NICOLAU SAIÃO, colaborador do Estrada do Alicerce desde as primeiras horas, faz hoje anos. Reproduzir aqui uma das suas pinturas, parte da série "Urze do Monte", é uma maneira simples de, à distância, darmos todos um abraço apertado ao pintor, ao poeta, ao cidadão e ao amigo.

Estremoz
UM POSTAL
PARA MÁRIO CESARINY:
"VIAGEM A ARCTURUS"

Pintores na surrealidade assinalam Cesariny (“Um Postal para Mário Cesariny”).

Mostra internacional, com autores de Portugal, Espanha, França, Estados Unidos, Escócia, Canadá, Itália, Brasil, Argentina… - 4 de Março a 1 de Abril

Entretanto, tem estado a decorrer, prolongando-se até 25 de Fevereiro, a mostra "Contemporâneos de Cesariny no acervo da Galeria de Desenho do Museu Joaquim Vermelho".

POESIA
Conversa a propósito da estadia de Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria e António Maria Lisboa em Estremoz (Colégio Moderno do Dr. João Falcato), com a récita de poemas de Cesariny, A. M. Lisboa e M. H. Leiria (Café Águias d’Ouro), com a presença de António Simões, Miguel de Carvalho e Nicolau Saião. - 24 de Fevereiro

Poetas na surrealidade em Estremoz – antologia - organizada por NS - lançada a 31 de Março, com poemas de Allan Graubard, Amanda Berenguer, António Barahona, Carlos Martins, Claudio Willer, C. Ronald, Floriano Martins, Gérard Calandre, Isabel Meyrelles, Jack Dauben, João Garção, João Paulo Silva, Juan Liscano, Maria Estela Guedes, Miguel de Carvalho, NS, Rafael Daud, Renato Suttana, Rosa Alice Branco, Ruy Ventura, Susana Giraudo, Wladimir Saldanha. Será ainda publicado um poema de Mário Cesariny cedido pelo Eng. José Alberto Reis Pereira, dedicado pelo A. a Saul Dias.


Ciclo levado a efeito pelo Museu Joaquim Vermelho (responsável, Dr. Hugo Guerreiro), com organização de Nicolau Saião e Carlos Martins e apoio de José Cartaxo

Agradecimentos: a Maria Estela Guedes, Ana dos Santos, Ruy Ventura, Cruzeiro Seixas e Floriano Martins.

(Imagem: "O papá que veio de leste", 1980, óleo de Mário Cesariny, col. João Garção)
E AGORA? (2)

O resultado do referendo conduziu à descriminalização do aborto em Portugal. Os resultados, tal como aconteceu em 1998, não servem no entanto para qualquer uma das tendências de voto embandeirarem em arco. Apesar de a abstenção ter diminuído, é preciso ter em conta que 56,9 % dos eleitores resolveram não se pronunciar sobre o tema em questão. (Muitos deles entenderam certamente a “jogada” de José Sócrates que, raposão, soube aproveitar este pretexto para lançar poeira sobre os olhos dos portugueses, desviando a sua atenção dos reais problemas do país e das manobras que vai maquinando...)
Por isto, é cómica, não fosse trágica, a euforia de alguns prosélitos do “sim”. Tentam a todo custo encobrir uma realidade: de um universo de 8.098.480 eleitores, só 3.777.131 votaram e, desses, apenas 2.238.053 aprovaram a descriminalização, isto é, 27,6% dos inscritos nos cadernos eleitorais... Esta atitude agora verificada é, infelizmente, uma réplica da assumida por alguns vencedores de ’98, provando que poucos aprendem algo com as lições do passado...
Com a descriminalização de um acto eticamente reprovável (nisso, sincera ou hipocritamente, todos os portugueses parecem estar de acordo... embora muitos esqueçam que, deste modo, se separou a lei da ética...), de ambos os lados há responsabilidades acrescidas.
Do lado do “sim”, espera-se uma postura consequente, na defesa igualmente acérrima dos direitos de todas as mulheres e respectivas famílias que recusam o aborto e desejam ter filhos. Gostaríamos todos que os eufóricos vitoriosos (que afirmam defender a vida... e eu acredito!) pugnassem agora pela concessão de incentivos à natalidade (num país em envelhecimento acelerado) – nomeadamente o alargamento das licenças de maternidade, tal como na Alemanha –, pelo apoio intenso aos casais em dificuldades económicas e com filhos, pela aprovação de mecanismos facilitadores da adopção de crianças, por um regime de efectiva protecção dos menores em risco, pela publicação de legislação que defenda os pais e mães deste país no emprego (a começar pela Função Pública), por uma eficaz fiscalização dos abusos que eventualmente se cometam nas futuras clínicas abortivas, por uma política de planeamento familiar que promova a responsabilidade, por uma lei do aborto que ainda assim promova a vida (fazendo perceber às mulheres eventualmente desesperadas que o aborto não é solução, mas problema), pela perseguição dos operacionais do aborto (não falo das mulheres!) praticado após as dez semanas.
Do lado do “não” espera-se a continuação e o aprofundamento das iniciativas que visam a ajuda às mães e às famílias em dificuldades, a denúncia persistente do mal ético que constitui o aborto (sem hesitações, mesmo perante insultos soezes), a vigilância activa da aplicação da lei do aborto que venha a sair do Parlamento. Mas, também, uma atitude consequente e verdadeira da parte de alguns líderes com voz ouvida na sociedade no campo social e religioso, nomeadamente defendendo uma educação para a sexualidade responsável, um planeamento familiar que evite o recurso ao aborto e uma acção transparente (não corrupta e/ou caciqueira) de algumas das instituições que tutelam. Espera-se ainda que alguns empresários ditos cristãos concretizem, sem hipocrisias, a fé que dizem professar, nomeadamente accionando nas suas empresas práticas laborais que protejam a maternidade e a paternidade (ao contrário do que actualmente se passa em muitos locais de trabalho).

JULIÁN RODRÍGUEZ


O lugar, a imagem
de Ruy Ventura

O livro de poemas de Ruy Ventura, O lugar, a imagem, pertence à colecção “Letras Portuguesas”, na qual a Editora Regional da Extremadura irá apresentando algumas das vozes fundamentais da mais recente literatura portuguesa: poesia, narrativa, ensaio... Esta edição, bilingue, conta com uma tradução para o castelhano de Antonio Sáez Delgado (Cáceres, 1970), poeta, ensaísta e prestigiado tradutor e professor da Universidade de Évora.

Uma citação de Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa e “autor” do Livro do Desassossego, abre este livro: “O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Em volta destas palavras se articula o poemário de Ruy Ventura, um dos nomes mais interessantes da nova poesia portuguesa. A imagem, parece dizer-nos, também pode ser “interior”, isto é, não construída com o olhar mas com as vivências, com os lugares visitados, vividos, sempre com uma carga de passado, de atemporalidade e, quase, de sacralidade. Uma fortaleza (a do Portinho da Arrábida, ou a de Aveyron), uma igreja (a de Portalegre), um castelo (o de Sesimbra, o das Carreiras, o de Valencia de Alcántara...), uma torre (a das Jerónimas, em Trujillo)... E não apenas lugares: também objectos, objectos “contemplados” (uma escultura antiga, uma talha de madeira...).
As paisagens – os lugares – são projectados na escrita com um distanciamento e uma dicção (sempre essa combinação: as formas populares e a vanguarda, digamos, tradicional) que as faz mais verdadeiras e duradouras: a emoção sempre contida e as palavras sempre ditas em voz baixa. A marca que deixa esta poesia tem que ver tanto com o dito como com o não dito. Sirvam como exemplo alguns versos do poema “regresso”, que nasceram, como assinala Ventura numa nota de rodapé, ao contemplar uma escultura do lendário rei português Dom Sebastião, um verdadeiro mito, mais sentimental do que heróico, no seu país:

“depositaste na pedra
o teu olhar sem sombra
para melhor suportares
o peso desses ombros,
recuperando a cinza
que ficou sobre o oceano.”
(p. 30)

E uma estela funerária romana encontrada em Mérida provoca estes outros, saídos do poema “memória”:

“mal oiço o som do alaúde em tua casa.
não consigo ver a pomba
voando sobre a cinza,
no sepulcro da ruína e desta alma.
exumei com os olhos
o mosaico que rodeava, talvez, esse coração –
mergulhado na água e na melodia.

séculos depois, encontro esse rosto
tão cedo escondido.
desenhado no mármore.
como numa fotografia.
esse sorriso escavando a penumbra da nave –

a iluminação das lágrimas
no interior do vidro.”
(p. 28)


Tradução de Duarte Correia, a partir da página da Editora Regional da Extremadura. Julián Rodríguez, escritor espanhol (Ceclavín, 1968), é o autor do design gráfico e da capa do novo livro de RV.



JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

Namorar a água e o fogo

A água e o fogo entram nas nossas casas todos os dias pelo ecrã da televisão.
Inundações na Roménia, fogos em Viseu, rios a transbordar na China, incêndios às portas de Coimbra. Todos temos sobre água e fogo as nossas memórias.
Os longos Invernos traziam as cheias. Águas amarelas, lamacentas, velozes.
Chovia durante semanas inteiras, o rio transbordava.
Ele subia para uma escada até à mais alta fresta do barracão do quintal, entre a palha e a lenha, entre a roupa a enxugar da mãe e as poucas alfaias agrícolas do pai.
Namorava assim a água. Nas tardes de Inverno a olhar. Sabendo que de noite os rios não existem – são apenas água a namorar a terra.
Desde sempre namorou o fogo. O do forno do pão.
Primeiro na casa da avó, um quintal grande onde se juntavam pelas tardes as mulheres mais velhas da aldeia. Mais tarde aprendeu a gostar de ver a mãe fazer o pão no forno da casa que o pai construiu num anexo. Ficava longos minutos a ver o fogo lento, as brasas em destruição silenciosa, o cheiro do pão a entrar em casa mesmo com as janelas fechadas. Hoje namora outros fogos. Num fogão de sala. Numa lareira.
Sempre que atravessa o barracão para trazer lenha repete os gestos da avó e da mãe: acender no fogo a memória do pão, repetir no lume a memória da infância, ir buscar ao calor a memória da paz desses dias perdidos.
Nota: Aproveito este post para dar um abraço ao autor, José do Carmo Francisco, por mais um aniversário. - RV