948 TEXTOS DEPOIS...

... 18 anos passados, José do Carmo Francisco foi saneado do jornal Sporting, agora dirigido por Miguel Salema Garção. Com esta saída, fecha as suas portas uma das mais antigas colunas de divulgação de livros da imprensa portuguesa. É pena! É pena que tal aconteça, no momento em que se lança um “Plano Nacional de Leitura” (que inventa uma roda já inventada há milénios), em que a crítica literária vem sendo substituída pelo chamado “jornalismo cultural”, frequentemente ignorante, bacoco e/ou traficante de influências.
Em conjunto com outros colegas, José do Carmo Francisco saiu do jornal que ajudou a tornar conhecido na cultura portuguesa. Foi despedido por “não se integrar no espírito da nova equipa”, por ser “demasiado velho” (as desculpas do costume).
É este o mundo (e o país) em que vivemos. A competência, mesmo reconhecida publicamente, vale pouco ou nada. São outros os contra-valores que nos dominam, nos desgastam e nos afundam.

GONÇALO M. TAVARES

água, cão, cavalo, cabeça lido.
Interessam-me pouco, como narrativas, as ficções caóticas que preenchem a primeira metade do livro. Demasiado enleadas, embora com trechos fulgurantes, não provocam estranheza, mas a visão de um entulho literário.
Mais cortantes me parecem os contarelos (o sufixo não é pejorativo, mas dimensional) da segunda parte: coerentes, retalham (autopsiam) o corpo individual e social de seres mutantes, em dissolução.
Até prova em contrário, de toda a poligrafia de Gonçalo M. Tavares continuo a preferir a sua heterodoxa poesia.
Todos uns privilegiados...

Dizem eles que os funcionários públicos são todos uns privilegiados! Leia-se este artigo de Eduardo Pitta.

Cuacos de Yuste, Outubro / 06.
JOSÉ GIL


“Para obter bons resultados, boas estatísticas, boas médias, é preciso ter bons professores. Para os ter, tem de se considerar a especificidade do seu trabalho.
Não é atafulhando o seu tempo [...], nem cortando as ‘pausas’ – de que precisa como de pão para a boca – que se formarão docentes ‘competentes’. Parece haver uma preocupação obsessiva com a quantidade (em todos os domínios) no Ministério da Educação, que o torna cego às virtudes da qualidade. Que os responsáveis pela educação no nosso país possam ter pensado em esmagar assim os professores é sinal de que qualquer coisa de incompreensivelmente absurdo se está a passar nas suas cabeças.”


(in Courrier Internacional, nº 83, de 3 a 9 de Novembro / 2006)



“O que impressiona, nas intervenções mediáticas dos responsáveis do Ministério da Educação, é a ausência total de uma palavra de apreço e incentivo para com os professores. Quando ela vem, parece forçada, demasiado geral, demonstrando uma incompreensão profunda pelas condições do exercício da profissão. Os últimos rumores (verdadeiros) sobre as eventuais oito horas lectivas obrigatórias, mais o corte das ‘pausas’ do Natal, Carnaval e Páscoa, provam que as autoridades encarregadas de conceberem a política educativa do nosso país não sabem – ou não querem saber – o que implica ser professor.
[...]
[...] Tem-se a nítida impressão de que não gostam dos professores – por mais que queiram distingui-los dos sindicatos. Ora, o que está em jogo no actual debate sobre a educação, é a transformação de uma situação há muito desastrosa, criando condições para um ensino de qualidade, à altura das ambições da ‘modernização’ global do País, proclamadas pelo Governo. Nesse quadro, a Educação constitui um pilar essencial do projecto governativo do primeiro-ministro: se ele falha, falhará todo o projecto. Neste momento constata-se que o clima das escolas (professores cansados, abatidos, deprimidos – dos que pertencem às ‘excepções’) não contribui para a boa aplicação dos novos estatutos que aí vêm.
[...]
[...] A actual política educativa parece padecer de toda uma série de disfunções e desfasamentos: muda-se o estatuto da carreira docente, com novas tarefas, mais trabalho, mantendo-se inalterados os conteúdos e negligenciando a formação necessária dos maus professores; instauram-se regras de avaliação, mas não se eliminam os compadrios e as conivências; exigem-se boas vontades para certas tarefas, e quebram-se as vontades não oferecendo contrapartidas; voltam-se os pais contra os professores, estes contra a instância que os tutela, o pessoal administrativo contra os professores, e já mesmo se forma alianças alunos-pais contra o Ministério...
Tudo isto é mau para o ensino e para a educação. Como se a ‘racionalização’ do ensino básico e secundário, ao preocupar-se apenas com alguns dos seus aspectos, e sem visão global, induzisse necessariamente outras formas de irracionalidade e anarquia.”

(in Visão, nº 714, 9 de Novembro / 2006)