JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

As mulheres e os maridos


O presidente do Conselho de Administração da União de Leiria terá provocado um conjunto de sonoras gargalhadas nos jornalistas presentes na apresentação do novo treinador do seu clube ao referir-se à ausência de público nos jogos disputados pela sua equipa em Leiria com a seguinte frase: «Só falam de Leiria. Mas Leiria é como todas as outras cidades. Apenas os três grandes têm sócios fidelizados. Antigamente não havia centros comerciais, cinemas… Além disso as mulheres agora mandam nos maridos
Para além do aspecto anedótico desta conversa é preciso ver algo mais. O que o presidente da União de Leiria lamenta é que o tempo em que os homens iam para o futebol ao domingo à tarde e as mulheres ficavam a passar a ferro, a costurar ou a arrumar roupa nas gavetas tenha acabado. Como sou natural de uma aldeia da Estremadura que pertence ao distrito de Leiria conheço perfeitamente o assunto. As coisas e as relações entre as pessoas levaram uma grande volta nos últimos anos e hoje as mulheres pura e simplesmente deixaram de cozinhar aos domingos. Basta ir ao Vimeiro, ao Acipreste, ao Peso, à Mata de Porto Mouro ou à Portela para ver as enormes filas de espera que se formam às portas dos respectivos restaurantes. E não são só as mulheres mais novas mas também as mais velhas. Claro que as refeições acabam tarde e depois a sugestão é para um passeio à praia da Foz do Arelho ou a São Martinho do Porto. Bebem a bica e passeiam à beira mar. Por isso o futebol fica para trás. E vai ficando cada vez mais porque as mulheres já não aceitam uma situação de subalternas. Mas parece que o presidente da União de Leiria ainda não percebeu que tudo à sua volta mudou nos últimos anos.

AMADEU BAPTISTA


calhou que um amigo foi pai da sofia
e eu andava a fazer incursões nas cores
que dão ao mundo não a medida certa
mas a forte desmedida de haver mundo.

e descobri que há entre o azul-clematite
e o azul da baviera duas espécies de azuis
verdadeiramente alucinantes,
sendo que uma é o azul-coração

e a outra o azul-criança – ou foi isto
o que inferi pela leitura. assim, imaginei
que esse amigo devia estar feliz e, para celebrar,
resolvi criar mais uma cor entre estas duas
para o fazer, quem sabe?, ainda mais feliz.

e inventei o azul-sofia.


PS - Como não sei falar nem escrever, pedi ao meu pai para agradecer ao Amadeu por este belíssimo poema. Bem haja! - Sofia Ventura



NOVO LIVRO DE NICOLAU SAIÃO


editado no Brasil



A Escrituras Editora, sediada em São Paulo (Brasil), dentro da Colecção Ponte Velha (dirigida por Carlos Nejar e António Osório), apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB), acaba de editar “Olhares perdidos”, de Nicolau Saião, organizado e prefaciado por Floriano Martins.
Nicolau Saião integrou o 2º movimento surrealista português, cuja actuação se situa nos anos 60 e configura um momento dentro de um painel de filiações e assimilações do movimento francês nas décadas anteriores. Trata-se de momento em que, no dizer de António Luís Moita, já se encontrava “digerida e superada […] a bela utopia da escrita automática a que, duas décadas antes, outros poetas haviam metido mãos inovadoras”. Pertence à mesma geração de Luiza Neto Jorge, muito embora comece a publicar somente em meados da década seguinte, e fazia parte de um grupo de vozes de certa forma isoladas, em Portugal, no que diz respeito a uma aproximação declarada do Surrealismo.
Saião esboça sua particularidade a partir do interesse pelo mistério e pelo humor negro, duas fontes de intranquilidade ou de subversão da realidade. Uma poética inquietante, que mais se aproxima do Surrealismo quanto menos afectada se mostra por sua ortodoxia. Sua relação com uma prática colectiva em torno do movimento leva-o a assinar manifestos, montar exposições, criar um Bureau Surrealista Alentejano, na região portuguesa onde habita, porém,aos poucos se vai configurando uma aposta no individual, e é justamente a partir daí que sua poesia melhor se define.
Nicolau Saião nasceu em Monforte do Alentejo, Portugal, em 1946, mas vive desde os três anos em Portalegre. É poeta, actor e artista plástico, tendo participado em mostras em diversos países (Espanha, França, Itália, Polônia, Canadá, Estados Unidos, Austrália e Brasil), além de ter exposto individualmente em diversas localidades (Paris, Lisboa, Porto, Elvas, Tiblissi, Portalegre, Messina, Borba, Campo Maior, Sevilha). Colabora com diversos jornais nacionais e regionais e em revistas literárias e artísticas: “Ler”, “Colóquio Letras”, “Apeadeiro”, “A Cidade”, “Bicicleta”, “Bíblia”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “Callipole”, “A Xanela” (Betanzos), “Abril em Maio”, “DiVersos – revista de poesia e tradução” (Bruxelas), “Albatroz” (Paris), “Mele” (Honolulu), “AveAzul”, “Espacio/Espaço Escrito” (Badajoz) e, agora, “Agulha” (Fortaleza, Brasil). Está representado em diversas antologias de poesia e pintura. Obra poética: “Os objectos inquietantes” (Editorial Caminho, Lisboa, 1992, que recebeu Prémio Revelação/Poesia, concedido pela Associação Portuguesa de Escritores), “Flauta de Pan” (Editora Colibri, Lisboa, 1998), “Assembleia geral” (Ed. Bureau surrealista alentejano, Portalegre, 1998) e “Os olhares perdidos” (Universitária Editora, Lisboa, 2000).

Desde a semana passada que este blogue conta com um índice remissivo. Basta descer a página até ao final... Boas visitas e boas leituras!

Carreiras (Portalegre), sítio do Castelo.