JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

As rolhas da Catalunha
e os meninos do Circo

Eu vi e não queria acreditar. Saí de Lisboa com destino a Newcastle no dia 25 de Abril à hora de almoço e regressei na madrugada do dia 3 de Maio. Ao todo oito dias de ausência. Com o objectivo de ficar com uma ideia de como estava o País liguei a RTP 1 para ver o Bom dia Portugal. E foi aí que vi o que não estava à espera de ver. Ou seja, duas reportagens das quais eu me lembrava de ter visto antes de sair de Portugal no dia 25 de Abril. E ambas permaneciam como se nada tivesse acontecido.
As rolhas portuguesas que são muito apreciadas pelos produtores de vinho na Catalunha e os meninos do Circo que já podem ter uma directora de turma através de Internet. Fiquei chocado por ver como é possível a indigência chegar a este ponto. Mais de oito dias depois lá estavam as rolhas e os meninos. Havendo tantos assuntos de interesse é espantoso como, mais de uma semana depois, os mesmos trabalhos televisivos aparecem no Bom dia Portugal como se fossem feitios naquele dia. E nem sequer estou contra os jornalistas porque eu próprio também sou jornalista. Estou é contra o sistema cultural que permite estas coisas insólitas. Mais que insólito: tudo isto é imoral, absurdo e anti-deontológico. Dito de outra maneira: haver enlatados de notícias é um crime contra a liberdade que todos temos de exigir uma informação limpa. Como há enlatados musicais ou enlatados de telenovelas. Nós que pagamos os nossos impostos não podemos estar à mercê de gente como esta. Gente que em vez de puxar pela imaginação se limita a ir aos arquivos e mandar por no ar notícias velhas de mais de oito dias. Sem qualquer respeito pelos espectadores. Sem respeito por nada. Sem respeito por ninguém.
Antologia “Fanal”

JOSÉ CARLOS BREIA


Long Play

Se um terço tiras
à rotação do disco
logo se empasta o som.

Retira a agulha
do sulco que se esgarça
e – estroboscópio persistente –
repõe o tempo certo
ao movimento.

Tu sabes que o CD
tem outra limpidez.
Que a estática perturba
a melhor gravação
do disco de vinil.

Mas, aberta a gaveta
já ouves as canções,
já as vozes te agitam:

Baez, Emmylou, Roberta, Melanie,
Anita, Sarah, Ella e “Lady” já se vê,
Piaf, Barbara, Catherine, Greco,
Sotiria, Nara, Milva, Nana e Elis Regina

– mulher que tanto amor te deram
em 33 e 1/3.

(nº 7, 24/11/2000)
Vozes de Espanha

MARÍA JOSÉ FLORES


A Editora Regional da Extremadura acaba de editar Antología Poética (1984-2003), de María José Flores. Nascida em Burguillos del Cerro (Badajoz) no ano de 1963, professora de língua e literatura espanholas na Universidade de Aquila (Itália), este é o seu oitavo livro de poemas. Da sequência Del Animal y de su Culpa (publicada pela primeira vez neste volume), extraímos os três textos que aqui divulgamos.


Son las primeras luces.
Los animales gozan en las sombras
o huelen el peligro o acechan o desgarran
o van hacia las fuentes y los claros.
Sólo el hombre se niega
o se demora.


*


Como quien vuelve de una larga ausencia
y apenas reconoce la que fuera su casa
vuelvo de la desdicha y de la culpa.

Con un sabor de frutos ajenos en los labios.


*


Lo que detrás del cuerpo se oculta
y es el cuerpo.

Es el cuerpo que fluye en su memoria
y nos desvela.

Como esos cauces secos que muestran la heredad
de lo que fue abundancia o fue miseria.


RUY CINATTI

um poema inédito
em Setúbal


Ganho sempre algo quando vou a Setúbal. Mesmo ferida por alguns atentados urbanísticos, a cidade mantém uma digna delicadeza na sua forma urbanística, discreta, mas com riquezas que ninguém se pode dar ao luxo de desprezar. Basta deambularmos pelas suas ruelas ou apercebermo-nos de que o seu perímetro urbano não termina na avenida Luísa Todi e se abre ao rio Sado, num jardim marginal que constitui um dos trechos mais interessantes da paisagem urbana da Península da Arrábida.
Meio escondida nas proximidades da câmara municipal, é preciso orientação para descobrirmos a livraria Universo, propriedade do escritor Raposo Nunes. Situada na rua do Concelho, número 13, merece no entanto uma visita. Não será uma catedral do livro, tão pequena é. Constitui, no entanto, sem dúvida, um local de devoção a esse veículo de luz.
Visitei a livraria na passada semana. Enquanto conversava com o proprietário sobre amigos comuns, fixei o meu olhar num poema emoldurado, exposto em canto discreto. Pedi autorização para observá-lo. Vi então, com emoção minha, que se tratava (que se trata) do manuscrito de um poema de Ruy Cinatti (1915-1986). Raposo Nunes pensa que está inédito. É muito provável. Com generosidade, deixou-me copiá-lo e fotografá-lo. Não poderia deixar de partilhá-lo convosco, devidamente transcrito.



Navegas ao acaso
sobre múltiplas ondas,
que rombam, se cruzam
sem sentido algum.

Onde páras tu
nesta confusão,
sentida, entretanto,
no teu coração?

Delas tiras rumo
contra os sem razão.
Unge-te, rumina.
Depois desce aos fundos[.]

6/8/83

Ruy Cinatti

José do Carmo Francisco

Os barcos velhos
da Ilha Sagrada

Os barcos velhos da Ilha Sagrada nunca morrem. Quando ficam cansados e deixam de poder fazer viagens nas águas frias do Mar do Norte, ninguém os queima nem corta em pedaços para serem lenha nas lareiras das casas da Ilha. Não. Nessa altura os pescadores cortam os barcos ao meio e voltam-nos ao contrário. Depois pregam umas tábuas no lugar onde foram serrados e colocam uma porta. Ficam assim com dois pequenos armazéns para os seus apetrechos de pesca. Depois isolam o casco que passa a ser o tecto de nova casa. Os peregrinos e os turistas recebem assim uma lição de ecologia quando chegam à Ilha Sagrada. Chama-lhe Ilha Sagrada porque está repleta de abadias, umas em ruínas, outras ainda dedicadas ao culto. Situada no Mar do Norte, algures entre Edimburgo e Newcastle, a Ilha Sagrada fica isolada do mundo algumas horas por dia em função das marés. No dia em que lá fui, o dia 2 de Maio, o mapa indicava que a estrada da Ilha estava transitável entre as 9 e 25 da manhã e as 5 e 5 da tarde. Depois, com a subida das águas, a Ilha Sagrada volta a ser de novo uma ilha no sentido total da palavra. O som do violoncelo da Guilhermina Suggia ainda permanece nos salões do castelo da Ilha Sagrada. O mundo é pequeno e a artista portuense foi amiga dos donos deste castelo nos idos anos 20. Quando regressei ao meu roteiro de terra ainda vi duas senhoras a limparem os pés com a toalha e a calçarem os ténis. Tinham acabado o seu percurso na areia e, com a igreja à vista, não queriam sujeitar os seus pés a um massacre no alcatrão da única estrada da ilha. Ao longe os barcos convertidos em armazém mostravam como a ecologia não precisa de quem a proclame mas de quem a pratique.