A RECUSA DE GAMBETTA


Gambetta (então primeiro-ministro francês) justificou assim a Renoir a sua recusa de um projecto de mural para o novo edifício da Câmara Municipal de Paris:
"Mais vale ver a República viver com a má pintura do que vê-la morrer com uma grande arte..."
O político afirmava amar a pintura de Pierre-Auguste, ou pelo menos reconhecia a sua eminência. Os seus (contra)valores eram no entanto outros. Talvez por isso caiu da cadeira pouco tempo depois. Ao contrário do que pensava, a verdadeira Arte vai permanecendo (mesmo quando ocultada), enquanto os regimes e os governos cedem facilmente à erosão do tempo.
E os Gambetta de hoje? Na sua maioria, nem reconhecem nem amam a Arte. Mesmo quando parecem fazê-lo, continuam a preferir pomposos pilritos (que fazem vista sem incomodar ninguém), ignorando o trabalho destes no esboroamento dos políticos e dos regimes que os promovem.



(Na imagem: "Le Moulin de La Galette", de Renoir.)

miragem
[Montpellier-le-Vieux]



divido a garganta
entre a água e a terra.
o mapa levanta-nos.
a voz descobre na estrada
um fio de sangue
estreitando o continente,
um fio de ouro
correndo a meio da garganta,
no local exacto onde
uma palavra secciona
luz e o coração.

uma sílaba afasta-nos do mundo,
deste mundo.
as torres dissolvem
aquele húmus na atmosfera.
o arco divide a medula,
a rama dos carvalhos.

nada vislumbro neste poço.
a lua e o alimento desapareceram.
regresso ao âmago da terra.

Ponho a minha assinatura nesta opinião.

AMADEU BAPTISTA

lança novo livro


É hoje o lançamento do novo livro de Amadeu Baptista, recentemente galardoado com o Prémio Sebastião da Gama. Trata-se de uma antologia pessoal da sua poesia, intitulada Antecedentes Criminais, abarcando textos dados à estampa entre 1982 e 2007.
A apresentação, a cargo de Baptista-Bastos, decorrerá na FNAC Chiado, pelas 18h30.
José do Carmo Francisco

Fátima Murta –
Quando o poema se confunde com a oração


Desde sempre os poetas tiveram a coragem de chamar todas as coisas pelos seus nomes. Pois se a vida é tão breve e o amor tão incerto que outra oposição podemos fazer à morte além da criação de poemas, pequenos alicerces na grande casa da posteridade?
A posição do poeta é coincidente com a do crente. Ambos ajoelham em silêncio e ambos levantam do chão a palavra cansada para ligar de novo dois mundos separados pela distância, pelas sombras e pelo esquecimento.
Em «Consumatum Est» Fátima Murta afirma:
«Poderiam retirar-me tudo na vida menos a prece, a oração.»
A ligação entre a oração e o poema está no amor porque o amor é a única resposta à morte mesmo quando («Viola Delta III») não sabemos, ao certo, o que é o amor:
«Não sabemos o que é o amor mas, amor, amamos o que desconhecemos
E mesmo quando a morte tem a dimensão do espectáculo planetário transmitido em directo (11 de Setembro) ou do Holocausto de 1939/1945, é sempre possível cantar em poema «A última vítima de Auschwitz»:
«Apenas mais uma túlipa mais que seca a pele e o olhar. / Apenas mais uma mulher que um dia sonhou com um jardim. / Apenas mais uma mulher. / Já nada tem de seu.»
A única resposta ao sangue derramado dos timorenses é um poema a Santa António de Lisboa em «Santa Cruz de Timor»:
«António, meu Santo António de Dili, de Baucau, de Bobonaro / Meu Coronel Santo António alistado na milícia de Maria / Casa o Mar do Homem com o Mar da Mulher / e fica à espera que a nova bandeira da paz entre os homens / brilhe junto à gruta onde foi assassinado o primeiro filho de Timor!»
Mas o amor, tal como a poesia, não é fácil. Além de não saber o que é o amor, o poeta procura muitas vezes um amor que não encontra. Como em «Coisa talvez amada»:
«
Queria colher a rosa mais linda de Maio
Mas tu estavas tão longe dela e de mim
Fui eu para longe de ti e levei a rosa (...)
Não cheguei a oferecer a rosa mais linda de Maio.
Colhia-a a meio da tarde e havias partido pela manhã.
Tão cedo se deixam as rosas entardecer.
»
Federico Garcia Lorca foi morto mas venceu a morte e hoje o seu nome é vivo; ninguém sabe o nome dos seus carrascos. Vejamos essa memória em «Com perfume de limão»:
«
Dorme Federico dorme
dorme com as estrelas nos olhos de prata
Meu menino de presépio nascido do céu
sobre as nebulosas onde a água chora.
»
Agostinho da Silva, outro vencedor da morte, está presente nos textos de Fátima Murta:
«Ser criança também é uma arte muito difícil. Nem todas as crianças conseguem ser e permanecer crianças. Porque ser criança não é o mesmo que ter poucos anos de idade.»
Tanto nos poemas como nos textos narrativos de Fátima Murta surge um roteiro de fidelidade à ideia de não morrer. Em «Senhora do Carmo» do livro Palavra de Mãe, o poema é poema mas sem deixar de ser uma oração:
«
Assim eu viva contigo sempre a meu lado, estrela
Assim eu morra mergulhada no teu firmamento
e quando a escuridão me seduzir ao afago dela
me ouças gritar: Mãe, fica só mais um momento!
»
Se ficamos junto da mãe, da mãe do Céu, da mãe da vida, da mãe da alegria e do amor, então será possível o poema matar a morte. Também na canção «Senhora da Aparecida» há uma quadra que diz textualmente:
«
Você me apareceu
Quando eu menos esperava
O mar unido ao céu
Ao meu redor gritava
»
Se ficarmos junto da mãe, a oração que o poema também é, servira de ponte entre dois mundos. O do precário e o do eterno; o das lágrimas e o da alegria sem fim; o do efémero e o da posteridade. Dito de outra maneira: o dos Homens e o de Deus.
Os poemas, as canções e os textos narrativos de Fátima Murta comungam, praticam e proclama esta verdade tão antiga como o Mundo: «Só há uma medida para o amor que é amar sem medida.»