JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


O pão de São Roque


O meu fim-de-semana foi muito especial.
Na sexta-feira à noite ouvi desabafos de uma empregada de consultório a propósito da maldade das pessoas. Desde as velhas que, tendo consulta às 7 da tarde aparecem às 4 e meia, até ao caso mais grave de um grupo que se insurgiu contra o facto de a médica de cardiologia ter parado tudo quando soube que uma senhora na consulta de oftalmologia estava a começar a fazer um enfarte. As outras começaram a protestar porque não havia direito de uma pessoa passar à frente da sua vez.
No sábado à noite fui ao jantar de aniversário de um grande amigo da vida militar. Pois eu, entre a estação de comboios de Santa Apolónia e o rio Tejo, tive dificuldades em acertar com o restaurante que tem a fama e o proveito de ser um dos melhores do País e da Europa. Dois maloios, dois vacões, dois bardinos que estavam a receber víveres num restaurante mesmo ao lado disseram-me que não sabiam onde era esse tal restaurante famoso em todo o País e em toda a Europa. Fiquei revoltado sobretudo porque além de demonstrarem falta de categoria como empregados de um pequeno e vulgar restaurante não perceberam que eu, quando ando à procura de um restaurante excepcional, não vou desistir de o encontrar só porque dois bardinos, dois vacões e dois maloios fingem que não sabem.
No domingo recebi o pão de São Roque na missa da manhã na Igreja de São Roque. Percebi melhor a dimensão do santo que era sobrinho do presidente da Câmara de Montpellier e partiu da sua cidade para ajudar os pobres dando-lhes pão. Os pobres de espírito do consultório e do pequeno restaurante entre Santa Apolónia e o Tejo, esses já não há São Roque que lhes possa valer.
LI E CONCORDEI COM…


JEAN-LUC NANCY

“A maldade não odeia tanto esta ou aquela singularidade: odeia a singularidade como tal e a relação singular das singularidades. Odeia a liberdade, a igualdade e a fraternidade, odeia a partilha, odeia partilhar.
E este ódio é o da própria liberdade (é também, pois, o ódio das próprias igualdade e fraternidade; odeia-se a partilha e fica-se próximo da ruína). Não é um ódio de
si mesmo, como se a liberdade já estivesse aí e pudesse chegar a detestar-se, no entanto, é o ódio do ‘si mesmo’ singular, o que é a existência da liberdade e a liberdade da existência. O mal é o ódio da existência como tal. […] Mas neste sentido, o mal está no existente como a sua possibilidade mais própria de recusa da existência.

(in A Experiência da Liberdade, 1996, cit. por Fernando Savater no seu livro A Coragem de Escolher, 2003)
VALE DOS HOMENS


António Pedro,
meu avô


desapareceu a partir dessa janela.
a pele liquefez-se. a voz procurou
água que conseguisse desenhar
as ervas, o arco que divide o mundo.

o olhar perde-se por entre as árvores.
vaza a vista, a cor da madeira, o cabelo
que semeaste na escada.

distante a horta, o poço, o canto do lume.
o vento grava neste porto
a navalha que nos corta as veias.
subia procurando um rosto,
um dedo apenas, os frutos desta
e de outra terra.

desapareceram a partir desta janela
a pele, a voz, o olhar, a cor, a manhã.

o elevador pára. perde-se
neste porto

a alegria da viagem

(sem retorno).
AVALIAÇÃO E IMOBILISMO

Não me oponho a um maior rigor na avaliação dos professores de todos os níveis de ensino, desde que este corresponda a um olhar justo sobre os docentes. Exames nacionais no ingresso e um maior peso do currículo e do mérito na progressão são mesmo necessários.
Não posso aceitar, no entanto, um sistema que penalize os profissionais do ensino por usufruirem de um direito legal (a falta justificada), sobretudo quando os gerentes do Ministério da Educação não parecem estar interessados na criação de mecanismos legislativos que permitam a troca de aulas e a reposição das mesmas em qualquer momento do ano lectivo.
Aceito ainda menos que, nos Ensinos Básico e Secundário, se institua uma promoção idêntica à do Ensino Superior, que tantos malefícios tem causado na qualidade do mesmo, como recentemente provou um estudo internacional independente. O sistema piramidal - escolhido pela tutela de Maria de Lurdes Rodrigues porque levará a grandes poupanças financeiras - causará nas escolas apenas um grande imobilismo e, consequentemente, uma crescente falta de empenho entre os docentes, impedidos de progredirem porque os lugares cimeiros estão ocupados por colegas mais velhos (o que não significa "mais competentes").

Luís Veiga Leitão
– Uma memória feliz
em algumas histórias exemplares

De Luís Veiga Leitão guardo diversas memórias, todas felizes. Comecei por ter o gosto de incluir um poema seu no livro O Trabalho – Antologia Poética que organizei com Joaquim Pessoa e Armando Cerqueira para o Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. Mais tarde encontrámo-nos em Vila Viçosa num encontro poético promovido por Orlando Neves e no qual participavam (entre outros) Mendes de Carvalho, Raul de Carvalho e Manuel Lopes. Num divertido almoço com um grupo de senhoras que gravitavam à volta dos poetas e queriam entrar no Círculo da Poesia Portuguesa, uma das senhoras dirigiu-se a Luís Veiga Leitão (que ostentava o seu nome na camisa e era de longe o poeta mais bonito do nosso grupo) perguntando com alguma ingenuidade: «O senhor fez parte do processo dos 254 e esteve preso em Caxias, não esteve?» A resposta do nosso poeta foi de um fino humor que arrasou por completo a senhora: «Não minha senhora! Eu sou muito mais antigo. Eu estive preso mas em São Julião da Barra!» A senhora em vez de sorrir com a piada que colocava Luís Veiga Leitão ao lado de Gomes Freire de Andrade no século XIX, respondeu apenas: «Desculpe!»
Uma vez pedi-lhe um depoimento sobre o poeta Daniel Filipe e ele escreveu um texto enxuto e sem emendas, um texto manuscrito entenda-se. Saiu numa edição especial do jornal Poetas e Trovadores que dirigi com Joaquim Pessoa e Travanca-Rêgo em 1982 e 1983. Ainda hoje guardo esse belo depoimento sobre Daniel Filipe – um poeta quase esquecido e que é também um brilhante cronista.
Luís Veiga Leitão distinguia os amigos com cartas escritas à mão num modelo com um pastor a tocar flauta. Uma das suas cartas foi por mim oferecida para um leilão a favor da Associação Portuguesa de Escritores e foi arrematada no Fórum Picoas pelo galerista que era proprietário da Galeria 111 no Campo Grande.
Uma última história que recordo com ternura: o desabafo que teve para comigo em Moimenta da Beira depois de uma homenagem da Câmara Municipal que colocou uma placa na casa onde o poeta nasceu: «Não se sabe. Não se sabe. A minha tia tem a ideia de que foi ali mas isso também não interessa muito.» E é verdade. O que interessa é que foi em Moimenta que nasceu o poeta Luís Veiga Leitão, um grande poeta português do século XX e de sempre. Uma das vozes mais puras e genuínas da nossa tradição lírica.
Isto, já agora, se eu não estou em erro...

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO