ALJEZUR

De todas as imagens que recebo desta terra, guardarei sempre as que vou estruturando quando atravesso a várzea.
Os tempos da sementeira e da colheita são, entre todos, aqueles que maior beleza e substância me transmitem - com a lembrança da fertilidade, com a variedade de cores e de odores que, no fundo, conseguem esquecer dentro de mim outros mundos artificiais, de superfície.
Que belos os feijoeiros a subirem pelas ampas, os fardos de palha espalhados pelas longas belgas de terreno, o milho verde, a água regando... E, à beira da estrada, os malvariscos floridos, trazendo para os meus olhos recordações da Fonte Nova (nas Carreiras) efeitada pelo São João.
TERRORISMO

O artigo de Ester Mucznik, no "Público" de 22 de Julho, é uma boa análise do terrorismo islâmico, dado que procura mostrar os seus alicerces: ressentimento pela perda de influência que um dia tiveram; desejo confesso de alastrar a todo o mundo uma "cultura" muçulmana pressupostamente "pura" (sobretudo às regiões do planeta que já estiveram sob domínio político islâmico); submissão cega dos indivíduos aos objectivos de "Alá" (isto é, dos terroristas).
Muitos fiéis muçulmanos não partilharão esta ideologia - podem mesmo condená-la -, mas os poucos (?) que a põem em prática são suficientes para lançar o mundo num caos.

Completando o texto de Mucznik, o "Público" de 23 de Junho publicou um interessante artigo de Olivier Roy, saído também no "New York Times". Desmascara os pretextos apresentados pelos terroristas e aceites por tanta gente:
1. o terror iniciou-se muito antes da invasão do Iraque e é posto em prática mesmo em países que não apoiaram a intervenção americana;
2. põe em prática uma estratégia global de alastramento do medo, não participando em conflitos locais em que, segundo afirmam, os muçulmanos são humilhados;
3. tentam destruir a influência cultural do Ocidente (logo, "americana");
4. não tem interesse em promover o bem-estar dos "pobres" islâmicos (pois, assim, perderiam influência junto desses fiéis);
5. invocando o Corão, a geração terrorista é uma geração sem raízes (vingam-se de um passado islâmico demasiado "impuro" e tentam evitar um futuro igualmente mergulhado na "impureza").
ARRÁBIDA

Ardeu ontem mais uma parte da Serra da Arrábida, o "altar da Saudade", como a qualificou Teixeira de Pascoaes.
Destruirão (os criminosos, os irresponsáveis, os que nada fazem e deveriam fazer...) o verde da serra que, ainda assim, irá renascendo, mesmo a custo. Mas não conseguirão destruir a memória do verde, a memória dos Homens que iluminaram a serra ao longo dos séculos: sufis, frades arrábidos, pescadores, lavradores, Frei Agostinho da Cruz, Sebastião da Gama e tantos outros.
Que grande luz estarmos
vendo os troncos amar a ventania
e o inverno a ensombrecer o espaço
por onde se ilumina
a minúcia monacal dos ramos
nos diáfanos vidros da melancolia.
Que grande luz. Tudo é claro
porque quanto nos habita
é campo livre. Ou é campo
como o perímetro a recuar a fímbria
de ouro ou de obstáculo
que pudesse subsistir ainda.
Mas, sobretudo, que grande luz amarmos
tão fundo o espaço da melancolia.

FERNANDO ECHEVARRÍA
"Poesia, 1980-1984", Afrontamento
"Best Things dwell out of Sight."

EMILY DICKINSON [998]