Antologia “Fanal”


JOÃO CANDEIAS


sobre a planície

assim com o sempre virgem
primeiro olhar, me chamaste
com tua voz cálida de planura
como um pedido de auxílio
para o minuto que, seguinte,
não saberás nunca onde acaba
acatar então esse travelling sobre o trigal
porque aqui estou também descobrindo
o lento movimento do calor
do ventre da terra, o tremor
das linhas de fuga.
linhas de fuga que nos mantêm firmes
à rigidez do solo.
bebe agora o fino e raro rio que percorre
o teu sempre virgem primeiro olhar
e sacia o teu corpo e o meu
de quem reclamas o futuro.
pela madrugada uma jovem multidão
invade as casas vazias
salta sobre as metástases
dos muros velhos
conta os instantes
que não saberás nunca onde acabam
e habita a dor da pedra que cobre de angústia
a noite e o silêncio

(nº 11, 23/3/2001)


Nicolau Saião

É assim que se faz a Estória

Existe numa cidade alentejana um estoriador de gabarito: o Prof. José de Pitta Raposo.
Uma lenda maliciosa tem tentado estabelecer que este homem de estudo não existe.
Estamos em condições de infirmar essa arbitrária congeminação. Pitta Raposo é bem real. E os seus livros provam-no à saciedade.
Descendente de uma das mais excelsas famílias lusas, os Azeredos Curitiba, Pitta Raposo deu à estampa diversos tomos de alto valor cerebral.
Começando por uma pequena homenagem ao seu trisavô (Anatólio Raposo, cozinheiro inspirado e patriota) incursionou depois pelo memorialismo com Memórias de Antão Raposo, meu primo em terceiro grau, o qual lhe valeu elogios do renomado crítico espanhol Juan Capullo Follante e do também historiógrafo local A. Tadeu Rabecaz.
Além de outros mais, cheios de originalidade e robustez (a saírem) e tendo sempre como protagonistas personalidades da sua multifacetada família.
O poeta e titular Alfonso Bilharoz de Moncada, grande amigo de Raposo, dedicou-lhe este poema assumidamente laudatório - o que não lhe retira valor descritivo e lírico como se poderá comprovar pela sua leitura.


Perfil

É arteiro como um cigano
elegante e donairoso
- um magnífico fulano
o grande Pitta Raposo!

Melífluo e insinuante
dá de si boa impressão
e embora seja um tunante
é um belo cidadão!

Sabe aguentar a parada
para levar tudo a eito
- entra em qualquer titarada
desde que lhe dê proveito.

Um fidalgote fogoso
mexido até dizer basta
- o grande Pitta Raposo
o que ele gosta da pasta…

Com a mão esquerda arrebanha
com a direita arrebata.
O que faz falta é ter manha,
o que é preciso é ter lata!

É real homem de bem
nada há que lhe não valha:
pois seguro prestígio tem
entre outros da mesma igualha

Mesmo sem obra imponente
que o venha a cobrir de louros
vai deixar um nome ingente
aos lusitanos vindouros

e a Estória registará
o seu nome valoroso
mesmo sendo a escrita má.
- E viva o Pitta Raposo!

(ilustração de Nicolau Saião)

Retábulo (2)


a escuridão

há lâmpadas no corpo
quando as imagens nascem de outra terra.
a luz atravessa a carne.
nasce nas veias
para separar do mundo
o que pertence ao mundo.
há olhos vivos
(no cordeiro que adormece?),
sangue no rosto, nos dedos, nos pés.
– se a escuridão não existisse
como escutaríamos a voz
que rompe os tecidos?

[Francisco de Zurbarán]
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

O saco do pão na porta

Poderia dissertar sobre o facto de ter descoberto que a heroína do povo alentejano, Catarina Eufémia, nasceu no mesmo dia em que eu nasci – 13 de Fevereiro. São curiosidades tal como saber que Agostinho da Silva, o poeta e filósofo, também nasceu a 13 de Fevereiro. 13 de Fevereiro tal como o Artur Jorge, futebolista, treinador e autor de um livro de poemas intitulado Vértice da Água. Mas não.
Hoje gostaria de salientar um caso por mim vivenciado nos últimos tempos: perto da minha casa, mais precisamente na Rua do Teixeira, existe um restaurante que se chama Adega do Teixeira onde todos os dias alguém deixa um saco de pão pela manhã. Já tenho reparado que ao lado do restaurante há uma residencial muito frequentada por estrangeiros que olham para o saco de pão com evidente estranheza. Mas encolhem os ombros e seguem em frente com as suas mochilas e a sua sede de descoberta de uma cidade com muita luz e com sete colinas.
Para mim o significado mais profundo desta história é que ainda não está tudo perdido, ainda é possível estar um saco de pão pendurado numa porta de um restaurante durante uma manhã inteira até que o gerente do estabelecimento abre a porta e recolhe o saco de pão. Vivemos um tempo difícil em que tudo ou quase tudo pode ser roubado mas o pão ainda goza de um certo prestígio pois, todos o sabemos, a história do pão é a história da Humanidade. No meu tempo de criança quem deixava cair um pedaço de pão recolhia-o com um beijo. O pão era uma projecção da vida e beijar o pão era beijar a vida. Hoje ainda se mantém esse olhar de ternura e é por isso que ninguém rouba nem estraga o saco de pão colocado de manhã na porta da Adega do Teixeira.


JOVEM E PROMISSOR

Pedro Garção é um jovem cientista português cuja actividade merece a nossa atenção. Apenas com 25 anos de idade (nasceu em Portalegre no dia 24 de Abril de 1981), o seu trabalho no campo da Biologia Celular começa já a ser reconhecido internacionalmente.
Licenciado em Biologia pela Universidade de Coimbra com alta classificação, prepara a sua tese de doutoramento, cujo tema será a “desregulação da neurotransmissão na doença de Alzheimer”. O trabalho será feito no Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra (CNC), com grau conferido pela Faculdade de Medicina.
Provando o reconhecimento que o seu trabalho já merece, publicou recentemente nos Estados Unidos da América um artigo intitulado "A comparative study of microglia activation induced by amyloid-beta and prion peptides. The role in neurodegeneration", vindo a lume no Journal of Neuroscience Research (84: 182-193), assinado por si, por Catarina R. Oliveira e por Paula Agostinho, sua orientadora de doutoramento.