Retábulo (3)


a moldura


sangue – ou apenas tinta
sobre os olhos, na transparência
do vidro? há cortes
na alma de quem pinta
e de quem vê, feridas
que ninguém sutura
nas profundezas da alma.
na moldura, a falsa morte
tenta dissolver
a morte verdadeira.
morremos ambos no silêncio
da tarde. morremos
ambos.
– só assim conseguimos
esperar.


[Frida Kahlo]
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

As canadianas voadoras
de Fábio Paim

Ao fim duma maratona de 36 jogos que começou no dia 26 de Agosto de 2005, o Sporting tornou-se campeão nacional de juniores deixando o Boavista a seis pontos. Logo que terminou o jogo um espectador muito especial deste decisivo Sporting-Boavista saltou para o relvado e juntou-se ao júbilo dos companheiros. Era Fábio Paim com as suas canadianas voadoras.
Desde as Escolas, os Infantis, os Iniciados, os Juvenis e até aos Juniores, ele sabe como as defesas adversárias fazem com que as suas pernas sejam vítimas ora de tesouras e ora de tenazes. Uma vez rasgaram-lhe os calções; agora rasgaram-lhe um joelho. Daí as canadianas que voavam pelo ar ao lado das garrafas do massagista, ao lado das camisolas, ao lado dos calções. Tudo servia para festejar um campeonato nacional de juniores num ano especial em que se junta aos de iniciados e de juvenis. Impedido de jogar devido a uma lesão, Fábio Paim festejou este campeonato com as canadianas. Numa tarde de coisas insólitas, as canadianas voadoras de Fábio Paim foram o outro lado da festa. Primeiro a multidão que deixou a transbordar a estrada da Academia Sporting à nacional nº 4. Depois o ambiente electrizante que só a paciência dos guardas da GNR de Alcochete conseguiu que não transbordasse em incidente. Por fim o grupo de crianças que tomou conta do relvado nº 1 brincando com uma pequena bola enquanto os campeões na piscina em vão procuravam o treinador Luís Martins. As canadianas voadoras de Fábio Paim foram o mais insólito dos registos dessa tarde. Atiradas ao ar, elas eram um troféu. Troféu, bandeira, emblema e memória dum campeonato a atravessar dois anos civis, muitas lágrimas e muito sangue pisado.

Antologia “Fanal”


JOÃO CANDEIAS


sobre a planície

assim com o sempre virgem
primeiro olhar, me chamaste
com tua voz cálida de planura
como um pedido de auxílio
para o minuto que, seguinte,
não saberás nunca onde acaba
acatar então esse travelling sobre o trigal
porque aqui estou também descobrindo
o lento movimento do calor
do ventre da terra, o tremor
das linhas de fuga.
linhas de fuga que nos mantêm firmes
à rigidez do solo.
bebe agora o fino e raro rio que percorre
o teu sempre virgem primeiro olhar
e sacia o teu corpo e o meu
de quem reclamas o futuro.
pela madrugada uma jovem multidão
invade as casas vazias
salta sobre as metástases
dos muros velhos
conta os instantes
que não saberás nunca onde acabam
e habita a dor da pedra que cobre de angústia
a noite e o silêncio

(nº 11, 23/3/2001)


Nicolau Saião

É assim que se faz a Estória

Existe numa cidade alentejana um estoriador de gabarito: o Prof. José de Pitta Raposo.
Uma lenda maliciosa tem tentado estabelecer que este homem de estudo não existe.
Estamos em condições de infirmar essa arbitrária congeminação. Pitta Raposo é bem real. E os seus livros provam-no à saciedade.
Descendente de uma das mais excelsas famílias lusas, os Azeredos Curitiba, Pitta Raposo deu à estampa diversos tomos de alto valor cerebral.
Começando por uma pequena homenagem ao seu trisavô (Anatólio Raposo, cozinheiro inspirado e patriota) incursionou depois pelo memorialismo com Memórias de Antão Raposo, meu primo em terceiro grau, o qual lhe valeu elogios do renomado crítico espanhol Juan Capullo Follante e do também historiógrafo local A. Tadeu Rabecaz.
Além de outros mais, cheios de originalidade e robustez (a saírem) e tendo sempre como protagonistas personalidades da sua multifacetada família.
O poeta e titular Alfonso Bilharoz de Moncada, grande amigo de Raposo, dedicou-lhe este poema assumidamente laudatório - o que não lhe retira valor descritivo e lírico como se poderá comprovar pela sua leitura.


Perfil

É arteiro como um cigano
elegante e donairoso
- um magnífico fulano
o grande Pitta Raposo!

Melífluo e insinuante
dá de si boa impressão
e embora seja um tunante
é um belo cidadão!

Sabe aguentar a parada
para levar tudo a eito
- entra em qualquer titarada
desde que lhe dê proveito.

Um fidalgote fogoso
mexido até dizer basta
- o grande Pitta Raposo
o que ele gosta da pasta…

Com a mão esquerda arrebanha
com a direita arrebata.
O que faz falta é ter manha,
o que é preciso é ter lata!

É real homem de bem
nada há que lhe não valha:
pois seguro prestígio tem
entre outros da mesma igualha

Mesmo sem obra imponente
que o venha a cobrir de louros
vai deixar um nome ingente
aos lusitanos vindouros

e a Estória registará
o seu nome valoroso
mesmo sendo a escrita má.
- E viva o Pitta Raposo!

(ilustração de Nicolau Saião)

Retábulo (2)


a escuridão

há lâmpadas no corpo
quando as imagens nascem de outra terra.
a luz atravessa a carne.
nasce nas veias
para separar do mundo
o que pertence ao mundo.
há olhos vivos
(no cordeiro que adormece?),
sangue no rosto, nos dedos, nos pés.
– se a escuridão não existisse
como escutaríamos a voz
que rompe os tecidos?

[Francisco de Zurbarán]