MIGUEL REIS CUNHA

Embora ocorra de forma muito subtil e despercebida, estamos perante uma nova forma de combate e desincentivo à natalidade.
O recurso aos contraceptivos começa por evitar a concepção de um novo ser indesejado (até aí tudo bem). Mas se a mulher não se tiver precavido antes e, por isso, existir a possibilidade de ter havido concepção, então aí entra a chamada ‘pílula do dia seguinte’. Mas se a mulher não tiver tomado a pílula do dia seguinte, então aí entra a possibilidade de aborto até às 10 semanas. Mas se isso não for possível e se a mãe tiver o azar de viver em certas zonas do país, então aí entra a dificuldade em nascer numa maternidade que esteja próxima. Mas se o bebé (qual herói homérico), depois desta epopeia toda, conseguir nascer, a sua mãe, se tiver um trabalho precário, sempre pode ainda vir a perder o emprego. Mas se a mãe do bebé não tiver perdido o emprego, terá ainda que fazer uma noitada à porta das misericórdias ou dos infantários, a mendigar uma vaga para o filho.
O Estado não protege, nem incentiva a natalidade. Enquanto isso, o sistema de Segurança Social vai-se afundando cada vez mais, porque cada vez vão existir menos jovens a descontar para um maior número de idosos a viver. O dilema é sempre o mesmo. Ou o Estado e a sociedade civil se empenham em criar condições para que se possa nascer, viver e morrer em condições. Ou, nem sequer se tenta, dando-se logo a batalha por perdida, optando-se pela via mais fácil da simples eliminação física. [...]


(in Sol, nº 9, 11 de Novembro / 2006)
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Sobre um tema
de Vitorino Nemésio

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
(Vitorino Nemésio)

Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto

AMADEO

Consegui ver (apesar das longas filas) a exposição antológica de Amadeo de Souza Cardoso na Gulbenkian. Pintura vital - atenta à infinitude do mundo que nos rodeia e à pureza das cores e das formas que dão presença e dinamizam seres e objectos, ambientes e paisagens -, preenche os olhos numa explosão primitiva de tons essenciais que atraem pelo brilho e pelo júbilo.
Virtuoso da cor e da representação do movimento, os melhores passos de Amadeo estão, contudo, no expressionismo de algumas figuras só aparentemente cubistas (aquela parte da sua obra em que a tristeza, a interioridade e a melancolia de rostos mascarados apresentam o drama da existência) e na metafísica de algumas paisagens e de alguns ambientes despovoados (que nos cruzam como quadros de De Chirico ou de um posterior Alvarez).
OS VENCIDOS DA JUSTIÇA

O Governo prepara-se para "castigar" os vencidos da Justiça. Sabendo-se, como se sabe, que os vencidos muitas vezes não são aqueles que litigavam de má-fé ou sem fundamento, mas quantos não têm dinheiro para pagar um bom advogado, não têm instrução ou verborreia para convencer os juízes ou não conseguem suportar os custos dos recursos bem urdidos - esta medida será mais uma machadada no débil Estado de Direito português, caucionando a prepotência dos poderosos, promovendo as manobras dos caciques de vária índole.
Questiono-me com Bernanos: "Porque lhe chamam 'Justiça'? Deveriam antes, sem hipocrisia, chamar-lhe 'Injustiça'..."
EDUCAR PARA A BELEZA

Parece-me válida a proposta de D. José Policarpo para o novo ano. Educar para a beleza, para o seu reconhecimento e contemplação é, de facto, um bom caminho para a construção da Paz. Reconhecer quanto têm de belo e de digno o mundo que habitamos, aqueles que o habitam e as suas produções de beleza inspirada será sempre amá-los e destruir a indiferença, primeiro passo em direcção ao ódio e à violência aniquiladora de corpos e de almas, da sua expressão transcendente e do sublime que existe no universo que nos rodeia.