Retábulo (5 e 6)


as flores

o vidro quebra as linhas da paisagem.
quando anoitece, as flores
saem do papel de embrulho
e difundem sobre o azeite
(na cozinha)
traços e cores
que fragmentam a divisão dos olhos.
há saliências na pedra
e no coração. o quadro
desperta
a acidez das sombras.

[Nicolau Saião]



o vidro

traços. traços
e algumas palavras
envolvendo as cores
e os minutos.
o vidro estala perante a exposição.
abre uma porta
quanto a manhã hesita
nesta terra.

[Nicolau Saião]
POESIA PORTUGUESA
EM REVISTAS ESTRANGEIRAS

Discretamente, sem qualquer alarde nem apoios oficiais, com muito pouco eco na imprensa nacional, revistas culturais de vários pontos do globo vão divulgando a poesia portuguesa, por vezes de poetas que, por cá, vão sendo obscurecidos por editoras comerciais, jornais literários, suplementos culturais e quejandos...
Recentemente, são de assinalar as iniciativas das revistas 26 (San Francisco, Califórnia, EUA) e Aullido (Huelva, Andaluzia, Espanha). Na edição E (assim mesmo) da revisa norte-americana, veio recentemente a lume um bloco intitulado "Contemporary Poetry from Portugal", com poemas de Ruy Ventura, Jorge Reis-Sá, Jorge Melícias, João Luís Barreto Guimarães, valter hugo mãe e Ana Marques Gastão, traduzidos para inglês pelo poeta Brian Strang (autor de um interessante blogue) e por Elisa Brasil. O nº 15 da publicação espanhola deu a lume, por sua vez, uma "Antologia de Poesia Portuguesa Actual", com textos de Ana de Sousa, Fernando Cabrita, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Henrique Manuel Bento Fialho, Francisco José Viegas, João Bentes, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José Félix, José Mário Silva, Luís Ene, Pedro Afonso, Rui Costa, Sandra Costa, Sara Monteiro e Teresa Rita Lopes, traduzidos para castelhano por Eva Lacasta Alegre.
Desta última revista seleccionámos dois poemas que oferecemos aos leitores:


RUI COSTA

O PÃO

Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôr um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.


SANDRA COSTA

Existimos de forma concisa

num gomo de laranja, no feixe
de luz oblíquo ao parapeito da janela,
nas superfícies das paredes que sobem
até ao tecto da casa, no vidro outrora
e na gota de chuva e quando cessa a chuva
no troar das andorinhas, existimos de forma
concisa

não tendo o mundo outra forma de existir

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


O valor dum simples gesto


Quanto mais os anos passam mais me convenço que o sentido da vida se resume a dois ou três mandamentos que não estão escritos em código mas que a intuição pode ajudar a perceber e a por em prática. A minha filha mais velha tem uma amiga que foi para Veneza fazer o Erasmus de Arquitectura. Pois acontece que a Andrea (assim se chama a jovem) estava um dia à espera de apanhar o seu vaporetto no Grande Canal quando deu pelo pânico de uma senhora inglesa que tinha perdido o marido no outro vaporetto. Ela tinha sido empurrada para fora do barco por um grupo de japoneses, o marido tinha ficado do lado de dentro e ela não teve reflexos para reentrar no vaporetto porque entretanto o marinaro tinha feito subir a plataforma por ordem expressa do capitano. A senhora estava desesperada porque não falava italiano e a Andrea percebeu tudo. Prontificou-se para ir com ela, pagou-lhe o bilhete e só descansou quando a entregou ao atónito marido que não parava de falar por gestos com o porteiro do hotel. Palavra puxa palavra e lá ficou a senhora com a morada lisboeta da Andrea para um agradecimento formal porque nisto os ingleses não mudam nem hão-de mudar. Algum tempo depois verificou-se o regresso da jovem arquitecta a Lisboa e lá estava uma carta escrita à mão com o convite irrecusável para uma ida a Londres onde a senhora teria todo o prazer de a receber para lhe apresentar o filho que, por acaso, também era arquitecto e já tinha ganho uns premiozitos, coisa pouca. Lá em Londres palavra puxou palavra e dois dias depois a Andrea já trabalhava na empresa do filho da senhora que ajudou em Veneza. A minha filha mais velha também lá trabalha. Graças ao gesto bonito da Andrea.

ANA FRANCISCO


São Domingos

São vultos e sombras
que ficam depois dos incêndios
(as pedras negras
resistem na estrutura).

E a cruz é apenas mágica
enquanto reflexo.

São ossos e gestos
que ficam depois da vida
(as arestas hesitantes
não resistem às chamas).

E a cor é apenas mágica
enquanto luz.


São Domingos II

o pano de ouro que cobre o altar
o órgão em forma de quiosque
o pote indiano e as flores de plástico

sobrevivem porque a luz que os ilumina
é de vela, respira e chama

as figuras que te acolhem estão moribundas
o teu podium é vermelho de sangue

um dia ao recolher as mágoas
surgirá, num instante, um ser exilado
no seu próprio corpo

chama, chama
as figuras que te acolhem estão a dançar

o pano de ouro que cobre o corpo
o órgão em forma de ataque
a morte e as flores de plástico

Retábulo (4)


retrato


sangue nos olhos. sangue
nos olhos, nos ouvidos,
nas narinas e na boca.
– imagens de outro sangue
que as mãos afastam da cegueira.
a tinta (do coração?)
atravessa esta sala. despede-se
do mundo. permanece
neste mundo onde um olhar
salgado
antevê linhas e cores
que escavam o papel.
a ferida obscurece
o corpo luminoso.
escurece e ilumina.
ilumina esta mão
que tenta dissolver a agonia.


[Edgar Degas, “Auto-retrato”, 1910]