Portalegre, Café Alentejano.
ASSISTÊNCIA À FAMÍLIA

Regressei à escola, depois de um período de quinze dias em que estive a prestar assistência a um familiar acamado. Fui obrigado a regressar, embora o familiar ainda se mantenha acamado e tenha ficado em casa sem a assistência que eu lhe podia prestar.
São assim as leis do nosso país. Um cidadão, se for funcionário público, só pode assistir um familiar com mais de 10 anos durante 15 dias por ano... Passado esse tempo, só existem três hipóteses: mentir e arranjar uma falsa declaração de doença do próprio; passar à situação de licença sem vencimento; ou deixar o familiar sem assistência. Não há escapatória!
Ainda dizem que vivemos num Estado de Direito...
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Natal Feliz com lágrimas
(II Parte)

Se a maldade das pessoas é infinita a maldade dos seres humanos ainda é maior. Sim. Porque isto de ser uma pessoa não é para todos. Não é para quem quer mas sim para quem pode. Soube que sugiram umas «parvoêras» a propósito do meu texto mais recente, "Natal Feliz com Lágrimas". Alguém falou em aposentação – coisa que não existe no universo dos bancários. E eu fui bancário entre 1966 e 1996. Ponto final. Não sou mais nem serei. Fui e sou jornalista desde 1978 mas só em 1997 (por razões óbvias) tive acesso à carteira profissional. Até ao ano de 1997 era apenas colaborador mas hoje sou jornalista e só isso. Por isso não admito que ponham em causa o que eu escrevi. Fui de facto despedido em 2 de Novembro passado do Jornal Sporting tal como já tinha sido despedido da Revista Ler e do jornal A Bola e da Revista PC WIN além da revista DNA do Diário de Notícias. Agora não se pode transformar isto num assunto pessoal: eu fui despedido não por mim mas integrado num grupo de seis jornalistas José Goulão, Rita Taborda, Fernando Correia, Artur Agostinho, Hub Teixeira e eu. Nada de confusões. Eu, como estava a falar do meu Natal, falei do meu despedimento mas tudo isto está integrado numa «limpeza étnica». O resto é conversa da treta e a única conversa de treta que me interessa é a do Zé Pedro Gomes e do António Feio. Percebeste ó Zézé? Tá entendido ó Toni? Ouve lá! Olha lá!
GRANDES PORTUGUESES

D. Afonso Henriques, Álvaro Cunhal, Salazar, Sousa Mendes, Pessoa, Gama, Camões, D. João II, Pombal e o infante D. Henrique foram os escolhidos, num concurso televisivo, como "os maiores portugueses de sempre"... A "votação" vale o que vale... Há grandezas que o voto não consegue avaliar, sobretudo quando se trata de aquilatar a grandeza com base em conceitos tão distintos quanto os da importância, da imortalidade, da notoriedade e da celebridade. Embora haja pessoas que misturam tudo numa salada russa intragável, são realidades muito diferentes.
As escolhas, nascidas do "sufrágio" de um número indeterminado de portugueses (não se contabilizaram abstenções), definem no entanto a mentalidade de quem votou.
Se considerarmos os cem nomes mais escolhidos e a hierarquização a que foram submetidos - podemos analisar o estado mental dos nossos compatriotas. É revelador (e preocupante) que um povo junte no mesmo saco personalidades tão distintas quanto as do padre António Vieira e as de Herman José ou Jorge Nuno Pinto da Costa; ou seja, que uma nação (ou parte dela) ponha ao mesmo nível a eminência cívica, espiritual e cultural e alguns dos símbolos da face mais rasca da sociedade portuguesa.

CEMITÉRIO DE PIANOS

Tenho estado a ler o novo romance de José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos. Tem parágrafos que são autênticos poemas... Toda a fluência narrativa é, aliás, fruto de uma escavação interior e prossegue numa "investigação" contínua do movimento pendular do Homem entre a vida e a morte, da sua dinâmica - e de actos anímicos entremeados de memória.
Chego à conclusão segura de que os pilares deste edifício romanesco são feitos de tensões emocionais (por vezes extremas) que sustentam tudo. E é da tensão das cordas do piano que nasce a música, dramática - por vezes fúnebre - ou produtora de júbilos que inundam a alma do leitor e a salvam por momentos.