PRÍNCIPE DA LIBERDADE

Mário Cesariny não era um santo, nem sequer um santo literário ou artístico. Era, sem dúvida, como poucos, um príncipe da liberdade - que honrou a Ordem nacional da dita com a sua adesão.
Estará no caixão a rir-se, com vontade de escarrar nas fuças de certos meninos que, fazendo parte do muro de ocultação que toda a vida tentou rasteirá-lo, vêm agora afirmar - sim-senhora... - a altitude, óbvia, da sua poesia e da sua pintura. Desejam, no fundo, esconder que a grandeza expressiva e interior de quanto escreveu e pintou é a melhor prova contra a sua mediocridade, a sua hipocrisia e a sua maldade...
Quem baterá latas no seu funeral, hoje? Quem romperá aos saltos e aos pinotes? Quem fará estalar no ar chicotes? É preciso... porque o corpo invisível glorioso deste Mário-Outro deve ir de burro, entrando nos Prazeres (estranha polissemia...) aclamado como um ungido pelas palavras e pelas tintas.
Emanação luminosa da impureza do estrume que somos, conseguiu encontrar aí - como o pinto da narrativa tradicional - o ouro que nos faz suportar este mundo, feito de tanta merda que nada fertiliza.
HOMENAGEM A CESARINY

De forma humilde, "Estrada do Alicerce" homenageará durante a semana este poeta e pintor que ontem partiu corporalmente. Iniciámos este caminho com um texto frontalíssimo de Nicolau Saião, amigo íntimo de Cesariny, que dele guarda memórias e iluminações. Continuaremos, suspendendo o andamento normal de publicações que aqui costumam surgir de segunda a quinta. É uma forma de lhe agradecermos quanto nos deu.

Homenagem a MÁRIO CESARINY (1923-2006)


Morrer sim,
mas devagar…


No triste jet set das letras (melhor seria dizer trocaletras) da nossa praça, para além daqueles que o estimaram e o souberam ler e ver havia dois grupos de fabianos sempre de goela aberta para melhor devorarem (tentar devorar) o universo conceptual que o norteara, de que se reivindicava e onde se inventava mesmo velho e doente: o surrealismo.
Esses dois grupos, pequenos jogadores das escritas e das pinturações, eram ou são: os que lhe exaltavam a pintura para melhor lhe rebaixarem a poesia e os que lhe elevavam a escrita para mais eficazmente lhe escaqueirarem o mundo plástico. Mas – e o truque nefando consiste nisto – no fundo não era a ele que visavam, tanto mais que a manobra já não colhia por ele lhes ter escapado para outros olimpos mais específicos. O que essa gente tentava e tenta era impedir que companheiros mais novos e com outras soluções de continuidade ficassem sem voz, tão submersos como nos tempos da ditadura que ele detestava, como detestou todas as outras.
Essa gente, permitindo-lhe agora existir sem peias depois de durante os princípios da sua vida o buscarem liquidar e emudecer, queriam que ele se tornasse um refém dos que em Portugal põem e dispõem através da mentira cultural que vê a escrita e a literatura como aparelhagens para fazer “fins de meses” ou carreiras que eles mesmos controlam…
Hoje como ontem, num país onde a realidade já está mais que apodrecida, o surrealismo continua a perturbar porque não é um álibi para mercadores de carne assassinada. Por isso o acatitavam, fingindo que o amavam, visando transformá-lo numa espécie de faraó que caucionasse melhor as tentativas de extinção de um pensamento que é existência em todas as direcções e que ele sempre perfilhou.
Durou 83 anos. Fez o que pôde e como pôde para exemplificar que as palavras que de facto contam passam pelos continentes da liberdade, do amor humano e do espírito sem algemas.
E, apesar dos zoilos e dos medíocres continuarem a tentar queimar o “castelo encantado”, que para eles tem a forma de literatice ou de convenção imagética - seja neste país, seja nos outros onde vivem e actuam muitos companheiros de sonho e de vigília, a busca da maravilha continua.


Nicolau Saião
YUSSEF IBRAHIM

“[...] Chegou o momento de se darem conta do efeito dessas milícias na vossa situação e de se questionarem se as organizações como o Hamas e a Fatá estão realmente a trabalhar para o vosso bem e se querem continuar a submeter-se cegamente à sua direcção.
Se são lúcidos, vão compreender que a violência e a guerra contra Israel pertencem ao passado. Se querem salvar o que pode ser salvo, não têm outra opção que não seja reconhecer a inanidade da ‘luta eterna’ que já não tem significado e que não passa de um ‘slogan’ vazio utilizado pelos fundamentalistas. O que é certo é que os vossos filhos estão a crescer na miséria e que a cultura do martírio produz a ignorância e o analfabetismo e não a esperança de um futuro melhor a que eles aspiram. [...]
[...]
Enquanto que os outros países possuem petróleo, indústria ou agricultura, temos de admitir que vocês, caros irmãos palestinianos, não têm absolutamente nada. A Palestina não poderia sobreviver sem a caridade de terceiros, incluindo dos americanos, de certos países europeus e das Nações Unidas. É Muammar Khadafi ou Bashar al-Assad que alimenta os vossos filhos? Que aconteceu ao vosso herói Saddam Hussein? Hoje, a Síria e o Irão incitam-vos a prosseguir a luta contra Israel, mas o que dizer destes dois países? [...] Chegou o momento de perceberem que ambos querem sacrificar-vos, até ao último, numa guerra por procuração. É realmente isso que pretendem?”

(no jornal Al-Ittihad, Abu Dhabi – trad. in Courrier Internacional, 17 a 23 de Novembro de 2006)