MIGUEL E OS PROFESSORES

Miguel tem idade para ser um adulto responsável. Gosta contudo de se pôr em bicos de pés na sua quinta para dizer mal de tudo e de todos, especialmente dos professores. O que ele gosta de sová-los! Em efígie, claro... A coragem não dá para mais. Num dia murros, noutro pontapés, noutro carolos, noutro joelhadas - nalguns chega a lançar-lhes escarretas à cara, que laboriosamente constrói dentro da boca.
Ninguém percebia, até ontem, os motivos da aversão. Até que houve um senhor com bons dotes de observação e memória de arquivo que contou:
"Ai não sabem? Uma filha do Miguel foi colega de liceu da minha filha mais velha. A catraia era o diabo em figura de gente, muito problemática... O progenitor era frequentemente chamada à escola, mas nunca o Miguel se dignou aparecer por lá (saiba-se lá porquê), apesar da insistência da directora de turma e da direcção da escola."
Agora se compreende por que tanto detesta os professores. Lembram-lhe a sua incompetência enquanto encarregado de educação.
Se o encontrasse na rua, dir-lhe-ia: "Caro Miguel, vossa insolência tenha cuidado: quem tem telhados de vidros não pode atirar pedradas..."
Quem será este Miguel? Há quem diga que reúne os piores defeitos do pai com os piores defeitos da mãe...
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Poema do código do Multibanco


Escolheste para o código do Multibanco
Por acaso o ano em que nasceu a tua mãe
Um tempo e um Mundo a preto e branco
A guerra acabou e há casas sem ninguém

Por acaso será só uma maneira de dizer
Pois assim quando fazes os pagamentos
Por detrás do teu bonito nome de mulher
Esse código afirma a força dos momentos

Quando nasceste era tempo de guerra-fria
O mundo estava mais feio, mais separado
A tua mãe estava entre uma dor e a alegria
De tu nasceres mas sem um pai a teu lado

Sempre que tu pagas o telefone e a água
E usas um código que é uma homenagem
Eu fico com os meus olhos numa mágoa
Da tua mãe vem um exemplo de coragem
DIAS DO FUTEBOL

Aproximamo-nos a passos largos do pior da América Latina, continente que agrega países amordaçados por políticos incompetentes e, tantas vezes, traficantes de influências e corruptos, cuja população procura no futebol (e no Carnaval, etc.) as suas únicas alegrias colectivas.
Para nos compararmos com eles falta-nos no entanto a parte positiva, feita de confiança no futuro, que consolida a alegria e a esperança. Como afirma Torga, somos um povo demasiado velho e estas explosões afirmativas só aos jovens são permitidas.

NICOLAU SAIÃO

Começar bem o dia

Depois de uma noite bem dormida, sem pensamentos melancólicos sobre a lusitanidade e outros pesadelos afins, levantei-me “pronto para todas as viagens” como dizia Ungaretti.
Arranjei-me, fiz café, dei despacho a um niquinho de brandy e ia na segunda torrada bem fornecida de manteiga espanhola (pois, a “Flor del Alba”, uma marca que parece um título de Alarcon) quando senti o carteiro meter correio na caixa (oficial e cabal) que, ornamentada com o exuberante desenho duma corneta, tenho ao pé da porta do lar.
Fui logo buscá-lo, pois sou curioso como um cabrito ou um agente secreto (nacional).
Entre as tretas comerciais do costume, que seguiram logo para a “cesta secção”, estava um envelope identificado com o patronímico dum amigo.
Dentro, carreado por umas palavras adequadas e bem artilhadas, vinha um postal com uma paisagem de Estaque de Cézanne. Não esta que vai aqui e de que muito gosto, mas outra também admirável de entrosamento, que o raio do velho parece estar cada vez mais novo.
Como se tivesse sido pintada mesmo agora.
Só para ver os quadros do solitário de Aix já valera a pena ter vivido. Ele, que em nada influenciou a bonecada que eu mesmo faço – as feições dos progenitores não se discutem, aceitam-se como a raiz do próprio mundo – pois essa tarefa ficou para o Beckman, Soutine, Lee Krasner, Cy Twombly…, deu-me contudo uma força que continua a oxigenar-me a figura de dentro e de fora: o sentido dos limites, a certeza de que podemos ir até onde pensámos ir, pois tudo se contém no tempo que habitamos.
E gostaria de finalizar com a citação, absolutamente virtual mas pundonorosa, dum anúncio que aqui há anos fez escola e que talvez ainda esteja na memória de alguns: “Um Cézanne pela manhã ajuda-o a melhorar, descontrair e a divertir-se” …
Pois não!



CÉZANNE


Rabujento e disforme, tinha a alma
segundo alguém escreveu, dum vendedor de fruta.

Ainda bem, Cézanne

Foi há relativamente pouco tempo
que eu percebi que podia se quisesse
viver num quadro teu.

Velho, muito velho, o mundo grego
ficou mais limpo e exacto que uma batata descascada.

Amavas, sei-o bem, as bruscas planícies
a lonjura serena da montanha Sainte-Victoire
e a cor mais pitoresca, eternamente violada
dum corpo de banhista.

Fazias com que os médicos tivessem ar de anões

Nos teus quadros não havia simplicidade
havia exactidão
singularidade
havia tudo o que fazia falta.

Por isso me lembro muitas vezes de ti
principalmente quando acabei de jantar

maçãs, peras, laranjas e paisagens imóveis.


(NS in “Os olhares perdidos”, Universitária Editora)
GOMES LEAL


JORNALISMO E LITERATURA

“Uma pretensiosa e depravadora lepra lavra na sociedade: uma enorme corrupção de gosto e de ideal nas letras. O jornalista, a parte mais saliente e deficiente da literatura portuguesa, toma sobre a desgraçada ignorância geral um ascendente que seria cómico, se não fosse para lamentar, e invade, como uma grande corrente sem dique, a opinião pública, reduzindo a Economia, a Arte, a Política, a Filosofia, a questões de vizinhas despeitadas.”

(do prefácio a “Claridades do Sul”, 1875)