PROSÉLITOS
DO NEONATURALISMO (2)
João Luís Barreto Guimarães não foi o primeiro autor a atacar aquilo a que chamou a "poesia abstracta" - nem será, decerto, o último a fazê-lo. Infelizmente, o desdém nunca tem sido suficientemente claro para que entendamos o que pensam ser a tal abstracção poética. Partindo do princípio de que não confundem conceitos tão diferentes quanto os de "abstracção", "hermetismo", "surrealidade" ou "simbolismo", então os prosélitos desta batalha têm produzido juízos propositadamente ambíguos, ferramentas propícias para lançarem o anátema sobre todas as formas poéticas que não partilhem do neonaturalismo (expressão feliz de Levi Condinho) que vêm adoptando como veículo dos seus poemas. Alguns dos recém-convertidos não hesitam mesmo em repudiar pela calada várias obras suas, como por exemplo o supracitado autor de Rua 31 de Fevereiro, subscritor no início da sua deambulação pela república das letras de três bons livros que, nos seus critérios, podem ser considerados "abstractos"...
Este proselitismo neonaturalista - revestido sempre de boas intenções ("generosas", como diriam os sequazes mais ortodoxos do neo-realismo militante dos anos '40 - '50) - vem sendo agarrado (ou reinventado) pelos chamados "poetas sem qualidades", integrados num apostolado falsamente realista que tem como guru Joaquim Manuel Magalhães, mas, no fundo, bem no fundo, se reveste de um subreptício epigonismo de certas linhas mais facilitistas de alguma poesia anglo-saxónica e da "poesia da experiência" hoje divulgada e fabricada nalguns meios espanhóis.
(continua)
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
Pelos olhos de Célia
Pelos olhos de Célia passa toda a profundidade e todo o silêncio dos caminhos do Sul, toda a solidão dos montes perdidos entre o vento e a luz, todo o longe das planícies secas neste Verão que parece não ter fim.
Emília, a dona da casa onde escuto e contemplo Célia, serve-nos um aromático café que se perfila na mesa ao lado de uma taça de arroz-doce e um prato com algumas batatas doces acabadas de assar no forno.
Pelos olhos de Célia passa uma paisagem povoada pela saudade: o arroz-doce lembra as alegres mondadeiras com lenço e chapéu que regressam a cantar do campo ao fim do dia e a batata doce lembra as jovens campaniças que passam a caminho de casa com o cesto dos mimos da horta fechando assim as portas da tarde.
O lugar onde Célia sorri e fala de mansinho tem o estuário do Tejo à esquerda e a Estrada de Pegões à direita. Entre a água e a terra, entre os pescadores e os camponeses, há neste lugar um intervalo onde apetece ficar. Como se o sal destas velhas salinas sugerisse o prolongamento deste encontro entre água e terra. Assim o encontro ficaria conservado numa espécie de arca onde o olhar de Célia, suas memórias e suas paisagens povoadas, não se iria perder na monotonia e no desgaste de todos os dias.
Pelos olhos de Célia passa uma música suave cruzando, de maneira harmónica, as cantigas das mondadeiras e as melodias da viola campaniça. É essa música, essa mistura da voz das raparigas e da viola campaniça, é essa música que eu continuo a ouvir em todos os cruzamentos da estrada no caminho de regresso às convenções, às conveniências e às obrigações do quotidiano.
Pelos olhos de Célia
Pelos olhos de Célia passa toda a profundidade e todo o silêncio dos caminhos do Sul, toda a solidão dos montes perdidos entre o vento e a luz, todo o longe das planícies secas neste Verão que parece não ter fim.
Emília, a dona da casa onde escuto e contemplo Célia, serve-nos um aromático café que se perfila na mesa ao lado de uma taça de arroz-doce e um prato com algumas batatas doces acabadas de assar no forno.
Pelos olhos de Célia passa uma paisagem povoada pela saudade: o arroz-doce lembra as alegres mondadeiras com lenço e chapéu que regressam a cantar do campo ao fim do dia e a batata doce lembra as jovens campaniças que passam a caminho de casa com o cesto dos mimos da horta fechando assim as portas da tarde.
O lugar onde Célia sorri e fala de mansinho tem o estuário do Tejo à esquerda e a Estrada de Pegões à direita. Entre a água e a terra, entre os pescadores e os camponeses, há neste lugar um intervalo onde apetece ficar. Como se o sal destas velhas salinas sugerisse o prolongamento deste encontro entre água e terra. Assim o encontro ficaria conservado numa espécie de arca onde o olhar de Célia, suas memórias e suas paisagens povoadas, não se iria perder na monotonia e no desgaste de todos os dias.
Pelos olhos de Célia passa uma música suave cruzando, de maneira harmónica, as cantigas das mondadeiras e as melodias da viola campaniça. É essa música, essa mistura da voz das raparigas e da viola campaniça, é essa música que eu continuo a ouvir em todos os cruzamentos da estrada no caminho de regresso às convenções, às conveniências e às obrigações do quotidiano.
PROSÉLITOS DO NEONATURALISMO (1)
De vez em quando surge nas discussões aparentemente poéticas o tema da abstracção.
O repúdio por esta - ultimamente expresso por João Luís Barreto Guimarães nas "Correntes" poveiras, conforme relatou o Diário de Notícias de 10 de Fevereiro - leva no entanto água no bico.
Ao contrário do que parece, esta posição constitui um ataque contra toda a poesia que não use uma linguagem neonaturalista, pois se virmos bem são muito poucos os verdadeiros exemplos de abstracção poética que, mesmo assim, só existem negativamente quando constituem um estéril jogo verbal.
Fora da abstracção estão as linguagens hermética e simbólicas e a reflexão sobre realidades imateriais, intangíveis ou enigmáticas, reveladoras de uma aproximação ao concreto muito mais intensa do que se pensa.
Mas lembremos Vitorino Nemésio. Nem concreto nem abstracto são propriamente poesia...
De vez em quando surge nas discussões aparentemente poéticas o tema da abstracção.
O repúdio por esta - ultimamente expresso por João Luís Barreto Guimarães nas "Correntes" poveiras, conforme relatou o Diário de Notícias de 10 de Fevereiro - leva no entanto água no bico.
Ao contrário do que parece, esta posição constitui um ataque contra toda a poesia que não use uma linguagem neonaturalista, pois se virmos bem são muito poucos os verdadeiros exemplos de abstracção poética que, mesmo assim, só existem negativamente quando constituem um estéril jogo verbal.
Fora da abstracção estão as linguagens hermética e simbólicas e a reflexão sobre realidades imateriais, intangíveis ou enigmáticas, reveladoras de uma aproximação ao concreto muito mais intensa do que se pensa.
Mas lembremos Vitorino Nemésio. Nem concreto nem abstracto são propriamente poesia...

Floriano Martins
A TORTURA DA REFLEXÃO
Precipitas teu olhar sobre meu corpo,
entrelaçando vertigens, salpicando hábitos,
adiando aquele último verso que expande
o que jamais em mim conquistarias.
Não é em mim que teu mundo se esgota.
Nem sou o lastro de tua agonia irremediável.
Tuas mãos soluçam ilusões quando me tocam,
lapidam amores perfeitos pela tarde inteira.
Não há linguagem que não se adie ante a flor
que descanso à margem de minha saia.
Não importa que me confundas com outra:
os teus enganos serão sempre os mesmos.
(Pintura de Hélio Rola.)
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