Seixal, Julho/06.
NUNO GUIMARÃES


PELA ESCRITA


1. Através dela somos divididos
e somos portadores da divisão.

2. Por ela aprendemos um país
apreendido.

3. Dela passamos para nós:
tornamo-nos, assim, subvertidos.

4. Por ela quebramos os limites
do conhecimento.

5. Má consciência nas palavras.
E nos actos.

6. Do acto à escrita, intensidade:
a escrita é o acto mais atento.
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

Os cães e os gatos de Tel Aviv

O insuspeito jornal diário espanhol El Mundo, pela prosa do seu jornalista António Gala revela-me num artigo intitulado Terrorismo de Estado um facto que a nossa adormecida e narcotizada imprensa não me tinha revelado. O gabinete de imprensa do governo israelita, em pleno auge da invasão do Líbano, resolveu expressar a sua preocupação pelos milhares de cães e gatos que foram abandonados pelos donos por causa desta guerra. Poderia ser humor negro mas não é. Um conjunto de publicações do Grupo Ahava chega ao despudor de apelar à colaboração e à simpatia de veterinários de todo o Mundo. Hoje tal como em 1982 quando invadiram os bairros de Shatila e de Sabra matando indiscriminadamente mulheres e crianças, crianças e mulheres, o governo israelita prossegue cegamente a sua série de crimes de guerra. Foi há 24 anos mas parece que foi ontem porque a agressão não parou. Israel é o único país do Mundo que tem aumentado regularmente a sua superfície desde que em 1948 foi criado sob os auspícios da ONU. A Jordânia, a Síria, o Líbano, o Egipto têm perdido terras e ribeiras, montanhas e planícies para o vizinho Israel. Esse mesmo Israel que insiste pelo cumprimento escrupuloso da resolução nº 1559 da ONU mas ignorou olimpicamente até agora 46 resoluções da mesma ONU. Como diz o meu amigo e jornalista Rodrigues Vaz «eles podem ganhar a guerra mas estão cada vez mais longe de ganhar a paz.» E este jornalista que nasceu em Moimenta da Beira até tem origem judaica. Mas não se deixa narcotizar seja pelo gabinete de imprensa do governo israelita seja por outro qualquer gabinete de imprensa.

HENRIQUE MONTEIRO

“[...]
O negacionismo não é novo na História, e sempre esteve ao serviço de uma ideologia. Os mesmos que negavam a barbaridade dos regimes comunistas, logo que a realidade histórica impôs a verdade, viraram as baterias contra a superpotência sobrevivente: ‘Afinal, são todos iguais’ – dizem. O comunismo desprezava os seus cidadãos, assassinava-os... mas o mesmo fazem os EUA.
Esta grande mentira torna-se central para apaziguar consciências dos que, no passado, encobriram, omitiram ou apoiaram as barbáries.
Só assim se compreende como ainda há gente disposta a crer e a jurar que o 11 de Setembro tenha sido obra dos americanos... contra eles próprios. O caso seria risível se, progressivamente, através de sítios na Internet, de textos anónimos e de alguns ligados, por exemplo, a militantes comunistas e de outras formações de esquerda, esta teoria não fosse cada vez mais propagada. E se, para cúmulo, a própria televisão do Estado – quase sem protestos – não a tivesse erigido como uma das possíveis sobre o 11 de Setembro ao passar um filme sobre pretensa conspiração.
Se a opinião pública e a comunicação social não reagem a esta inacreditável manipulação poderemos tornar-nos reféns de mais uma falsificação histórica – uma das mais conseguidas artes, aliás, do estalinismo.”


(Expresso, 16/9/2006)

NICOLAU SAIÃO

Os verbos irregulares

Science-Fiction


- Pois bem, meu senhores - disse o mais velho, que parecia ter ascendente sobre os outros - Façamos então o ponto de situação...o ponto em que estamos de momento. Pode começar você, Lestat...
- De momento, meu caro Vlad - disse repuxando a boca bem desenhada o jovem louro e atlético - temos gente nossa bem motivada em todas as cidades do globo. O discurso que lhes é comum insiste num ponto: o nosso direito a dispormos dos nossos ritmos místicos, da nossa… "ideologia" se assim me posso exprimir. É a tecla em que temos batido sem desfalecimentos. A questão de sermos uma comunidade vilipendiada, perseguida... discriminada... ofendida. Creio que me faço entender!
- Bem visto! - ronronou Vlad Tepes com um luzir nos olhos ardentes - E a nível de jornais, de gente que faz a diferença...como páram as modas? Você, Sagramor, pode elucidar-nos?
- É p'ra já, meus amigos - preambulou o negro de estatura elevada e de musculoso recorte na sua voz cantante e fascinadora - Para já, os homens de negócios que estão à frente desse sector já se juntaram em grande parte a nós. Intuiram que têm de ser compreensivos, modernos, que tem de haver tolerância com o nosso…colectivo. E na classe política e intelectual também existe um equilíbrio paralelo...Alguns dos homens de topo e mesmo outros medianos já entenderam a razão dos nossos… direitos. E são partidários do diálogo: já se começaram a desobstruir reuniões… O próprio Jorge, o próprio Soa…
- Não me venha com esses nomes! – cortou do lado a mulher de estatura coleante, sensual, de cabelos e olhos negros retintos, agitando a mão de unhas longas e pintadas de vermelho - Esses estão para onde lhes dá a brisa, Sagramor!
- Não seja exagerada, Carmilla... - disse Vlad Tepes censurando-a com algum vigor - Esse tipo de operadores sociais pode ser bem útil à nossa causa. Os fala-baratos também têm lugar na nossa demanda, não se esqueça. Tornam as massas maleáveis, compreendeu? E quanto ao seu sector? Isso é que interessa, o resto...é fantasia!
- Bom - disse Carmilla von Karnstein - O elemento feminino vai-se portando como se espera... Um pouco de moda, um pouco de tratamento televisivo, um bocado de romantismo e de doçura para adequar as meninges...Percebem?
O jovem Lestat riu com gosto, pondo à mostra os dentes brancos e fortes como os de um lobo viril.
- Certo, cara Carmilla, certo. Boa jogada! As senhoras também terão um grande papel nesta opereta... A paz, a brandura de coração...O idealismo… Também o usei com esmero lá nos lindos Estados do meu sul natal. Parece que foi há três dias…e já lá vai uma eternidade!
- Porque bem vêem, meus amigos - disse Vlad Tepes com discernimento - O importante é levar isto, por enquanto, com mansidão e equilíbrio. O que se ganha com violências bruscas junto do grosso da opinião pública? Isso devemos deixar, quando fizer falta, para as unidades de combate...Elas sabem como agir. Quanto a nós é irmos pela diplomacia. De contrário ainda nos aparece aí de novo esse metediço, esse violento do Van Helsing e as suas exagerações. Não acham?
E na sala mergulhada em amena penumbra criada por pesados reposteiros de veludo escarlate, em volta da magnífica mesa de carvalho escuro, as cabeças dos confrades acenaram afirmativamente, como se fossem uma só.

(desenho de NS)