LI E CONCORDEI COM...

FERNANDO SAVATER

“[...] Os medievais falaram com razão de dois tipos de liberdade política: a libertas a coacione, que nos emancipa da tirania que impede participar igualitariamente na gestão da coisa pública, e a libertas a miseria, que salva das imposições infligidas pela falta de recursos no mundo do ‘tanto tens, tanto vales’. Em demasiadas ocasiões, é a miséria (económica ou cultural) que condiciona inevitavelmente a submissão de muitos a tiranias ‘democráticas’ impostas pelos beati possidentes. Hoje em dia, provavelmente as maiores diferenças entre os livres de facto e os livres só de nome são estabelecidas pelo acesso à informação: para ser livre é preciso ‘saber’ mais do que aqueles que não o são e controlar os meios de ‘comunicação’ para difundir tanto o conhecimento como as falsificações interesseiras que geralmente ocupam o seu lugar...”

(in A Coragem de Escolher, 2003)
LIBERDADE E DIGNIDADE

A liberdade (que a tantos provoca engulhos), emanação do livre arbítrio, mantém uma relação interdependente com a responsabilidade. Desresponsabilizar – desculpabilizando o erro, o pecado ou a monstruosidade, como é moda relativista, psicologista, multicultural e/ou pós-moderna do nosso tempo – é mutilar a liberdade do ser humano, eliminando lentamente a sua dignidade enquanto indivíduo.

Cabo Espichel (2)

LI E CONCORDEI COM...

RODRIGO DE LIMA

“Portugal é como a igreja de São Torcato em Guimarães. Com fachada de forte granito, está rachada de alto a baixo. Ameaça ruína desde a fundação, mas não há sismo que a faça cair. Entretanto, lá dentro, vai-se venerando um cadáver mumificado com identidade muito duvidosa.”

(in Diário Inacabado, 1983)

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA


O grito

A beleza nunca é clara
no modo em que se aproxima
Somos com certas coisas
um mundo ainda terrível
incapaz de explicações
sem nenhuma das certezas
mesmo aquelas, ínfimas, que sustentam
uma palavra, um olhar ou um grito

Só nos resta a maneira
mais pura:
de igual para igual
tão desconhecidos


O poema

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.


(Poemas retirados de A Noite Abre Meus Olhos, recentemente editado pela Assírio & Alvim, onde o autor reuniu a sua poesia até agora publicada.)