Aljezur

igreja da Senhora de Alva

2006
ARQUIVO DO NORTE ALENTEJANO

Desde ontem este blogue tem uma sucursal, dedicada ao Norte Alentejano. Arquivo de memórias, de visões e de olhares, publicará - entre muitos outros textos sobre o património material e imaterial da região - nomeadamente uma antologia de representações de Arronches, Castelo de Vide, Crato, Marvão, Nisa e Portalegre na literatura portuguesa e estrangeira.
Agradeço desde já a vossa visita a esta nova casa.
Levi Condinho

ANTÓNIO CABRITA & ALII
PASSANDO PELO NEONATURALISMO DOMINANTE

"[...] estamos perante uma das mais notáveis obras de poesia portuguesa da década de 90 do século findo [Arte Negra, de António Cabrita], pese embora o completo silêncio em seu torno por parte de certa crítica literária [...] oficial, académica e/ou de jornalismo opinativo, a mesma que tem, até agora, ignorado a importância de poetas do século XX tão altos como, por exemplo, João Pedro Grabato Dias, a mesma que pouca atenção tem dado à ficção quase poética de Rui Nunes ou que desconhece em absoluto esse romancista, decerto 'difícil' (como se foge, hoje, ao 'difícil'...), o perturbante Alberto Velho Nogueira, espécie de visionário transvanguardista de um apocalipse como que 'integrado'. Notoriamente, essa crítica tem privilegiado a tendência da poesia - não só portuguesa - que, desde finais do anos 80, vem cultivando o retorno a um classicismo retórico e descritivista, de pendor neonaturalista [...]."

(in Colóquio Letras, nº 161-162, Junho/Dezembro 2002)

A RODA DA FORTUNA


Brunetto, na Divina Comédia (canto XV do "Inferno"), "profetiza" a Dante o seu destino em Florença: "Velha fama lhes chama gente vesga; / de inveja, altiva e avara, se conserva: / mas não te importe a sua usança sesga. / Pois fortuna tal honra te reserva, / têm fome as duas partes e ciúme / de ti; mas fique longe o bico à erva."
A resposta do poeta é, no entanto, para todos nós, uma máxima contra a cobardia: "A meus ouvidos tal penhor não falha: / porém gire Fortuna a sua roda / como quiser, e o vilão sua malha."
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

As mulheres e os maridos


O presidente do Conselho de Administração da União de Leiria terá provocado um conjunto de sonoras gargalhadas nos jornalistas presentes na apresentação do novo treinador do seu clube ao referir-se à ausência de público nos jogos disputados pela sua equipa em Leiria com a seguinte frase: «Só falam de Leiria. Mas Leiria é como todas as outras cidades. Apenas os três grandes têm sócios fidelizados. Antigamente não havia centros comerciais, cinemas… Além disso as mulheres agora mandam nos maridos
Para além do aspecto anedótico desta conversa é preciso ver algo mais. O que o presidente da União de Leiria lamenta é que o tempo em que os homens iam para o futebol ao domingo à tarde e as mulheres ficavam a passar a ferro, a costurar ou a arrumar roupa nas gavetas tenha acabado. Como sou natural de uma aldeia da Estremadura que pertence ao distrito de Leiria conheço perfeitamente o assunto. As coisas e as relações entre as pessoas levaram uma grande volta nos últimos anos e hoje as mulheres pura e simplesmente deixaram de cozinhar aos domingos. Basta ir ao Vimeiro, ao Acipreste, ao Peso, à Mata de Porto Mouro ou à Portela para ver as enormes filas de espera que se formam às portas dos respectivos restaurantes. E não são só as mulheres mais novas mas também as mais velhas. Claro que as refeições acabam tarde e depois a sugestão é para um passeio à praia da Foz do Arelho ou a São Martinho do Porto. Bebem a bica e passeiam à beira mar. Por isso o futebol fica para trás. E vai ficando cada vez mais porque as mulheres já não aceitam uma situação de subalternas. Mas parece que o presidente da União de Leiria ainda não percebeu que tudo à sua volta mudou nos últimos anos.