Saramago...

Foi difundido pela comunicação social que Gonçalo M.Tavares recebeu o prémio de novela e romance José Saramago.
O mesmo galardão fora atribuído em anteriores edições ao alentejano José Luís Peixoto e à carioca Adriana Lisboa.
Antevejo que, daqui a uma suficiente quantidade de anos, a atender ao valor que se reconhece publicamente aos premiados, continuarão a crescer em importância enquanto o que dá nome ao prémio se apagará pouco a pouco. A nosso ver ele é um mito bem promovido por diversas instâncias - mas de facto, como disse um escritor, esse sim de génio, o nobel Czseslav Milosz, "um escritor de segunda ordem", que deve quase tudo ao partidão e à "nova diplomacia", não a um valor de excepção. Cremos que este é secundário como o de muitos nobeis já passados ao esquecimento. O que de facto não se esquecerá é o espírito persecutório que Saramago incarnou enquanto esteve a mandar no "Diário de Notícias". A memória dos artistas e da gente lúcida do meio não é curta.
Esses actos infelizmente mancharam o seu percurso e não sairão da recordação de qualquer pessoa com exigências éticas.
Cremos que a História irá ser dura para Saramago.
Nicolau Saião (texto e imagem)



CARREIRAS
RUA DA FONTE NOVA, nº 8

Ao fundo da rampa (onde outrora fora uma latada) havia uma construção de madeira e folha de zinco. Na varanda, permaneceram, durante dezoito anos, duas barricas com água da Fonte Nova e, uma vez por ano, com algumas arrobas de azeitona. O tanque tinha um odor diferente de tudo quanto o rodeava – guardava um pouco de nós nas suas águas sem movimento.
De tempos a tempos, era preciso gatear a cancela com pregos sem serventia ou com arame retirado a algum fardo de palha. Delimitava um espaço que não deveríamos ultrapassar, embora (sobre o muro) fosse fácil dirigir o olhar até uma casa rasteira, onde apenas a porta comunicava luz ao interior da cozinha.
(Foram precisos alguns anos para que entendesse a disposição deste corpo – desvanecendo-se.)
Junto à salsicharia, a avenida deixava de existir. A cor desaparecera há muito. A música da varanda partia até debaixo da tangerineira. No inverno, uma parte da rua escurecia – subitamente.
Certo dia, foi preciso entregar a chave – como se o carteiro passasse a recusar os degraus que vão até ao primeiro andar. A porta de madeira, posta na horizontal, deixou de ser suficiente para nos resguardar da chuva. Em compensação, passaram a existir folhas de jornal entre o vidro e a grade – para que o sol ficasse menos intenso.

O MEU AMIGO CLÓVIS

Faz hoje um ano que me morreu um Amigo. Chama-se Clóvis Artur. Era um ser que dava gosto frequentar, com o seu acolhimento sempre caloroso, com a sua companhia que sabia ser silenciosa, com a sua comunicação peculiar, mas eloquente. Ao dono deste amigo especial (Clóvis Artur era o cão de outro amigo, esse humano, Nicolau Saião), aqui fica um abraço forte, de quem partilha as suas saudades. Entretanto, reproduzo aqui o soneto que no dia da sua morte escrevi (eu, que até aí, nunca me expressara em formas fixas...).


[Clóvis Artur]

alimento esta casa e a oliveira
com memória, com sangue – a alegria
que na vossa mão pus em cada dia,
guardando no meu corpo a terra inteira.

junto do fogo – da alma, da lareira –
guardei nos olhos a sabedoria
desses caminhos que bem conhecia,
da clara água fresca da ribeira.

lanço na terra a minha semente
(feita de carne, de ossos, de saudade)
fertilizando tudo, toda a gente.

a raiz trará vento, tempestade –
uma sombra talvez na tarde quente,
voz soando por toda a eternidade.



NUNO MATOS DUARTE

Já manifestei aqui uma vez a minha admiração pela pintura de Nuno Matos Duarte. Arquitecto nascido em 1971, vive e trabalha na sua terra natal, Ponte de Sor. Vale muito a pena conhecer melhor a obra e o trabalho deste artista substantivo, navegando pela sua página pessoal: http://nunodematosduarte.no.sapo.pt/
É importante, ainda, consultar os dois blogues que administra:
"Imagoluce" em www.imagoluce.blogspot.com
"Colédoco" em http://-coledoco.blogspot.com
Asseguro-vos. Não darão o vosso tempo por perdido...
UMAS LETRINHAS APENAS

Aviso os leitores do "Estrada do Alicerces" de que, a partir de hoje, quando registarem os vossos comentários (acolhidos e lidos sempre com muito gosto) deverão escrever no sítio apropriado umas letrinhas indicadas pelo programa (para além do nome/pseudónimo). É uma maneira de evitar os irritantes spams...
Eu, maçarico na blogosfera, agradeço a ajuda de quem me informou do procedimento.