JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
O Mundo e o Tempo
de Maria José
O modo como desenhas o teu sorriso no passeio desta avenida, entre a pressa sem sentido e o vazio projectado pelo caos do movimento do trânsito cria, no meu olhar, um outro espaço como se, de súbito, nascesse uma serra por detrás da Fonte Luminosa. A tua serra. O teu espaço. A tua geografia. O teu lugar onde o tempo respira mais de acordo com o sol, com a água e com a terra. Há no teu sorriso uma espécie de antecâmara de um mundo equilibrado entre silêncios e canções, entre frio e calor, entre fogo e água. Depois do sorriso vem a voz, hoje como sempre juvenil. Voz de menina em corpo de mulher. A empurrar as sombras, as tristezas desenhadas, os quartos e os corredores povoados pelo vazio e pela saudade. Sempre que tu trazes um garrafão com água da tua terra eu sei e sinto que é tudo, todo um mundo, aquilo que trazes na água. A água propriamente dita, o pó suspenso no ar depois da passagem de um automóvel veloz, a terra húmida depois da chuva, as pedras gigantes da serra, as pequenas ermidas onde os devotos vão entregar garrafas de azeite para alumiar a imagem da padroeira, o silêncio da noite, o escuro lençol que tudo tapa quando o sol dá a sua dádiva de luz aos que vivem do outro lado da terra. Todo o teu modo e todo o teu tempo. A tua geografia e o teu pensamento interior. Um dia comerei contigo essa sopa feita com a água da tua terra trazida para Lisboa num garrafão. Para então poder apontar num poema de circunstância essa tua tão própria e pessoal arte do encontro. Ou seja, a tua capacidade para fazeres de uma refeição o lugar do encontro entre dois mundo separados pelas convenções, pelas conveniências e pela pressa sem sentido do nosso quotidiano citadino.

Antologia “Fanal”
MATILDE ROSA ARAÚJO
Sílabas de Silêncio
Dorida mágoa
Mágoa dorida
Fogo da vida
Porque não chorais
Olhos parados
Tão secos de água
De dor molhados.
*
O cheiro morto da vela
Acabada de apagar
E o aroma frio
Dos lençóis de grosso linho
Corado ao Sol
Adormecido o sonho
Na aldeia
Da infância perdida.
*
Cozinha de fumo
No granito da lareira
Casa pobre da minha avó
Os gestos do fogo
Faziam-me tantos sinais
Que eu não entendia
Mas bebia
Fascinada
Gestos vermelhos
No pote negro
E triste.
*
Pote de três pés agudos
E negros
Os troncos de pinho ardiam
Sangue de fogo
De árvores que foram vivas
E eu era criança e não perguntava
Não sabia perguntar
Com um espanto muito branco
Nos olhos meninos.
E quem me respondia?
*
Que me diz sempre teu olhar
Mesmo na morte escondido?
Alfabeto perdido
Do livro que não leio.
*
Cavernas precoces
De olhos enormes
Escorrem silêncios
Meninos sem riso e sem choro
No ventre da guerra.
*
No pátio
O gato ondula
Seu dorso abstracto
Ondula
Sua dúctil melancolia
Radar que espreita
Liberdade bravia
Que não ardeu.
(nº 5, 15/09/2000)

NEGRUME
Uma doença, a poesia - assim afirma, sem afirmar, na primeira parte do seu novo Negrume (Edições & Etc., com desenhos de Ana Biscaia) o poeta Amadeu Baptista. Não posso evitar a concordância com a sugestão nascida da sua linguagem arcana e violenta - que, mais uma vez, me fertiliza.
Não parei enquanto não terminei a leitura de Negrume. Em três andamentos ("As Danações", "Negrume" e "As Recriminações"), o edifício da dor ergue-se numa paisagem de assombro, onde a poesia, sendo doença, consegue ainda salvar um corpo-espírito em martírio de ferida e testemunho.
Não andasse Portugal tão encegueirado com fogos de artifício literário de pouca dura e pólvora seca - e já teria valorizado, como merece, a poesia de Amadeu Baptista.
Do livro lido, ficam dois poemas.
uma doença indómita, silenciosa, avulsa,
que pomos em papéis incandescentes
entregues ao contágio de quem lê
como a morte nos confina à transcendência.
sob a alma, produz recalcamentos,
derrames cerebrais,
um rastro de culpa penitente
que não respeita os sinais, as passadeiras,
as vastas galerias onde o sol
não entra para que a sombra se prolongue
até à rude escarpa do farol
em que pensamos poder estar o rumo.
uma doença intratável, como um fumo
a sair-te dos olhos e a sujar as unhas.
(p. 14)
* * * *
11.
tenho a bala na câmara, o sonho recorrente.
deito-me na terra dura.
o teu silêncio conflui para o meu silêncio.
o céu está próximo, ao alcance da mão.
ao vinho junto pão e algum açúcar.
este é o meu corpo e o meu sangue.
com um dedo sigo o rastro da estrela,
o augúrio por que sobrevivo.
em volta tudo está em chamas.
prende-se o desassossego ao meu olhar.
neste ardor de abelhas, por um odor enxuto,
persigo, ainda, a vida, estando morto.
assim me traio. e assim te trais.
assim me perco e salvo.
na sucessão dos dias e das noites
há sempre um desencontro com o teu nome.
tudo é escrita. tudo é aflição.
há em mim esta caução sem preço
a que não escapo. a profecia
vindima-me as costelas.
ao vinho junto pão e algum açúcar.
penso o teu olhar para além das árvores
neste verde resplandecente sobre os brilhos.
a escuridão latente submete-me.
à dor não sei que nome dar.
acedo ao escrito para me queimar.
em volta tudo está em chamas.
tudo esqueceste e tudo hás-de lembrar.
foi exactamente aqui que me deixaste.
escuta bem. vê como a noite alastra.
a sombria claridade que toca a minha face
é a recorrente face da loucura.
este é o meu corpo e o meu sangue.
no vento irreversível
inscrevem-se os sinais que a morte prenuncia
depois da violência brutal da despedida.
(pp. 63-64)

MESTRE AQUILINO
São páginas como o capítulo V de Arcas Encoiradas que fazem de Aquilino Ribeiro um dos mestres da Literatura Portuguesa do século XX. Barroco e vernáculo na linguagem, perene como os penedos de granito que vão resistindo apesar da erosão, sensível como as folhas novas do carvalho negral - muitos torcem-lhe hoje em dia o nariz (opõe-se à preguiça que caracteriza o nosso tempo). Pessoalmente, quanto mais o leio mais amo a sua escrita.
A ESCALADA DO MINISTÉRIO
As novidades vindas do Ministério da Educação parecem não ter limites. Em vez de assumir as suas responsabilidades pelo estado do Ensino em Portugal, continua a tapar-se com relatórios internacionais (cuja metodologia e fiabilidade ninguém conhece) para atacar o grupo profissional da Função Pública que tem piores e mais desorganizados sindicatos.
Para alguns membros do governo é difícil e incómodo bater nos poderosos (os médicos, por exemplo) e, mesmo quando parecem arrear, fazem apenas festinhas um pouco mais fortes (veja-se a Magistratura...). Mas surram os fracos, aqueles que não têm organização suficiente para enfrentarem a miopia e a arrogância de quem deveria respeitá-los.
Primeiro foi a preguiça: os professores não querem trabalhar, afirma o Ministério. Depois o ordenado: ganhando muito (tanto que os professores ganham...) poderiam fazer mais ou, fazendo o mesmo, ganhar menos. Agora é a ignorância: não têm conhecimento sobre as matérias que leccionam. Onde vai parar isto?
As novidades vindas do Ministério da Educação parecem não ter limites. Em vez de assumir as suas responsabilidades pelo estado do Ensino em Portugal, continua a tapar-se com relatórios internacionais (cuja metodologia e fiabilidade ninguém conhece) para atacar o grupo profissional da Função Pública que tem piores e mais desorganizados sindicatos.
Para alguns membros do governo é difícil e incómodo bater nos poderosos (os médicos, por exemplo) e, mesmo quando parecem arrear, fazem apenas festinhas um pouco mais fortes (veja-se a Magistratura...). Mas surram os fracos, aqueles que não têm organização suficiente para enfrentarem a miopia e a arrogância de quem deveria respeitá-los.
Primeiro foi a preguiça: os professores não querem trabalhar, afirma o Ministério. Depois o ordenado: ganhando muito (tanto que os professores ganham...) poderiam fazer mais ou, fazendo o mesmo, ganhar menos. Agora é a ignorância: não têm conhecimento sobre as matérias que leccionam. Onde vai parar isto?
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