JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Pelos olhos de Célia


Pelos olhos de Célia passa toda a profundidade e todo o silêncio dos caminhos do Sul, toda a solidão dos montes perdidos entre o vento e a luz, todo o longe das planícies secas neste Verão que parece não ter fim.
Emília, a dona da casa onde escuto e contemplo Célia, serve-nos um aromático café que se perfila na mesa ao lado de uma taça de arroz-doce e um prato com algumas batatas doces acabadas de assar no forno.
Pelos olhos de Célia passa uma paisagem povoada pela saudade: o arroz-doce lembra as alegres mondadeiras com lenço e chapéu que regressam a cantar do campo ao fim do dia e a batata doce lembra as jovens campaniças que passam a caminho de casa com o cesto dos mimos da horta fechando assim as portas da tarde.
O lugar onde Célia sorri e fala de mansinho tem o estuário do Tejo à esquerda e a Estrada de Pegões à direita. Entre a água e a terra, entre os pescadores e os camponeses, há neste lugar um intervalo onde apetece ficar. Como se o sal destas velhas salinas sugerisse o prolongamento deste encontro entre água e terra. Assim o encontro ficaria conservado numa espécie de arca onde o olhar de Célia, suas memórias e suas paisagens povoadas, não se iria perder na monotonia e no desgaste de todos os dias.
Pelos olhos de Célia passa uma música suave cruzando, de maneira harmónica, as cantigas das mondadeiras e as melodias da viola campaniça. É essa música, essa mistura da voz das raparigas e da viola campaniça, é essa música que eu continuo a ouvir em todos os cruzamentos da estrada no caminho de regresso às convenções, às conveniências e às obrigações do quotidiano.
PROSÉLITOS DO NEONATURALISMO (1)

De vez em quando surge nas discussões aparentemente poéticas o tema da abstracção.
O repúdio por esta - ultimamente expresso por João Luís Barreto Guimarães nas "Correntes" poveiras, conforme relatou o Diário de Notícias de 10 de Fevereiro - leva no entanto água no bico.
Ao contrário do que parece, esta posição constitui um ataque contra toda a poesia que não use uma linguagem neonaturalista, pois se virmos bem são muito poucos os verdadeiros exemplos de abstracção poética que, mesmo assim, só existem negativamente quando constituem um estéril jogo verbal.
Fora da abstracção estão as linguagens hermética e simbólicas e a reflexão sobre realidades imateriais, intangíveis ou enigmáticas, reveladoras de uma aproximação ao concreto muito mais intensa do que se pensa.
Mas lembremos Vitorino Nemésio. Nem concreto nem abstracto são propriamente poesia...

Floriano Martins





A TORTURA DA REFLEXÃO





Precipitas teu olhar sobre meu corpo,
entrelaçando vertigens, salpicando hábitos,
adiando aquele último verso que expande
o que jamais em mim conquistarias.
Não é em mim que teu mundo se esgota.
Nem sou o lastro de tua agonia irremediável.
Tuas mãos soluçam ilusões quando me tocam,
lapidam amores perfeitos pela tarde inteira.
Não há linguagem que não se adie ante a flor
que descanso à margem de minha saia.
Não importa que me confundas com outra:
os teus enganos serão sempre os mesmos.





(Pintura de Hélio Rola.)

NICOLAU SAIÃO, colaborador do Estrada do Alicerce desde as primeiras horas, faz hoje anos. Reproduzir aqui uma das suas pinturas, parte da série "Urze do Monte", é uma maneira simples de, à distância, darmos todos um abraço apertado ao pintor, ao poeta, ao cidadão e ao amigo.