BOM NATAL
FELIZ ANO NOVO

O frio do norte alentejano e este tempo de pausa convida-me a ficar em casa, com os meus, com as minhas memórias, com o espaço a que pertenço, com os livros. Por isto, estarei ausente das lides bloguísticas até ao início de 2007.
Gostaria muito de desejar a todos quantos me lêem um tempo de pausa igualmente pacífico, cheio de disponibilidade interior para quantos nos rodeiam e para a contemplação do mistério da vida e da sua multiplicação. Sei, no entanto, que nem todos têm esta possibilidade. Desejo assim, do fundo do coração (o chavão corresponde, desta vez, a um sentimento sincero...), que todos passem um Natal cheio de paz e de felicidade.
Mesmo que, por qualquer motivo, a alegria não vos encontre, lembrem sempre as máximas de S. Paulo e de Jacques Prévert:
"Podemos ser derrubados, mas nunca abatidos."
"Tudo estará perdido, excepto a felicidade".
Nicolau Saião


QUINTAL DE NATAL


(...) E, instado pelo sr. Chefe de Brigada, o acusado disse: “Sim, era na altura do Natal que lá se viam as laranjeiras, os limoeiros e as tangerineiras, no meio de outras árvores de fruto e de algumas poucas oliveiras. Aquilo esplendia sob a doçura do silente sol de Dezembro. E a mãe recomendava sempre à mana: 'Vê lá não caias da escada...!', referindo-se ao artefacto de madeira mediante o qual se chegava aos mais altos ramos. Levavam-se sempre dois saquitéis - e um deles acolhia os limões para que a sua casca cheirosa, ralada, polvilhasse a fina massa das filhozes e azevias... E o pai levara da cidade - primeiro pela estrada de terra batida e depois, passado o portão, pela vereda entre os pinheiros que ao pé dos cortiços de abelhas, sob a azinheira, atravessava o ribeiro acrescentado pela água das chuvas - em dois sacos de linho granjeal as coisas raras e os modestos presentes que se transformavam em segredos de alto preço na hora aprazada.
E interrompeu o Sr. Procurador e, à sua interpelação, respondeu o acusado:" Era a avó, a comadre Maria Serenina, a prima Rosa, a vizinha Generosa, além dos mais próximos é claro. Reuníamo-nos na sala grande, havia a mesa de castanho, a lareira...O quarto ao cimo da escada misteriosa, com a janela de onde ele perscrutava os medos e as maravilhas".
E a mais uma pergunta, que pareceu atrapalhá-lo, do sr. Chefe de Brigada, o detido declarou: “Cantávamos, sim, confesso que cantávamos: loas ao ‘deus-menino’, rimances ingénuos onde se falava nas consoadas distantes, modas aprendidas através dos tempos. E sentíamo-nos felizes - e lá fora, enquanto nós ceávamos seroando na santa paz das horas perdidas, lá fora as árvores descansavam sob a luz da lua e do firmamento recamado.”Ao arguido foi levantado o competente processo por delito poético-natalício de recordação(…).

José do Carmo Francisco


Natal Feliz com lágrimas


Não se trata de andar à volta do livro magnífico do João de Melo, um belo romance e um dos mais felizes e bem achados títulos que conheço. E conheço muitos pois escrevo sobre livros em jornais e revistas desde 1978. Mas para mim o Natal é a época do ano mais complicada de gerir, de sentir e de viver. Enquanto somos novos o Natal é muito bonito pois tudo é de graça. Nada pagamos nem pelos beijos nem pelas lágrimas mas com a idade tudo se complica. Começa a faltar gente na lareira: o avô, a avó, a mãe. E começam as distâncias: uma filha que emigrou à procura de melhores condições de vida num país estrangeiro. Não pode vir porque passa os Natal com os sogros, gente idosa e doente. Tem que ser assim. E começam as angústias. Um filho recém-licenciado em História e autor de uma tese de mestrado não consegue colocação compatível. Nem incompatível. Uma filha está no quarto ano de um curso de arquitectura paisagista e já começa a pensar que não tem saída. Talvez emigrem os dois. Eu próprio estou desempregado desde 2 de Novembro e a minha mulher desde 23 de Setembro. Tudo isto acontece 32 anos depois do 25 de Abril que eu modestamente ajudei a concluir na Pontinha e cujo registo está na minha caderneta militar. Por isso a angústia é maior. Por isso este título de crónica tem toda a justificação. Natal Feliz com lágrimas pois ainda há encontro, ainda há partilha e ainda há ternura em circulação mas já não estamos todos à mesa. E a única resposta positiva é, tem que ser, só pode ser, o sorriso ingénuo e confiante do meu neto Thomas Francisco Sutherland. Ele pode ser o rosto desta aposta teimosa do amor contra a angústia. Da alegria possível contra a paisagem desolada do egoísmo e da solidão.
A CARNE E OS OSSOS


Há gente séria e bem intencionada no Governo. Apesar disto, o propósito da actual gerência parece ser acabar com a presença do Estado na Saúde, nos Serviços, na Educação e noutros domínios - ou, então, reduzi-la a mínimos inexpressivos, que deixam de servir para o estabelecimento de uma justiça social básica, mas para uma oferta pífia de caridadezinha laica. Desossar o esqueleto público, oferecer a carne aos que já têm o frigorífico cheio, lançar os ossos a uma matilha de pobres esfomeados...
Não há volta a dar à conversa. Passámos a viver sob a lei da selva, uma lei da selva que nos menoriza e irresponsabiliza, reduzidos à condição de bichos a viver num canil. Porque, não nos esqueçamos, quem come a carne não precisa de roer os ossos... E quem a come, para mal dos nossos pecados, não são os mais competentes ou os mais fortes, mas apenas aqueles que sabem lamber a mão do dono ou lhe oferecem (como gratificação antecipada, vulgo "suborno") o melhor coelho ou a mais gorda galinhola que conseguiram na caçada.