José do Carmo Francisco


Um scotch para Maria José


O whisky que me ofereceste hoje, como resgate de um Natal sem ponto de encontro possível na rigidez dos horários e na força opressiva das convenções quotidianas, tem doze anos. Ostenta mesmo um insuspeito certificado emitido pela destilaria que o fabricou afirmando que foi mesmo há doze anos que se juntou o malte à mais pura das águas das terras altas da Escócia.
Mas nós não temos doze anos. Temos muitos mais. Eu comecei a querer conhecer-te em 1976, o mesmo é dizer trinta anos, quando chegaste de um banco comercial mais pequeno que o nosso e ficaste admirada com a vivacidade dos nosso plenários. No teu pequeno banco no largo do Rossio toda a gente se conhecia e não havia plenários com votações de braço no ar.
Junto dois cubos de gelo ao whisky no qual fizeste para mim uma festa de Natal em Abril e bebo de puro prazer à tua saúde. E também à nossa.
Ter saúde é tu continuares a ser aquela mulher-menina que corava com as piadas mais desenvoltas e picantes de um grupo numeroso e habituado a trabalhar num grande espaço e em quantidades industriais. Tu vinhas até nós, simples, paciente e discreta, mas na verdade chegavas de uma espécie de oficina de artesanato. Nós éramos muitos e, nessa escala, éramos uma grande fábrica. O teu banco era pequenino; o nosso era um colosso.
Ter saúde é eu poder continuar a ver nos teus olhos a frescura da água que desce da tua terra até ao leito do afluente mais bonito do Rio Mondego. Ter saúde é eu poder continuar a cantar em prosa e em verso o som da tua voz que multiplica os sons da terra. Ou do teu rosto onde há sementeiras de luz e de ternura. Hoje como em 1976 continuas a ser uma mulher-menina a corar perante uma piada de escritório.
ENGANOS

Umas das vantagens da internet é conseguirmos aceder a informações e opiniões livres de censura, daquela censura que normalmente corta a dignidade dos seres humanos, impondo-lhes o medo.
Há poucos dias descobri este comentário no Portugal Diário sobre uma realidade que, pela geografia, me é muito próxima. Embora não concorde com tudo quanto afirma (não estou convencido da inocência de Sócrates e sei que o anterior bispo de Portalegre, antes de se aposentar, expulsou dos seus domínios os burlões que por lá havia), aqui o deixo à consideração dos leitores:

Lopo de Carvalho
2007-04-15 01:17
Em sã consciência, não me parece que o chefe do governo se tenha metido em falsificações ou enganos quanto às suas habilitações literárias. Mais tarde ou mais cedo isso será claro. No entanto, é facto que em Portugal há pessoas, gente decerto disfuncional, que se arroga ter curso superior sem de facto o ter. No Alentejo, mais concretamente na cidade de Portalegre, conhecem-se dois casos que são públicos e manifestos, ainda que um tenha tido mais divulgação: o de um indivíduo que durante cerca de um quarto de século desempenhou o cargo de professor e até de director dum estabelecimento de ensino sem ter habilitações próprias, pois forjara os documentos que o davam como licenciado. O caso está sob a alçada da Policia Judiciária. Outro caso é o de um fulano que, sem ter também habilitação apropriada, se apresentou durante cerca de vinte anos como doutor, chegando a desempenhar um cargo de relevo num periódico portalegrense, onde perseguia quem não lhe agradava e agia discricionariamente. Em diversas ocasiões chegou a participar em "sessões culturais" junto do anterior Bispo de Portalegre e Castelo Branco, deixando que o apresentassem como doutor. Hoje sabe-se que não é assim por, de acordo com o que referiu na rádio local um conhecido articulista da mesma, ter sido desmascarado. Mas o mais estranho é que, apesar disto, já tem sido convidado para algumas sessões na Biblioteca daquela cidade, onde continua a ser apresentado como doutor. É um caso insofismável e pergunta-se: o ministério da Educação, através dos funcionários dos ramos intermédios locais, tem conhecimento deste caso? Se não tem, é muito estranho que ainda não tenha. Mas se tem, porque deixa que exista um caso tão esquisito...e disfuncional? Aquela parte do Alentejo não se rege por leis como o resto de Portugal?

De vez em quando apetece-me visitar Brian Strang e contemplar as suas pinturas. Nelas, a imanência do universo, natural ou construída pelos homens, dialoga com as palavras para nos reconciliar com o mundo cão em que vivemos.
translação



mãos (e outros símbolos)
pairam sobre nós criando
formas imperfeitas
que os olhos não conseguem fixar.
círculos de fogo (ou de vento)
sobrepõem-se ao tronco e à cinza
e tentam contrariar o elevador
que desce até ao fundo
atravessando sedimentos, ossos
e outros restos orgânicos.

nenhuma ave
poderia representar a ambivalência
da paisagem. nessa fronteira
entre concreto e abstracto
apenas símbolos e raízes
guardam força suficiente
para resistirem ao terramoto.

é impossível seguir
o movimento das mãos. sopro e metal
transcendem juntos os átomos
e a matéria. no eixo do mundo

preparam sobre os olhos
a outra translação da imagem.

paz e ciência
transmitem à nascente
a direcção do vento.
um nome nos bastaria
para que a pudéssemos alcançar.


("Pás de Vento, Ventos de Paz", esculturas de José Aurélio, 2006)




Foi lançada no passado dia 15 de Abril a antologia Poetas na Surrealidade em Estremoz, organizada por Nicolau Saião e editada pela Câmara Municipal dessa cidade alentejana, através do Museu Dr. Joaquim Vermelho. Vale a pena procurá-la e lê-la com a atenção que merece.