CARREIRAS

As ruas das Carreiras onde eu nasci (após ter visto a luz em Portalegre e sangue novo em Lisboa) já não existem. São outros os nomes, outras as pedras – que teimam em não deixar esquecer a calçada antiga -, outras as casas. Só o horizonte não mudou ainda: a mesma serra, o mesmo azul longínquo, os mesmos sobreiros rompendo por entre as lajes, a escola, rompendo a folhagem das acácias e das amoreiras.
Entre o número oito da rua da Fonte Nova e o número cinco da Calçadinha, pouco resta de há vinte e cinco anos.
A fonte perdeu alguns dos seus azulejos e deixou de ter malvariscos pelo São João.
A dona Maria José já não se preocupa com as suas dálias, algures entre as minhas duas tangerineiras. O ti’ João Narciso já não abre a sua meia-porta vermelha, nem a ti’ Bernarda fica comigo na altura das azeitonas.
O barro desapareceu hoje dos caminhos (assim como os escaravelhos, e os burros escorregando até em frente às ruínas da Casa da Carreirinha).
Do Chão da Amoreira, como eu ainda o conheci, ficou apenas uma nesga de terra apertada entre duas casas. Os castanheiros, os abrunheiros, o muro (quase segurando a oliveira), situam-se no mesmo lugar que hoje ocupa a casa da avó - amarela, com barras brancas, um botaréu cheio de craveiros, uma roseira fazendo esquina frente ao canto do lume, do outro lado da rua, entre as flores dos rapazinhos e a parede de pedra solta, há muito tempo esbarrondada.
O Ribeirinho é hoje só nome de rua. Já ninguém lava nas suas águas, empresadas junto de uma figueira velha. Desapareceu sob o alcatrão e a sarrisca, para dar lugar a uma estrada larga. Continuo, no entanto, a regressar a este espaço, como se regressasse chamado pela voz dos sinos, que tanto embalam os mortos quanto repicam carreirense novo ou hora de procissão. O automóvel (como há uns anos a camioneta) continua a dar a mesma volta, trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.
NOVA (E BELA) BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SESIMBRA

Nem tudo é mau no nosso país. De entre o muito que funciona com critério e qualidade, temos em Portugal uma das melhores redes de biblioteca públicas da Europa que, a pouco e pouco, vai crescendo um pouco por todo o país. Ainda há muito para fazer neste domínio? É certo. Mas devemos desde já ter orgulho nos espaços que, neste momento, colocam à nossa disposição uma boa parte da verdadeira Cultura. Se a gestão, nalguns casos, é deficiente (promovendo muitas vezes a mediocridade local), isso não invalida a valia do esforço municipal e governamental que tem dotado o país com algo de que se pode orgulhar.
Orgulho deve ter Sesimbra neste momento, ao visitar a sua nova biblioteca municipal, inaugurada no sábado passado. Construída no espaço do antigo cine-teatro, atrai qualquer cidadão quer pela sua arquitectura luminosa quer pela sua organização modelar.
Para além da sua praia tranquila e das suas paisagens, Sesimbra tem agora mais um atractivo, a que se juntam, por exemplo, o museu da Igreja do Espírito Santo e o Castelo, revitalizado com gosto.
AINDA FELGUEIRAS

Sobre o chamado "Caso Fátima Felgueiras" e seus últimos desenvolvimentos (que o "Estrada do Alicerce" já abordou através de dois textos frontais de Nicolau Saião), merece ser lido um post de Eduardo Pitta no seu blog "Da Literatura". Não deixem de fazê-lo. Intitula-se "Fátima, Nome de Guerra".

http://daliteratura.blogspot.com/
ESTA VIDA DE PROFESSOR

Começou por ser um comentário a um dos meus posts, mas este texto de Joaquim Saial merece honras de primeira página, pela sua frontalidade e pelo seu desassombro. Aqui fica.

É evidente que a quase generalidade da trastaria governativa (capitaneada pela equipa 5 outubrense), alguns degenerados jornalistas (daqueles que sabem de tudo e falam de tudo, desde as mil maneiras como uma retrete se pode entupir até às possibilidades que uma formiga tem de iniciar uma guerra entre esquimós e pigmeus), o povoléu (não o verdadeiro povo, mas aquele que se baba nos reality-shows) e toda uma corja de frustrados e desocupados falam mal dos professores, também conhecidos como "aqueles gajos". Estamos neste pé e não há nada a fazer. Mas é que nem é preciso. Nós (os tais "aqueles gajos" de quem fala a D. Miquelina quando vai no autocarro da Rodoviária a conversar com o homem do talho que vai fazer a inscrição do filho na escola tal...), sabemos o quanto nos esmiframos para metermos nas cabecinhas dos portugueses a sabedoria que fomos recolhendo ao longo da nossa vida de estudantes e de professores já feitos, em investigações mil, custosas pelo desgaste mental e de bolso... Sabemos que somos sérios (tirando alguns exemplares raros que têm homólogos paralelos em todas as profissões). Sabemos que se não fazemos mais e melhor não é por falta de vontade mas sim pelos entraves que os tais políticos nos põem (nomeadamente aqueles que mais nos deviam ajudar)entraves de toda a ordem (toneladas de papéis para preencher, em burocracias paralizantes, turmas com 30 alunos, equipamentos e escolas obsoletos... etc., etc.). Digamos que há-de haver um dia em que os professores serão respeitados e verdadeiramente estimados, devido à sua função relevante na sociedade. É essa uma das nossas utopias. Até lá, o melhor que a gente tem a dizer (ainda que em pensamento), a Sousas Tavares, Manuéis Fernandes, Socráticos, Donas Miquelinas, homens do talho e quejandos, é: vão para o raio que os parta e deixem-nos trabalhar. E digam-me lá, ó professores que me lêem: vocês que sabem quem somos, acham-se piores do que esses simulacros de gente que nos bate? Claro que não! Coração ao alto, intelecto em riste, melhores dias virão.

JOAQUIM SAIAL

Pablo Neruda


“la verdad es amargo movimiento.”
in Cantos Cerimoniales


há uma mancha de cinza
na transparência deste vidro –
gotas de sangue
no caixilho da janela

que não deixam crescer
o sol – a alma.

sem raízes, a paisagem enegrece.
palavras brilham,
mas não posso esquecer
o sangue envolvendo a língua,
a cinza dissolvendo o corpo e a memória.

“o medo envolve os ossos”?
o sangue e a cinza obscurecem
a fotografia que o tempo gravou
durante a noite.

um fio de saliva secou
por entre os lábios
(na estepe que não quiseste ver).

construíste a casa e o jardim.
mas deixaste sobre a ilha
essa sombra –

cinza e sangue,
dor e esquecimento.

Ruy Ventura, in Vale dos Homens (livro inédito)
(este poema representou o autor na antologia de homenagem a Neruda, organizada por Cristino Cortes e publicada recentemente pela Universitária Editora)