GIACOMO LEOPARDI

O INFINITO

Cara me foi sempre esta erma colina
e esta sebe, que por diversos lados
o extremo do horizonte veda ao meu olhar.
Mas, sentado e olhando, intermináveis
espaços para além dela, e sobre-humanos
silêncios, e sossego profundíssimo
no pensamento imagino; então por pouco
o coração se não sobressalta. E, quando o vento
nas folhas ouço sussurrar, aquele
infinito silêncio a esta voz
vou comparando: e lembro-me do eterno,
e das mortas estações, e da que agora passa
e vive, do seu rumor. Assim no meio
desta imensidade o pensamento se me afoga:
e naufragar me é doce neste mar.

(Tradução, belíssima, de Albano Martins - in Cantos, de Giacomo Leopardi, recentemente editado pelas Edições Asa.)


CRISTINA CAMPO

Tenho lido, nos últimos tempos, um livro de que não sairei ileso. Sei bem que ninguém sai ileso da leitura de um bom livro, mas entre eles alguns deixam marcas maiores, cicatrizes positivas que modificam a nossa alma e o nosso corpo.
Dirigida pelo padre e poeta José Tolentino Mendonça, a editora Assírio & Alvim iniciou a publicação de uma nova colecção, “Teofanias”. Aí foi editada a obra de que vos escrevo – Os Imperdoáveis -, assinada por Cristina Campo, pseudónimo da poeta (para mim “poeta” não tem género) italiana Vittoria Guerrini (1923-1977). É um conjunto de ensaios, que aborda temas tão diversos quanto os contos de fadas, a linguagem poética, a relação entre a atenção e a poesia, as obras de William Carlos Williams, John Donne, Tchekov e Jorge Luis Borges, os “ditos e feitos” dos Padres do Deserto ou os “Sentidos Sobrenaturais”. Como refere o autor do prefácio e coordenador da colecção, este livro prova-nos que “a experiência poética e a religiosa se inscrevem no território comum da linguagem, e que tanto numa como noutra se busca aquilo que Campo chamava ‘o sabor máximo de cada palavra’.”
Desejando a adesão de que me lê, deixo aqui alguns parágrafos que já registei na memória.

*

“Quem tiver a ventura de ter nascido no campo (ou pelo menos num jardim suficientemente vasto para não conhecer muito bem os seus limites) obterá para toda a vida a sensação de possuir uma linguagem arcana mas apesar disso precisa, de um desenvolvimento musical de frases que, enquanto preenche os sentidos de superabundante júbilo, anuncia à mente um último desígnio, em cada vez de novo prometido e diferido.” (p. 27)

“Infinitamente mais delicada e tremenda é a presença do imenso no pequeno e não a dilação do pequeno do imenso [...].” (p. 51)

“[...] nenhuma coisa que não se possa ler de muitos modos poderá fascinar por mais de um tempo bastante breve [...].” (p. 70)

“Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre – através da caneta e da mão – como por osmose.” (p.149)

“Na alegria, nós movemo-nos num elemento que está todo ele fora do tempo e do real, com presença perfeitamente real.
Incandescentes, atravessamos as paredes.” (p. 149)

“Pedir a um homem que nunca se distraia, que subtraia sem descanso ao equívoco da imaginação, à preguiça do hábito, à hipnose do costume, a sua faculdade de atenção, é pedir-lhe que actue na sua máxima forma.
É pedir-lhe uma coisa muito próxima da santidade numa época que parece procurar apenas, com cega fúria e arrepiante sucesso, o divórcio total da mente humana em relação à sua faculdade de atenção.” (p. 178)
Vozes do Brasil

WLADIMIR SALDANHA



O GRANDE BÚZIO

É fruto sem sazão:
tem que ficar
dependurado,
ficar pesando,
fisgado
por um arpão.

Põe-se uma esteira no chão.
Três dias depois ele tomba

– o grande búzio,
como uma fruta madura,
como uma fruta pêca,

sem molusco,
uma fruta

onde se escuta o mar.


Este e outros poemas no Arquivo de Renato Suttana.


José do Carmo Francisco

O Mar de Madrid
ao lado do Mar da Palha

Há coisas que não acontecem por acaso. Estou mesmo convencido que nada acontece por acaso. O escritor João de Melo, natural da Achadinha, publicou nas edições Dom Quixote o livro O Mar de Madrid que dedica à família de Lisboa e da América, aos amigos dos Açores, de Lisboa e de Madrid. Sendo o título do livro O Mar de Madrid (que é uma coisa que não existe) logo havia de ser apresentado ao público num bar do Cais do Sodré frente ao Mar da Palha que é o nome do estuário do Rio Tejo. Estar a conversar com alguns amigos e amigas de João de Melo frente a um ancoradouro onde embarcam e desembarcam pessoas atarefadas no regresso a casa depois de um dia de trabalho, pessoas que não reparam em nós e que vão a pensar no jantar e no banho que vão dar aos miúdos e nos trabalhos de casa que os vão obrigar a fazer e na chuva que ameaça a todo o momento. Também não é por acaso que este livro trata do amor impossível entre um poeta português e uma prosadora espanhola. Porque Portugal é masculino e Espanha é feminina. Entre os dois (Francisco e Dolores) estalam algumas discussões. Por exemplo ela pergunta: «Crês que ainda existe literatura nos dias de hoje. Se é literatura esta feira de enganos que se vende nas livrarias e nos quiosques dos jornais. Ou se ela morreu já às mãos dos escritores que a vendem a pataco aos seus editores, aos críticos literários e aos suplementos semanais dos periódicos de maior tiragem. Ora diz-me lá onde está a grande literatura?» Claro que O Mar de Madrid não trata só de literatura mas numa crónica breve não cabe grande dissertação. Fica o convite à leitura e a memória do Mar da Palha com os seus cacilheiros repletos de gente apressada.
Antologia “Fanal”

JOSÉ EMÍLIO-NELSON


Arte Menor (Panfleto)

Contra os touros de morte todos estamos uma vez por dia
quando nos visita o anjinho do hissope a espargir.
Contra o boxe, mas porquê? Animal para animal. Duros golpes.
E contra o parir? Haverá alguém, entre nós, que não glorifique as dores
infectas: dor acastanhada, cinzenta, doirada, rubra
(quer dizer, fezes, urina, etc.)?

Chá e velhas senhoras, das que têm a voz
descalça em carvão, as da Emissora Clássica.
A falar, a falar do padre que fechou os lindos baldios da Penha
farto, lia-se no jornal regional, de apanhar preservativos.
- Havia inveja nisso? (Quem disse?)

As pernas são mais velhas que a cabeleira
que esconde os olhos cavados.
O toucado só é belo porque comprado da cor do panfleto
que recomenda o produto fantástico, fantástico.
Lábios pintados de fina porcelana. As pestanas bizarras,
isso sim, a glória da cosmética.
- Os anos não perdoam, diz no cabeleireiro.
- Minha-senhora-com-rosas-rendadas-e-vidradas,
sem meias ainda rompe solas.

(nº 4, 28/07/2000)