JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Louvor e glorificação
do senhor António


Chama-se Maria da Conceição a mais bela habitante da Beira Litoral da colheita de 1954 e teve a feliz ideia de me apresentar o senhor António. Ora o senhor António é daquelas pessoas que pode trabalhar muito mas não vai enriquecer. O seu fato de todos os dias é o fato-macaco e o lugar é a oficina de mecânica onde a sua arte pontifica. Chamar-lhe arte é pouco. No senhor António é mais do que arte; é ciência. Para ele a possibilidade de reparar uma avaria num automóvel é sempre a oportunidade de exercitar o seu sentido de poupança, de desenrascanço e de honradez. É que o olhar do senhor António é mesmo honrado e límpido. Ele quer ajudar as pessoas a resolverem o problema que é o automóvel avariado. Ele não tem o sonho de enriquecer à custa dos automóveis dos seus clientes. Por isso o senhor António mostra as peças que foi preciso substituir. Por isso o senhor António chega a perguntar se o cliente não se importa que ele compre uma nova placa de matrícula para o lugar da outra já velha de oito anos. E a placa custa só cinco euros. Por isso o senhor António perde uma manhã na inspecção da viatura do seu cliente mas no fim cobra apenas vinte euros pelo seu trabalho. E todos nós sabemos que uma manhã de trabalho para nós vale mais que vinte euros. Para o senhor António também. Percebe-se que o senhor António não enriqueceu nem vai enriquecer. Isto em termos de dinheiro. Mas a amizade, o respeito e a consideração dos seus clientes vale mais do que o dinheiro. Vale o sorriso do senhor António que sente prazer em ajudar os seus clientes que chegam à oficina preocupados e partem tranquilos. E esse sorriso não tem preço nem em euros nem em qualquer outra moeda.
OS DETERGENTES DA HISTÓRIA


GATO ESCONDIDO, RABO DE FORA

Ao reler no passado domingo o volume da História de Portugal coordenada por José Matoso correspondente ao período de dominação islâmica da Península Ibérica, deparei-me com um texto de Cláudio Torres no qual afirma que os regimes islâmicos foram sempre tolerantes em relação às outras religiões, excepto a partir da criação do Estado de Israel, em meados do século XX. Curiosamente, algumas páginas depois desta asserção, descreve as consequências nefastas das invasões almorávidas e almóadas, movimentos político-religiosos maometanos que reocuparam a península para “purificarem” a política e o islamismo locais, demasiado permissivos e tolerantes, segundo diziam. Foi nessa época que os cristãos e judeus se viram mais perseguidos (nem os muçulmanos heterodoxos foram poupados). Os seus cultos foram proibidos, sob pena de morte, e os seus templos destruídos, o que provocou nomeadamente a emigração dos cristãos moçárabes para o norte da Ibérica. Tudo isto é confirmado pelo arqueólogo de Mértola.
Poderia listar todas as atrocidades intolerantes dos regimes político-religiosos muçulmanos que dominaram ou dominam boa parte do mundo mediterrânico, mas a contradição de Cláudio Torres é evidente. De um lado, a ficção; do outro a verdade. Prova a que ponto chegam as tentativas de limpeza (voluntária ou involuntária) da história, levada a cabo pela cegueira pan-islamita.


ESQUEÇAMOS O ALCORÃO

Também no domingo passado assisti na televisão ao espaço informativo dirigido pela comunidade islâmica de Lisboa. Conhecida pelo seu bom senso e pela sua integração social, esperava aprender algo neste tempo que dediquei ao visionamento de um debate (?) sobre a presença ou a ausência da violência no livro sagrado islâmico.
Depois de tentar convencer os telespectadores da bondade total do Alcorão – que, ao contrário do que se diz, não foi escrito por Maomé, mas algumas décadas depois da sua morte pelos seus sucessores omíadas, em plena guerra expansionista, como afirmou no sobredito programa o historiador Dias Farinha –, afirmou, a dado passo, que os cidadãos não-muçulmanos interpretam mal as palavras aí escritas porque não conhecem a língua árabe. Questionado por uma jornalista presente sobre a qualidade das traduções do livro maometano, confirmou que não é grande. A surpresa (?) nasceu-me quando a interlocutora do responsável pela mesquita de Lisboa lhe sugeriu que a comunidade portuguesa trabalhasse no sentido de se editar uma tradução fiável das escrituras islâmicas. Para meu espanto (?), David Munir respondeu mais ou menos assim:
- Penso que não é necessário. Mais importante do que ler o Alcorão é conhecer os comentários que se têm escrito sobre ele...
Estamos entendidos. Com pessoas destas podemos ir a barulhos... É realmente muito perigoso ler o Alcorão. Poderemos descobrir coisas que, de facto, nos ajudarão a compreender melhor o nosso mundo. E isso é muito perigoso.
ARTURO PÉREZ-REVERTE


Azeite, cultura e memória


Acabo de receber o primeiro azeite do ano, que me enviaram uns amigos: óleo de azeitona virgem, decantado e limpo, depois da sua colheita há um mês ou dois. Chegam-me sempre por estas alturas alguns litros engarrafados e enlatados que entesouro na despensa, e que irei gastando, a pouco e pouco, durante os próximos meses, com muita mesura e respeito. E é curioso. Sou exactamente o contrário de um gourmet. Como e bebo o que é preciso. Mas antes, com a juventude e as pressas do trabalho e de outras realidades, ainda dava menor valor às coisas da gastronomia. Tomava azeite com torradas, ou colocando-o numa salada, ou com ovos fritos, sem reparar demasiado nele. Quem, como eu, come quase de pé, sabe do que falo. O que se passou, a pouco e pouco, com o tempo e com a calma, quando olhar em volta e para trás começa a ser proveitoso, é que comecei a estar a atento a certos matizes. A valorizar coisas que antes me passavam completamente ao lado. No que ao azeite diz respeito, foi decisiva a intervenção do meu amigo e compadre Juan Eslava Galán, que é uma autoridade azeiteira – no bom sentido da palavra –. Isto não significa que me tenha tornado num perito; mas é verdade que agora, quando abro uma garrafa ou uma lata e ponho a correr um fio desse líquido aromático, dourado e transparente, sei muito bem o que tenho por diante. E encanta-me.
Não se trata apenas de azeite, nem de comida, nem de cozinha. O óleo de azeitona faz parte não somente da nossa mesa, mas da memória, da cultura e até da verdadeira pátria, se entendermos assim esse lugar antigo, generoso, chamado Mediterrâneo: essa buliçosa praça pública onde tudo nasceu, em torno de águas azuis pelas quais já viajavam, há uns dez mil anos, naves negras com um olho pintado na proa. Falo do lago interior que nos trouxe deuses, heróis, palavra, razão e democracia. Do mar de entardeceres cor de vinho e de margens salpicadas por templos e oliveiras, onde se fundiram, para iluminar a Europa e o melhor pensamento do Ocidente, as línguas grega, latina e árabe. O cadinho de onde sairá o espanhol que hoje falam quatrocentos milhões de pessoas no mundo. Falo do mar próprio, nosso, que nunca foi obstáculo, mas caminho por onde se espalharam, fundindo-se para criar o que somos, Talmude, Cristianismo e Islão. Não é por acaso que ainda hoje os povos bárbaros – filósofos, escritores e cientistas não alteram o conceito histórico, pois nunca o teriam sido sem a mãe alimentícia – continuem a fritar em banha ou margarina.
Julgo que aqueles que qualificam, sem qualquer matiz, o acto de comer como um acto cultural equiparável à visita a um museu, são uns calhaus e uns simplórios. Sobretudo se observarmos certos comensais: a sua conversa, as suas maneiras e até a sua forma de se refastelarem na cadeira. A cultura nada tem que ver com eles, engulam carne do lombo ou mastiguem uma página dos diálogos de Platão. Mas é verdade que alguns aspectos da gastronomia têm muito a ver com a cultura. Saúde e cozinha à parte, consumir azeite não é um acto banal. É, também, participar num rito e numa tradição seculares, formosos. O currículo desse belo líquido dourado é impressionante: sumo do fruto da oliveira – a seitún árabe – e do trabalho honrado e antigo do homem, já fazia parte dos dízimos que o Livro dos Números recomendava reservar para Deus. Também se utilizava na consagração dos sacerdotes e dos reis de Israel, e mais tarde ungiu os imperadores do Sacro Império e os monarcas europeus antes da sua coroação. E em sociedades com origem cristã, como a nossa, o azeite esteve presente durante séculos tanto na unção do nascimento como na extrema-unção da morte. A costa mediterrânea está pejada de ânforas oleárias de inumeráveis naufrágios, e nos velhos textos abundam alusões: o Deuteronómio chama à Palestina terra de azeite e mel, Homero menciona o azeite na Ilíada e na Odisseia, Aristóteles aponta o seu preço em Atenas, e Marcial, que era romano e hispano – essa Hispânia que alguns imbecis negam que alguma vez tenha existido –, põe nas nuvens o azeite da Bética. Assim, por uma vez, permitam-me um conselho: se querem desfrutar melhor do azeite em cada dia, pensem um instante, quando o utilizem, em tudo o que significa e em tudo quanto é. Vertam-no então com muito cuidado e com muito respeito, procurando não derramar uma gota. Seria malbaratar a nossa própria história.

(in No me cogéreis vivo, 2005; tradução de RV)

Carreiras, Setembro / 06.

ARTURO
PÉREZ-REVERTE

"[...] A la hora de reivindicar a los grandes maestros puede ocurrir algo peor que el semiolvido: su apropiación coyuntural, fraudulenta, por parte de los golfos apandadores de la cultura. Y a menudo me pregunto si no sería mejor dejar a Fulano o a Mengano en su estante polvoriento, como tesoro a conquistar por iniciados y corsarios autodidactas de la letra impresa, que verlos mancillados, desvirtuados, envilecidos, demagógicamente traídos y llevados por oportunistas del caprichos, el interés ou la moda.
[...]
[...] Y lo gracioso es que de pronto, en un artículo, en un programa, uno los lee o los oye, atónito, elogiar como si conocieran, leyeran y admiraran de toda la vida a viejos autores a quienes en otro tiempo no solo ignoraban, sino que denostaban públicamente. Por supuesto, siempre coincide con un centenario, una biografía, un homenaje en el extranjero. Entonces se lo apropian sin más, se ponen al día con una rapidez pasmosa, y de la noche a la mañana se manifiestan extrañadísimos de que nadie lea ahora a Fulano, a Mengano, a Zutano y a otros grandes nombres de la literatura universal; a quienes ellos no sólo no leyeron en su puta vida, sino que encima ayudaron a enterrarlos, sosteniendo que lo que de verdad había que leer [...] era Onán y yo somos así, señora (Anagrama), de Chindasvinto Petisuik, imprescindible minimalista sildavo."

(in No me cogeréis vivo, 2005)