FRAGMENTOS DE UM RETÁBULO
Estão a partir de hoje disponíveis no Triplo V alguns poemas meus ainda não publicados em livro. São reflexões sobre diversas obras de pintura, desde anónimos dos séculos XVI e XVII até Nicolau Saião, Jorge Martins ou Diogo Pimentão, passando por Frida, Degas, Manet ou Zurbarán. Agradeço desde já a vossa visita.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
Soneto para o primeiro neto
Eu estava bem perto de ti mas não sabia
E tu nascias no Bloco da Universidade
Por isso foi tarde que rompeu a alegria
Havia obras no Metropolitano da cidade
Nasceste quando os jogos têm início
No domingo à tarde em toda a terra
Serás talvez mais um a gozar o vício
Dum jogo que é também arte de guerra
Não sabes que fui comprar uma galinha
E que fizemos com ela uma canjinha
Para que a tua mãe possa ser mais forte
Catorze dias perto de ti no Barbican
Eu a olhar essa Catedral cada manhã
Pedindo que Deus te dê saúde e sorte

O QUE MAIS CUSTA
O que mais custa em todo o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente não é a sua dureza, mas a falta de verdade em que muitos dos passos se baseiam.
Todos sabemos que o país não está financeiramente bem; logo, aceitaríamos os sacrifícios se os víssemos distribuídos com equidade por todas as camadas sociais e por todas as profissões, a partir de exemplos inequívocos vindos dos governantes. Mas nada disto tem sido feito. Retira-se aos mais frágeis para dar aos mais fortes, não havendo qualquer hesitação quando se trata de mentir aos portugueses ou quando se recorre à difamação de amplos sectores da administração pública.
No caso dos professores, trata-se ainda de uma estratégia pensada para torná-los bodes expiatórios do insucesso do sistema educativo, quando ao longo de décadas têm sido apenas agentes aplicadores (e pouco decisores) de políticas que sabem de antemão improdutivas ou, até, destrutivas dos alicerces da qualidade das aprendizagens. E assim se camuflam três décadas de deriva governativa que, em gradação crescente, têm conduzido a uma enorme irresponsabilização dos alunos, produzindo o desastre em que estamos mergulhados.
Há decerto maus profissionais entre os professores, como em qualquer profissão. Necessitamos de uma avaliação rigorosa do desempenho que promova os bons docentes e penalize os maus sem, no entanto, decidir à partida, de forma economicista, quantos podem atingir a excelência. Não existe, contudo, o direito de nos humilharem como se fôssemos lixo, como estratégia para a criação de uma classe docente dócil e barata, estratégia que pouco se preocupa com as consequências nefastas que tudo isto terá no real sucesso educativo dos alunos e do sistema.
GREVE
Nunca, como agora, senti tanta vontade de mudar de profissão. Se algum dia conseguir dar o salto, sentirei falta apenas dos alunos (mesmo dos mais difíceis), pois com eles tenho passado as melhores horas destes doze anos de docência.
Cada vez mais me custa aguentar os ataques de que os professores são alvo todos os dias e as mentiras que, sobre nós e sobre a nossa carreira, circulam um pouco por todo o lado. Consagrada na legislação - como desejam a ministra, os secretários de estado, o primeiro-ministro e mais alguns cidadãos mergulhados em espírito de inconfessável vingança contra um grupo profissional inteiro -, a humilhação lançada sobre os docentes é um dos principais sintomas da sociedade doente em que habitamos (como escreveu um dia Agostinho da Silva), a qual combate todos os dias aqueles (professores, artistas, escritores, pensadores livres...) que ainda conseguem estimular a liberdade entre os seres humanos e/ou denunciam os lobos vestidos de cordeiros que apenas querem destruí-la.
Por isto e por muito mais, faço greve amanhã. Não sou grande adepto desta forma de luta, mas tem mesmo que ser, mesmo que me saia do bolso! Mais do que nunca, demitir-me neste momento seria compactuar com quem nos deseja humilhar, porque só assim consegue governar em verdadeiro absolutismo.
Nunca, como agora, senti tanta vontade de mudar de profissão. Se algum dia conseguir dar o salto, sentirei falta apenas dos alunos (mesmo dos mais difíceis), pois com eles tenho passado as melhores horas destes doze anos de docência.
Cada vez mais me custa aguentar os ataques de que os professores são alvo todos os dias e as mentiras que, sobre nós e sobre a nossa carreira, circulam um pouco por todo o lado. Consagrada na legislação - como desejam a ministra, os secretários de estado, o primeiro-ministro e mais alguns cidadãos mergulhados em espírito de inconfessável vingança contra um grupo profissional inteiro -, a humilhação lançada sobre os docentes é um dos principais sintomas da sociedade doente em que habitamos (como escreveu um dia Agostinho da Silva), a qual combate todos os dias aqueles (professores, artistas, escritores, pensadores livres...) que ainda conseguem estimular a liberdade entre os seres humanos e/ou denunciam os lobos vestidos de cordeiros que apenas querem destruí-la.
Por isto e por muito mais, faço greve amanhã. Não sou grande adepto desta forma de luta, mas tem mesmo que ser, mesmo que me saia do bolso! Mais do que nunca, demitir-me neste momento seria compactuar com quem nos deseja humilhar, porque só assim consegue governar em verdadeiro absolutismo.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
O tempo das antigas emoções
Hoje folheei um livro de Marina Tavares Dias cujo título é Sporting Clube de Portugal – Uma história diferente. O facto de folhear o volume, página a página, fotografia a fotografia, leva-me a pensar como deve ter sido difícil fazer um trabalho de 320 páginas contando hoje a história de um Clube fundado em 1906. No passado, no passado de todos nós, havia poucas fotografias. Quem tirava retratos era quase sempre em ocasiões especiais. Ia-se ao retratista que tinha um estúdio decorado com motivos próprios para cada idade: crianças, adolescentes, militares, noivos, bodas de ouro. Havia menos fotografias mas havia mais emoções. Viajava-se menos mas liam-se muitos livros de viagens.
Aqui há tempo soube de uma história deliciosa passada nos anos quarenta com o escritor Dinis Machado e o seu pai, o jornalista Oliveira Machado. O pai levou o filho à Rua Jardim do Regedor para lhe mostrar a Sala de Troféus do Benfica. Pensava o dito senhor que a criança, depois de ter levado um banho de taças, troféus e medalhas, acabaria por se render ao Benfica, mas não. Questionado pelo pai, o jovem Dinis Machado afirmou com toda a força da simplicidade: «Pai, sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!» Era a força das emoções e o pai do jovem Dinis, apesar da sua força de pai e de ser o dono do restaurante «Farta Brutos», nada conseguiu do filho que já estava desde pequenino vacinado para ser um grande sportinguista. Hoje os miúdos têm tudo desde as play station a toda a espécie de brinquedos. Os miúdos do passado tinham a força das antigas emoções, as chamadas emoções para toda a vida. E para além da vida. Jesus Correia já morreu mas Dinis Machado continua a ser «leão».
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