Apontamentos estivais


CULPADOS E INOCENTES

Quando o poder cai, de algum modo, nas mãos do fanatismo, a paz esboroa-se, o sangue e o medo alastram como uma mancha de óleo. E o medo, quando não paralisa, reage sempre pelo ataque, para que apareça transfigurado em força e resistência.
Terá existido exagero na reacção de Israel aos ataques dos terroristas do Hezbollah? Poderia (e poderá) mostrar fraqueza perante as provocações e os crimes daqueles que não desejam uma disputa religiosa ou vagamente territorial, mas, tão só, a pulverização de um país?
O maior drama é sempre o dos inocentes, que acabam por morrer dos dois lados, sem terem coisa alguma a haver directamente da guerra. O sangue deveras inocente (e não pseudo-inocente) tem sempre um alto valor, seja de um israelita ou de um libanês, de um americano ou de um iraquiano, de um palestiniano ou de um britânico. Um conflito militar ou de outra índole, mesmo quando justo, nunca dispensa – infelizmente – a injustiça da violência exercida sobre seres pacíficos individualmente considerados. Desde que o homem é homem e recorre à pequena ou grande guerra para resolver as suas querelas.
Se a morte de um inocente é sempre injusta, há contudo graus diferentes de culpabilidade no agente activo desse acontecimento funesto. Não podemos avaliar da mesma forma o assassínio deliberado de seres humanos inofensivos (como o praticado pelos mais variados grupos terroristas, sob a capa de ideologias “religiosas” ou “revolucionárias”) e a morte não-planeada de homens e mulheres que estão no sítio errado à hora errada, quantas vezes como consequência da estratégia de um dos beligerantes, que não hesita sacrificar o seu povo para atingir bons resultados propagandísticos. Até no direito aplicado aos indivíduos existe uma grande distinção entre o homicídio voluntário, o homicídio involuntário e o homicídio em legítima defesa.
JOSÉ CUTILEIRO

“[...] discussões de ‘choque de civilizações’, de ‘diálogo de religiões’, das ‘causas sociais’ que levem gente nova a tornar-se terrorista, pouco uso têm [...]. O combate não é entre fés, é entre ideologias; o terrorismo islâmico não quer salvar almas, quer conquistar poder. Osama Bin Laden não nos ameaça por ser um muçulmano sunita devoto, ameaça-nos por ser um ideólogo, um propagandista e um estratego que nos quer ditar regras de vida insuportáveis. Nos propósitos e nos métodos, ele e a sua gente têm mais parecenças com Lenine e o Comintern do que com os chefes de movimentos religiosos que grassaram, aqui e além, durante o século XX. O paralelo com o marxismo-leninismo é sugestivo: evocação fantasiosa de um passado dourado, versão errada mas empolgante do sentido da história, promessa falsa de paraíso futuro (sendo os proletários de todo o mundo, supostas vítimas do capitalismo, substituídos pela nação árabe, suposta vítima do Ocidente). Tal como Lenine, Osama convence muita gente; o engano causará muito sofrimento e levará muito tempo a desfazer. A Europa tem de aumentar o seu poder, saber bem o que quer e reforçar a sua aliança com os Estados Unidos.”

(in Expresso, 9/9/2006)

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


O motorista da carreira 56

Não há muitos fiéis na missa das oito da manhã na Catedral de São Paulo em Londres. É domingo e para muitos é madrugada. Uma senhora entrega-nos o desdobrável com as leituras do dia e convida-nos a ir para a capela mór onde estamos francamente melhor instalados. Ingleses poucos, alguns turistas, o ofertório decorre com rapidez e só a homilia se alonga um pouco. No fim da liturgia o sacristão avança com a sua vara à frente do sacerdote e estaca na zona limite da capela mór. Então o presbítero cumprimenta um a um os fiéis, desejando a todos um bom dia. Como eu precisava de ter um bom dia... A minha filha estava a dar à luz um rapaz nos Hospitais da Universidade e eu à espera de uma chamada telefónica que não chegava. Sorridente o motorista do autocarro 56 «faz tempo» junto à igreja de São Bartolomeu e pergunta-nos de onde somos. Pergunta também se gostamos de magia. Claro que sim, foi a resposta. E faz para nós uma magia com uma navalha que dum lado é preta e doutro é branca. Mal ele sabe que eu sou de uma terra de navalheiros, Santa Catarina. E enquanto os novos assassinos de Beirute matavam mulheres e crianças tal como os velhos carniceiros tinham feito em 1982 em Shatila e Sabra eu, egoísta, e sem ser capaz de me preocupar com mais nada, só pensava no bebé que estava a nascer, o meu primeiro neto. Isto mesmo depois de saber que em Beirute tem havido muitos abortos espontâneos em mulheres apavoradas com as bombas que destroem pontes e casas, estações de serviço e estradas, quintas e armazéns de víveres. E crianças para que não cheguem a homens e mulheres para que não tenham filhos. O motorista do autocarro 56 continuava a sorrir.



Aljezur, igreja de Nossa Senhora de Alva.
Fernando Echevarría


ORAÇÃO PARA ANTES DO ESTUDO


Dai-nos, Senhor, um coração humilde.
A inteligência de aceitar agora
que só a si o estudo se ilumine
e nele se esqueça o estudante. A cópia
do que estudarmos em nós viva, a fim de
que apenas o estudado seja porta.
E luz aberta por onde entrem livres
aqueles cuja alegria e obra
de compenetração que, sem limites,
se entrega. Fica com o seu dentro fora.
Ilumina, Senhor, a inteligência de ir-se
esquecendo cada qual no que se mostra.”

(in Epifanias, recentemente editado pela Afrontamento)