WALLACE STEVENS

De todos os poemas que li até agora de Wallace Stevens, nenhum consegue superar a força do tríptico "The Rock" (que deu nome ao seu último livro). Lendo-o, percebemos com exactidão o que defendia quando afirmava que "o espírito nasce do corpo do mundo". Estamos perante um irmão ("falso", mas irmão) de Cristina Campo, em que a atenção extrema à matéria imanente do universo visa a sua multiplicação infinita através do verbo poético, porque "Deus e a imaginação são um só".

(Brevemente publicarei aqui algumas traduções minhas de poemas de Stevens.)

Garganta la Olla, Outubro / 06
NOVIDADES NO TRIPLOV

A página Triplo V tem novidades, algumas delas muito saborosas. Entre elas, permito-me destacar um artigo de João Garção ("Com Raul Proença pelo estômago") e uma antologia do poeta brasileiro Soares Feitosa, acompanhada por um artigo de Nicolau Saião. Não perderão tempo com a leitura.
DINIS MACHADO


II Soneto para Cesário
(escrito há 40 anos)

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas

(oferta e celebração a José do Carmo Francisco no dia do seu 43º aniversário)

(nº 13, 25/05/2001)

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Louvor e glorificação
do senhor António


Chama-se Maria da Conceição a mais bela habitante da Beira Litoral da colheita de 1954 e teve a feliz ideia de me apresentar o senhor António. Ora o senhor António é daquelas pessoas que pode trabalhar muito mas não vai enriquecer. O seu fato de todos os dias é o fato-macaco e o lugar é a oficina de mecânica onde a sua arte pontifica. Chamar-lhe arte é pouco. No senhor António é mais do que arte; é ciência. Para ele a possibilidade de reparar uma avaria num automóvel é sempre a oportunidade de exercitar o seu sentido de poupança, de desenrascanço e de honradez. É que o olhar do senhor António é mesmo honrado e límpido. Ele quer ajudar as pessoas a resolverem o problema que é o automóvel avariado. Ele não tem o sonho de enriquecer à custa dos automóveis dos seus clientes. Por isso o senhor António mostra as peças que foi preciso substituir. Por isso o senhor António chega a perguntar se o cliente não se importa que ele compre uma nova placa de matrícula para o lugar da outra já velha de oito anos. E a placa custa só cinco euros. Por isso o senhor António perde uma manhã na inspecção da viatura do seu cliente mas no fim cobra apenas vinte euros pelo seu trabalho. E todos nós sabemos que uma manhã de trabalho para nós vale mais que vinte euros. Para o senhor António também. Percebe-se que o senhor António não enriqueceu nem vai enriquecer. Isto em termos de dinheiro. Mas a amizade, o respeito e a consideração dos seus clientes vale mais do que o dinheiro. Vale o sorriso do senhor António que sente prazer em ajudar os seus clientes que chegam à oficina preocupados e partem tranquilos. E esse sorriso não tem preço nem em euros nem em qualquer outra moeda.