NICOLAU SAIÃO


Em louvor dos Palhaços


Não por simbolismo mais ou menos evidente, não por se estar em tempo de clowns, de malabaristas, de hipnotizadores e de ilusionistas – mas sim por no Outono a memória parecer mais nostálgica, intercedendo pelos tempos de grandes alegrias, de viagens interiores, de meandros que se acariciam com a palavra, com a recordação. Um mundo juvenil de circo, fremente e encantado.
Charlie Rivel, que vi ao vivo em Madrid numa tarde de surpresas, no decorrer duma matinée inesquecível, com o seu lentíssimo andar, com as suas pequenas frases entrecortadas, com o seu huuuuuu! de rosto rodando para o céu, esse som surpreendente pontuando as estórinhas comoventes, terríveis e poéticas daquele que foi considerado o melhor palhaço do mundo.
E os Irmãos Campos, portugueses retintos num elenco circense todo composto por húngaros de Linda-a-Pastora, por franceses do Cadaval, por italianos da Madragoa? E Oscarito, o palhaço bailarino com as pernas de arame que todo se desconjuntava quando Simeão, o palhaço-rico, o submetia a rudes diálogos de que aliás saía mal-ferido? E que com o seu serrote-violino, com a sua trompete destravada, com o seu saxofone bicéfalo nos levava por todos os lugares onde o sonho podia acontecer?
E – posto que agora por fora – as distintas partenaires que eram jovens em início de carreira ou madames a finalizá-la, mas inteiramente frequentáveis para olhos adolescentes (um toquezinho de inusitado que ainda lhes conferia mais sedução…)?
Deixem que me lembre desses anos de vinho e rosas… Em Portalegre por todo o Rossio, em frente do antigo campo da bola, por detrás da belíssima cascata do jardim barroco infelizmente passado à estória da História, quando ainda lá havia uma esplanada de Café sob um cedro do Líbano, onde pelas tardes a rapaziada hoje madura ia deslumbrar-se nos serões de província…
Deixem que me recorde - como se, com vossa licença, tasquinhasse expeditamente um pacote de amendoins, antes de entrarem os domadores, os imitadores, os trapezistas e outros acrobatas.
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


As flores estão sempre frescas


As recentes antevisões e notícias da aproximação de furacões e de tempestades tropicais perto das diversas ilhas dos Açores trouxeram-me a memória de uma outra tempestade mas esta no Rio Tamisa. Foi no dia 20 de Agosto de 1989 que o navio Marchioness naufragou no rio que atravessa Londres muito perto da catedral de Southark. Nesse terrível desastre perderam a vida dois portugueses – António Vasconcelos e Domingos Vasconcelos. O primeiro tinha 26 e o segundo 28 anos de idade. Claro que nada acontece por acaso e eu descobri esta tragédia que me comoveu pela simples razão de que a minha filha mais velha viveu alguns anos no bairro de Southark. Nada me liga a essas pessoas que perderam a vida no seu ponto talvez mais esperançoso e bonito – o caminho da maturidade. Em termos mais ou menos simples são estes os quatro primeiros estádios da nossa vida. Os sete anos marcam a saída da primeira infância, os catorze a entrada na adolescência, os vinte e um a entrada na idade adulta e os vinte e oito a chegada à maturidade. Nada me liga de modo directo mas tudo afinal me sugere uma aproximação. Porque todos falamos português, porque somos todos membros da família da humanidade. Quem sabe se eles não eram açorianos; há muitos Vasconcelos nos Açores.
Resolvi fazer as férias de 2006 na cidade de Londres. Foram vinte e quatro longos dias que me custaram os olhos da cara. Em Londres é tudo caro a começar pelos cafés. O ano de 1989 não foi assim há tanto tempo. Às vezes parece que foi ontem. No passado mês de Agosto lá estive na Catedral de Southark para lhes prestar a minha discreta homenagem. E uma vez mais reparei que as flores estão sempre frescas.

NO CENTENÁRIO DE AGOSTINHO

No passado fim-de-semana realizou-se com sucesso e assinalável assistência o colóquio "Agostinho da Silva e o Espírito Universal". O evento, integrado nas comemorações do centenário do nascimento do filósofo e poeta de Barca de Alva, teve lugar na Biblioteca Municipal de Sesimbra e contou com comunicações de Paulo Borges, Luís Paixão, Joaquim Domingues, Manuel Patrício, Nicolau Saião, António Cândido Franco, Pedro Sinde, Jorge Preto, António Telmo e do coordenador deste blogue.
Em homenagem, simples, ao autor de Herta, Teresinha e Joan deixo aos leitores algumas das suas quadras, verdadeiros aforismos de intensa sabedoria.


Se estas quadrinhas não prestam
com certeza as compus eu
mas se boas foi poeta
além de mim que mas deu.

Acordo e sai um poema
alguém mo sonhou de noite
só preciso não ser nada
para que a musa se afoite.

Em mim tenho o mundo inteiro
e mais que tudo as estrelas
é procurá-las no céu
o que me impede de vê-las.

É só bem dentro de nós
que o projecto se anuncia
se retoma se reforma
e se solta à luz do dia.

Se não sabes o caminho
e a sorte nenhum prefere
toma então pelo mais duro
é esse o que Deus te quere.

Acho que Deus não escreve
e também que Deus não fala
e que nos sustenta vivos
a vida que nele cala.

Dizendo que é só amor
fazes Deus menor que Deus
cercas o ilimitado
dos limites que são teus.

Ó bela cavalaria
cavalo bem arreado
para o Ser galope largo
para o Ter freio apertado.

Se lançaste a tua rota
à constelação do ser
cuidado com o teu corpo
porta aberta para o ter.

Quanto morre o que viveu
nada se desequilibra
força emana cá e lá
Deus a si próprio transmigra.
LI E CONCORDEI COM...

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO


“[...] Substituímos a beleza pela velocidade e em vez de deixarmos ao futuro uma Acrópole de mármore ou uma Catedral em pedra deixamos um shopping de betão e asfalto. Passámos a viver num mundo cada vez mais veloz mas também cada vez mais horroroso. Horroroso e doente, que o horror é o rosto da doença e da morte. Por isso, um dia, vamos apenas ficar na mão com a caveira chupada da Terra. Quem não vê no desaparecimento das espécies e no esgotamento das matérias-primas as escoriações cadavéricas do rosto da Terra? Estamos neste momento a devorar a polpa da Terra, que a acção de comer na era da velocidade espacial é devorar. E vamos assim deixar aos nossos netos o caroço, que eles vão roer desesperados, lastimando o egoísmo brutal dos nossos políticos e economistas de hoje. Que é o betão senão o caroço sem semente da Terra, o osso esburgado e seco que vai partir os dentes dos nossos descendentes? [...]”

(in Viagem a Pascoaes, Ésquilo, 2006)