O SILÊNCIO DE DEUS
Com o corpo e com o espírito em Auschwitz, Bento XVI, no drama do indizível, questionou o silêncio de Deus perante o holocausto nazi. Tal como Cristo na cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"
Este gesto apresenta aos Homens de boa vontade a mais forte prova da crença, a do ser que procura respostas, que deseja comunicar com o Alto e compreender os sinais (mesmo os mais brutais) que Ele faz surgir, que não duvida da Sua presença mas anseia conhecer os Seus caminhos, mesmo os mais pedregosos.
Tudo em Auschwitz e noutros campos de morte parece afirmar na senda de S. Paulo: nem mortos seremos aniquilados. A voz de Ratzinger ecoa contudo:
"Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um grito dirigido a Deus: porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? (...) Como pôde permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?"

SURREALISMO À VISTA
A página Triplo V é conhecida pelas suas saborosas iniciativas. Desta vez Maria Estela Guedes resolveu dar um destaque forte ao surrealismo nas suas diversas dimensões. Entre outros textos do bloco agora divulgado, merecem especial atenção uma entrevista do nosso colaborador Nicolau Saião e um texto de João Garção intitulado "Surrealismo e Liberdade". A não perder!
(na imagem: quadro de João Garção)

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
A segunda solidão de Miguel Garcia
A segunda solidão de Miguel Garcia não resulta de nenhuma expulsão. É diferente da primeira solidão. No Entroncamento, em Outubro de 1999, Miguel Garcia foi expulso de um jogo de Juvenis com o CADE. Chovia muito nessa manhã e, no escuro corredor de acesso às cabinas, as lágrimas de Miguel Garcia eram uma pequena chuva salgada a resgatar a solidão e a mágoa de ter sido expulso. Hoje, Maio de 2006, na sua segunda solidão, trata-se de um processo mas de exclusão. Ele contribuiu para o apuramento da equipa de Sub-21 para o Europeu mas foi excluído da fase final. O mais curioso é que foi Miguel Garcia que secou por completo Ricardo Quaresma no jogo mais espectacular do ano no Estádio do Dragão. A equipa de Miguel Garcia acabou por perder porque o árbitro expulsou mal o defesa esquerdo dessa equipa e, no minuto seguinte, no lugar onde esse jogador não estava, um jogador sul-africano marcou o golo do empate. Curiosamente na primeira solidão de Miguel Garcia em Outubro de 1999 foi Ricardo Quaresma que, com uma exibição de sonho, num campo de lama, a resgatou e colocou de novo um sinal de alegria ao seu olhar. Transformou um empate a dois golos num esplendoroso cinco a dois. Nesta sua segunda solidão nada nem ninguém lhe fará o resgate de uma exclusão injusta. O mesmo seleccionador que já antes tinha culpado Lourenço por uma derrota em Almeirim não tem ninguém para culpar. É sua, inteira, completa e exclusiva, a culpa da segunda solidão de Miguel Garcia. Os dois resultados negativos são já o prenúncio de um deserto de ideias que começou na convocatória e está a concretizar-se nos resultados mais que maus e nas exibições mais que pobres.
DE ESFREGÕES A LIXO
Segundo noticiou o Diário de Notícias de ontem, o Ministério da Educação apresentou na sexta-feira o seu projecto de avaliação do desempenho dos professores.
Defendo, como princípio, essa avaliação, desde que seja levada a efeito por sujeitos competentes e com base em critérios mensuráveis. Como o Ministério determina, não. Os professores passam a ser obrigado a lamber as botas ao facilitismo paternal (quando exista) e a compactuar com os jogos de poder que caracterizam muitas das nossas escolas. É lamentável!
Se os professores já tinha o estatuto de esfregões sociais, com o novo regime de avaliação do desempenho (se for aprovado como está) passarão à categoria de lixo social.
Há questões que se impõem nesta vergonha proposta. Voltarei ao assunto.
Segundo noticiou o Diário de Notícias de ontem, o Ministério da Educação apresentou na sexta-feira o seu projecto de avaliação do desempenho dos professores.
Defendo, como princípio, essa avaliação, desde que seja levada a efeito por sujeitos competentes e com base em critérios mensuráveis. Como o Ministério determina, não. Os professores passam a ser obrigado a lamber as botas ao facilitismo paternal (quando exista) e a compactuar com os jogos de poder que caracterizam muitas das nossas escolas. É lamentável!
Se os professores já tinha o estatuto de esfregões sociais, com o novo regime de avaliação do desempenho (se for aprovado como está) passarão à categoria de lixo social.
Há questões que se impõem nesta vergonha proposta. Voltarei ao assunto.

Vozes do Brasil
CARLOS NEJAR
Cantochão
O aparente chão de meu chamado
é canto
e o chão de sangue é pássaro voando
que ao bico traz
o chão de algum recado
e pão se torna.
Assim o mundo:
fato, vestígio,
uma larga paixão
que mais me busca.
Meu componente é vaticínio,
mundo,
chapéu aberto de chamados fundos,
peito de tempo contraído,
chão de vivos e mortos.
Mundo, coberto pelo próprio musgo
que é céu não descoberto.
O chão onde te espreito
é amor de amada e corpo.
E a terra, se não vinga,
é porque foi sumida
que a terra por tão pouca,
é mundo. E de tocá-la
com mãos ou pés ou sangue,
nos fazemos humanos.
Mundo, não te abandono.
O canto me precede.
A ele sigo, cavalo,
tão mudo quanto cego.
Ó árvore do mundo,
só o canto me prende
e me desprende.
(da antologia Breve História do Mundo, organizada por Fabrício Carpinejar e publicada recentemente nas Ediouro Publicações, no Rio de Janeiro.)
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