Carreiras (Portalegre), Agosto/06

AS PALAVRAS DE BENTO (4)


Se as palavras de Bento XVI coincidem com as palavras de muitos cidadãos de boa vontade, inclusivé muçulmanos, como podemos então compreender tanta polémica? Se lermos cuidadosamente a afirmação do imperador bizantino Manuel II, perceberemos o que está por detrás de tudo. Quando o Paleólogo se dirige ao seu interlocutor persa convidando-o a mostrar “o que Maomé trouxe de novo” e acrescentando que “só encontrar[á] coisas más e desumanas, como o seu mandamento de difundir pela espada a fé que pregava”, não se refere propriamente à fé islâmica, mas implicitamente à manipulação política do nome de Deus (que o utiliza como estandarte guerreiro), consciente de que “Deus não ama o sangue”, mas a misericórdia e a mansidão. Racionalmente, Manuel não refere “Alá” ou “Islão”, mas Maomé que, de facto, usou a guerra para alargar os territórios que dominava, abrindo caminho para a inclusão no livro sagrado dos muçulmanos de uma norma apelando à “guerra santa” como instrumento não de conversão religiosa, mas de domínio político e geo-estratégico. Só assim se explica a relativa tolerância inicial dos conquistadores em relação aos conquistados. Não lhes interessava tanto a difusão da mensagem de Alá, mas sobretudo o domínio do território pelas armas, embora o pretexto apresentado fosse o da “guerra santa”. Ameaçado pelos otomanos, o imperador de Constantinopla sabia onde residia a raiz do problema que, pouco tempo depois, aniquilaria o seu império. Não estava na religião, mas no entendimento irracional e/ou na manipulação política da mensagem de Alá, iniciados por Maomé, segundo contam as crónicas muçulmanas e os livros de História. Se a violência exercida em nome de Deus é ilegítima, como referiu e bem David Munir, então somos obrigados a reconhecer que o profeta do Islão terá sido, ele próprio, infiel à palavra que proclamava. Bento XVI não vai tão longe, mas afirma algo que deveria ser consensual: para que exista um diálogo inter-religioso frutuoso, é preciso que todas as confissões abdiquem do princípio da “guerra santa”.

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Já em 1991 o então cardeal Joseph Ratzinger, numa obra intitulada A Igreja e a Nova Europa, diagnosticara – num pensamento lúcido, contra a corrente – as causas da “compreensão” do “ideal” terrorista, nascida em certos sectores políticos ocidentais de uma “simpatia filosófica” pelo carácter “revolucionário” dos praticantes de uma violência indiscriminada e deliberada. Nas mesmas páginas aponta que o trabalho legítimo de edificação de um mundo pacífico não pode levar a novas formas de violência que construam não a paz desejada, mas novas formas de guerra ainda mais violentas, física e psicologicamente. É que certos aspectos do “pacifismo” são muito perigosos, por serem condescendentes e quase sempre tolerantes em relação a muitas formas de totalitarismo, constituindo quantas vezes uma frieza em relação ao sofrimento de tantos seres humanos.

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Que tem tudo isto a ver com o tempo em que vivemos? Muito, infelizmente. Vivemos, como é sabido, sob a ameaça de um terrorismo expansionista que, invocando o nome de Deus em vão, tem em vista dois objectivos, expressos em vários documentos fidedignos: 1) recolocar sob domínio islâmico todos os territórios que alguma vez na História foram conquistados por muçulmanos (isto inclui a Península Ibérica, a Grécia e todos os Balcãs); 2) destruir, pela violência indiscriminada e pelo medo, o modo de viver ocidental, sobretudo a democracia e os direitos do Homem.

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Só venceremos a monstruosidade do terrorismo e impediremos a concretização dos seus objectivos se rejeitarmos a cobardia se os denunciarmos sem receios nem calculismos, utilizando os instrumentos da racionalidade, sendo capazes de estabelecer uma hierarquia de valores e uma proposta ética que rejeite o relativismo pós-moderno que tudo aceita. Como refere Joseph Ratzinger no seu ensaio: “Os aspectos positivos da modernidade devem ser reconhecidos sem reservas: estamos todos muito gratos pelas possibilidades grandiosas que esta abriu ao homem e pelo progresso em humanidade que nos permitiu. [...]. [...] apesar de toda a alegria experimentada face às possibilidades abertas à humanidade, vemos também as ameaças que emergem dessas possibilidades e devemos perguntar-nos como podemos ultrapassá-las. Só o conseguiremos se a razão e a fé se unirem de uma nova maneira [....]. Só assim passaremos a ser capazes de um verdadeiro diálogo entre as culturas e as religiões – um diálogo de que temos necessidade urgente. No mundo ocidental, predomina largamente a opinião de que só a razão positivista e as formas de filosofia que dela derivam são universais. Mas as culturas profundamente religiosas do mundo vêem nessa exclusão do divino da universalidade da razão um ataque às suas mais profundas convicções. / Uma razão que é surda ao divino e que relega a religião para o nível das subculturas é incapaz de participar no diálogo das culturas. [...] / O Ocidente é desde há muito ameaçado pela sua aversão às questões que sustentam a sua racionalidade e, por isso, só pode sofrer grandes danos. [...] ‘Não agir segundo a razão, não agir com o ‘logos’, é contrário à natureza de Deus’, declarou Manuel II ao seu interlocutor persa, a partir do seu entendimento cristão de Deus. É para esse grande ‘logos’, para essa imensidade da razão, que convidamos os nossos interlocutores no diálogo das culturas. [...]” Esta posição viu-se confirmada e esclarecida nas palavras que, no passado dia 25 de Setembro, dirigiu aos embaixadores dos países islâmicos, tanto na passagem em que cita Karol Wojtila – “[…] o respeito e o diálogo requerem a reciprocidade em todos os domínios, sobretudo naquilo que respeita às liberdades fundamentias e mais particularmente a liberdade religiosa” – quanto no momento em que afirmou ser “imperativo que cristãos e muçulmanos se comprometam em conjunto para enfrentar os numerosos desafios que se apresentam à humanidade, nomeadamente naquilo que respeita à defesa e promoção da dignidade do ser humano e dos direitos que daí derivam. Quando crescem ameaças contra o homem e contra a paz, ao reconhecerem o carácter central da pessoa e trabalhando com perseverança para que a vida seja sempre respeitada, cristãos e muçulmanos manifestam a sua obediência ao Criador”.

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Tudo isto me recorda alguns escritores europeus que, contra a corrente dominante, têm diagnosticado na sua obra o caminho da sociedade ocidental em direcção às margens do abismo. Conto, entre eles, a jornalista Oriana Fallaci e filósofos cimeiros, como Fernando Gil e Fernando Savater. Este último, no seu livro Os Mandamentos no Século XXI, apresenta ideias que, embora com nuances distintas, me parecem complementares das defendidas pelo papa Bento XVI. Com elas termino este conjunto de apontamentos: “Quando vivemos numa sociedade multicultural, temos de assumir que existe o direito a ter-se religião, a terem-se crenças, e isso comporta o facto de se terem que suportar também alfinetadas por parte da realidade. [...] / Mas isto é, por outro lado, acompanhado de uma leviandade que é perceptível por toda a parte e que se exprime através da máxima que diz: ‘todas as opiniões são respeitáveis’. O que é um disparate. Nem todas as opiniões são respeitáveis. Se assim tivesse sido, a humanidade não teria podido dar um único passo em frente. Não se podem respeitar as ideias totalitárias, xenófobas, racistas, exclusivas, que violem os direitos humanos elementares. [...] / Que respeito merecem as ideias por detrás das quais se acoitam os terroristas de diferentes sinais? [...] / [...] Não podemos respeitar os desrespeitadores.”

Escultura em Sesimbra. Julho/06
AS PALAVRAS DE BENTO (3)


Entre os deveres do cristão, está o do testemunho. Para que o concretize, tem de vencer a cobardia e o medo, isto é, não pode ser politicamente correcto nem diplomaticamente hipócrita. “Se o teu irmão te ofender, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe”, afirma Jesus no Evangelho segundo S. Lucas (Lc 17, 3). Contra a opinião de muitos (inclusivé católicos com responsabilidades eclesiais), Bento XVI cumpriu esse dever, dando um exemplo de coragem a todo o mundo, cristão ou não-cristão. Conhecendo o irracionalismo no entendimento de Deus que dominou muitas épocas, recentes ou recuadas, da História do Catolicismo, do Islamismo, do Judaísmo ou de outras confissões, poderia ter lavado as mãos como Pilatos, poderia ter sido um Bartleby adaptado à religião (“preferiria não denunciar...”) ou uma Suíça feita homem, sempre neutral e sempre disposta a legitimar todas as monstruosidades políticas e financeiras do mundo. Preferiu no entanto seguir o exemplo de Jesus (que não teve medo de denunciar a hipocrisia dos fariseus do seu tempo), como o fizeram, noutros momentos da História, Francisco de Assis, Bartolomé de las Casas, António Vieira, António Ferreira Gomes, o seu antecessor João Paulo II (que apresentou ao mundo, na altura certa, os crimes da dominação comunista) e muitos outros. Joseph Ratzinger terá defeitos, como todos nós, mas não me parece que seja cobarde (e sê-lo-ia se calasse a sua visão do mundo cristão, islâmico, judaico, ateu, etc.). (Cobardia ou calculismo mostraram muitos que o criticaram ou nada disseram para o defender, nomeadamente os líderes europeus, como apontou e bem José Manuel Durão Barroso.) E não digam que o papa apenas critica o exterior da sua Igreja. Ainda na Páscoa de 2005 o ouvimos afirmar: “Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar [...]. [...] O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre [...]. Tende piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua a cair. Com a nossa queda, deitamo-Vos ao chão, e Satanás a rir-se porque espera que não mais conseguireis levantar-Vos daquela queda; espera que Vós, tendo sido arrastado na queda da vossa Igreja, ficareis por terra derrotado.” Quem assim fala tem decerto o direito de proceder a uma firme correcção fraterna, decerto consciente de que a mensagem do Cristianismo, quando correctamente entendida, pode provocar a divisão entre os que a aceitam e quantos a rejeitam.

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Bento XVI afirmou, já depois da sua conferência na Alemanha, inequívoco respeito pelos fiéis sinceros de todas as confissões religiosas, nomeadamente do Islão. Ora, respeitar algo ou alguém não implica uma miopia histórica nem obriga à aceitação de tudo quanto o outro pratica, por mais abominável que seja. Como refere G. K. Chesterton no seu livro Ortodoxia, entendendo bem a mensagem transmitida pelos Evangelhos, se um cristão deve perdoar infinitamente aos criminosos, tem por outro lado a obrigação de denunciar e de combater sem descanso, sem hesitações e sem hipocrisias calculistas os crimes que este cometa. Por mais voltas que queiramos dar à polémica, não conseguimos apagar da memória do mundo que a violência in nomine Dei tem andado sempre de braço dado com a civilização muçulmana. Constatar isto não significa que não reconheçamos os eventuais aspectos positivos de muitos movimentos da religião maometana. Mas não podemos esquecer que, como lembra qualquer volume sobre a História do Islão, desde o início a expansão dos seus princípios se deu à custa de muitas vidas e de vitórias militares e que essa dimensão guerreira está expressa, legitima ou ilegitimamente, nas linhas do Alcorão. Que isto corresponde a uma errada interpretação da vontade divina, parece-me inequívoco, como aliás parece inequívoco a muitos muçulmanos, como por exemplo ao imã da mesquita de Lisboa, que ainda no 5º aniversário do 11 de Setembro afirmou, sem hesitações, que quem mata em nome de Alá não acredita certamente nele. Bento XVI afirmou algo de diferente? Julgo que não.

(continua)

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Entre a ausência e a memória


Estamos num quente fim de tarde no Café Peter de Lisboa entre uma sandes de atum e o inevitável gin tonic. Entre o pão que sabe a terra e o atum que sabe a mar. O gin tonic, esse, é um convite a todas as viagens. Mesmo aquelas que se fazem sem sair da nossa mesa. Uma velha fragata recuperada aguarda os passageiros para uma volta pelo Mar da Palha. Parece que o nome deste estuário lhe vem das grandes inundações no Ribatejo no passado quando a corrente violenta trazia numerosos fardos de palha da Lezíria até Lisboa. Oiço, julgo que oiço, palavras, restos de palavras, sílabas, ditongos perdidos, pequenos sons da voz de Maria José. Misturam-se os dois tempos da ausência e da memória. E a mesa que parecia vazia surge povoada pelo tempo em que não havia distância nem silêncio. Todas as manhãs nesse tempo eram iluminadas pelos passos decididos de Maria José. Hoje, neste fim de tarde onde uma brisa teimosa procura empurrar o calor para o estuário do Tejo, despeço-me do Café Peter e passo de novo junto à fragata de cores garridas. De súbito vejo, julgo ver, o seu nome que mudou – em vez de Castro Júnior é agora Maria José. A voz de Maria José é um vento novo que empurra a velha fragata recuperada para uma travessia até ao outro lado do Mar da Palha. Eu sou apenas um pequeno ponto na grande multidão do Parque das Nações. Passam centenas de atletas urbanos a correr, outros pedalam vigorosamente em bicicletas caríssimas porque são leves como penas. Grupos de turistas multiplicam os flashes das fotografias de recordação. Entre a ausência e a memória de Maria José eu já não sou uma pessoa mas apenas um frágil e pequeno organismo sentimental.