E AGORA? (1)
Nunca tive grandes dúvidas em relação ao resultado do referendo, embora tenha defendido sempre a opção negativa. Esta tendência para a descriminalização de violações de bens jurídicos fundamentais faz parte do "espírito" da sociedade em que vivemos, dita "multicultural", embora no fundo seja apenas relativista, porque dominada pelo individualismo.
Se, por um lado, há uma crescente normalização de atitudes e de padrões de vida - manipulada pelo consumismo mais descarado -, por outro assiste-se a uma desresponsabilização dos cidadãos (quando abortam, quando se prostituem, quando se drogam, quando roubam, etc.), menorizando-os, sem se atribuírem responsabilidades verdadeiras àqueles que contribuem malevolamente para tais atitudes. No fundo, bem no fundo (por mais que nos custe), de há algum tempo a esta parte deixámos de ser verdadeiramente cidadãos, para passarmos a ser apenas utentes ou consumidores, cuja dignidade é apenas um instrumento político ou económico...
Esta tendência social - que deveria preocupar qualquer pessoa consciente - dá jeito às gerências políticas da coisa pública que, assim, se vêem livres de combates sempre muito difíceis (mas necessários), pondo em risco, contudo, o equilíbrio social, devido a uma separação erosiva entre a ética e a legalidade.
O perigoso disto tudo - para além da quebra da dignidade dos cidadãos, contruída sempre em torno da responsabilidade individual - é a emergência de formas assustadoras de populismo e de movimentos políticos fascizantes, que sabem aproveitar bem a angústia existencial que a desculpabilização causa entre as vítimas de actos eticamente reprováveis. Por ser esta uma tendência geral das sociedades pós-modernas em que vivemos, não nos admiremos então que por esse mundo fora (mormente na Europa) surjam cada vez mais movimentos neo-nazis...
ARQUIVO DO NORTE ALENTEJANO
Desde ontem este blogue tem uma sucursal, dedicada ao Norte Alentejano. Arquivo de memórias, de visões e de olhares, publicará - entre muitos outros textos sobre o património material e imaterial da região - nomeadamente uma antologia de representações de Arronches, Castelo de Vide, Crato, Marvão, Nisa e Portalegre na literatura portuguesa e estrangeira.
Agradeço desde já a vossa visita a esta nova casa.
Desde ontem este blogue tem uma sucursal, dedicada ao Norte Alentejano. Arquivo de memórias, de visões e de olhares, publicará - entre muitos outros textos sobre o património material e imaterial da região - nomeadamente uma antologia de representações de Arronches, Castelo de Vide, Crato, Marvão, Nisa e Portalegre na literatura portuguesa e estrangeira.
Agradeço desde já a vossa visita a esta nova casa.
Levi Condinho
ANTÓNIO CABRITA & ALII
PASSANDO PELO NEONATURALISMO DOMINANTE
"[...] estamos perante uma das mais notáveis obras de poesia portuguesa da década de 90 do século findo [Arte Negra, de António Cabrita], pese embora o completo silêncio em seu torno por parte de certa crítica literária [...] oficial, académica e/ou de jornalismo opinativo, a mesma que tem, até agora, ignorado a importância de poetas do século XX tão altos como, por exemplo, João Pedro Grabato Dias, a mesma que pouca atenção tem dado à ficção quase poética de Rui Nunes ou que desconhece em absoluto esse romancista, decerto 'difícil' (como se foge, hoje, ao 'difícil'...), o perturbante Alberto Velho Nogueira, espécie de visionário transvanguardista de um apocalipse como que 'integrado'. Notoriamente, essa crítica tem privilegiado a tendência da poesia - não só portuguesa - que, desde finais do anos 80, vem cultivando o retorno a um classicismo retórico e descritivista, de pendor neonaturalista [...]."
(in Colóquio Letras, nº 161-162, Junho/Dezembro 2002)
ANTÓNIO CABRITA & ALII
PASSANDO PELO NEONATURALISMO DOMINANTE
"[...] estamos perante uma das mais notáveis obras de poesia portuguesa da década de 90 do século findo [Arte Negra, de António Cabrita], pese embora o completo silêncio em seu torno por parte de certa crítica literária [...] oficial, académica e/ou de jornalismo opinativo, a mesma que tem, até agora, ignorado a importância de poetas do século XX tão altos como, por exemplo, João Pedro Grabato Dias, a mesma que pouca atenção tem dado à ficção quase poética de Rui Nunes ou que desconhece em absoluto esse romancista, decerto 'difícil' (como se foge, hoje, ao 'difícil'...), o perturbante Alberto Velho Nogueira, espécie de visionário transvanguardista de um apocalipse como que 'integrado'. Notoriamente, essa crítica tem privilegiado a tendência da poesia - não só portuguesa - que, desde finais do anos 80, vem cultivando o retorno a um classicismo retórico e descritivista, de pendor neonaturalista [...]."
(in Colóquio Letras, nº 161-162, Junho/Dezembro 2002)

A RODA DA FORTUNA
Brunetto, na Divina Comédia (canto XV do "Inferno"), "profetiza" a Dante o seu destino em Florença: "Velha fama lhes chama gente vesga; / de inveja, altiva e avara, se conserva: / mas não te importe a sua usança sesga. / Pois fortuna tal honra te reserva, / têm fome as duas partes e ciúme / de ti; mas fique longe o bico à erva."
A resposta do poeta é, no entanto, para todos nós, uma máxima contra a cobardia: "A meus ouvidos tal penhor não falha: / porém gire Fortuna a sua roda / como quiser, e o vilão sua malha."
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