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Floriano Martins

PEQUENA MÁQUINA DE METÁFORAS


Eu cubro o teu nome com os cílios da noite.
Teu desamparo mal distingue em meus dedos
as tintas com que trafego por sua vegetação.
Estás sempre nua como uma metafísica insone.
Eu misturo as sílabas flutuantes do desejo
e rabisco em tua pele uma senha esponjosa.
Teus suspiros badalam em ardilosa catedral,
com sua areia-gulosa e as jóias do abismo.
Não concluis uma frase sem a reticência
luminosa de teus seios boiando no tempo,
tear de safiras da luxúria, paiol de miragens,
partes minúsculas do perigo que se põe a rir
sempre que o vemos como um cofre, um fim.
O sol configura suas telas com o traje mecânico
do esquecimento, penhasco de vícios: não dar
por conta de um único anseio no dia seguinte.
O mundo se despedaça rindo. Acumulo suas
vítimas na ribeira. Pernas trêmulas da melancolia.
Manjar contaminado da esperança. E ainda
assim ali estás, baile sem rosto e infindo,
tua nudez entrevista em seu duplo sentido.
Eu abro o teu nome para decifrar seus vidros.
CACHAPREGO

Wilmar Silva, poeta brasileiro que divide a sua identidade com Joaquim Palmeira, começou a publicar um blogue que promete: http://www.cachaprego.blogspot.com/
Brevemente apontaremos aqui algumas linhas sobre um dos seus livros. Enquanto esse momento não chega, deixo um dos seus poemas:

A todos eu pudesse escrever os poemas
Como se escreve Tijolos Paredes Fogo Camas
Tecidos Os corpos que vivem As casas
Onde os corpos andam e param como fossem
A mesa O campo de arremessos As bocas
Que falam As palavras mais quentes e Também
As mais frias A todos eu pudesse escrever
Os poemas invioláveis a estranhos mundos
Mesmo que fosse a você A miserável Eu
Pudesse escrever os poemas A palavra casa
Que fosse mais que casa pernas andando lá
Dentro Rudes como As pedras líquidas
Que evaporam A todos eu pudesse escrever
Os poemas e depois me abandonar
Mário Chamie

Fogo no Céu da Boca

Os que possuem a palavra e o relho
se consultam sem assédio
sem assalto no invadido terreno
do seu reino.
Cortam a fibra do meu tédio.

O assalto é coisa certa de direito
de quem tem o relho e o mando
de meu peito.

O assédio é coisa rápida de comando
de quem tem a estaca e a cerca
de meu campo.

Não são lúbricos os que possuem
o código de meu tédio
que, mais que meu, é público.

São súditos de seu juízo
se me julgam
em seu inquérito.

Eu os compreendo com o desprezo
que os enerva
quando piso no terreno do meu reino
e renego a paz que me renega.

Mas não espero o reverso da medalha.
Em vez da paz é a guerra
o que me dão esses morcegos
fortificados em sua muralha.

Eu os desprezo com o descrédito
que os assalta no assédio
com que atacam a retaguarda
de meu tédio sem ressalva.

Ganham a batalha, pois tudo têm
para o triunfo de seu reino:
a palavra e o relho, o código
e o súdito sem remédio
entre a estaca e a cerca
de seu terreno.

Mas não me rendo, nesse entrevero.
Do fundo de minha derrota
vejo o pânico dos que não lambem
o barro de vossa bota
na poça de nosso sangue.

(in A Quinta Parede, Rio de Janeiro, 1986)
Literatura que vale ouro

Por Jorge Sanglard

Antologia editada em Portugal, organizada pela pesquisadora suíça Prisca Agustoni, reúne 10 poetas que se destacam no cenário contemporâneo da literatura de Minas


A antologia “Oiro de Minas – A nova poesia das Gerais”, organizada por Prisca Agustoni e editada em Portugal por Ozias Filho, é mais uma investida da Colecção Pasárgada no universo da poética contemporânea brasileira. Estado natal de João Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Affonso Romano de Sant’Anna e Rubem Fonseca, Minas tem importância ímpar na renovação da poesia brasileira da segunda metade do século 20 e deste início de século 21. Prisca Agustoni mergulhou fundo na criação poética mineira dos últimos 30 anos para extrair um autêntico quem é quem desse caldeirão efervescente, lançando um feixe de luz sobre 10 poetas.
Com o lançamento de “Oiro de Minas...” em janeiro, a Colecção Pasárgada e a Ardósia Associação Cultural dão mais um passo na ampliação do selo, voltado para a edição de livros de poesia numerados e assinados. Anteriormente, foi editada a antologia “Terra além-mar”, dedicada a Iacyr Anderson Freitas. “Oiro...” reúne expoentes de geração importante de autores: Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Júlio Polidoro, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva e Fabrício Marques.
A suíça Prisca Agustoni, de 32 anos, é apaixonada pela língua portuguesa e vem se dedicando a pesquisar a poesia feita em Minas. Formada em letras hispânicas e filosofia pela Universidade de Genebra, ela é mestre em literatura hispânica e doutora em literaturas de língua portuguesa. Desde 2002 mora em Minas Gerais e trabalha como professora de literatura portuguesa e brasileira na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Também é tradutora e crítica literária.
Um olhar crítico sobre a realidade brasileira demonstra que o Brasil midiático não é senão uma face entre outras, instigantes e desafiadoras, da sociedade nacional. Esse tema nos leva de volta à década de 1950 e nos permite observar que os dois Brasis, detectados naquela época pelo sociólogo francês Jacques Lambert, já eram – e continuam sendo – vários Brasis”, afirma Prisca. Para ela, o comentário de caráter sociológico é indispensável para justificar uma antologia de poesia brasileira contemporânea. Afinal, no jogo das relações literárias, a controvérsia em torno de antologias é assunto conhecido. Há sempre motivos, com razões maiores ou menores, para que os autores selecionados e os não-selecionados, bem como os críticos e os leitores, ratifiquem ou subestimem o trabalho do responsável pela organização. Uma antologia de poesia brasileira contemporânea não pode esperar outro enredo, adverte Prisca. O livro sintetiza um recorte desse cenário poético, mais especificamente de Minas Gerais, reconhecido celeiro literário do país.
Prisca Agustoni enfatiza que, apesar da divergência de opiniões de poetas e críticos, na poesia brasileira do século 20 é possível considerar três linhas de força, que se mantiveram até ao início da década de 1980: a primeira, derivada da Semana de Arte Moderna de 1922, caracterizada pelo esforço de atualização da poesia brasileira em relação a novos temas, formas e práticas em curso na Europa dos movimentos de vanguarda; a segunda, por um desejo de contenção dos apelos das vanguardas propostos pelos modernistas; e a terceira, pelo experimentalismo técnico-formal do concretismo.

LINHAS DE FORÇA

No contexto de Minas Gerais, poetas de diferentes gerações trafegaram por essas linhas de força, como Drummond, Murilo Mendes e Affonso Ávila, e contribuíram interferindo nelas para tecer sua própria linguagem poética. Assim, destaca Prisca, nomes como Emílio Moura, Abgar Renault, Dantas Mota, Henriqueta Lisboa, Laís Corrêa de Araújo, Adélia Prado e Adão Ventura se inscreveram com vigor na cena literária brasileira.
Ao selecionar o material, Prisca procurou autores que começaram a se destacar a partir da década de 1980, depois da proliferação de vozes relacionadas à estética da poesia marginal e, principalmente, depois do duro momento político vivenciado pelo Brasil, que teve sua cultura submetida ao jugo e à censura do regime militar entre 1964 e 1985. Assim, foram selecionados poetas que refletiram e também transformaram, na sutil tessitura da linguagem, a riqueza das diversas vertentes estéticas que os precederam. A organizadora procurou destacar a pluralidade de caminhos trilhados, considerando não apenas a atuação dos autores como poetas, mas ressaltando também o modo como eles estabeleceram a “consolidação de um consenso crítico” paralelamente a seus processos de criação.
Esse recorte é relevante, “já que a atuação do poeta e do intelectual no seio da sociedade se reveste não só de aspectos relacionados a posicionamentos políticos, mas igualmente à produção de um discurso teórico – muitas vezes estimulado pelas estruturas acadêmicas – ou jornalístico, bem como à organização de eventos, espetáculos e festivais nos quais é reservado à poesia e à performance poética um espaço privilegiado”, pondera Prisca.
Vale destacar a riqueza do microcosmo de palavras e símbolos que compõem a poética de cada escolhido. Apesar de toda essa vertente multifacetada, a organizadora enfatiza que é possível garimpar e encontrar nessa diferença alguns temas que perpassam, como uma coluna vertebral, a poesia mineira contemporânea. “A representação do espaço físico, muitas vezes, um lugar não nomeado, mas identificado como alguma região de Minas Gerais, ou mental, se universaliza graças à palavra poética. A cidade, como lugar de passagem, de encontro e desencontro do indivíduo, é outro tema recorrente. E os elementos da natureza, como pedra, água e pássaro, são mensageiros desse infinito que alumbra e esmaga, com a sua potência e beleza, o ser humano e sugerem o enigma de um mundo indizível através das palavras”, analisa ela.

FAZER POÉTICO

O ensaio de apresentação da obra é uma prova do compromisso da organizadora com a reflexão sobre a nova poética mineira. Prisca disseca minuciosamente o trabalho de cada autor. Os versos de Eustáquio Gorgone de Oliveira são vistos como uma adaptação contemporânea dos traços marcantes do barroco, assim como a manifestação de um sentir expressionista emoldurando sua obra, fazendo com que sua poesia não seja classificável dentro de nenhuma das vertentes tradicionais que caracterizaram a poesia brasileira do século 20. O mesmo pode ser vislumbrado na poesia de Júlio Polidoro, com destaque para o tom coloquial e irônico, disfarçando habilmente o fundo filosófico ou existencialista.
Trajetória instigante é apontada na fusão entre o formalismo pós-concretista e as vertentes estéticas e sociais de Ricardo Aleixo, numa poesia que apresenta sinais da vanguarda e desnuda as ambigüidades e as possibilidades de significação do seu discurso pessoal. Já a dicção contida de Donizete Galvão se mostra como um filtro que depura e transforma o desprezo e a decomposição do corpo e do mundo – com seus valores mais puros – em revelação poética. E a poesia de Maria Esther Maciel flagra a intensidade proporcionada pelo intercâmbio com outras linguagens artísticas, como o cinema e a pintura, na busca de captar o paradoxo da vida.
Fernando Fábio Fiorese Furtado estabelece um flerte com o mundo figurado, exprimindo a densidade da história individual e coletiva, que conflui para desenhar diferentes metáforas do corpo, como se essas fossem uma “segunda pele” que concentra as linhas de uma reflexão existencial e metapoética. Edimilson de Almeida Pereira reelabora aspectos da oralidade e da estética barroca, na qual os objetos, as palavras e os significados estão embutidos uns dentro dos outros, à maneira das bonecas russas que estão encaixadas, cada uma contendo em si a outra. Sua poesia reflete o sentido atribuído a um mundo engendrado por palavras e aberto para a existência de outros mundos possíveis.
Por sua vez, Iacyr Anderson Freitas explicita a busca, por vezes dolorosa, de coisas e sentimentos profundos e cotidianos, que constituem a raiz ontológica do ser humano que, freqüentemente, se encontra exilado num tempo e num espaço em estado de desmoronamento e que se agarra, desesperado, à palavra e à memória para salvar as sobras desse processo de desmantelamento interior. A obra de Wilmar Silva possibilita inquietante leitura das experiências do homem e revela um autor voltado não para a descrição dos objetos ou da natureza, mas com a apreensão do diálogo entre esses elementos e o corpo-linguagem do poeta. Fabrício Marques apreende o cotidiano com ironia, ou seja, a noção do dia-a-dia como o espaço e tempo dos acontecimentos previsíveis é sugerida e esvaziada pela palavra poética.
Oiro de Minas... é mais que um convite explícito para compartilhar uma aventura ao longo dessa viagem poética às Minas Gerais. É um testamento claro de amor à descoberta de novos caminhos literários que uma pesquisadora afiada e afinada com seu tempo revela a Portugal e ao Brasil. Capaz de trocar os montes gelados da Suíça para descobrir as travessias das montanhas de Minas, Prisca Agustoni corajosamente assume a responsabilidade de “dar nomes aos bois” numa época em que muito pouca gente deixa explícito o que sente e o que pensa.
A intenção da organizadora é lançar o livro também em Minas Gerais. Apenas 500 privilegiados poderão conferir o resultado de sua pesquisa poética pelas Minas Gerais dos nossos dias. Afinal, esta primeira e única edição, compromisso firmado pela Colecção Pasárgada, traz apenas cinco centenas de exemplares numerados. E Prisca Agustoni assina embaixo.



(Publicado no caderno Pensar do jornal O Estado de Minas e aqui.)

DESLIZES DO ETERNO RETORNO


As tuas luzes foram sendo escritas
como confidências em meu corpo.
Quase impossível despedir-me de ti.
Voz impressa na confusão do silêncio,
com sua lua ofegante debaixo da cama.
Desvairado curso com que planejas
a veemência de suas águas em mim.
Arrancamos as portas de todas as visões,
mistério a contrair velhos truques,
amiudando uma revoada de seios
onde a aparição de teu corpo inflama
os resíduos desordenados da memória.
Eu me afogo em tuas mãos, no ardor
movediço de tuas luzes, fogo contra fogo.

poema & imagem: floriano martins
agosto de 2007

FLORIANO MARTINS

Regressado a estas lides, apetece-me partilhar convosco esta belíssima colagem e este belíssimo poema de Floriano Martins:




Em versos que sabem repetir-se, desperta lentamente
a tua noite acumulada em meu peito: folhagem abrigada
à beira do abismo, e então me sentes, de bruços,
flagrante de peixes escavando nuvens na acústica do mar
que embala teus sonhos: elegias que a todo instante
acariciam o cenário de mamilos fulminantes, feixe de ritos,
luzes em pranto encontradas sob a pele, suores louvados.
Dorso apegado ao entusiasmo, com suas encostas
folheando estrofes e línguas de fogo no excesso de risos.
Ali onde eu espero que a tua eternidade me acalme,
um bailado de ancas faz da noite um gato na janela
a revelar em seu olhar o último andar onde renasces:
não te escondes atrás de um segredo, roubas o limiar
de rumores, as dissonâncias do amor e saltas em meu colo.

Floriano Martins


CORPOS SAINDO DO FOGO


Ponho teu pé em meu seio e quando o retiras
o poente revela seu nome. Vibras em mim
com teu abraço e quando te afastas o sol se esvazia.
Um dia mordes meu queixo e despertas uma horda
de alucinadas mulheres que se confundem entre si.
O sol e o amor – urram – são flores carnívoras.
Amo o esplendor de teus tentáculos, a carnificina
de tua enfiada em meu ser, narrativa de curvas
em que te reproduzes para ampliar a fome.
Não sei que espécie de vagabundo viciado em totens
eu alimento – por vezes creio que és tua única
superstição –, porém me acaricias os despojos
de uma vida imaginária e não me perguntas nada.
Me enterras no inferno de tuas cidades em fuga.
(Pintura de Hélio Rola.)

Floriano Martins





A TORTURA DA REFLEXÃO





Precipitas teu olhar sobre meu corpo,
entrelaçando vertigens, salpicando hábitos,
adiando aquele último verso que expande
o que jamais em mim conquistarias.
Não é em mim que teu mundo se esgota.
Nem sou o lastro de tua agonia irremediável.
Tuas mãos soluçam ilusões quando me tocam,
lapidam amores perfeitos pela tarde inteira.
Não há linguagem que não se adie ante a flor
que descanso à margem de minha saia.
Não importa que me confundas com outra:
os teus enganos serão sempre os mesmos.





(Pintura de Hélio Rola.)