LI E CONCORDEI COM...


MIGUEL TORGA (2)


Coimbra, 28 de Setembro de 1990 – [...] A hora é de podridão e desvergonha. E já poucos sentem sequer o cheiro pestilento do ambiente. A sociedade normalizada e climatizada ao sabor dos cabecilhas a exemplificar fidedignamente a nossa decadência. Fabricam-se todos os figurantes da farsa no mesmo molde de subserviência, ganância e hipocrisia. A execrável tirania de há pouco tinha ao menos o mérito de ser frontal, culta e respeitar o inconsciente do povo português. Esta de agora, é sorna, analfabeta, e agride e ofende diariamente o que de mais profundo e sagrado há em nós.”

AS PALAVRAS DE BENTO (2)


Isto torna o texto de Bento especialmente profético. Ao criticar a ausência de racionalidade na relação entre os seres humanos e Deus, o bispo de Roma conseguiu – sem esperar, talvez – inquietantes manifestações de irracionalidade, bastante comuns, aliás, no nosso tempo, em que as opiniões valem mais do que os factos, em que as suposições valem mais do que provas inequívocas, em que a manipulação e a ficção valem mais do que a verdade e a realidade. Nestes tempos de regressão civilizacional, isto deveria preocupar todos os homens de boa vontade. Mas não; preferimos continuar como avestruzes, enterrando a cabeça na areia.

*

Dos que atacaram Bento pelas suas palavras, tomaram especial visibilidade quantos prontamente referiram os momentos negros na História da Igreja Católica. Esqueceram (terão esquecido?) que os terroristas islâmicos, perante o texto do papa, não ameaçaram somente os católicos, mas todos os “adoradores da Cruz”, com obediência ou não a Roma. Esqueceram ainda que a hierarquia católica foi, até ao momento, a única que levou o entendimento da sua História ao ponto máximo, promovendo, depois de um exame de consciência, uma confissão pública e expressando um propósito de emenda, fundado em confiança na ajuda de Deus. A Igreja Católica é pecadora? Decerto. É constituída por seres humanos imperfeitos. Teve no seu seio homens pouco racionais. Em várias ocasiões foi “tomada de assalto” por personagens duvidosas ou por classes (a nobreza europeia, por exemplo, durante largos séculos) que, não acreditando decerto na existência de Deus, viram na sua estrutura um bom instrumento para a concretização da sua ânsia de poder ou do seu desejo de rapina.

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Os julgadores de Bento e da Igreja merecem, por isto, uma avaliação pelos mesmos parâmetros. Vendo pecado nos outros, estarão eles isentos de manchas? Estarão dispostos a apresentarem-nas e a manifestarem sinceramente um propósito de emenda, seguindo o exemplo de João Paulo II e de Bento XVI? Terão a mesma coragem na denúncia das monstruosidades concretizadas pelas doutrinas (religiosas, políticas e/ou sociais) em que acreditam ou acreditaram? A superioridade dos cristãos sinceros não está na sua pureza, que não existe. Está, antes, na demanda da perfeição, que implica uma consciência diária dos defeitos e um propósito firme de aperfeiçoamento. Quem assim não age, por mais que se afirme cristão, nunca o será verdadeiramente – tenha o lugar que tiver na estrutura da Igreja (que, como muitos desejam esquecer, não se limita ao cume da pirâmide).

(continua)
NICOLAU SAIÃO


Por quem os sinos dobram


Os próceres locais garantem que estão perplexos e preocupados. Afivelam expressões de bons samaritanos ante mais um encerramento anunciado, que vai lançar no desemprego mais umas centenas de portalegrenses que, durante alguns anos, tomaram como excelentes as promessas trintanárias de autarcas, deputados e outros senhores que têm como missão fazer com que o desespero e a desertificação alentejana desta região não vá demasiado longe…

O inefável Ceia da Silva, deputado e dono do à-vontade que se lhe conhece; o cada vez mais surpreendente Miranda Calha que nem valerá a pena apresentar por ser suficientemente conhecido; o presidente da Câmara em exercício – sofrem a bom sofrer, pois ninguém desconhece o amor que têm a Portalegre, o carinho que sempre puseram nas suas relações com a gente da cidade e, como corolário, o respeito que têm pelo seu próprio trabalho que, como se sabe a nível nacional e até internacional, muito tem concorrido para a felicidade das pessoas desta parte da Ibéria.

Mas, coitados deles, pese às suas pendulares declarações, quando calha ou é oportuno, de que “o Alentejo tem futuro”, as contas mais uma vez estão a sair-lhes furadas: agora é a empresa Johnson Controls, que muitos tiveram (ingenuamente? esperançosamente?) como a salvadora das cada vez mais depauperadas algibeiras lagóias que, em acúmulo com outras firmas au voil d’oiseau, vai esvoaçar para Espanha.

Portalegre, mais uma vez – seguindo o habitual perceptível numa terra onde, pelo que certos observadores afirmam, cada vez mais se marginalizam os que não alinham em jogadas – aparece na televisão e nos noticiários pelos piores motivos: o do desemprego, o da deflacção civil.

Não perguntemos, como nos referia Hemingway numa frase célebre, por quem dobram os sinos. Não é preciso. Pois qualquer observador atento e sério e que não embarque em propagandas absolutamente fantasistas, como ali frutificam com terrível frequência – percebe e já entendeu que dadas as circunstancias locais e regionais existentes eles dobram, lamentavelmente e com um tom lutuoso, verdadeiramente por todos nós.

AS PALAVRAS DE BENTO


Não me surpreendeu a reacção, islâmica e ocidental, à lição de Bento XVI proferida na Alemanha. Habituados, de um lado e de outro, a uma diplomacia de falinhas mansas e de panos quentes, pós-moderna, tinham que reprovar as palavras de um teólogo que, muito mais para dentro do que para fora, não hesitou quando teve de denunciar a ausência de Deus na nossa sociedade e entre aqueles que invocam o Seu nome para praticarem actos de violência premeditada. Porque o conhecimento de Deus parte da razão e, sem ela, todo o entendimento que possamos ter do Seu caminho é errado ou pouco claro.


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Quem se dá ao cuidado de ler integralmente as palavras do papa Ratzinger percebe que este se dirige para dentro das paredes do Ocidente e da Igreja, e só marginalmente para fora. Embora utilize o raciocínio de um autor ortodoxo, estabelecido a partir de uma leitura do Alcorão e do devir histórico do islamismo, a Bento XVI interessa o restauro da racionalidade entre os membros da confissão a que preside, tão ameaçada anda pelo relativismo de raiz nihilista e/ou positivista, que reivindica um falso multiculturalismo e uma pseudo-tolerância, que nada hierarquiza, nem mesmo os mais elementares alicerces da existência digna do Homem.


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Infelizmente muitos e muitos não as leram – e foram os primeiros a criticá-lo, a atacá-lo, a injuriá-lo, a difamá-lo, a queimarem-no em efígie por esse mundo fora. Motivos? Cada um conhecerá os seus. Talvez ignorância, talvez preguiça, talvez preconceito, talvez maldade.
(continua)

LI E CONCORDEI COM...


MIGUEL TORGA (1)


Foia, Monchique, 4 de Agosto de 1977 – [...] Não temos civismo, não temos riquezas, falta-nos juízo. Mas deu-nos Deus um caleidoscópio corográfico único no mundo para suprir o resto. O resto que é só amargura.”