Entre os deveres do cristão, está o do testemunho. Para que o concretize, tem de vencer a cobardia e o medo, isto é, não pode ser politicamente correcto nem diplomaticamente hipócrita. “Se o teu irmão te ofender, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe”, afirma Jesus no Evangelho segundo S. Lucas (Lc 17, 3). Contra a opinião de muitos (inclusivé católicos com responsabilidades eclesiais), Bento XVI cumpriu esse dever, dando um exemplo de coragem a todo o mundo, cristão ou não-cristão. Conhecendo o irracionalismo no entendimento de Deus que dominou muitas épocas, recentes ou recuadas, da História do Catolicismo, do Islamismo, do Judaísmo ou de outras confissões, poderia ter lavado as mãos como Pilatos, poderia ter sido um Bartleby adaptado à religião (“preferiria não denunciar...”) ou uma Suíça feita homem, sempre neutral e sempre disposta a legitimar todas as monstruosidades políticas e financeiras do mundo. Preferiu no entanto seguir o exemplo de Jesus (que não teve medo de denunciar a hipocrisia dos fariseus do seu tempo), como o fizeram, noutros momentos da História, Francisco de Assis, Bartolomé de las Casas, António Vieira, António Ferreira Gomes, o seu antecessor João Paulo II (que apresentou ao mundo, na altura certa, os crimes da dominação comunista) e muitos outros. Joseph Ratzinger terá defeitos, como todos nós, mas não me parece que seja cobarde (e sê-lo-ia se calasse a sua visão do mundo cristão, islâmico, judaico, ateu, etc.). (Cobardia ou calculismo mostraram muitos que o criticaram ou nada disseram para o defender, nomeadamente os líderes europeus, como apontou e bem José Manuel Durão Barroso.) E não digam que o papa apenas critica o exterior da sua Igreja. Ainda na Páscoa de 2005 o ouvimos afirmar: “Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar [...]. [...] O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre [...]. Tende piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua a cair. Com a nossa queda, deitamo-Vos ao chão, e Satanás a rir-se porque espera que não mais conseguireis levantar-Vos daquela queda; espera que Vós, tendo sido arrastado na queda da vossa Igreja, ficareis por terra derrotado.” Quem assim fala tem decerto o direito de proceder a uma firme correcção fraterna, decerto consciente de que a mensagem do Cristianismo, quando correctamente entendida, pode provocar a divisão entre os que a aceitam e quantos a rejeitam.
*
Bento XVI afirmou, já depois da sua conferência na Alemanha, inequívoco respeito pelos fiéis sinceros de todas as confissões religiosas, nomeadamente do Islão. Ora, respeitar algo ou alguém não implica uma miopia histórica nem obriga à aceitação de tudo quanto o outro pratica, por mais abominável que seja. Como refere G. K. Chesterton no seu livro Ortodoxia, entendendo bem a mensagem transmitida pelos Evangelhos, se um cristão deve perdoar infinitamente aos criminosos, tem por outro lado a obrigação de denunciar e de combater sem descanso, sem hesitações e sem hipocrisias calculistas os crimes que este cometa. Por mais voltas que queiramos dar à polémica, não conseguimos apagar da memória do mundo que a violência in nomine Dei tem andado sempre de braço dado com a civilização muçulmana. Constatar isto não significa que não reconheçamos os eventuais aspectos positivos de muitos movimentos da religião maometana. Mas não podemos esquecer que, como lembra qualquer volume sobre a História do Islão, desde o início a expansão dos seus princípios se deu à custa de muitas vidas e de vitórias militares e que essa dimensão guerreira está expressa, legitima ou ilegitimamente, nas linhas do Alcorão. Que isto corresponde a uma errada interpretação da vontade divina, parece-me inequívoco, como aliás parece inequívoco a muitos muçulmanos, como por exemplo ao imã da mesquita de Lisboa, que ainda no 5º aniversário do 11 de Setembro afirmou, sem hesitações, que quem mata em nome de Alá não acredita certamente nele. Bento XVI afirmou algo de diferente? Julgo que não.
(continua)

