Do alto da Fóia, olhando para a Costa Vicentina.
(Bom fim-de-semana!)
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Uma geografia de afectos


Há quem diga que em Portugal não há desporto mas sim clubismo. As pessoas vivem para o seu clube, vivem com o seu clube, vivem, muitas vezes, no seu clube desde a manhã até à tarde. É no clube que tomam o café matinal e ao longo do dia vão comentando arbitragens, treinadores, estratégias e jogadores. Esta ideia de amar o desporto como espaço de privilégio para o homem se defrontar com os seus limites, ultrapassando-se nos sucessivos recordes que vai batendo, não colhe num país onde tudo se faz debaixo do calor da paixão. Pela mesma razão nos Estados Unidos da América nunca será popular o nosso futebol porque admite a hipótese de haver um empate. Ora para eles tem que haver sempre um vencedor e um vencido. Tem que haver sempre alguém que esmaga alguém. Por isso o nosso futebol não será nunca popular por aquelas paragens.
Voltando à ideia do clubismo eu tenho a ideia de que é mesmo o clubismo que ainda aguenta este frágil edifício do desporto em Portugal. Por exemplo esta semana o Sporting Clube de Portugal foi brutalmente prejudicado pela arbitragem que não viu um golo marcado com a mão nem as grandes penalidades cometidas sobre João Moutinho e sobre Liedson. Pois a minha resposta foi simples. Não barafustei, não gritei, não acusei – nem era preciso porque as imagens das televisões são muito explícitas. Então fui à secretaria inscrever o meu neto que ainda não tem dois meses. Ele é agora o sócio nº 87.588. Mais um para sentir esta geografia de afectos que vive e que luta como um leão desde 1906. Ele passa o tempo a descansar do difícil trabalho de nascer mas já faz parte desta multidão de verde e branco. Desta geografia de afectos.
COMENTÁRIOS DE VOLTA

Durante algumas horas, devido a um ajustamento deste blogue, os comentários estiveram temporariamente indisponíveis. Resolvida a situação, estão neste momento de volta.
Apontamentos estivais


KAFKA, KAVAFIS,
KANDINSKY E UMBERTO ECO


Observação e sonho. Não conheço toda a obra de Kafka, mas pela leitura dos diários vai avultando esta relação, estabelecida na escrita de um ser que tanto usa uma atenção minuciosa para captar quanto o envolve quanto deixa verter uma torrente onírica que chega a assombrar.

*

Releitura dos poemas de Kavafis, agora em edição integral portuguesa. Têm pontos luminosos realmente admiráveis. Mas (pergunto-me) andaria nos píncaros se a sua poesia não correspondesse a um certo “ar do tempo”?

*

Tarde demais? Nada se lê tarde demais. Eu só nestes dias me adentrei em Do Espiritual na Arte, de Kandinsky – com o proveito de ver confirmadas pelo passado algumas das minhas intuições. Pouparia trabalho se o tivesse lido há mais tempo? Talvez. Mas não teria agora o gosto da concordância, mas apenas o da submissão a uma opinião/descoberta alheia.

*

Deveria ser lido por todos os escritores pagantes o capítulo 39 d’ O Pêndulo de Foucault (Umberto Eco). Abre os olhos (a quem, eventualmente, os tenha ainda fechados – o que não é o meu caso...). E de olhos abertos resistiriam melhor às artes do engano que por aí andam no mundo da edição. Por que ficou Pessoa em grande parte inédito? Porque conhecia bem o logro...

ANTÓNIO JUSTO

A sugestão oportuna de um leitor amigo do "Estrada do Alicerce" (que, tanto quanto sei, não é católico, nem "praticante" nem "não-praticante") levou-me até um texto digno e clarividente de António Justo sobre a polémica em torno da lição de Bento XVI, publicado no Jornal Digital. Sugiro que o leiam com a atenção que merece.