Antologia “Fanal”


DINIS MACHADO


The high window

Há pombos esquecidos nas estátuas
desta cidade antiga, naufragada.
Mastros de sombras escrevem o teu nome
e em cada letra reconheço a madrugada.

Mulheres e homens, enlaçados de cansaço,
dormem um sono fundo, com raízes.
Das margens deste sono se levantam
as pedras das palavras que não dizes.

Foge o mar dos meus dedos entre a noite
e a noite é uma canção que te procura.
Nos meus olhos ardem estrelas encharcadas
que rodeiam de azul a tua alma.

Cada esquina é um cais à tua espera.
Faróis e candeeiros chamam por ti.
Como um sonho deslizo e permaneço
na rua da janela onde te vi.

Finalmente os pombos são largados,
partindo desta estátua que tu és.
Parto nas tuas asas. Deixo aqui
este poema que te beija os pés.


(nº 11, 23/3/2001; na imagem, uma foto de Dinis Machado, por Augusto Cabrita)
A FALTA DE VISÃO DO GOVERNO

A crónica que José Gil hoje assina na Visão tem o dom de tornar claro o olhar que muitos portugueses já lançam sobre o governo de José Sócrates - e são cada vez mais... mesmo entre aqueles que votaram no PS nas últimas legislativas. Merece ser lida com muita atenção. Aqui fica um extracto:

"Este Governo não tem uma visão para Portugal. Terá uma ideia da 'modernização', ideia tecnocrática e funcional. Uma visão implica saber articular as diversas políticas sectoriais segundo uma linha coerente e consistente com o objectivo de criar novas condições de subjectivação do homem português. [...]
[...] que ideia têm os nossos governantes dos portugueses que querem fazer nascer com a modernização do País? Nisso, parece que não se pensou; e que nada se pensa para além da 'auto-estima', esse chavão vazio, produto de uma mentalidade voluntarista e tecnocrática. Que jovens portugueses sairão das nossas escolas modeladas por professores deprimidos, abatidos, desinvestidos? Que cidadão futuro se procura suscitar com a reforma da Justiça e da Saúde, para que novas práticas de cidadania?
A falta de visão deste Governo é mais um factor decisivo que limita o alcance das reformas. A drástica política economicista impede de pensar na alma, esse arcaísmo que passará em breve para a secção dos supranumerários. Não chega dizer que há vida para além do orçamento, é preciso convencermo-nos que a vida deve ditar e atravessar o orçamento. Ou o nosso objectivo limitar-se-á a 'sair da cauda da Europa' a todo o custo, para marchar na linha da frente, mas com a alma de zombies do neocapitalismo global?"

Do outro lado deste panorama temos um partido liderado por Marques Mendes, que não regateia elogios ao soba madeirense nem se coibe de apresentar a "democracia" e o "desenvolvimento" da Madeira como um exemplo para o país. Por estas e por outras me vou tornando, cada vez mais, um sem-abrigo político.

DESPORTO E LITERATURA
em Castelo de Vide

No próximo dia 1 de Julho, sábado, pelas 18h30, decorrerá na Biblioteca Laranjo Coelho, em Castelo de Vide, uma sessão subordinada ao tema "Desporto e Literatura", que contará com a presença do poeta José do Carmo Francisco, organizador da antologia O Desporto na Poesia Portuguesa, e de Ruy Ventura.
No decorrer da mesma será apresentado o livro José do Carmo Francisco, uma aproximação, recentemente editado pela Mastigadores do Mundo, o qual parte da dissertação de mestrado em Literatura Portuguesa Contemporânea de Ruy Ventura, defendida em Outubro de 2001 na Universidade Nova de Lisboa.
Será uma honra contar com a vossa presença!

Retábulo (3)


a moldura


sangue – ou apenas tinta
sobre os olhos, na transparência
do vidro? há cortes
na alma de quem pinta
e de quem vê, feridas
que ninguém sutura
nas profundezas da alma.
na moldura, a falsa morte
tenta dissolver
a morte verdadeira.
morremos ambos no silêncio
da tarde. morremos
ambos.
– só assim conseguimos
esperar.


[Frida Kahlo]
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

As canadianas voadoras
de Fábio Paim

Ao fim duma maratona de 36 jogos que começou no dia 26 de Agosto de 2005, o Sporting tornou-se campeão nacional de juniores deixando o Boavista a seis pontos. Logo que terminou o jogo um espectador muito especial deste decisivo Sporting-Boavista saltou para o relvado e juntou-se ao júbilo dos companheiros. Era Fábio Paim com as suas canadianas voadoras.
Desde as Escolas, os Infantis, os Iniciados, os Juvenis e até aos Juniores, ele sabe como as defesas adversárias fazem com que as suas pernas sejam vítimas ora de tesouras e ora de tenazes. Uma vez rasgaram-lhe os calções; agora rasgaram-lhe um joelho. Daí as canadianas que voavam pelo ar ao lado das garrafas do massagista, ao lado das camisolas, ao lado dos calções. Tudo servia para festejar um campeonato nacional de juniores num ano especial em que se junta aos de iniciados e de juvenis. Impedido de jogar devido a uma lesão, Fábio Paim festejou este campeonato com as canadianas. Numa tarde de coisas insólitas, as canadianas voadoras de Fábio Paim foram o outro lado da festa. Primeiro a multidão que deixou a transbordar a estrada da Academia Sporting à nacional nº 4. Depois o ambiente electrizante que só a paciência dos guardas da GNR de Alcochete conseguiu que não transbordasse em incidente. Por fim o grupo de crianças que tomou conta do relvado nº 1 brincando com uma pequena bola enquanto os campeões na piscina em vão procuravam o treinador Luís Martins. As canadianas voadoras de Fábio Paim foram o mais insólito dos registos dessa tarde. Atiradas ao ar, elas eram um troféu. Troféu, bandeira, emblema e memória dum campeonato a atravessar dois anos civis, muitas lágrimas e muito sangue pisado.