bodegas, Cerro de la Caldera, Sesmo, etc.) não podem ser entendidos, como viu Jorge de Oliveira, sem uma visão de conjunto que abarque os seus congéneres portugueses. Não se podem compreender rituais cíclicos como a “hoguera del gallo”, “enfariñar” ou o “jueves de compadres”, sem conhecermos o que acontece do outro lado da fronteira. O mesmo acontece com o culto de São Sebastião em terras de Herrera, tão ligado na “Açafa” às ordens militares.
As margens do rio Tejo foram até há poucas décadas locais de exploração de ouro. Já em épocas muito antigas assim era. Hoje o ouro é outro. Está à nossa espera – na água, na terra, nas rochas, na flora e na fauna, nos seres humanos (e na sua memória) que convivem e conviveram com tudo isto. Saibamos nós descobrir e trabalhar, em filigrana espiritual, todo este minério – produzindo riqueza, uma riqueza sempre interior.

(Artigo publicado, em versão castelhana, tal como os dois anteriores de temática raiana, na revista Imagen de Extremadura, publicada em Mérida.)

Nicolau Saião

CONTRA OS PACTOS DE OMERTÁ, CORAGEM E BOM SENSO

«É mais fácil contratar gangsters do que ir a tribunal», declarou Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados (dos jornais)

O Bastonário Marinho Pinto, a meu ver, possui duas características de verdadeiro homem de bem - coragem e bom senso.
Vou explicitar, ainda que sucintamente e com vossa licença, estas duas afirmações:
- coragem porque num universo social em que certos membros de topo do Sistema Judicial se julgam acima de qualquer crítica (recorde-se o verdadeiro "pacto de omertá", para que MP não desse certas opiniões em público, referido pelo sindicalista líder dos magistrados) o Bastonário tem a lucidez para perceber o estado de revolta e de indignação que vai nos cidadãos, em função da desqualificação ética, do desleixo e da incapacidade do Sistema Judicial em corresponder a uma Justiça equânime.
Bom senso, porque num quadro destes o verdadeiro bom-senso não é calar, não é ser "politicamente correcto" ou ceder a corporativismos, não ser cínico ou oportunista para manter uma aparente bonomia - e sim dizer a verdade doa a quem doer, pois os direitos dos cidadãos estão acima dos interesses duma clique que se apoderou dos cinzentos corredores dos Tribunais.
A nudez forte da verdade é que é legítima, não o manto diáfano e aparentemente manso da fantasia.
Pois, na verdade, e como já se tem afirmado em textos apropriados, "O Sistema Judicial é o cancro que está a destruir a Democracia portuguesa".
Ou o que resta dela.

in PORTUGAL DIÁRIO
Nicolau Saião

A PENITÊNCIA

Já por várias vezes, em artigos algo vivazes, tenho tecido críticas ao homem que Deus propiciou que fôsse nosso actual primeiro-ministro.
Deixei mesmo escapar, aqui e além, a ideia de que o creio - mais que incompetente, isso seria o menos...já estamos habituados a esses disfrutes - arrogante, maldoso, ligeiramente peralvilho e trapaceiro politicamente.
Mas como sou, creio, no fundo um patriota e um sujeito afinal boa-boca (fora os arroubos de temperamento cidadão) venho hoje - com muito gosto e alegria! - dar a mão à palmatória. Ou seja - fazer a penitencia. Irei ainda a tempo de ser perdoado?
Foi através do Portugal Diário que lavei a minha pequena hostilidade, em texto que vos dou já a seguir:


O MEU VOLTE-FACE...

Muitas pessoas, e cada vez mais, têm dito - saiba-se lá com que aleivosas intenções! - que o político que ora temos como primeiro-ministro é um mentiroso.
Discordo frontalmente! Agora discordo frontalmente!
E discordo porque ouvi as declarações do senhor em causa a um periódico, ou uma catrefa deles: "
A vencer o NÃO na Irlanda, isso seria muito mau para a minha carreira política...".
Quere-se maior exemplo de sinceridade?
O brioso Engº Sócrates mostrou que é um homem verdadeiro e, até, muito humano: posto ante o terramoto que se perspectiva por aí venha, afivela uma preocupação legítima e sã, mostrando ao mesmo tempo que tem auto-estima!...
É destes homens que a Europa precisa!
(Embora alguns malandrecos digam e jurem a pés juntos que nem Portugal precisa deles...).
Mas isso já é outra história, como o Zé Povinho gosta de dizer...
NS