Cuacos de Yuste, Outubro / 2006
FIRMINO MENDES


Alentejo

Escolhe-se uma palavra no plural – ondulações,
para poder dizer tudo o que és, com cheiro
a papoila e a montado, a coentros e orégãos,
à volta das casas brancas. A terra é de mais
– ondulada volteia, gira na distância plana.

À porta dos montes ladram alguns cães
– os mesmos que rodeiam os rebanhos
que transportam a música pelos valados.

Aos largos das vilas chegam alguns homens
– os mesmos que afagaram e bafejaram a terra
e esperam a morte como um surdo regresso.

Tão forte – tão de pão, vinho e cortiça.
Tão frágil – de aromáticas ervas na cozinha.

Tão ondulado – o pão, as migas.
Tão áspero – a cortiça, os cardos.
Tão doce – conventuais delícias.


Outro Alentejo

O céu múltiplo à noite, no monte abandonado às aves
ou esta festa de gente para o girassol que nasce:

– as casas térreas brancas alongadas, os poços redondos,
as cegonhas, as garças, a nespereira cheia, o tronco negro
dos sobreiros cheios de cortiça, as figueiras, as roseiras bravas,
a semente das papoilas no inverno.

Que flor lilás cobre o campo de Maio,
ao lado da camomila branca e do malmequer?

A luz dos olhos: – este texto branco ao lado das casas,
como o rebanho que passa em plano, cobrindo tudo e mostrando
as cores dos corpos, dos figos, das pedras, da alfarroba.
Quem poderá dizer o berço das memórias?

Tão perto parou o tempo: – parece um verso dizê-lo ou um silêncio
neste montado onde adormecem todos os animais perdidos.

A cortiça tem a sombra das figueiras, ao lado da casa, ou um caminho
de vento para a viagem. De quem a corta poucos falarão no poema
e de quem a afaga nunca se falará neste lugar entre mar e Espanha,
tão múltiplo como o céu que o protege.

(nº 14, 29/6/2001)

META-CARTA A DEUS

É comovente a "meta-carta" dirigida a Deus por José Augusto Mourão. Todos ganhamos com a sua leitura, sejamos crentes ou não-crentes.
ASSIM SE MANIPULA A VERDADE


1. Nos últimos tempos disse-se, citando a OCDE e para os denegrir, que os professores portugueses eram dos mais bem pagos da Europa. O que permitiu a notícia, glosada até à náusea, foi um gráfico que se refere apenas aos professores do secundário com 15 anos de serviço, em função do PIB por habitante, que é dos mais baixos da Europa. Na mesma página, logo por cima do gráfico utilizado, está outro, bem mais relevante, que ordena os professores em função do valor absoluto do salário. E nesse, num total de 31 países estudados, os professores portugueses ocupam a 20.ª posição! Mas, sobre isto, nada se disse!

2. Disse-se, aludindo ao mesmo estafado indicador, que somos dos que mais gastamos com a educação. Mas não se disse o que importa: que o dinheiro efectivo gasto por aluno nos atira para a 23.ª posição entre os 33 países examinados e que, mesmo em relação ao PIB, estamos, afinal, num miserável 19.º lugar.

3. Disse-se que a prioridade das prioridades era a qualificação dos portugueses, mas não se disse como se concilia isso com o corte de 4,2 por cento na educação básica e secundária e 8,2 por cento no ensino superior. Como tão-pouco se disse, do mesmo passo, que os subsídios pagos pelo Estado a alguns colégios privados cresceram exponencialmente, de 71 a 108 por cento, como se retira da matéria publicada no DR de 16 de Outubro!

4. Disse-se, ainda, alto e bom som, que os funcionários do Estado estavam mais bem pagos que os privados. Mas não se disse que um estudo encomendado pelo Ministério das Finanças a uma consultora internacional (é moda agora adjudicar a consultoras externas e pagar-lhes a peso de ouro aquilo que os técnicos dos serviços sabem fazer) concluiu, e por isso foi silenciado, que os funcionários públicos ganham, em média, muito menos do que ganhariam se fizessem o mesmo trabalho para um patrão privado. E estamos a falar de diferenças que são, diz o estudo, de 30, 50, 70 ou mais que 100 por cento, em desfavor do funcionalismo público. Isto não se disse! As cerca de 300 páginas deste estudo estão, prudentemente, silenciadas na gaveta de Teixeira dos Santos.

5. Igualmente silenciados, porque não convém que se diga, estão os dados do Eurostat que mostram a inutilidade das medidas da ministra da Educação para área: o abandono escolar precoce passou dos 38,6 por cento do ano passado para os 40 por cento deste ano, enquanto diminuiu por toda a Europa.

5. Igualmente silenciados, porque não convém que se diga, estão os dados do Eurostat que mostram a inutilidade das medidas da ministra da Educação para a área: o abandono escolar precoce passou dos 38,6 por cento do ano passado para os 40 por cento deste ano, enquanto diminuiu por toda a Europa.

(In Público, 20/11/2006)

ARTE SACRA
DA DIOCESE DE BEJA
(novo livro de José António Falcão)

De absoluto a zodíaco se apresenta a arte sacra da diocese de Beja no novo livro de José António Falcão: uma obra inclassificável, absolutamente original no panorama editorial português. Aparecendo com roupagens de dicionário (A a Z, Arte Sacra da Diocese de Beja, numa edição do Departamento do Património Histórico-Artístico desse bispado do Baixo Alentejo), pode ser entendido como um glossário técnico, uma antologia poética, um livro de arte e um volume de crónicas.
José António Falcão vem encabeçando há vários anos uma iniciativa exemplar a vários títulos. Ao contrário do que acontece em várias dioceses portuguesas, em que o património artístico e arquitectónico está à mercê de voluntarismos desastrados e desastrosos que têm levado à perda de peças importantíssimas da arte nacional e internacional, em Beja o voluntariado de leigos empenhados e esclarecidos tem levado ao inventário rigoroso de peças e edifícios, à conservação e ao restauro criteriosos entregues a técnicos competentes, à divulgação do património material de uma região possuidora de religação larga e intensa. Falcão descreve a situação que encontrou quando o Departamento (criado em 1984 por D. Manuel Falcão) iniciou funções (a narração corresponde ao que acontece ainda hoje em muitas outras dioceses):
Diversos monumentos religiosos jaziam ao abandono [...] enquanto outros eram alvo de intervenções pouco criteriosas que afectavam a integridade material e cultural tanto da arquitectura como dos bens móveis nela integrados. [...] [...] várias imagens seculares eram confiadas a ‘curiosos’ que as pseudo-restauravam com purpurinas e tintas plásticas ou partiam para reparações em oficinas de santeiros do Norte, voltando desfiguradas ou substituídas por réplicas. [...]
Voltando ao livro, nele encontramos múltiplas entradas. Aceitação, barro, caminho, desespero, entrega, face, guia espiritual, herança, iluminação, justiça, libertação, maternidade, natureza, olhar, pão, quadrilátero, reconquista, saúde, testemunho, universo, vigilância, xeque-mate e zero são apenas alguns dos termos abordados nesta obra de arte onde, para além dos textos do autor, surgem também poemas de Kóstas Varnalis, frei Agostinho da Cruz, W. B. Yeats, Tonino Guerra, Saint-Pol-Roux, Paul Verlaine, etc..
As intervenções de José António Falcão, por seu lado, assumem com frequência um carácter literário, como neste texto comovente, intitulado “Cheio/Vazio”:
Salvo erro, foi em 1992 que vislumbrei, pela primeira vez, a velha escultura de São Jorge, esquecida num recanto da arrumação do convento de Nossa Senhora do Carmo onde jazem centenas de fragmentos de talha dourada, à espera do dia da ressurreição. Posta em cima de uma mesa, como um traste sem préstimo, a imagem do santo que constituíra motivo de orgulho para muitas gerações de mourenses, quando saía, na procissão do Corpo de Deus, montado num cavalo garboso, acusava agora a severidade dos maus-tratos infligidos no decurso de anos e anos de abandono. As pernas, cada uma caída para o seu lado, já não respondiam às articulações, a armadura, forrada a folha de prata, desenhava uma mancha escura; e, um pouco por toda a extensão do vulto, viam-se fissuras, perdas de camada cromática, sinais de contusões. Nada impressionava mais, porém, do que o rosto, com o terrível contraste entre um olho que vê e o outro vazio. Mesmo assim, o santo guerreiro deixava aflorar nos lábios um sorriso eterno, com a satisfação de quem já encontrou a Verdade. Logo ali jurei que o traria de novo à luz e que lhe poria a órbita esmagada e que o levaria de novo a cavalgar. E aquele sorriso nunca mais me abandonou.”
Com tudo quanto vos apresento, chamar “exemplar” a este livro é ser redundante, tão óbvia a sua qualidade.