AINDA VALE A PENA RECORDAR...

... que este é um tempo de Quaresma. Mesmo para os não-cristãos, parece-me positivo este período de paragem e de reflexão, tal como propõe António Justo.

Portalegre
o que resta da igreja de Santa Maria a Grande
José do Carmo Francisco



Videntes, astrólogos,
curandeiros e médiuns

Uma pessoa entra no Metropolitano de Lisboa e leva logo com dois jornais grátis. Claro que não são bem jornais. São uma pequena imitação em formato e em qualidade daquilo que supomos ser um jornal com as suas diversas secções e o seu artigo de fundo. Numa coisa, porém, eles são iguais aos outros jornais, aqueles pelos quais temos que pagar um preço. É na presença obsessiva de anúncios de videntes, astrólogos, curandeiros e médiuns.

É espantosa a panóplia de oferecimentos que estes senhores proclamam: resolvem problemas de amor, negócios, família, droga, impotência sexual, inveja, vícios, impotência sexual, retorno de afeição, problemas financeiros, amor, recuperação de empresas, inveja, mau olhado, falta de sorte, problemas financeiros, problemas judiciais, falta de confiança, dificuldade em engravidar, impotência sexual, álcool, drogas, falta de vitalidade. Mas não ficam por aqui: resolvem também amor, negócios, insucesso, inveja, impotência sexual, amarração, drogas, inveja, maus olhados, drogas, álcool, impotência sexual, fertilidade e por último este mimo – faz voltar amigos e amores. Este elenco tem várias repetições mas tal acontece de propósito pois pretendi juntar os cinco professores (são todos professores…) nas suas múltiplas capacidades apregoadas. Seria para rir se não fosse para chorar a pobreza de algumas delas como «problemas judiciais» como se todos nós não soubéssemos que os assuntos dos tribunais só podem ser tratados por quem domine os seus códigos. Isto sem esquecer as «recuperações de empresas» que afinal o IAPMEI não está informado sobre as capacidades destes professores africanos. Só não sabemos quem lhes deu o diploma.
Aurélio Porto


2

O preço da beleza, nestas ruínas amorosamente
reerguidas, é sem preço. O calcário em pedra solta
e firmes angulares, a talha rasando rente
e os volumes que como harmónio em volta

um só concerto tangem. E a rocha em frente
à pedra impõem a pequenez, enorme nessa rota
que faz a baía tecer de azul fremente
o belo impoluto na mais pura nota.

Até os pássaros no vinhedo prestam o tributo
debicando os bagos, e o majestoso pinheiro
no silêncio ergue seu hino. Lazareto outrora,

hoje este canto do passado ao presente faz o luto,
a ele trazendo a exacta medida do dinheiro,
do que vale e não vale, e do que vale a Hora.

Hotel Lazareto, Castro de Monemvassiá, 16.05.05


15

Defronte a mim Ítaca. Mas era esta? Ou outra? Ou
Quefalónia? Ou quê? Mas é pátria, a pátria sempre
buscada, nunca encontrada. O retorno impossível, anos
a fio. E, de súbito, ei-la. E não é ela. Que pátria temos?
O mundo, a terra? Estamos no mundo até ao pescoço,
unha com carne nós e o mundo. E porém não somos
deste mundo. Inacessível pátria, não ta dão gritos,
bandeiras, cores, aplausos. Outros que a ordenhem
assim. Dela recordas a face agora oculta, a terra que
amaste, a que se retirou. Quem dela regressará?

Antisamos, Quefalónia, 22.05.05
Tróia, Setúbal, 13.07.06


(in O Sopro A Mãe A Grécia - 22 sonetos e dois prosopoemas, que integra a colectânea da poesia inédita do autor intitulada Flor de um Dia, ela também inédita)

CRIAÇÃO POÉTICA

segundo Álvaro Ribeiro



“Poesia quer dizer criação. O homem recebeu a aptidão de criar com palavras aquele mundo (ou sobremundo) da cultura que o separa e distingue da animalidade. Sem a palavra significante não seria inteligível o culto, nem a cultura, nem a civilização.”

“O essencial da poesia não está na musicalidade que a metrificação, a versificação e a composição possam dar à sequência dos fonemas no discurso oral; não está ainda no carácter emocional de que o poeta reveste a expressão literária; está, sem dúvida, no efeito comunicativo dos tropos. A relação do sentido com o imaginado, dos sentidos com as imagens, projecta-se na movimentação verbal que confere à linguagem humana a sua virtude poética. Quanto mais essa movimentação se assemelhar à fluidez do sonho, no intento de transgredir ou transcender as condições normais do pensamento humano, mais livre está o poeta na sua criação.”

“Seguir e perseguir metodicamente as metáforas, – eis um preceito libertador que recebemos das doutrinas mais antigas. Muitos dos que o proclamam, e aconselham, não o cumprem imediatamente. Exemplo notável é o daqueles escritores que, desatentos às leis da vida, não conseguem descobrir a mediação lógica entre a cultura da fraternidade universal e o culto prestado a nosso Pai.

“Liberto por educação, o poeta elaborará depois o seu órgão próprio de intuição sobrenatural. Ele há-de meditar sobre a sequência dos heróis representativos do seu povo, aqueles que, por atingirem o ponto de tangência entre a humanidade e a divindade, «se vão da lei da morte libertando». Transformar a série histórica em série simbólica, mais verdadeira porque universal, é acto de imaginação que se propicia apenas aos poetas inspirados.”

“O essencial da poesia está, quanto a nós, no pensamento expresso pelos tropos, quer dizer, na possibilidade de ascensão ao plano espiritual. Em consequência dizemos que a poesia é análoga da profecia e da teologia. Convém, todavia, para bom entendimento desta doutrina, que ninguém confunda a profecia com qualquer forma de mântica ou de adivinhação.”


(in A Razão Animada, 1957)