GOMES LEAL


JORNALISMO E LITERATURA

“Uma pretensiosa e depravadora lepra lavra na sociedade: uma enorme corrupção de gosto e de ideal nas letras. O jornalista, a parte mais saliente e deficiente da literatura portuguesa, toma sobre a desgraçada ignorância geral um ascendente que seria cómico, se não fosse para lamentar, e invade, como uma grande corrente sem dique, a opinião pública, reduzindo a Economia, a Arte, a Política, a Filosofia, a questões de vizinhas despeitadas.”

(do prefácio a “Claridades do Sul”, 1875)

Fernando Grade

Sobre
«Pedro Barbosa, Jesus Correia,

Vítor Damas e outros retratos»

É com o maior gosto que escrevo acerca do trabalho poético de José do Carmo Francisco (JCF). Para além das muitas afinidades que temos como camaradas das Letras e, não obstante os cerca de oito anos a mais que apresento em relação ao autor de Universário» – não posso deixar de referir que ambos fomos contemporâneos nos conceituados jornais desportivos A Bola e Record, onde tivemos a honra de ser colunistas em secções individualizadas.
Este livro de agora (Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos - Padrões Culturais Editora) vem na linha intencional, verbi gratia, de Jogos Olímpicos e de Os guarda-redes morrem ao domingo.
O recorte estilístico e existencial de JCF orienta-se em função de um conceito bem concreto, não concretista, de poesia, e essa gramática pessoal nutre-se de uma aturada dissecação da realidade, como quem privilegia um mote, pega nele, observa-o sob vários ângulos, enfim, trabalha-o sempre até às últimas consequências, ao ponto em que o limão ficará sem sumo e, desta feita, o Autor passa à próxima temática estilizada.
Mormente em relação aos três excepcionais futebolistas aludidos que constituem o cerne apelativo do volume, do qual constam, outrossim, «outros retratos», o modus faciendi mantém-se naturalmente inabalável, a memória é voraz, transporta para a tona de água lembranças e vivências de diversificado teor, situações vividas e sofridas no sangue por JCF, ou mesmo galvanizadas, como é o caso de o júbilo pelas vitórias, na medida em que o autor se assume, sem peias como clubista empenhado, melhor dizendo, sportinguista dos quatro costados, daí sem papas na língua.
Desses três jogadores de renome, um deles, o Jesus Correia (o popular «Necas», agora o saudoso «Necas» de Paço de Arcos e do País todo), foi, também, um extraordinário campeão do mundo, na modalidade em Portugal sempre apareceu como um potência de topo, o hóquei em patins.
Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos humaniza os gestos do quotidiano desportivo, sempre com um humor terno, mas não paternal; não se trata de um discurso orientado de cima para baixo: constitui uma linguagem realista, onde os seus problemas-base não pertencem ao foro da chamada subjectividade intrínseca – conotativo/denotativo, significante/significado – mas, ao invés, trilha campos desenvoltos que se cruzam com uma apetência e azimute entroncáveis numa postura que tem a sua matriz no que se convencionou apelidar de «realismo».
É uma rota que, no seu passado e currículo transgeracional, conta com o nome sedutor e emblemático de Cesário Verde e, antes, com o incómodo e contundente Guilherme de Azevedo. E, sendo assim: - Bom dia Zé Xico!

Estoril – Primavera de 2006
FERNANDO SAVATER


PROGRAMAR UM FILHO


“Pessoas que não formam um casal, uma mulher só, duas mulheres ou dois homens, e assim por diante, podem decidir programar um filho, que deixam de antemão sem pai ou sem mãe. Estamos frente a uma ideia que considera que os pais são fenómenos culturais dos quais se pode prescindir. No que se refere a tais situações [...] afirmo a existência do direito a ter pai e mãe, o direito a possuir uma filiação.
Os avatares históricos podem privar-nos do pai ou da mãe, podem fazer com que tenhamos pais adoptivos. O que não se pode fazer é programar órfãos. Não há o direito de se preparar o nascimento de um ser que vai ser privado de pai ou de mãe, como se estes fossem simples aditamentos supérfluos.”

(in Os Dez Mandamentos no Século XXI, 2004)
DIA DO CÃO

Concordo com a proposta de criação do "Dia Nacional do Cão".
Será certamente bom para os portugueses.
Como muitos de nós já somos tratados abaixo de cão, pode ser que na mesma iniciativa legislativa os deputados decidam tratar os cidadãos como "bobis" e, assim, passemos a ter uma vida decente.
Antologia “Fanal”
Poetas Novos de Portugal


JOANA NEVES


dois poemas


Por vezes arrastamos a nossa sombra;
Por vezes trazêmo-la:
E num instante podemos segurá-la, ao meio-dia, em Greenwich.

Mas no instante a sombra desaparece;
Oculta-nos tanto quanto a ocultamos a ela.
Qual de nós é o negativo, e o outro a fotografia?

A sombra pode ser um auto-retrato escurecido pela poeira do chão.
Ou o tracejado constante da nossa bonita figura.
Ou então a primeira revelação.


*


“As palavras e as coisas”
Mais exactamente
E os actos e os silêncios e as ausências e os suspiros
E os movimentos e os tempos e as cadências e os sons
No mesmo filme.
No ecrã chato e uniforme, a singularidade é o único nivelamento.

Alguém chorou.
O seu choro disse o que as palavras não dizem.

Há um outro lugar para as palavras.
A frase não relata o facto, ela é o facto.


(nº 9, 26/01/2001)


JOANA NEVES, nascida em Lisboa, é licenciada e mestre em Filosofia pela Universidade de Nanterre (França). Crítica de arte, tem textos dispersos por catálogos de exposições e publicações periódicas, como por exemplo o suplemento Mil Folhas do Público.