Vozes do Brasil

RENATO SUTTANA

O POLVO

Coisa de pura
sobrevivência,
o polvo

transforma-se em
pedra,
transforma-se em

coral,
areia,
alga, água de mar trevoso. –

Perscruta
com olho sagaz
o perigo que espreita

do fundo do azul
ou, então,
trocando-se por um rastro

de negro engodo,
foge
em disparada.

in "Bichos"
(Desenho de Nicolau Saião)
SOLDADINHO NOVO
(romance tradicional)

"Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra."
"Não me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
Só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela."
"Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
Mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer."
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem."
(Não é assim.)
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
Aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem."
(Enganei-me.)
"Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?"
"Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver."
"Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi."
"Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti."
"Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.
Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
A enxada era de prata, o cabo de marafim."
"Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou."
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
"Não t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.
Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem."
"Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?"
"Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi."
"Se és a minha amada, beija-me agora aqui."
"Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno."
"Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir."

(Aprendi, mas não era assim. E aqui está. Mas isto não aconteceu. O capitão não dava o cavalo ao soldado.)

Esta versão do romance medieval foi recolhida por mim no concelho de Marvão, na aldeia do Carvalhal (freguesia de São Salvador da Aramenha). Foi recitada por Maria Josefa Baptista (1919-2003). Reproduzimos neste post a recitação tal qual nos foi transmitida, incluindo todas as hesitações e intervenções da informante. - Ruy Ventura

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO,
PRIMEIRA COLABORAÇÃO

Outro colaborador novo que passarão a encontrar no "Estrada do Alicerce" é José do Carmo Francisco. Poeta, cronista e jornalista, é um autor que tenho aprendido a admirar à medida que visito os seus livros, alguns memoráveis, como Iniciais, Universário, 1983 um resumo ou Transporte Sentimental.

BALADA DA SERRA DE SÃO MAMEDE

Ai que prazer estar perdido
Na Serra de São Mamede
Onde há sempre uma ribeira
Que só de olhar mata a sede
Onde há sempre um caminho
À espera de ser andado
E onde o branco das casas
Faz contraste no telhado
Ai que prazer estar perdido
Na Serra de São Mamede
Onde o relógio não corre
E pára se a gente pede
Onde o tempo dura mais
E o olhar tem amplitude
Onde o andar não desgasta
E o cansaço é mais saúde

Ai que prazer estar perdido
Na Serra de São Mamede
Onde se pescam os sonhos
Sem ser preciso usar rede
Onde o sol mais se demora
Onde a luz chega mais cedo
Mas o peso deste silêncio
Não se transforma em medo
Ai que prazer estar perdido
Entre Esperança e Nave Fria
Surgirá sempre um olhar
Capaz de dar luz de dia
A quem se perdeu na noite
Que envolveu seu coração
Mas se encontrou de novo
A caminho de São Julião

Ai que prazer estar perdido
Entre Caia e os Mosteiros
Porque os fumos das chaminés
São os sinais mais certeiros
Duma vida mais junto à terra
Mancha verde a multiplicar
Entre o apelo do Mundo
E o meu desejo de ficar
Ai que prazer estar perdido
Entre os Besteiros e a Parra
Para encontrar uma capela
Com o som de uma guitarra
Ai Serra de São Mamede
Grande desgosto que eu tenho
Não ser eu das tuas aldeias
Não ser também seu serrenho

José do Carmo Francisco


NICOLAU SAIÃO NO "ESTRADA DO ALICERCE"

"Estrada do Alicerce" vai passar a alargar o leque dos seus colaboradores. O texto que aqui divulgo é a primeira colaboração de Nicolau Saião, poeta surrealista (e não só), natural de Monforte, que muito aprecio como autor e como cidadão. Outros virão...

PARA O CONHECIMENTO DA HIPOCRISIA EM PORTUGAL

José Régio, que nasceu em Vila do Conde em 1901 e aí faleceu de ataque cardíaco em 1969, foi um dos casos mais singulares das letras portuguesas. Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e pensador, para além de pintor nas suas horas e coleccionador antiquário de destaque, foi também uma significativa figura cívica, tendo participado activamente na oposição à ditadura salazarista. Viveu muitos anos em Portalegre exercendo a sua tarefa de professor liceal, sendo por isso que existe nesta cidade alto-alentejana uma Casa-Museu com o seu nome.
Fui, até há quatro meses, o funcionário responsável pelo Centro de Estudos que lhe está anexo.
Devido a este facto – acrescentado à minha condição de publicista –, tenho-me debruçado ao longo dos anos sobre a vida deste excelso Poeta, nomeadamente as relações epistolares e literárias que manteve com escritores brasileiros como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Ribeiro Couto (que o visitou numa noite sobre que há relatos), José Paulo Moreira da Fonseca, Murillo Mendes, Herberto Sales, Álvaro Lins, Mauro Mota, etc. Também na sua biblioteca brilham diversos autores de Cabo Verde.
Nesse contacto que estabeleci com a figura de Régio, um caso avultou a partir de dada altura a meus olhos: a sistemática ocultação que certas gentes têm tentado efectuar sobre a relevância de ter tido José Régio uma filha de uma senhora com quem se relacionou quando ainda era estudante em Coimbra, em cuja Universidade se licenciou em Filologia Românica. Apesar de citado por destacados estudiosos da vida e da obra regiana, nunca este facto – que Régio jamais esqueceria e considerou (veja-se o seu poema “Obsessão”, dado adiante) como o mais importante da sua vida – recebeu uma atenção específica de vulto. Alguns tentaram mesmo obscurecê-lo, mediante o silêncio que se nos antolha provir da hipocrisia mais marcada.
E isso considero-o caracterizador de certa gente da cena intelectual lusitana onde, a par dum ambíguo amiguismo e dum arrivismo de pequenos jogadores, existe ainda uma hipocrisia conservadora mesmo da parte de indivíduos que se enroupam com vestes aparentemente progressistas. Muitos deles, tentando apoderar-se do manuseio da vida e da obra de certas personalidades – como tem sucedido com Régio –, não recuam mesmo em utilizar a calúnia, a injúria e a difamação, como ocorreu há tempos com indivíduos castigados legalmente.
Para ilustrar, aqui deixo aos leitores que o não conheçam o poema citado, para que se veja o quanto ele revela da verdade interior que subjazia ao autor de Poemas de Deus e do Diabo – e que de igual modo dá também sinal claro do seu estro de excepção:

Sobre umas pobres rosas desfolhadas,
Vestidinha de branco, imóvel, fria,
Ela estava ali pronta para o fim.
Eu pensava:”De tudo, eis o que resta!”
E entre as palpebrazinhas mal fechadas,
(Como um raio de sol por uma fresta)
O seu olhar inda me via,
E despedia-se de mim.
Despedir-se, porquê?, se nunca mais,
Sobre essas pobres rosas desfolhadas,
A deixei eu de ver…, imóvel, fria.
Pois eu, acaso vivo onde apareço?
Lutas, ódios, amores, sonhos de glória, ideais,
Tudo me esqueceu já! Só não esqueço,
Entre as palpebrazinhas mal fechadas,
Aquele olhar que inda me via.


in Mas Deus é Grande

NICOLAU SAIÃO
Micromundos, de Manuel Simões

Micromundos, de Manuel Simões, publicado pelas Edições Colibri, é o sexto livro de poesia deste autor, professor jubilado da Universidade de Veneza. Os textos agrupam-se em duas secções: “Sobre as Margens do Mediterrâneo” e “Os Litorais Atlânticos”. Numa linguagem tersa e densa, concentrada em torno de visões, de palavras e de valores essenciais, os poemas deste volume vivem num “lugar devassado pelo caos do tempo, da dor, do humano, da dor do tempo humano” (conforme refere Roberto Vecchi, num prefácio intitulado “Micromundos Intersticiais”).
Da primeira parte do livro (p. 23), deixo aos leitores:

SACRA CONVERSAZIONE
(Giovanni Belllini)

A luz anuncia a cor
de ouro e púrpura, a incrível
simetria das figuras.
Estão assim só imóveis
ao olhar de êxtase, breve,
da aparência; o movimento,
esse, desenha-se no secreto
diálogo, no canto intuível
e na leitura: palavra e música
de uma textura quem sabe se
de coesão traduzível
no aparente enigma da pintura.