Até dia 10 de Abril
estarei por estes e por outros lados.
Desejo a todos uma santa Páscoa.
José do Carmo Francisco


Um lugar para a crónica

Esta crónica semanal, escrita com a paixão do amador e com o rigor do profissional, tem nascido nos mais diversos lugares. Umas vezes surge na esplanada do senhor Oliveira no Príncipe Real entre turistas estrangeiros e famílias portuguesas que fingem tomar conta dos cães. Outras vezes nasce no Parque das Nações depois de um passeio à beira do Tejo e antes de beber um gin tonic no Café do Peter. Também acontece, quando acontece, no Chiado, algures entre o Café di Roma e a imagem do Castelo de São Jorge. Outras vezes escrevo-a no pequeno sofá onde procuro esquecer as canseiras de 39 anos de trabalho sem qualquer interrupção.
A partir de hoje, porém, este ritual semanal que já não posso dispensar, passa a ter um lugar. O seu lugar. Trata-se de um quadro feito a ponto cruz pela minha amiga Idalina, minha antiga chefe de secção no BPA, uma amizade de sempre e para sempre. Ela não se limitou a desenhar a ponto cruz um motivo belíssimo ou seja um caderno para escrever à esquerda do quadro e uma caneta à direita. Juntou ao conjunto uma rosa que tudo sobrevoa e tudo enche de perfume. E preservou o conjunto numa moldura de castanho escuro que se fecha num vidro capaz de desviar todo o pó do Mundo. Para a minha amiga Idalina a separação entre arte e artesanato não faz qualquer sentido. Este trabalho tem muitas horas de esforço, de paciência, de rigor. Tudo isto pontuado pela festa das cores, pelo feliz equilíbrio entre dois mundos – o mundo vegetal da rosa vermelha e o mundo mental da palavra em construção. A partir de hoje tenho um lugar para escrever a minha crónica. Não posso desiludir a minha amiga Idalina nem os meus ouvintes.
E SE TIVESSE SIDO
CUNHAL O VENCEDOR?

E se tivesse sido Cunhal o vencedor do concurso? Teríamos, decerto, uma boa parte da esquerda rejubilante com a elevação aos altares televisivos desse seu "santo" (assim o apresentou Odete Santos), "coerente" até ao fim na defesa e glorificação dos regimes totalitários envolvidos pela ideologia marxista-leninista e/ou estalinista, regimes que, por esse mundo fora, deram cabo e continuam a destruir a dignidade, a liberdade e a vida de tantos cidadãos.
Se a "medalha de prata" ganha por Álvaro Cunhal demonstra nalguma medida também um protesto contra a governação dos últimos trinta anos, a sua votação terá sido fruto, em grande parte, de uma mobilização telefónica militante dos comunistas ou simpatizantes do PCP (uns por convicção, outros por boa-fé demasiado distraída). Ao contrário de Salazar, os defensores do representante máximo dos ideais soviéticos no nosso país estão muito mais organizados, enquadrados na sua maioria por um partido que não esconde totalmente os seus propósitos mais íntimos.
Faces da mesma moeda, no ódio contra a democracia representativa, há no entanto diferenças entre Salazar e Cunhal: o primeiro foi ditador, o segundo gostaria de tê-lo sido. Nem vale a pena contra-argumentar-se com a sua luta anti-fascista. Vai uma grande diferença entre o digno combate contra o Estado Novo em defesa da Liberdade e da Democracia e um outro combate contra esse mesmo regime político que visava, ao fim e ao cabo, apenas a instauração de uma "ditadura do proletariado".

A VITÓRIA
DE SALAZAR


Salazar venceu. Como referiu há tempos um conhecido humorista, pela primeira vez, depois de morto, foi escolhido através de eleições...

Na falta de outros meios eficazes de protesto contra o estado lastimável e lastimoso do país, um punhado de portugueses aproveitou a oportunidade de um concurso televisivo para exprimir o quanto não lhes serve a roupa desta "democracia" que nos reveste.

Não acredito que a maior parte dos "votantes" no ditador (a propósito, teríamos gostado muito que a RTP nos informasse quantos foram...) o estime ou deseje um puro regresso ao passado. Manifestaram quanto lhes repugna o perfil de quem os representa e/ou governa, gente que, manipulando os instrumentos proporcionados pelo sistema político, com hipocrisia ludibria os seus concidadãos, promove a injustiça e a ilegalidade, age com prepotência, permite a corrupção e o tráfico de influências ou enriquece através deles.

Este sinal, valendo o que vale, traz portanto uma mensagem forte e muito clara, que certa gente não entenderá ou quererá entender. Avestruzes, admirar-se-ão e indignar-se-ão mais tarde, se ao poder legislativo ou executivo chegarem movimentos populistas e/ou de extrema-direita.

Nicolau Saião



GÉNESIS


Pode fazer-se um poema com restos de poemas
e nem sequer só nossos. Basta saber escolher, tal como
uma dona de casa catando coisas frugais
numa perdida loja de subúrbio. (No entanto
o problema é: como conciliar os invisíveis
ou visíveis rastos de luz que as palavras
fazem rodar entre a noite e a manhã
das letras).Ou, melhor ainda
entre mil silhuetas de páginas desconhecidas
de esquecimentos
de risos ou
de decisivos desprezos.

O como, o talvez, os advérbios de lugar
ora dormem ora despertam. Podemos dispô-los
como flores silvestres
como pedras fibrosas ou tijolos
ao longo dum muro de quinta
no interior real dum jardim
ou como pedras tumulares
essenciais e descontínuos. Podemos trocar
a memória dum substantivo, de uma mancha de sangue, de uma
bastonada na cara ou de um suspiro. Podemos tirar
duma frase engolida o duro perfil duma alegria, ou mesmo
um verbo definitivo para um contentamento
um tempo a morrer
estático ou já liberto. Ouçam

o canto da noite: nesse silencio, pé ante pé
há ruídos e gestos, uma que outra amargura, a matéria sensível
que os poemas abandonaram. Ouçam o canto
da noite: cidades ao amanhecer, os sons inúmeros, nítidos, a substância
de um vulto ao crepúsculo. (A grande chuva, o grande sol
que nada mais são que recordações
trazidas por alguém
numa folha rasgada, num fragmento de minutos). Ouçam
o canto da noite
e saibam depois esquecer.

Todo o livro é um simulacro. Algo que se perdeu. Mas todo o livro existe
na sua atmosfera de fechada revelação
de velada inexistência
de apenas sopro ou vestígio
de móvel ou imóvel figura destroçada. Sim, pode fazer-se
não um mas muitos poemas sobre o como e o porquê
ou sobre o nada que eles, afinal, revelam
ou sobre o muito que eles, afinal, são
ou sobre o muito e o nada que lhes reside em volta
enquanto os anos perdem a nitidez
e as fronteiras perdem o sul e o norte
a sua altíssima impresença o seu finíssimo vazio
a sua transparência abominável
e sagrada
de desabafo
ou sortilégio. Sim, ouçam o canto da noite
a tal coisa que engrena
e se põe a correr
e se põe a parar
e cria em volta como que o esvoaçar de um planeta
com barulhos, com súbitas cores, com mágoas e magias. Sim,
ouçam o canto
da noite.

Ou até, talvez
o começar do dia
as palavras uma a uma no seu sereno balbuciar
quando as páginas são apenas ardilosas reminiscências
num papel amarfanhado

e a nossa voz é um reflexo num conjuntivo ou numa vírgula.


(in Flauta de Pan, 1998 - com pintura de João Garção, "Génesis")